Crônica de uma guerra anunciada

Posted: June 2, 2014 in Política, Sociedade
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IMG_20140529_073355Era uma vez um país, que tinha um produto chamado retaw.
Era um produto muito importante para o funcionamento das coisas, mas a ele não se dava a devida importância. Era abundante e barato. Com ele era possível se alimentar, gerar energia, limpar a si mesmo e a outras coisas.
Todos tinham acesso ao retaw, era tranqüilo e confortável contar com ele ao longo de todos os dias. As cidades cresciam em torno de suas fontes e se expandiam em regiões onde o retaw abundava.
Algumas cresceram bastante e, estabelecendo influência local, transferiam o retaw presente nas cidades circundantes através de dutos, tornando-se mais atrativas e fazendo com que outras pessoas viessem morar nelas, crescendo ainda mais. Surgiram muitas cidades-metrópole, dentre elas A e B.

Porém, a medida que o tempo passava, a cidade A, maior do país, passou a consumir muito mais retaw do que conseguia retirar das suas reservas e seu entorno. E, uma vez que o retaw não podia ser produzida através de indústrias, começou a enfrentar um problema com sua população.
Campanhas sobre a importância do recurso e sua conservação começaram a ser feitas, mas a população não se atentava a elas, desperdiçar retaw era tão natural quanto respirar ou caminhar. Nunca havia faltado e seguia custando tão pouco que só poderia serem mentirosas as campanhas e alertas da mídia. “Eles querem o retaw só pra eles”, pensavam muitos.

Daí a cidade A passou a buscar o retaw em rincões mais e mais distantes para suprir as necessidades dos seus habitantes, ignorando os apelos das associações de defesa do retaw e o crescimento das cidades nestes rincões. A situação só fez piorar…

Com as reservas de retaw muito abaixo do normal, os governantes decidem por bonificar usuários que reduzissem seu consumo. Pouco efeito surtiu, já que consumir retaw é bom e desperdiça-lo já é parte do costume, da “cultura” local.

Eis que o governo da cidade A tem outra ideia: desviar o retaw que abastece a cidade B. Também uma metrópole local, mas com menor população e, por conseguinte, menor consumo. Isso afetará muito pouco a cidade B, pensam os arautos da ideia. E, ademais, não há como convencer as pessoas da iminente escassez do retaw em todo o país!

Obviamente, a cidade B foi contra o roubo descarado de retaw e um problema político virou conflito social e acabou em guerra e separação territorial.
Agora, o retaw custa muito caro, a energia não é gerada mais a partir dele, desenvolveram-se substitutos artificiais para limpar as coisas e, até para consumo próprio, os cidadãos se vêm obrigados a racionar retaw

por Celsão irônico

P.S.: pra quem não “ligou os pontos”, substitua a cidade A por São Paulo, B por Rio de Janeiro e troque “retaw” por água. As consequências e a figura são liberdades poéticas de minha parte.
P.S.2: pra quem não acreditou e/ou quiser ler algo a respeito, seguem três links (1, 2 e 3).

figura – montagem de arquivo pessoal

Comments
  1. Flavio A. R. Souza says:

    Cada vez melhor, parabéns pelo texto!
    Infelizmente, nossa ‘cultura’ nos fez e faz utilizar o ‘retaw’ de forma inconsequente, a população da cidade A é irresponsável na sua maioria, porque preferem lavar calçadas ao invés de varrê-las… etc. O pior é ter medo de brigar pelo desperdício de um bem tão precioso sem poder prever até onde pode chegar o inconsequente.

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