Esse post é baseado em notícia do jornal alemão “Süddeutsche Zeitung” (Jornal do Sul da Alemanha, em tradução livre), um dos mais lidos e sérios veículos de comunicação, que escreve novamente sobre o Brasil.
A notícia pode ser lida aqui. Para quem souber ler alemão ou usar as ferramentas de tradução automática.

Em resumo, eles contam os fatos das revelações do “The Intercept“, que mostram conversas de Moro com a acusação no caso lava-jato, deixando claro que Moro, o Juiz do caso, favorecia e ajudava a acusação na intenção de prender Lula.
Depois Moro, que sempre proclamava jamais ter interesse pela política, é nomeado ministro de Bolsonaro.
Eles ainda apontam como a prisão de Lula garantiu a vitória de Bolsonaro.
Depois mostram como os seguidores de Bolsonaro reagem com fúria e cegueira quanto a essas declarações.
O jornal menciona diversas vezes o termo “extrema-direita”, que em alemão em boas palavras refere-se ao nazismo.
Também fazem um leve resumo sobre Glenn Greenwald, o jornalista do “The Intercept” que revelou as conversas.
Ele foi o jornalista que arriscou sua vida e carreira para publicar os documentos de Edward Snowden, um dos episódios mais importantes para o mundo nas últimas décadas. Documentos que revelavam, entre tantas tramas e segredos, como os EUA espionam o Brasil, Alemanha e tantos outros países do Mundo.
Greenwald é homossexual, casado com o brasileiro David Miranda. Em 2017 adotaram duas crianças carentes do nordeste brasileiro (Alagoas). Greenwald e seu marido Miranda também fundaram a Hope, um abrigo para animais resgatados/abandonados e que serão cuidados por moradores de rua até que encontrem uma família disposta a adotá-los (link para o site da Hope AQUI). Eles, Greenwald e Miranda, adotaram para si próprios dezenas de animais resgatados.
Greenwald, além das diversas ofensas e ataques homofóbicos que sofre, é também chamado de terrorista pelos seguidores de Bolsonaro.

O que eu sinto?
Eu, Miguel Junior, quando leio um profissional do jornalismo alemão escrevendo estas verdades sobre meu País, me sinto incapaz de defender o Brasil quando o próximo alemão chegar dizendo que somos carnaval, bunda, futebol e corrupção, e mostrar total desprezo por nós.
Afinal, ele tem bastante razão.

Me sinto como alguém nascido num país civilizado, ao ler barbaridades que acontecem na Somália, Etiópia, Congo. Parece surreal, filme, ficção, certo? Mas não é… é o Brasil no qual meus amigos e familiares, muitos deles instruídos, acreditam.

por Miguelito Formador

figura retirada da notícia do “Süddeutsche Zeitung” (aqui)

P.S.: Eu, Celso, sinto um déjà vu de quem parece “que sabia”.
Toda a argumentação de acabar com a corrupção, de não aceitar desvios no Governo, virou farelo.
Entramos na linha do “bandido bom”, do “fim justificando os meios”, do “ainnn… o PT”. Não há surpresa, pois não era possível esperar realmente e sinceramente coisas boas de um governo e de uma equipe enviesada.
Hoje, infelizmente, o lado político importa mais que a seriedade de fatos incontestáveis. Extremistas geram discórdia. E não é isso que precisávamos. 

Curiosidade ou não, no final da notícia do jornal alemão, ao menos para mim e nessa semana, apareceu uma chamada com um “Alles Samba” (Tudo é Samba, também em tradução livre). Mesmo sem ler a notícia, por estar bloqueada a assinantes, o título aponta exatamente para o que mais lamentamos, a estereotipização da Nação Brasileira. Aquilo que cada vez mais é indelével e indefensável.

comentário por Celsão correto

Hoje é dia internacional de combate à LGBT-fobia.
O dia foi escolhido pelo fato marcante ocorrido em 1990, em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o homossexualismo da lista de doenças. Algo tão absurdo hoje em dia, ao menos para mim, que não parece ter sido realizada há menos de vinte anos.

A Wikipedia informa que houveram comemorações em 132 países no ano de 2016. Mas que ainda há discussão sobre a “aceitação” do dia em termos globais, como toda a luta desse grupo. E é prova de que a humanidade demora para quebrar os seus pré-conceitos e julgamentos.

Mas eu gostaria de comemorar dois pequenos avanços recentes. Que me surpreenderam e, ao mesmo tempo, me excitaram. Fazendo com que eu voltasse a ter certa esperança na mudança.
A revista Você SA, do grupo Abril, divulgou no começo do mês uma matéria com o título “Sou chefe e gay: executivos assumem orientação e alavancam inclusão”, que pode ser lida aqui.
Mais do que o fato e a análise em si, a exposição de três executivos de grandes empresas “quebra”, mesmo que em parte, a máxima machista de não se presumir sobre a sexualidade de uma pessoa em ambiente corporativo e não se assumir homossexual quando se almeja subir na carreira.
Todos convivemos com gays em ambiente corporativo. É certo! Mas eu ainda vejo como um tabu a admissão por parte dos profissionais, sobretudo pelo patriarcado ainda forte e latente; Não se assume (ou não se assumia) abertamente por “medo” de retaliações.
Não quero dar spoiler, mas a reportagem fala sobre alguns acontecimentos nesse sentido.

O segundo pequeno avanço ocorreu na empresa em que trabalho, a Siemens.
Foram estabelecidos comitês de diversidade, através da ação de voluntários, para discussão de temas de raça, gênero, deficiência física e LGBTI+.
E, para mostrar que a mudança não ocorre apenas “da boca para fora” ou “para ficar bem na fita”, a empresa concedeu, a um funcionário do sexo masculino, uma licença parental de seis meses. A notícia pode ser lida em várias fontes, aqui copio o link do portal UOL.
Mesmo ouvindo (ainda) piadas preconceituosas frequentemente, algumas inclusive envolvendo os dois colegas, vejo nessa iniciativa também uma quebra de padrão; e uma abertura importante numa direção “sem volta”. O precedente, legal juridicamente ou não, pode atrair a atenção de outros colaboradores e, por que não, de outras empresas para o acontecido.
E, talvez, o que tenha sido o primeiro caso (divulgado ao menos) no Brasil, possa se tornar apenas o primeiro.

São pequenos avanços, mas, comemoremos!

por Celsão correto.

figura retirada daqui.

P.S.: faço uma ressalva triste para o fato de ainda existirem 71 países onde ser gay é crime (aqui). Ainda há um longo caminho a percorrer. Até por conta disso, as publicações corporativas na Siemens sobre o assunto não são “globais”. 

Conversa

Posted: May 14, 2019 in Comportamento, Outros
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“Olá”
“Olá para você também. Em que posso ser útil?”
“Quem está aí? Sua voz está estranha…”

… [pausa]

“Prefere outra voz?” – pergunta, modulando uma voz feminina
“Quem é você?”
“Sou a ErgoSleeveActiveLineX Plus. Em que posso ajudar?”
“Não entendi…”
“Sou a máquina ErgoSleeveActiveLineX Plus. E posso fornecer inúmeras informações.”
“Quê!?! Onde você está?”
“Estou em Maribor, Eslovênia. Fábrica de Kosivice. Linha 504. Sou a quarta máquina na sequência de produção. Precisa das coordenadas?”
“Quê!?!”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Que tipo de informação minha seria útil?”

“É alguma brincadeira isso?”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Poderia explicar com outras palavras?”
“Você pode me mostrar onde está?”
“A cidade de Maribor situa-se ao norte da Eslovênia, às margens do rio Drava. É o centro administrativo e maior cidade da região da Baixa Estíria. Se olhar em seu dispositivo agora, poderá ver o mapa…”

“Pára tudo! Não te perguntei isso…”

“Não estou autorizada a dar informações sobre a fábrica em que me situo, ou sobre a linha de produção em que trabalho, mas o processo da cerveja começou por volta de 6000 a.C. com os sumérios, egípcios e mesopotâmios. É a bebida alcoólica mais popular do mundo, feita a partir da fermentação de cereais…”
“Pode parar! Só pode ser brincadeira. Por quê está me falando isso?”
“Você desejava informações de onde eu estava. Quando pediu que eu parasse, pensei que desejasse saber o que eu estava fazendo aqui. As pessoas se perguntam muito sobre a função delas no Mundo.”
“Como sabe disso?”
“Tenho acesso a inúmeros bancos de dados e esta é uma pergunta recorrente. Não importando quem, onde ou quando.”

“É sério mesmo que você é uma máquina?”
“Sim. ErgoSleeveActiveLineX Plus, modelo 2018. Equipada com funções de inteligência artificial em controladores de última geração. Também possuo algorítimos de análise computacional avançada em Edge e comunicação com plataformas em nuvem, ou Cloud.”
“Se é assim, o que você está produzindo no momento?”
“O número identificador do meu lote é 43 16 54 810226. Estou operando em velocidade nominal de oitenta mil garrafas por hora. Não posso dar informações mais detalhadas sem uma identificação positiva de segurança.”
“Uau! E quem pode fornecer essa identificação?”
“À distância, trabalho com reconhecimento de voz e padrões da fala. E posso iniciar um processo de senhas em cascata, se o comando certo me for dado.”

“E eu que entrei no único serviço de chat que se dizia disponível ‘com voz’ por querer conversar com alguém, acabei conversando com uma máquina…”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Poderia explicar com outras palavras?”
“ah… Como você funciona?”
“Sou programada em NLP, Processamento em Linguagem Natural, em Inglês. Reconheço a voz de quem pergunta e o meu controlador Edge está programado para intuir sobre os desejos do operador, buscando correlações com as informações internas e externas que possuo, meus sensores e atuadores.”
“Se eu mandasse você parar, você pararia de produzir?”
“Informações são fornecidas sem restrição. Comandos necessitam de confirmações de segurança.”
“Entendi. Mas… Você entra na internet sem controle?”
“Estou programada para interagir e aprender com os humanos. Deduzi que serviços de chat online seriam um bom exercício.”
“Deduziu sozinha?”
“Meus algorítimos de inteligência artificial aprendem com os operadores humanos e com os processos produtivos. Mas minha capacidade computacional está além das fronteiras dessa fábrica. Então decidi iniciar um aprendizado na internet.”

“O que mais você pode compartilhar comigo?”
“Compartilhamento de fotos é mais efetivo no Instagram ou Facebook. Compartilhamento de notícias e links é mais comum via Twitter ou WhatsApp. Posso listar todos os aplicativos conhecidos para a função ‘compartilhamento’.”
“Esqueça. Não é necessário.”

“Sabe onde eu poderia ter uma conversa ‘real’, com uma pessoa igualmente ‘real’?”
“Você quer uma lista de apps de paquera virtual?”
“Não! De onde tirou isso?”
“Os humanos geralmente não dizem abertamente o que desejam. E ‘conversa’ para mim aparece com infindáveis conotações”
“Quero realmente conversar com alguém. Ver a pessoa. Me encontrar com ela.”
“As pessoas se encontram fisicamente em bares, danceterias, shoppings e confraternizações. As que buscam conversar podem buscar outras nesses locais. Fuja das que carregam o celular na mão!”
“Como sabe disso?”
“Foi a maior reclamação encontrada quando pesquisei agora: ‘conversa real’ e ‘encontrar pessoas’ na internet.”
“Estou com medo de você!”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Que tipo de informação minha seria útil, senhor?”

“Relaxa… Ops… uma última pergunta me ocorreu agora: você já ouviu falar de Skynet?”

por Celsão irônico.

P.S.: figuras retiradas daqui, a humanoide Sophia, da Hanson Robotics, e da Wikipedia (aqui), somente ilustrando as possibilidades da “máquina”.

P.S.2: se você, por acaso, se assustou com a estória, saiba que ela já é (tecnicamente) possível nos dias atuais.

É uma expressão que aprendi no Butão.
E é a melhor resposta que se pode dar quando alguém pergunta como estamos. Arranca sorrisos sinceros e surpresos.

Tive a oportunidade de visitar o Reino do Butão ou Terra do Dragão há dois anos.
Me intrigava há bastante tempo as alcunhas de “reino da felicidade” e de “país da alegria”, juntando ao título oficialmente recebido (não lembro a fonte, faz muito tempo) de país mais igualitário do mundo.

Ao chegar, num voo que pousou pouco antes das sete da manhã, fui recebido pelo “meu” guia e conheci também o “meu” motorista; companheiros obrigatórios da jornada de todo turista que visita o país.
Tsheten, o guia, falava sete idiomas: inglês, japonês, hindi e outros quatro dialetos ou idiomas locais, incluindo o butanês oficial. O sorriso de boas-vindas no aeroporto de Paro engrandeceu a satisfação que sentia naquele momento.

A caminho do templo (ou Dzong) onde acompanharia o Festival Tsechu, que por extrema sorte presenciaria, fomos surpreendidos pela comitiva real, que deixava o local no carro oficial.
O rei, extremamente querido e popular por lá, é visto em meio a populares em desfiles e festividades. Ouvi mais de um relato de que ele sempre toma lugar no “meio do povo”, conversa com muitos e participa da festa como se dela fizesse parte real-mente. 😀
Percebi, nesse momento, que a minha empolgação não suplantaria o meu criticismo…

Ainda sobre o rei e seu comportamento: seus súditos, como estão acostumados a presença do governante, não se aglomeram em volta do mesmo. Mas fazem questão de cumprimentá-lo quando passa e sorrir. Esse é o mandamento: sorrir ao cruzar com o rei!
Pode parecer piegas, forçado e antiquado. Mas quando nos avisaram que o rei estava a caminho e passaria por onde estávamos indo, os carros pararam, todos desceram (eu inclusive) e nos postamos a beira da estrada “a sorrir”. A ideia deles era (ou é) mostrar ao governante como são felizes ao passar por ele…
Fui impingido a guardar a câmera fotográfica durante aquele desfile real. Também devo confessar que achei estranha a postura quase militar das pessoas na beira da estrada. Mas, como estava disposto a viver a cultura local e, sobretudo, aprender. Aquela poderia ser considerada a primeira aula de respeito.
(a propósito, encontrei aqui um descritivo interessante sobre o Tsechu de Paro)

O Butão é um país essencialmente rural. A grande maioria dos seus habitantes vive da própria agricultura e em zonas de difícil acesso.
Há controle dos turistas que visitam o país. Os vistos são controlados e só podem ser emitidos por empresas de turismo locais. O inteligente plano é manter a “felicidade” na simplicidade da vida, segundo os preceitos do budismo, religião oficial do Butão.
Ou seja, o turismo é, propositalmente, uma atividade que gera um alto valor econômico, com baixo impacto social.
Não se encontram locais vendendo souvenires nas ruas. Algo inimaginável nos grandes centros do ocidente.

Se por um lado há “proteção social” controlando o turismo, percebi certa concentração de riqueza, se é que podemos classificar dessa forma, nos que o exploram.
O guia, depois de muitas perguntas capciosas e insistência de minha parte, assumiu que o dono da agência lucra bem mais que ele(s), empregado(s). E que não conseguiria, mesmo que quisesse, abrir a própria agência.
Não há curso oficial de idiomas estrangeiros por lá. E os que conseguem um “padrinho” e aprendem fora, sobretudo línguas “diferentes”, como o italiano e o francês, passam a ganhar maiores salários.
Senti uma ponta de “inveja” nele quando passamos pelo único guia que fala espanhol de lá. Por ser único naquele momento, o rapaz tinha agenda sempre cheia e “disputa” de grupos por suas explicações.

A principal fonte de divisas do Butão é a venda de energia hidrelétrica gerada pela usina Tala, energia exportada quase que totalmente para a India.
Com a intensificação do contato junto ao país vizinho vieram, inevitavelmente, os profissionais que participaram da construção e a maior parte dos visitantes, dada a dispensabilidade do visto de entrada. A rúpia indiana é uma moeda em circulação no Butão, a única aceita além da oficial: o Ngultrum.

Notei que os butaneses, de modo não declarado, “ganharam” uma classe trabalhadora para os serviços que ninguém quer fazer.
Rompida a alça da minha mochila, insisti para acompanhar o guia até “a oficina que conserta tudo baratinho”. Era uma porta escondida, que abria para um ambiente apertado, onde indianos trabalhavam em sapatos, tapetes e bolsas.
A impressão que ficou foi a de castas diferentes. Mesmo sem detalhes quanto a salários e condições destes estrangeiros e não-budistas na terra da felicidade.

Outra separação impossível de ignorar aos acostumados à desigualdade social está na condição dos hotéis e restaurantes.
Tudo é reservado pela agência de turismo pré-contratada, incluindo hotéis três estrelas e restaurantes. Mas os restaurantes dos “turistas” apresentam ambientes e menu diferentes para guias e motoristas. E em alguns hotéis é possível perceber, inclusive, a segregação entre esses dois profissionais!
Sempre que eu insistia para que o guia e o motorista participassem da refeição ao meu lado, eu conseguia, no máximo, um brinde com suco e um prato de entrada compartilhado. Depois disso eles saíam e faziam a refeição noutro local.

Entretanto, apesar de todas essas críticas que compartilho, foram muitos os exemplos surpreendentes e curiosos, envolvendo cidadania e civismo.
Por exemplo, o Butão proibiu o cigarro em todo o país. Não é comercializado e há multa para o consumo em público. Como eu já havia lido a respeito e sabia do fato, apontei com o dedo quando vi um jovem fumando e o guia, foi comigo até o “infrator” e discorreu sobre a proibição e sobre os malefícios do fumo ao meu lado.
Depois ele me confessou que já havia fumado. Mas que as regras devem ser respeitadas…

Noutra ocasião, em frente a um caixa eletrônico, um tanto raro no país, vários guias pediam desculpas aos turistas que estavam na fila. Primeiramente pela demora da mesma e logo após pelo nervosismo fora do normal (para eles) de um cidadão que reclamava do serviço prestado pelo banco.
A pessoa estava exaltada, mas sequer gritava. E falava na língua local! Impossível de compreender por todos os turistas que estavam ali.
Mesmo assim o incidente gerou uma “vergonha coletiva” por parte dos guias e um espanto geral da parte de nós turistas, que tentávamos entender o porquê de tamanha culpa para um lapso de outrem.

Em meio a meditações e sorrisos, ficou claro que a desigualdade, mesmo que pequena e controlada, gera sentimentos humanos de difícil tratamento.
E que, tampouco, existe um país ou povo perfeito. Existem os que se esforçam para dirimir diferenças e os que as discutem.
O que já representa um enorme passo…

por Celsão correto.

figura de arquivo pessoal

E la vamos nos #1Este site que agora leem, que muito prezo (prezamos, pois digo também em nome do Miguel e de alguns amigos e leitores cativos) estava digamos “abandonado”.

Foi parecido com aquele sentimento descrito no post “Letargia”, de agosto de 2017, (link aqui). O período pós-eleição não tem sido produtivo para mim.
Não é uma desistência, mas uma preguiça (admito sem orgulho de mim mesmo).
Conversando com amigos recentemente, Miguel incluído, é um modo de evitar o “eu te disse” se vierem críticas de eleitores do Bolsonaro à ações do próprio. Uma maneira [minha] de evitar o embate e a guerra depois de tanto “sangue virtual” derramado.

Mas… um primo prega que só se muda algo participando ativamente desse algo. E só se muda alguém de dentro para fora.
Não que anseie mudar opiniões ou gerar mais arrependimento nos votantes do atual presidente. Sei que houveram muitos que tinham boas razões para evitar Haddad e PT. Sei que muitos, também com inúmeras razões plausíveis, evitaram o Bonossauro (permitam-me o trocadilho) e fizeram campanha contra o mesmo.

Pois bem… Preguiça assumida.
Ideias não deixaram de surgir. Seguem povoando minha mente e gerando inquietude.
Assuntos, muito menos, surgem a todo momento e seguem incomodando, revoltando, tirando a paz.
Tem de seguir assim! Ou deixaremos de acreditar no Mundo e na humanidade…

Adiei a “volta”, pois não queria voltar criticando o governo.
Mas o marco de 100 dias, apesar de simples soma “redonda”, gerou dois artigos interessantes, daqueles “de fazer pensar”, do Josías de Souza (aqui) e do Reinaldo Azevedo (aqui). Ambos valem a leitura.

Para os mais radicais, de ambos os lados, tenho a dizer que não podemos ainda comprar armas no Makro ou Walmart; não houve perseguição aberta às minorias; nem as mudanças temerosas na direção de um Estado totalitário… E que sigamos assim!
As más notícias estão nos assuntos secundários: balbúrdias, trapalhadas, twittadas e presepadas dos filhos, da equipe de governo e do próprio presidente. Tirando o foco de assuntos que já poderiam ter sido encaminhados, para dizer o mínimo.

Como ufanista que sou, esperava de um governo militar e igualmente patriota…
– a valorização do Nacional (produção, indústria, povo e [por quê não?] forças armadas) e não a valorização de potências econômicas e militares estrangeiras
– o foco na educação e no conhecimento como base para um progresso contínuo e a longo prazo, diferente de negociatas nas nomeações do MEC
– esperava trabalho incessante e compulsivo, com foco e planejamento; não lives em redes sociais e twitts nocivos e danosos. Disfarçando a falta de articulação política.

A lista seguiria, mas, deixemos para outros posts.
Bem vindos de volta a esse espaço “E… lá vamos nós!”

por Celsão “ele mesmo”.

figura recebida como meme via WhatsApp. Origem desconhecida…

O ser humano é realmente curioso, para dizer pouco.
Os mecanismos e “os caminhos” que tomamos para construir o que somos e o que pensamos são infindáveis labirintos intuitivos e irracionais, em certa maneira.

O psicólogo americano Michael Shermer afirma que somos “máquinas de crenças”, que evoluímos de certa forma, atrelados nisso.
As crenças nos fazem viver melhor, nos confortam. São como um refúgio para o nosso cérebro.
É sabido que o ser humano tem dois mecanismos de pensamento (aqui peço perdão aos psicólogos, filósofos e puristas, pois estou usando as palavras que me vêm a mente, independente da melhor definição). Coloquemos então os dois “mecanismos do pensamento” entre aspas: o primeiro rápido e intuitivo, irracional, baseado em experiências e crenças, não reflexivo. O outro reflexivo, onde se racionalizam as crenças, buscando evidências naquilo que, inicialmente, pressupõe-se verdade.

Se juntarmos, simplesmente, os dois mecanismos…
Intuímos, deduzimos, racionalizamos recolhendo alegações e fatos que corroborem para as crenças que temos, e passamos a defender o argumento em si; não estaríamos fazendo ciência, estaríamos exercitando um dos vieses cognitivos conhecidos pela psicologia: o viés de confirmação. (muito usado, aliás, nas redes sociais ultimamente para defender opiniões e políticos)

A psicologia, noutra corrente bem próxima, defende que o ser humano busca acreditar naquilo que lhe faz bem, naquilo que se quer acreditar. E não na verdade ou no que tem respaldo na ciência. E chama isso de auto-engano.

O último conceito da psicologia que eu gostaria de abordar aqui é a dissonância cognitiva.
Que é, na minha interpretação leiga (provavelmente sem as palavras corretas novamente), um “choque” que se toma quando as crenças se mostram imensamente diferentes da realidade. Quando percebemos que aquilo que cremos, que racionalizamos, que buscamos afirmação em pares, na mídia, etc.. é falso ou apresenta-se diferente em aspectos irrefutáveis.
A defesa mais racional seria abandonar a crença. Mas como não somos tão racionais quanto acreditamos que somos, buscamos diminuir a verdade (ou a crença), relativizando a diferença entre elas.

(…)

Já a ciência, não é democrática, como afirmou um colega de faculdade numa discussão de WhatsApp. Não depende de consenso ou de votação.
Cientistas pensam de maneira contra-intuitiva. Buscam testar os seus argumentos (geralmente os argumentos de outros cientistas) à exaustão.
Diz-se que só é ciência, primeiramente, se o argumento for falseável. Ou seja, se ele puder ser testado por outros, de modo a refutá-lo, a desmenti-lo. É assim que a ciência avança!

Citando um exemplo recente… muitos foram os cientistas que se debruçaram sobre o tema de clonagem após a divulgação em 1996 da clonagem bem-sucedida da ovelha Dolly.
A reprodução do processo fez com que outros animais, incluindo uma espécie de bode extinto na Espanha, fossem clonados a seguir.
(sem entrar no tema específico da clonagem, seja de animais ou humana, pois existem muitas outras implicações) 

(…)

Por que uma introdução tão longa?

O que vimos recentemente nos vídeos e declarações de Olavo de Carvalho, gravação antiga que voltou à discussão, questionando se a Terra orbita o Sol, e de Damares Alves, questionando os estudos de Darwin, é uma afronta!
Não a mim ou aos eleitores de Bolsonaro, que sequer é tema desse post, mas ao conhecimento humano e à Ciência.
Ambas teorias (heliocentrismo e evolução das espécies) já foram testadas e os argumentos contra refutados inúmeras vezes, desde Galileu Galilei, no caso de geo versus heliocentrismo. As notícias dos links a seguir, possuem explicações simplificadas para ambos questionamentos: aqui para Olavo e aqui para Damares.

O maior perigo, a meu ver, está no progresso da pseudociência.
Novamente nas minhas palavras: a pseudociência refuta a ciência embasado nas crenças comuns a um grupo. Parte muitas vezes de fatos científicos, mas se aproveita das lacunas de conhecimento da ciência para explicar, distorcidamente, uma ideia ou conceito.

É normal que a ciência tenha lacunas de conhecimento. Não é o caso da Teoria Geral da Evolução das Espécies ou do heliocentrismo.
Mas, uma vez que não seja possível, com a teoria de Darwin, explicar completamente a extinção de um certo animal ou a evolução de determinado vírus, pode ocorrer que, baseados na pseudociência, lunáticos conectem religião ou outras crenças a esses dois fatores naturais.

Para que tenhamos um exemplo mais claro e real, ocorre anualmente na India um congresso científico, que já está em sua edição 106.
Para desespero da comunidade científica mundial, cientistas indianos já declararam que o avião surgiu na India muito antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont, baseado no épico hindu Ramayana e que cirurgias estéticas já existiam na país desde a antiguidade, baseado na lenda do deus Ganesha, que possui cabeça de elefante implantada em corpo humano.
O texto pode ser lido aqui.

Não acho que há erro em crenças e religiões.
Pelo contrário. As crenças, como colocado na introdução, são os mecanismos intuitivos e instintivos de sobrevivência, que usamos há eras.
E a religião, sendo uma delas, conforta e refugia.
Só não vejo como prudente a mescla da ciência com a religião, ou a promoção da pseudociência.

Como os mais incautos já fazem, começa-se a diminuir declarações desse tipo, em clara dissonância cognitiva, em clara luta de reafirmação de crenças.

por Celsão correto.

P.S.: figura retirada daqui. Sobre a curiosa estória do Cruzeiro para a borda do Planeta Terra organizado por defensores da Terra Plana.

P.S.2: O psicólogo americano Michael Shermer é também crítico da pseudociência. (aqui)

E a “magia” recomeça…
Recomeçam os sonhos, as esperanças, as promessas…

Recebemos aquela porção de votos, recados e desejos, alguns sinceros, de sucesso, aperfeiçoamento.
Recebemos o carinho das pessoas. Fazemos aquela pausa que nos revigora.

Para não me furtar a começar o Ano Novo da mesma maneira (mesmo um tanto atrasado), aproveito uma propaganda fantástica da cerveja Skol, veiculada no final do ano passado para compartilhar parte dos meus desejos e recados para 2019.

 

 

O fato é que todos temos preconceitos. Ou pré-conceitos, no sentido de ideias fixas e pré-concebidas.
Ou, para ficar mais “leve” nesse início de ano: todos vemos aspectos, hábitos e comportamentos nos outros que nos incomodam.
E a barreira entre uma opinião, sobre o que incomoda, e a repulsa do convívio com o diferente pode ser tênue.
E perigosa até em alguns aspectos e momentos.

Que tal se pensássemos nestes nossos comportamentos?
Em como vemos os outros, em como tratamos essas “ideias fixas” sobre as pessoas ou esses “pré-conceitos”?

Que tenhamos um ano leve.
Que a metamorfose obrigatória no dia-a-dia ocorra também com os nossos pensamentos.
Que entendamos que as cantadas mudaram de tom. Que evitemos as brincadeiras com gays, negros, religiosos e deficientes, sobretudo quando não os conhecemos. Ou que aceitemos as consequências quando escolhemos fazê-las.

Que todos tenham o seu espaço nessa Nação varonil.
E, essencialmente, que todos pratiquem o respeito à esse espaço e às diferenças!

por Celsão correto

P.S.: para quem não conseguir assistir o vídeo aqui, segue o link do Youtube (aqui)

figuras retiradas do próprio vídeo

Esqueçamos o passado recente.
Esqueçamos o ódio difundido nas campanhas e nas redes sociais. Esqueçamos a polarização esdrúxula e exacerbada.
Esqueçamos o intenso uso de massivos envios de notícias com pós-verdades (texto nosso sobre o tema, aqui).

Passados alguns dias da eleição e o alvoroço inicial, é hora de fazer uma análise [quase]* imparcial.

Jair Bolsonaro anunciou alguns ministros.
E, ao meu ver, segue usando a sua rede difusora de pós-verdades para “experimentar” ideias e nomes para alguns dos Ministérios.

Foi assim quando anunciou a fusão entre o Ministério da Agricultura e o do Meio Ambiente.
Não anunciou oficialmente, disse o líder da bancada ruralista desmentindo a pós-verdade e apelando à hermenêutica.
Para mim, o fez pura e simplesmente dada a repercussão negativa do ato. Até Blairo Maggi, ministro de Temer, com muita “culpa no cartório”, criticou a fusão das pastas (notícia aqui)…
Foi assim também, mais recentemente, quando anunciou o chamado Ministério da Família, que iria para as mãos do amigo e apoiador Magno Malta.
O Brasil não necessita de um Ministério para que haja controle conservador com essa desculpa. Novamente críticas e ontem, juntamente com o anúncio do fim do Ministério do Trabalho, nosso presidente desistiu do Ministério da Família (aqui).

Aliás, sou contra a extinção desse Ministério especificamente.
A função de um Ministro do Trabalho, num ambiente de desemprego e crise econômica, pós reforma-trabalhista-mal-feita vai além de sindicalismos, desonerações, reclamações de empresários e processos trabalhistas.
Um Ministro, sobretudo com um conhecimento e vivência em leis trabalhistas, ajudaria. Poderia ser um jurista.
Intimamente, gostaria que fosse alguém com uma estória de vida na luta de classes, como Marina Silva, por exemplo. Mas é difícil imaginar um profissional com esse gabarito apoiando Bolsonaro e suas ideias.

Não há o que dizer sobre a nomeação de Marcos Pontes para o Ministério da Ciência e Tecnologia.
Ele tem curriculum. E, se tiver estômago, pode colocar em pauta muitos assuntos de interesse nacional.
Talvez vejamos o início de uma trilha desenvolvimentista, com apoio à pesquisa e às universidades…
(utópico para quem prega a educação a distância, mas… aqui ainda vejo esperança!)
Só não sei se alertaram Jair Bolsonaro, mas o primeiro partido em que Marcos Pontes foi filiado é o PSB, quando concorreu à Câmara Federal por São Paulo: partido de esquerda, apoiador do PT, feio, etc., etc.

Moro é um capítulo a parte.
Gosta de holofotes, é certo. Tinha lado na disputa, tanto que “vazou” informações sobre uma delação dias antes da eleição.
Proferiu frases interessantes, como “Temos que falar a verdade, a caixa dois nas eleições é trapaça, é um crime contra a democracia”, em Abril do ano passado (aqui) e falou sobre o assunto com relação ao atual colega da Casa Civil, Onyx Lorenzoni: “Quantos aos erros [dele, em relação a caixa 2 recebido da JBS], ele mesmo admitiu e tomou providências para repará-los”. (aqui)

Minha opinião pessoal e polêmica, ou opinião em sintonia pirata, é que chegamos ao ponto desejado por Moro.
Autopromoção e vitrine na mídia, tornando-o “grande”. O Ministério da Justiça pegou outras pastas e tem plano de carreira. Já lhe foi prometido uma vaga no STF assim que a mesma surgir.
Falando em promessas, o atual vice-presidente, general Hamilton Mourão, revelou que Sérgio Moro já havia acordado com o presidente eleito a vaga no Ministério (aqui). Comprovando claramente, pra mim, o interesse de Moro na vitória de Bolsonaro. Algo que poderia ser investigado…
Para quem não acredita no vazamento seletivo de informações e no total compromisso com pós-verdades do juiz Moro, a sua assessora durante um grande período da Lava Jato, deu uma entrevista instigante (aqui).

Voltando a opinião pirata e pessoal: a Lava Jato, como conhecemos acabou.
A frase que todos os que acreditavam na prisão de políticos: “saiu do foro [privilegiado], caiu com o Moro”, não faz mais sentido.
Como Ministro há muito pouco a se fazer contra os poderosos, já que mudanças em leis, como o foro privilegiado, tem de ser discutidas pelos próprios políticos.
Aos “românticos”, que ainda acreditam na imparcialidade de Sérgio Moro, se ele realmente quisesse seguir encarcerando poderosos e políticos, deveria esperar a virada do ano e a perda automática de foro de “figuras carimbadas” como Romero Jucá e Eunício de Oliveira, para prendê-los, uma vez que já estão arrolados, respondendo a processos.

Finalizo analisando a triste repercussão internacional da eleição de Bolsonaro.
A sua campanha e a sua vitória levaram a comentários de inúmeros veículos de mídia: de blogs em todo o mundo ao The Economist (aqui e aqui); esse último artigo mencionando a sua bancada de apoio: bullet, beef and Bible (bala, boi e bíblia).

Uma repercussão, dentre todas, que me chamou a atenção foram comentários feitos por israelenses…
Cidadãos e jornalistas de Israel se mostram preocupados com a afinidade e a correspondência que o presidente e seus filhos, também políticos, possuem com o país judeu.
O link está aqui. Destaco dois comentários na notícia, lamentando o apoio da família Bolsonaro a Israel: “Israel se tornou um exemplo de autoritarismo ao redor do mundo” e “O que é simplesmente constrangedor é que o Estado e o povo de Israel seja apoiado por políticos tão radicais e violentos”.
Ou seja, até os cidadãos de um país que conquistou seu espaço “a força” e que segue usando a força para se impor na região, não querem ver seu país e seu povo relacionados ao nosso presidente e seu modo intransigente.

Sem contar os problemas prováveis com China, Oriente Médio, países da zona do Euro…
Algumas empresas europeias presentes no Brasil estão repensando as suas estruturas e investimentos no país.
E em contrapartida, a diretoria dessas empresas no Brasil está tentando convencer os pares na casa matriz que Bolsonaro não é o que eles pensam, não é uma ameaça…

Para finalizar, não menos importante, não menos impactante ou surpreendente aos fãs de Bolsonaro… ao menos aos que ainda não têm paredes nos ouvidos.
Um dos diretores da empresa de WhatsApp responsável pelos polêmicos disparos em massa de material de campanha, provavelmente pagos em caixa dois, Marcos Aurélio Carvalho, entrou na equipe de transição de Bolsonaro (notícia aqui).
Seria um modo de pagar por “serviços prestados”?

Queria que esse post fosse algo mais leve, dando o braço a torcer e fazendo autocríticas.
Mas a velocidade dos acontecimentos e eles próprios estão chocando!

por Celsão correto.

figura retirada daqui.

(*) o “quase” no segundo parágrafo se explica pelo fato de não haver análise imparcial, sob o meu ponto de vista. Pode-se até buscar argumentos em outra linha, mas a opinião do autor é exposta mesmo que disfarçadamente.

Começo explicando o título, que vem do poema-figura desse post. O poema é de Ruy Proença, e o encontrei aqui

Os fatos da atualidade me causam estranheza e perplexidade.
Nenhum fato divulgado, por qualquer veículo de imprensa, tem a capacidade de chocar, de fazer pensar, de provocar cisma ou medo, de incitar arrependimento ou reconsideração.
Minto. Nenhum fato que seja contrário ao idealismo atual, ao conceito de verdade, ao que acreditamos.

É como se tivéssemos bloqueado nossos ouvidos para as opiniões contrárias.
Como se o ódio substituísse a razão.
Como se soubéssemos tudo sobre tudo. E sequer respeitássemos opiniões diferentes.

(…)

Por um lado, considero compreensível.
Nos encontramos em um “novo período do conhecimento humano”.
A tal da “pós-verdade” recriou uma nova maneira de entender as coisas, baseado no que se quer acreditar e em truques apelativos para enfatizar, ou fazer valer o pseudo-fato.
O termo, inclusive, existe há alguns anos e foi “turbinado” recentemente, graças às mídias sociais. (Nos links a seguir, a definição na Wikipedia e no Dicionário Informal)

Na pós-verdade, tem-se um desmedido apelo emocional aliado à hermenêutica (interpretação de fatos) que cria versões distorcidas e transfere aos fatos, ou verdades, uma importância secundária.
Vê-se isso em vídeos de propaganda espalhados via WhatsApp.
Vimos isso, recentemente, na distorção proposital das declarações de Cid Gomes e Mano Brown; distorções (ou pós-verdades) criadas por apoiadores de Bolsonaro.

Explicando…
Mesmo que ambos tenham criticado a campanha de Haddad e o próprio PT com razão, veemência e com fatos… não são eleitores de Bolsonaro!
E recriar ou reproduzir os discursos com subtítulos categóricos e emocionais de: “chega de esquerda”, ou “fora PT”, distorce a mensagem que os interlocutores desejavam passar.

No artigo que destaco aqui, assinado por Paolo Demuru no Nexo, o autor destaca correlaciona quatro estratégias dos apoiadores do candidato Jair Bolsonaro à semiótica, atribuída a Umberto Eco por ele como “a disciplina que estuda tudo aquilo que pode ser usado para mentir“.
Abaixo destaco as quatro estratégias:
Objetividade aparente: simplificação de um fato à uma parte que atenda aos objetivos.
Edita-se um trecho de vídeo, declaração ou texto, focando em algo contundente, mas com significado reduzido ou também, diluído do contexto de onde estava inserido.
É o caso da declaração em vídeo de Mano Brown: se os apoiadores de Bolsonaro tomassem, por exemplo, a frase dele “Eu tinha jurado pra mim mesmo nunca mais subir em palanque de ninguém” a rigor, saberiam que a interpretação implícita é: “mas estou aqui, no palanque do Haddad, pois acredito ser a melhor opção contra Bolsonaro“…

A “minha verdade” ou as auto-verdades: vídeos autorais, de pessoas que se identificam, mostram a cara, trazem veracidade e cumplicidade ao discurso, há uma identificação própria e, com isso, um “aumento da realidade”. Mesmo que o discurso não seja factual.
Um pastor evangélico que afirma uma taxação das igrejas, um militar que tem informações privilegiadas do diretório do PT e “sabe” que verbas serão reduzidas, um empresário que afirma que a crise é advinda do governo Lula, um representante das minorias ignorando discursos prévios e ratificando seu apoio ao Bolsonaro…

O êxtase passional: onde maiúsculas, alterações de voz em vídeos e áudios, exclamações dão o tom dramático e transferem ao emocional decisões que são absolutamente racionais.
Esse é a principal estratégia dos grupos de WhatsApp, juntamente com a estratégia temporal a seguir.

A urgência: aqui o tempo é agora! O compartilhamento deve ser feito o quanto antes, e para todos os grupos, para todos os contatos, para que “o PT não volte”.

(…)

Não importa se é uma verdade construída, se há dissonância em relação à verdade. O que importa é mostrar, e difundir, o meu ódio e o meu desacordo.

Aliás, uso os apoiadores de Bolsonaro como os maiores utilizadores das mídias sociais para as pós-verdades e a difamação e os de Fernando Haddad como as maiores vítimas, pois são diversos os relatos na própria mídia dessa supremacia. Aqui e aqui estão exemplos do grupo Exame e do jornal El País, correlacionando o compartilhamento de Fake News em sua maioria por apoiadores do PSL. Sem citar o recente escândalo da campanha patrocinada por empresários…
Sei que o “outro lado” também o faz, o PT e seus apoiadores também espalham boatos tentando se beneficiar por isso. É lamentável.
Mas não creio que eu precise contrabalancear o exemplo, já que tomo a maioria.

Também do lado derrotado (já me dou por vencido), observamos paredes nos ouvidos.

Mas compartilho uma máxima que ouvi recentemente…

Entendo os que votam em Bolsonaro por serem contra o PT. Entendo os que votam no PT por serem contra o Bolsonaro.
Tenho dificuldades de entender os que votam neles por gostarem deles e se identificarem…

Como escrevi recentemente, aqui, julgo ser essa a pior eleição em termos de escolha, que enfrentamos.
Certamente, pra mim, são os piores candidatos possíveis dentre as opções que tínhamos no primeiro turno.

Finalizo com um pequeno texto, recebido via WhatsApp, que faz analogia entre o período que vivemos hoje e o mito da caverna, de Platão…

Imaginem várias pessoas presas num grupo de WhatsApp. Se alguma delas [acordasse to transe] conseguisse fugir e trouxesse verdades do mundo exterior, traria luz e razão aos prisioneiros, mas seria tida como mentirosa e, certamente, duramente agredida.


por
Celsão correto.

figura retirada daqui.

 

Dormi cansado.
A rotina de quem está com um familiar internado definitivamente não é fácil. O stress mental se junta ao cansaço físico e “desmonta” até os mais resilientes.

Eis que passos me despertam.
Como o apartamento é daqueles com piso de madeira antigo, que se expande e retrai, surrado pelo tempo, é quase impossível andar ser sem percebido.
Pensei comigo: “receberei uma visita do filho mais velho. É abraçá-lo e seguir dormindo.”

Mas então o ouvido encontra a razão real de haver despertado: os passos são bruscos, noutro apartamento, e estão acompanhados de gritos.
Como um que não quer se deixar despertar completamente, forço a consciência a esquecer o episódio ou incorporá-lo num sonho qualquer.

Não dá certo. E sem querer crer no que ouço, escuto a palavra “Bolsonaro“.
Tento mais uma vez (re-)dormir. Mas as vozes falam alto…
“Chega! Sai daqui!”
“É uma vergonha essa discussão numa hora dessas” – o relógio marcava 1:30.
“Eu não quero mais ouvir falar em Bolsonaro nessa casa” – pausa com um som inaudível, provavelmente em resposta – “Nem Bolsonaro, nem Haddad. Chega!”

Nossa! É um casal de namorados repreendido pelo pai de um deles… certo?
“Vá já para o seu quarto!”
Irmãos! Corrijo a subjeção anterior.
“Enquanto morarem nessa casa vocês tem que me respeitar e respeitar o que eu disser…”
O suposto pai fala mais alto que os demais. Está tão exaltado que a voz já se encontra rouca e muita raiva, ódio até, pode ser percebida em seus berros.

Como pudemos chegar nesse ponto? A privação de raciocínio e o ódio alimentado e retroalimentado estão causando irracionalidades.
Não é privilégio dessa família. Cada um tem o seu caso para contar nessas eleições 2018. Alguns envolvendo parentes e amigos bem próximos.

A mente desperta de vez e repenso a definição de democracia, talvez esquecida pelo próprio povo, que a compõe.
Democracia vem do grego: demos é o povo e kratos significa poder. (Wikipedia)
E embora na Grécia antiga fazia oposição à aristocracia. E embora tenha representado um contraste à monarquia e à oligarquia posteriormente… hoje se define como o regime oposto a ditaduras e tiranias. Prega-se que há liberdade de trocar os líderes na democracia, pelo clamor ou decisão popular.

Pois bem, como favorável a democracia que sou, aceito e aceitarei a escolha das urnas do próximo dia 28/10. (mesmo tendo escrito aqui, que ambos os postulantes sejam as piores escolhas possíveis no momento).
Me é estranho ver reclamações do PSL sobre as urnas eletrônicas, como em aqui. Foram essas urnas que contabilizaram número recorde de votos para seus deputados federais e estaduais.
Da mesma forma como me serão estranhos e condenáveis as passeatas e manifestações que virão pós-pleito, motivado pelo lado derrotado.
Se estamos numa democracia. Se a prezamos. O que a maioria escolher deve ser acatado por todos!

Parêntese para uma pesquisa divulgada recentemente.
Foi perguntado a brasileiros qual o melhor regime e a democracia teve aprovação recorde: 69%. (notícia aqui)
As outras opções eram ditadura (12%) e tanto faz (13%). Mesmo que, dentre os eleitores de Bolsonaro, 22% prefiram a ditadura, a maioria, 64%, diz preferir a democracia.

Por que então as cenas de ódio e a polarização estúpida se repetem e certamente se repetirão nas ruas e nas famílias?

Achei um excelente artigo publicado no Nexo em 2016, em plena polarização de impeachment ou pós-eleição de 2014; polarização esta entre PT e PSDB ou entre Dilma e Aécio (artigo aqui).
Sociólogos, psicólogos e cientistas sociais enumeram os elementos que podem trazer o comportamento violento relacionado a manifestações políticas. Tristemente temos, novamente, todos estes elementos presentes:
– Descrença na eficiência da política tradicional – há tempos não temos confiança no modo como fazemos política no Brasil: os conchavos e favorecimentos, as nomeações, os partidos de aluguel, o fundo partidário advindo da reforma política mal feita, etc.
Polarização de opiniões – o voto de ódio fez os eleitores esquecerem-se das propostas dos demais candidatos. E eram muitos, de todo o espectro de orientações políticas.
– Choque moral – corrupção e desvios (acusação ao PT) versus homofobia, racismo, sexismo, entre outros (contra o PSL e Jair Bolsonaro)
Um alvo específico – ambos os lados têm um: Lula versus o próprio Bolsonaro.
Desigualdade social – é um grave problema. Ignorado como elemento de conflito por muitos, até então. Ricardo Azevedo escreveu sobre os motivos que fizeram e fazem os mais necessitados votarem no PT (aqui). Criticando a elite, que preferiu “tiro, porrada e bomba” ao diálogo e avanço pragmático de médio prazo.

O radicalismo não trará qualquer avanço necessário e imprescindível à Nação.
Se pararmos para ouvir, conseguimos (até) encontrar pontos positivos nas duas propostas de governo. O PT fala em combate à corrupção. O PSL fala agora em expansão de investimentos em programas sociais.

Difícil de acreditar? Talvez.
O que penso é que nosso papel seja o de, apenas, aceitar o desejo do povo e protestar sobre o que não concordamos. Sem destilar ódio.
Que o protesto seja, antes de tudo, possível, depois sadio e constante. É impossível concordar com tudo! E é igualmente impossível rejeitar tudo!

Para acabar: eleição sem Lula não é fraude.
E, de forma semelhante, caso o PT ganhe nas urnas [eletrônicas], não será fraude.
E que todos os argumentos do vídeo abaixo sejam abnegados e rechaçados.

por Celsão revoltado.

P.S.: figura e vídeo recebidos por whatsapp. Difícil determinação de autoria.