Archive for May, 2013

Já repararam como é desesperador e fútil o comportamento dos brasileiros, principalmente Paulistas nos aeroportos?

Começando pelo celular… O avião mal toca o solo e já é possível ouvir as musiquinhas iniciais, mostrando que os aparelhos voltam a ser ligados. E, poucos instantes depois, alguns respondem emails, outros abrem o facebook, fazem ligações (!) enquanto o avião se dirige lentamente para o local de estacionamento… Sob o discurso corriqueiro e sem sentido da comissária, avisando que os cintos (há muito soltos) devem permanecer atados até que os avisos luminosos apaguem e que os aparelhos eletrônicos só podem ser usados após o desembarque.

Acho ridículo e patético o fato de uma “curtida” no facebook ou um email “enviado via Blackberry” não poderem esperar mais quinze minutos. A ligação então de: “Oi amor, acabei de pousar…” / “Eu vi no painel, benzinho, estou esperando no ponto de sempre” tampouco tem sentido!

Sem contar que tudo isso acontece com as pessoas de pé. É impressionante a velocidade com que todos levantam e fazem filas apertadas no corredor com malas, sacolas e mochilas pra terem o prazer (talvez seja essa a explicação!) de descer primeiro. Mesmo que para esperar no ônibus ou na esteira de bagagens.

Essa tal esteira também merece meu comentário.

Por que ficar colado nela, com carrinhos, crianças e badulaques? E o desespero de ver a mala “passando”? Correm desesperados como se houvesse um moedor de malas no final… Gente, a esteira é contínua. E a mala volta a passar, caso não a peguem na primeira vez.

Uma vez estava pacientemente esperando atrás dos “desesperados” (talvez gostem de reparar na mala dos outros), quando percebi minha mala na esteira. O movimento na minha frente não diminuia, mas não havia pressa e esperei. Foi quando a moça que estava na minha frente comentou: “Essa mala vermelha já passou por aqui umas três vezes”. Respondi de bate-pronto: “Eu sei. Ela é minha”. E, depois emendei: “Mas não se preocupe que ela volta”

E depois, com os carrinhos cheios, a falta de respeito persiste. Ninguém pede “licença” nem “desculpas”, mas todos têm motivo pra passar por cima dos que estiverem obstruindo o caminho. É como se frases assim fossem ditas:

– Grávidas, cadeirantes, idosos, movam-se! Tenho pressa pois não posso perder nem um minuto do capítulo da novela.

– O quanto antes eu estiver na fila do taxi, mais tempo poderei reclamar da organização do aeroporto, falta de atendimento preferencial aos que tem “TAM Platinum”, trânsito da cidade, etc.

por Celsão Revoltado

P.S.: o intuito aqui não foi levantar problemas técnicos eventuais advindos do uso dos celulares nas aeronaves, por exemplo, nem assustar ou propor punições. O intuito foi mostrar o quanto somos inumanos e desreipeitosos para com o próximo e o quanto abusamos da nossa liberdade individual sem pensar no coletivo.

Texto sucinto, mas de mensagens grandiosas, tanto comportamentais, quanto políticas e sociais. Como é curto, sequer se faz necessária introdução ou resumo.

ENSINA A TEU FILHO – Frei Betto

Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.

Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros, administradores competentes, autoridades honradas, que não se deixam corromper, não varrem as mazelas para debaixo do tapete, não temem desagradar amigos e desapontar poderosos, ousam pensar com a própria cabeça e preservar mais a honra que a vida.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes, e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas, griladas ou devolutas são, hoje, chamados de “bandidos”, como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de suas vidas no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória, que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

Ensina a teu filho evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta da soma de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis.

Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Helder Camara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz ao unir-se àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem, e se a maioria o tiver será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito, a reverência pelos mais velhos, o cuidado da natureza, a proteção dos mais frágeis. .

Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros.

Link para o artigo original:
http://www.freibetto.org/index.php/artigos/46-ensina-a-teu-filho-frei-betto
por Miguelito Filosófico

Mandela

Posted: May 2, 2013 in Comportamento, Sociedade
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Vi num link desses na internet que imagens de Nelson Mandela foram divulgadas após algum tempo e cliquei pra ver. Infelizmente o vídeo não rodou, talvez por estar de um dispositivo móvel.
Lembrei que a primeira vez que ouvi o nome “Mandela” foi numa música da banda Reflexus. Na época em que os Axés eram mais políticos e menos coreográficos. A letra pedia a libertação do líder sul africano e incitava a levantarmos as mãos, num gesto que imitava os “black panthers” americanos.

Com o tempo, me interessei pelo assunto e “trombei” com o excelente livro autobiográfico de Nelson, ou Madiba, seu nome africano.
Muito se pode discorrer sobre o livro, desde o tema racismo em si até falar sobre revoluções e organizações políticas, presentes na história da África do Sul e mostradas no livro.
Mas quero citar um “menos importante” e fazer um paralelo com um assunto que discuti recentemente: o egoísmo ou comodismo do ser humano.

Até onde um homem abandona seus planos e seu Eu em prol de algo maior ou mais amplo? A partir de quando um herói (permitam-me esse exagero) descobre que sua luta ou causa é maior que ele mesmo e mais importante que sua família?
Madiba fez isso contra o Apartheid e, depois de conquistar a liberdade e ser eleito presidente, lutou para unir brancos e negros e recriar uma nação.
Sou fã desse cara.

por Celsão Correto

P.S.: Recomendo fortemente o livro “Longo caminho para a liberdade”, aliás. Parece-me que existem duas versões em filme. Uma do ponto de vista do último “cuidador”, branco e outro raso quanto à história. Não os assisti ainda.