Sem beleza sobrevivemos, mas não vivemos

Posted: March 19, 2014 in Comportamento, Sociedade
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Why Beauty MattersO filósofo Roger Scruton, autor do documentário Why Beauty matters, dissePenso que nós estejamos perdendo a beleza, e tenho medo que com ela, percamos o sentido da vida.

A beleza tem sido central para nossa civilização há 2000 anos. Na Grécia antiga, a filosofia refletiu sobre a arte, a música, a arquitetura e sobre o dia a dia, enchendo as vidas de beleza. Filósofos argumentavam que através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar, e também passamos a compreender melhor a própria natureza e essência da vida. Os artistas usavam a beleza da arte como escape para a dor e o caos inerentes ao mundo.
A beleza era um valor tão importante quanto a verdade e bondade.

A partir do século XX, a beleza foi deixando gradativamente de ser importante, e seu espaço passou a ser ocupado pelo culto à “utilidade”. A criatividade passou a ser substituída pela “originalidade”, e assim a arte (em muito encabeçado por Marcel Duchamp) passou a ser uma ferramenta de quebra de tabus e de destituição da moral vigente, perdendo a sua essência bela e criativa; deixou de se colocar como um escape para as dores da alma e como agente gerador de alegria, e se tornou ferramenta legitimadora da concepção de que a vida humana é suja, triste e caótica, buscando constantemente representar fidedignamente estas características.

Mictório de Duchamp - Arte do século XX

Mictório de Duchamp – Arte do século XX

Esse impasse não se resume à arte, mas também está presente na arquitetura, que ficou sem alma e estéril. Vemos que a beleza das edificações passou a ser irrelevante, e a utilidade e praticidade das mesmas passaram a ser prioridade. Porém, essas edificações, com o passar do tempo, passam a ser antiquadas, fora de moda, e assim o que antes era útil torna-se inútil.

Essa degeneração vai ainda muito além. Nossa linguagem, costumes, maneiras, comportamentos estão cada vez mais rudes, autocentrados e ofensivos; nossos valores estão dando nó em inversões e distorções abismais.
A beleza, o bom gosto, a educação, as boas maneiras, a cordialidade, perderam seus valores e não tem mais lugar nas sociedades de hoje, e podem gerar até mesmo preconceitos e bullying para com aqueles que ainda buscam orientar suas vidas baseado nestes preceitos.

A percepção da beleza do coletivo e de tudo que está ao nosso redor, é substituída pelo individualismo, lucros, desejos, inveja, cobiça, prazeres momentâneos e irresponsáveis; e a beleza dos sentimentos, gestos e ações escorrem pelos nossos dedos. Isso colabora na geração de um sistema selvagem, um capitalismo predador onde quanto maior o poder financeiro de um indivíduo, empresa ou Nação, maior o seu valor e prestígio.

Vejamos, por exemplo, a representação da beleza do ser humano. Antigamente, muitos artistas e filósofos buscavam, através da contemplação, retratar e descrever o ser humano de forma pura e bela, em toda sua essência e perfeição (de acordo com Platão, a beleza é uma visitante de outro mundo. Não podemos fazer nada com ela, a não ser contemplá-la. Se tentarmos tocá-la acabaremos por profaná-la, destruí-la).
Hoje em dia a representação da beleza do ser humano, principalmente da mulher, está corrompida, degenerada. Uma sociedade machista e pervertida estimulada por todos os possíveis estímulos do marketing e dos costumes patriarcais, não é mais capaz de encantar-se com a leveza dos traços e movimentos femininos, pelo contrário, esta beleza foi assaltada pela pornografia e simbolização da mulher como objeto sexual de consumo masculino.
Esta representação se vê no cinema, na música, na televisão, nos cartazes e outdoors, nos programas de entretenimento de hotéis, bares, baladas, nos anúncios de internet, nos livros e até mesmo em pinturas e esculturas.

E qual a perspectiva pro futuro? Bom, não é nada boa.
Os sistemas educacionais estão cada vez mais degenerados, a Grande Mídia mundial cada vez mais zela pelo interesse dos grandes senhores da elite em detrimento dos interesses da maior parte da sociedade. Assim, uma sociedade paranoica, caótica, egoísta, rasa e amedrontada, ou como diria Zygmunt Bauman, uma sociedade de valores líquidos, é criada, e um buraco vazio é deixado no lugar onde antes habitavam naturalmente valores de ética, de moral, de espiritualidade, de coletividade e de beleza. Para ocupar esse espaço, entra em ação o Marketing, responsável por gerar necessidades sintéticas, guiando as pessoas a preencherem este espaço com a nova ordem: Consumo!

Em nome da manutenção deste Status Quo, toma-se de assalto a palavra “democracia” para acusar de ameaçador e desrespeitoso o fato de alguém julgar os gostos e opiniões de outros. Alguns até consideram ofensiva a sugestão de que possa haver “bom gosto” e “mau gosto” quanto ao que se lê, assiste ou escuta.
Assim, beleza e fealdade são colocadas em mesmo patamar de igualdade, e qualquer opinião, por mais preconceituosa, bárbara, retrógrada, desprovida de lógica racional ou fora de contexto com a realidade, deve ser “respeitada”.

Quando ignoramos a beleza, nos encontramos em um deserto espiritual, nossas vidas perdem o sentido, e a insatisfação sempre estará presente por melhores que nossas vidas possam parecer! Viveremos constantemente em estado de ansiedade e nervosismo, mas não saberemos a origem de tais sentimentos; teremos medo, mas não saberemos do quê.

Porém ao adotarmos a beleza como base cultural, a harmonia e paz nos invadem.

Contemplação

Imaginemos, por exemplo, um momento de contemplação, olhando fixamente para a natureza bela. A brisa leve nos sequestra da realidade dos apetites materiais e transporta nosso pensamento para um espaço-tempo sublime adormecido no fundo de nossa alma, e aí os raios de Sol tocam nosso rosto, e nos lembramos de uma melodia perdida em nosso subconsciente, que nos remete a uma recordação nostalgicamente alegre de algum momento mágico do passado, ou aos traços do rosto de uma pessoa amada, e de repente, como que num toque de mágica, somos preenchidos por uma alegria que transborda, e naquele exato momento percebemos indubitavelmente que nossa vida vale à pena.

por Miguelito Filosófico

Para assistir ao documentários Why Beauty Matters, clique AQUI

Este mesmo artigo foi publicado no blog Soul Negra, que aborda temas de todos os tipos relacionados à cultura, moda e beleza Negra. Clique AQUI

Comments
  1. Letícia says:

    De todas as postagens do blog, pra mim, está é a mais top, concordo plenamente com o seu ponto de vista, e, lendo um pouco mais das suas outras pontagens, fico feliz q tenha passado por um momento de pura beleza de sentimentos dos seus vizinhos logo após a derrota do Brasil para a Alemanha ;D

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