Conto de uma mãe

Posted: February 2, 2014 in Outros
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photolibrary_rm_photo_of_depressed_woman_smokingTriste, abro um pacote de bolacha recheada
Ao menos lá dentro as carinhas rirão pra mim, penso.
Creio ser possível comer três. Daí o pacote durará ao menos uns dias e não me sentirei culpada.
Acho que essa estória de sobrepeso é uma invenção dos laboratórios, só pra fazermos mais exames…
Cinco bolachas depois percebo que não sei contar, ou que minha gula pode ter causas psicológicas. Afasto o pensamento pegando “a última” e fechando o pacote.
Psicológico é desculpa pra gastar dinheiro a toa. Ninguém melhor que nós mesmos para nos conhecermos e vencermos pelo próprio esforço.
A moça da TV fala em depressão pós parto. Não me interessa. Meus quatro filhos estão criados e muito bem criados.
Não posso esquecer de buscar o Júnior na escola as duas.
Percebo que terminei com o pacote quando o vejo amassado entre meus dedos. Antigamente os pacotes de bolacha eram maiores…
Tento me lembrar de quando tive notícias do Marcos, o mais velho. Torço para que não esteja preso novamente. Também com aquele cunhado pilantra… Minha filha merecia coisa melhor! Tanto carinho meu Deus…
A TV conversa sozinha e percebo que já passa da uma. E eu nem fiz almoço ainda! Se bem que agora estou sem fome alguma… Gostaria de ouvir a explicação desse “povo da TV” sobre minha obesidade. Eu como tão pouco.

Abro a janela para observar a rua enquanto boto água pra ferver. Qual é o miojo que o Júnior não come mesmo?
Tanto faz… É só não colocar o tempero.
Quinze pras duas. Tô atrasada. Ainda bem que o Júnior é bonzinho e a professora me conhece.
Desço a ladeira e passo pela Lia sem encará-la, olhando para a frente. Se não quer falar comigo, não sou eu quem vai forçar. Mas, imagina, eu ter de me tratar… Que ideia mais maluca! Não sou doida! Se ela assistisse a novela, saberia que só doido vai “se tratar”; como diz o pai dela, depressão é frescura, coisa de quem não tem o que fazer!

Volto pra casa com o Júnior e choro sozinha ao ouvir dele que não sei cozinhar, e que ele prefere a escola a ficar comigo em casa. O que é que ele sabe sobre criar e educar filhos?
Não tenho mais vontade de voltar à cozinha. Assisto a toda a programação da tarde. Quando o Raul chega e me vê, vai pra cozinha sem dizer palavra e sai batendo a porta dois minutos depois.
Deve ir pro bar, concluo. Mas ao menos dessa vez não me bateu. Vou dormir na cama do pequeno e fingirei estar mesmo dormindo quando ele voltar…

por Celsão Irônico (já que não existe o Celsão Contista)

P.S.: ideia surgida de um “caso” num desses programas da tarde na TV.
figura retirada daqui

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