Natal do Ciência sem Fronteiras

Posted: December 22, 2014 in Sociedade
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CSFDesde que se mudou para aquele país, Falco Xinhaldo já ficara cativado. Eram três meses de experiências magníficas, e uma vida tranqüila, sem grandes preocupações. Impressionou-se com o transporte público, quase sempre pontual e cobrindo quase todo o perímetro de todas as cidades, era raro precisar andar mais de 300 metros para pegar um ônibus ou um metrô. A limpeza das ruas lhe dava apetite 24h por dia. Achava incrível como tanto os carros, quanto os pedestres, respeitavam sinais e faixas de trânsito. Caminhar em uma avenida movimentada era quase como uma massagem Ayurveda para os ouvidos, afinal, ali era proibido buzinar, e os carros eram, em sua maioria, modernos, silenciosos. Depois de suas baladas e barzinhos, se sentia dentro de um condomínio de luxo ao voltar para casa, às 3h da manhã, sabendo que não haveria qualquer perigo.
Ele pensava: meu Deus, porque fui nascer naquele país maldito?

Como se já não bastasse, aquele mês de dezembro o surpreendera ainda mais. Desde o fim de novembro, até o final de dezembro, o país inteiro parecia um picadeiro com um mágico, a cada dia, uma nova surpresa. Eram tradições diversas que antecediam e preparavam o Natal. As crianças recebiam de seus pais um calendário onde, cada dia era aberta uma portinha, que continha um chocolate pequeninho. Só podiam abrir a porta do dia, e degustar aquele chocolate, até que chegasse o dia tão esperado, o dia 25. As cidades se enfeitavam, num capricho e carinho comoventes, com luzes e adornos em formato dos mais diversos símbolos natalinos. Quando o clima ajudava, a neve caía, e ele se sentia num filme de Natal da Disney. A felicidade lhe preenchia.

Mas uma de suas maiores diversões eram as feirinhas de Natal, chamadas de Weihnachtsmarkt ou Chriskindlesmarkt. Cada cidade e vilarejo da Alemanha tinha a sua. Sempre montadas com muito charme, essas feiras proporcionavam a oportunidade de degustar comidas e bebidas típicas daquela época, entre elas, seu preferido, o vinho quente, conhecido como Glühwein. Em diversos quiosques de madeira, lembrando estilo medieval, era possível também comprar artesanatos e produtos orgânicos. Em quase todas essas feirinhas havia um palco, onde tanto artistas profissionais, quanto pequenas orquestras de crianças carentes, ou corais de asilo, se apresentavam, divulgando seu trabalho e entretendo o público. Para Falco, aquilo tudo era fascinante.

Num certo dia, Falco estava em seu estágio, na maior empresa daquele país, quando ouviu um colega dizendo que a empresa havia falhado em seu intento de disponibilizar uma mansão para refugiados da Síria e do Afeganistão. Não se interessou muito, afinal, aquele não é seu país, e os refugiados vinham de cantões que pouco lhe interessavam. Mas, como as outras pessoas se interessaram, o colega prosseguiu:
– Pois é, já há mais de uma década a nossa empresa possui uma mansão no bairro da Montanha. A mansão era um dos benefícios de um ex-diretor, que foi demitido por corrupção. Desde então a mansão se encontra fechada. A empresa então teve a ideia de fornecer, gratuitamente, essa casa para famílias de refugiados que não têm onde morar. O problema é que os moradores do bairro da Montanha, bairro mais caro da cidade, não gostaram nada da ideia. Entraram com um processo judicial contra a tentativa, e, como possuem muito dinheiro, acabaram ganhando. Aproximadamente seis famílias sírias e quatro afegãs, totalizando 52 pessoas, já estavam preparadas para se mudarem para a casa. Agora elas precisam permanecer espalhadas em sete abrigos diferentes, alguns sequer possuem aquecimento, e dependem de doações de roupas da sociedade.

O debate continuou na mesa, mas Falco estava incomodado, afinal, era um papo desagradável, lhe tirava o sossego cotidiano que costumava desfrutar por ali.
Alguns diziam que era compreensível as pessoas não quererem refugiados ali, afinal, um bairro tão lindo, rico, charmoso, de pessoas finas, abrigar um monte de estrangeiro pobre, com seus costumes rudes, sem educação e sem noção de civilidade. E ainda, poderia significar um aumento de criminalidade.
Aquilo até fez sentido para Falco.

Outros discordavam, dizendo que os refugiados vivem com vários limites legais, não podem sair todo o tempo à rua, não podem trabalhar, recebem alimentos e auxílios do Estado e da sociedade dentro dos abrigos e casas, são monitorados constantemente, e caso desrespeitem qualquer regra ou lei, são deportados imediatamente.
Um dos que estava na mesa dizia trabalhar em projetos sociais com refugiados, e contou que estes se sentem acuados, sentem vergonha por precisar depender da ajuda das pessoas, e fazem de tudo para que as pessoas não os temam. Agradecem diversas vezes por dia àqueles que os ajudam, quase sempre aos prantos. E dizem entender que precisam ficar reclusos dentro das casas, salientando ser isso já magnífico, em comparação a viver em Guerra.
Esse discurso incomodava Falco, mas ele não se dava ao trabalho de refletir o porquê do incômodo. Continuava ali, de corpo presente, mas com a cabeça pensando: que horas eles vão acabar com esse papo e voltar a falar de futebol ou sobre nossa festa de fim de ano?

Mas para sua surpresa, Half, o rapaz que trabalha em projetos sociais, se direcionou a Falco e perguntou:
Sr. Xinhaldo, o senhor sabia que a Alemanha é o terceiro maior exportador de armas do Mundo? E que os maiores compradores são países africanos e asiáticos em guerra?
Falco responde que não sabia, e dá de ombros.

Half insiste:
– Imagine Sr. Xinhaldo, a venda de armas é um dos pilares de nossa economia, se há tantos ricos vivendo no bairro da Montanha, isso também se deve ao dinheiro das armas, que gira nossa economia e traz recursos de impostos para a sociedade. Além disso, as empresas que produzem armas, querem continuar vendendo, e cada vez mais, isso é óbvio. E para vender armas, é preciso haver guerras, certo? Então, é claro que para essas empresas, não é interessante que a guerra nestes países acabe, e por isso, eles investem na mídia, igrejas, governos, milícias daqueles países, para que os problemas e o ódio da sociedade nunca acabem, e assim, a guerra seja eterna.

Falco só consegue emitir um grunhido:
– “uhum…”

Half olha para os colegas e diz:
– Portanto, parte de nossa estabilidade, vem da desgraça destes países. O mínimo que deveríamos fazer é darmos abrigo ao povo sofrido de lá.

Half, assim como quase todo estudante alemão, não ganhava mais de 400 euros dos pais por mês. O dinheiro era suficiente para viver uma vida simples de estudante, como todos. Mas para sustentar seu hobby, a música, Half começou a fazer estágio para tirar um dinheiro a mais.

Falco ganhava 800 euros mensais da bolsa do Governo brasileiro. A empresa não tinha mais vagas para estágios remunerados de 20 horas. Como já ganhava um bom dinheiro (apesar de sempre reclamar que faltava para fazer todas as viagens que queria), Falco aceitou fazer o estágio de 10 horas sem remuneração, para incrementar seu curriculum.
Half e outros estudantes alemães tinham uma pontada de inveja da bolsa de Falco, e se espantavam com o fato de essa bolsa vir de um país “pobre”, segundo eles.

Após o almoço, Falco vai para casa. No caminho lembra-se que tem que enviar um cartão de natal para seus pais. Passa no correio, preenche o endereço do condomínio dos pais em Criciúma, e envia o cartão, onde já deseja feliz natal e se explica, com antecedência, que não poderá falar com eles no dia 25, o motivo: “como não tenho aula nem estágio, viajarei do dia 19 de dezembro ao dia 3 de janeiro, para Budapeste, Praga, Istambul, Viena, Füssen. Passarei o Reveillon em Paris, e voltarei para cá. Como de costume, ficarei sem telefone, pois é muito caro pagar o roaming no exterior. Mas podemos nos escrever pelo Whatsapp quando eu estiver em algum lugar que tenha Wireless.”
Cartão enviado. Dever cumprido.

No dia 22 de dezembro, os pais, voltando de um protesto pelo impeachment da presidente, abrem a caixa de correio, e se alegram ao ver o cartão do filho, há quase quatro meses na Alemanha, pelo programa Ciência sem Fronteiras. O Natal deles não será completo, mas o cartão lhes alivia, por saber que o filho querido, apesar de estar triste por não poder estar com os pais, fará viagens lindas, o que também lhe fará feliz.

por Miguelito Nervoltado

Comments
  1. Vanessa says:

    Nossa, texto maravilhoso! Eu tenho pensado muito nisso, no fato de que os países mais “ricos” sustentam suas vidas mais confortáveis muito a custas de problemas no resto do mundo. Ano que vem vou me mudar para a Alemanha por uns anos, mas depois vou voltar para o Brasil. Eu não converso sobre isso com meus conhecidos porque cansa ter que ficar explicando que eu não quero morar na Alemanha para sempre, que lá não é tudo perfeito, que a Europa não é nenhuma santa, etc.

    Enfim, ótimo texto. Poderia até incluir aqueles que falam mal do bolsa família brasileiro mas gostam e muito da “ajuda” financeira que os governos europeus dão. Na Suécia, se não me engano, o “bolsa família” atende ricos e pobres, inclusive estrangeiros.

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