A Era das opiniões: direitos e deveres

Posted: June 16, 2014 in Comportamento, Sociedade
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opiniãoUm dos princípios dos estudos que tangem a economia é a chamada Lei da Oferta e da Procura, ou Oferta x Demanda. Esse princípio nos diz que, se há oferta demasiada de um produto X no mercado, o preço deste produto tende a cair. Inversamente proporcional, se há procura demasiada, o preço de X tende a subir.
Dando um exemplo prático: se a maioria dos agricultores de uma cidade começam a plantar milho verde, em um certo momento, não haverá consumidores suficientes para todo o milho produzido e assim este produto começa a “sobrar”. Tentando “eliminar” o excedente, os agricultores começam a reduzir seus preços, visando estimular a venda. Assim, a oferta muito alta, causou a redução do preço.

Pois bem, hoje, felizmente, vivemos em “relativas democracias” na maior parte do planeta, o que garante, à boa parte dos cidadãos, liberdade de expressão. Além disso, a globalização somada ao boom da internet com seus blogs e redes sociais, deu ao indivíduo ainda maiores possibilidades de expressar-se. Temos blogs, vlogs, revistas informais e formais online, youtube, e-mail, redes sociais e muito mais, onde várias milhões de pessoas se expressam diariamente.

Assim configuramos um cenário onde muitas pessoas se expressam simultaneamente, emitindo suas mais diversas opiniões para todos os cantos, gerando uma oferta muito grande deste “produto”. Intelectuais, alienados, tolos, ignorantes, humildes, manipulados, esclarecidos, direitistas, esquerdistas, reacionários, progressistas, conservadores, liberais, todos emitindo informações, uma parte delas metodológicas e científicas, e a maioria que não passam de meras opiniões.

Essa é a “Era das opiniões“. Segundo o filósofo grego Parmênides (530 a.C. – 460a.C.) a opinião (dóxa), é aquilo onde não há nenhuma certeza, mas sim só dúvidas. Assim, as análises baseadas em opiniões são bem distintas das ideias baseadas na observação metódica dos fatos.

A maior parte da sociedade, em muitas circunstâncias, não é capaz de identificar o que é ciência e estudos metódicos, e acabam os colocando na mesma caixinha das “opiniões”. Como na Lei da Oferta e Procura, o produto “opinião”, por ser muito ofertado, acaba perdendo seu valor. Assim, informações de qualidade, números oficiais, estatísticas sérias, estudos acadêmicos, comentários de jornalistas embasados e éticos, são dispersados no meio de um montante de baboseiras, e perdem seu valor. Intelectuais, sábios, cientistas, especialistas e esclarecidos, acabam sendo ignorados pela “massa” de consumo (demanda/procura).

Opiniao_Rachel_SheherazadeIsso é obviamente colaborado pelo fato de termos na maior parte do mundo sistemas educacionais precários, que pouco ou nada estimulam o indivíduo a questionar com senso crítico e objetividade a informação que lhe é oferecida. Assim, ao se deparar com tanta oferta de conteúdo, este indivíduo se perde, não sabendo mais separar o que é bom do que é ruim.
Aliás, falando de “bom e ruim”, penso ser interessante lembrar de uma passagem do documentário Why Beauty Matters do filósofo Roger Scruton:
Em nossa cultura democrática, as pessoas frequentemente pensam ser desrespeitoso julgar o gosto ou a opinião de outros. Alguns se sentem até ofendidos com a sugestão de que existe “gosto bom” e “gosto ruim”… (Leia nosso artigo baseado neste documentário clicando AQUI)

Pois bem, eu concordo com Scruton, há sim muitas questões na vida onde é possível distinguir o ruim, do bom. Assim como há verdades e mentiras, certo e errado, feio e bonito.
É claro que nem sempre existe certo e errado, ou feio e bonito, e há muitas questões que são subjetivas, ou até mesmo tão complexas que é possível haver diversos caminhos plausíveis. Mas temos que analisar cada situação, cada tema, individualmente, para sabermos onde é possível definir verdades e certezas, e onde não é.
Usar o argumento clichê de que “não existem verdades, tudo na vida é relativo”, é um sinal de pobreza intelectual e argumentativa, onde busca-se generalizar tudo, negando a ciência e valores ético-morais. Isso é ruim para o debate, atrasando o avanço intelectual das sociedades. Com essas generalizações vem a negação à ciência. (AQUI uma sugestão de um excelente artigo sobre opiniões e sobre valores de ética-social)

Nesta mesma linha, sabendo-se da desvalorização que as opiniões sofreram nos dias de hoje, estando inclusas aqui informações de cunho metodológico e com propriedade; e sabendo-se que existe um senso comum que afirma não existir “certo ou errado”, chegamos a uma máxima dos tempos modernos: “Respeite minha opinião, pois não existe opinião certa ou errada”. Ou, “todo mundo tem direito de emitir opinião”.
Quem nunca ouviu alguma dessas frases numa discussão no facebook, ou num debate caloroso na mesa do boteco, ou nos comentários de leitores de revistas, ou nos comentários abaixo de algum vídeo no youtube? Aposto que todos, e diversas vezes.
TeletubbiesConheça o método Teletubbies de emitir opinião, clicando AQUI

A questão aqui não é ter o direito ou não de emitir opinião. Todos temos o direito de emitir opinião sim, por mais preconceituosa, alienada, manipulada, desinformada que ela seja.
“Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo“…

A questão é alertar a sociedade, desenvolver um pensamento coletivo crítico no sentido de que, liberdade vem atrelada a responsabilidades. Se a sociedade, o governo, as leis lhe dão liberdade para agir ou falar como bem entender, isso significa que você, à partir deste momento, tem que conhecer os seus limites, os limites do próximo, e ter noção de cidadania e coletividade. Senão alguém vai precisar intervir, contra você, para garantir a liberdade e os direitos dos outros. Afinal, você tem liberdade sim, mas o que acontece quando ela invade a liberdade de outra pessoa? Quem tem mais direito à liberdade?

Portanto, você pode emitir frases racistas, mas tem que ter consciência do dano que você pode estar causando a outrem ao agir assim, e tem que ter conhecimento de suas responsabilidades civis. Você pode sim inventar mentiras sobre alguma pessoa, mas tem que ter consciência que poderá ter que arcar com danos causados a ela. Isso se aplica também aos “curtir e compartilhar” de qualquer tipo de informação que lhe salta aos olhos no facebook. Ao compartilhar um boato ou mentira, difamando e denegrindo a imagem de alguém, além de ser anti-ético, ainda pode lhe gerar processo judicial. Clique AQUI para ler sobre isso.

E aí tem gente que sem nunca ter estudado ou lido nada a respeito de algum assunto, e sem ter qualquer base de conhecimento, se acha no direito de refutar estudos científicos, baseados pura e simplesmente em suas “opiniões”. Muitas vezes, numa inversão de valores, afirmam que a ciência é manipulável e por isso não deve ser acreditada. Regridem séculos na história da evolução do conhecimento humano e afirmam confiar pura e simplesmente em suas observações individuais/sensoriais (empirismo). Desmerecer ou denegrir o método científico (AQUI), baseado em pura opinião, ou mesmo que utilizando-se vagamente de métodos empíricos, é algo extremamente raso, ultrapassado e de prepotência soberba, beirando o abismo do absurdo e da insanidade.
Quem emite opiniões dessa forma, pode e deve exigir sim o direito de fazê-lo, mas pedir respeito às mesmas já é demais.

por Miguelito Formador
figura daqui e daqui

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