Nossa carência de heróis

Posted: July 10, 2013 in Outros, Sociedade
Tags: , ,

anderson-silva-revista-afro1-300x194O brasileiro, de um modo geral, é carente de heróis. Talvez seja o tal “complexo de vira-latas”, cunhado por Nelson Rodrigues depois da final da Copa de 1950 que nos obriga a tal inferioridade, a “sermos menos” do que somos realmente, talvez seja apenas a alegria em olhar um semelhante no topo, não sei. Mas é assim…

É como se cada qual pudesse ser visto junto, empunhando a bandeira, entoando o hino, representado numa festa de estrangeiros, sendo também “o cara”.

Foi assim com Ayrton Senna, com o Guga no tênis, com o Lula em sua primeira eleição presidencial, com diversos craques do futebol e mais recentemente com o Anderson Silva, “craque” do MMA ou UFC. Tal esporte (muitos discordam dessa definição), vem crescendo em popularidade e tomou o lugar do boxe no gosto do brasileiro, boxe de Éder Jofre, Adilson Maguila e Acelino Popó Freitas, outros heróis.

E Anderson é (ou foi?) um típico herói nacional: negro, de origem humilde, sem um biotipo definido como o de esportista, com um “quê” de deboche, de ginga, de malandragem brasileiros. Ele reinou no esporte por anos a fio e detém recordes difíceis de superar.

Não entrarei nos méritos da luta ou da derrota. O que pretendo com essa introdução ou estória é “cutucar” este senso comum de heroísmo. Herói pra mim não é aquele que se destaca por dons ou preparação específica, não é o esportista, o artista, o apresentador, o político. Herói é aquele que acorda antes que o sol nasça, leva horas em transporte público, trabalha muitas vezes em condições sub-humanas ou em dois empregos a fim de sustentar a família, prover o pão e condições melhores para a próxima geração, para sua família.

Muito mais heróico foi ir às ruas protestar e reinvidicar, é se indignar com desmandos e corrupção, é condenar roubalheira, é buscar o melhor para si e para a Nação, tornando-se parte responsável pelo país.

Talvez esse seja um momento de repensar e requalificar os “heróis nacionais”. Exaltar as glórias e feitos sim, principalmente quando vierem com uma promoção benéfica para o país, mas tendo em conta que são pessoas como outras e que os verdadeiros heróis, somos nós!

por Celsão revoltado

figura retirada daqui

Comments
  1. Destacar-se num esporte, em qualquer um, não me parece um ato de heroísmo. Pode-se considerar um grande desportista ou atleta um ídolo, assim como os encontramos no cinema, na política, em todos os campos da vida, porque idolatramos aqueles que se destacam por suas qualidades. Heróis pertencem a outra categoria de seres, aqueles capazes de realizar uma façanha excepcional, algo quase sobrenatural e normalmente movidos pelo altruísmo, pelo interesse de outrem ou da coletividade. Herói é um soldado que numa batalha põe em risco a própria vida para salvar a dos seus companheiros, enfrentando em desvantagem as forças que lhes são contrárias. Ou aquela pessoa que se recusa a ir à guerra, mesmo arriscando sua liberdade e reconhecimento social, por defender arduamente a paz e não conceber a guerra como um meio para obtê-la. Herói, para mim, é o jovem Snowden, um rapaz em torno dos trinta anos, classe média e branco, muito bem empregado com estabilidade e um altíssimo salário, que abandona tudo para divulgar para o mundo a sacanagem que o Imperium faz contra a liberdade individual das pessoas e a soberania das nações, devassando a vida de todos a todo instante. E, ao fazê-lo, sabe que se condenou a perder o emprego, o convívio familiar, as mordomias que o dinheiro possibilita, a própria pátria, e passar a vagar pelo mundo, tal qual um Quixote, nunca mais tendo paz. Herói é quem arrisca a própria vida por um fim nobre; jamais quem entra num ringue por dinheiro e muito menos quem se autoconfina numa casa de luxo com um grupo de imbecis para dar lucro a um conglomerado midiático em razão do gosto extravagante do populacho. Infelizmente, vivemos tempos tão confusos, o ser humano se encontra tão perdido, tão envolvido no consumo desenfreado e na árdua luta para sustentá-lo, que já não conseguimos distinguir os modelos ideais de vida da mediocridade na qual estamos mergulhados. Se Diógenes vivesse entre nós, certamente precisaria de muito mais que uma lamparina para encontrar um sábio ou um herói, e talvez nunca encontrasse um herói sábio ou vice-versa, tão difíceis são esses mitos de se materializarem num mundo caótico como o nosso. (Iatagã Bulcão – 09-07-2013)

    Like

  2. Jo says:

    Gosto muito de um texto do Nelson Mandela que “ilustra” bem o texto do “Celsão revoltado”

    “Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.
    Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
    Nos perguntamos: “Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?” Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?…Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
    E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo”.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s