Archive for February, 2015

1424971028509Outro título deste post seria: “Dicas para ser isento numa CPI”.

É absurdo! É revoltante!
Uma nova CPI no Congresso foi instaurada ontem, quinta-feira, para investigar os casos de corrupção na Petrobrás, ou os desdobramentos da operação Lava Jato (notícia aqui).

Até aí tudo bem, uns podem até dizer que acabará em pizza, ou seja, que não dará em nada; outros dirão que as CPIs são elementos políticos para provar a força dos partidos na nomeação de líderes e relatores, que a CPI é “ganha” nessa primeira votação, etc.
Por ser a terceira num período curto (menos de um ano), é realmente mais difícil acreditar que algo muito diferente ocorrerá; mas, o que me revoltou mesmo, foi a constatação feita pelo deputado Ivan Valente, do PSOL.
Em discurso no início dos trabalhos, o político lembrou que mais da metade dos deputados que compunham a mesa receberam doações de campanha das empresas investigadas na operação Lava Jato.

Explicando mais uma vez e em outras palavras: a maioria dos parlamentares presentes, que ocupariam (e ocuparão) as cadeiras desta terceira Comissão de Inquérito, que analisarão documentos, depoimentos, votarão e elaborarão um parecer final, receberam dinheiro para suas campanhas eleitorais (do ano passado!) das empresas cujos executivos estão presos em Curitiba, exatamente por suspeita de irregularidades em contratos da própria Petrobrás, investigada.
Ou seja, só pode ser piada… os apadrinhados investigarão os padrinhos! Notícia aqui.

Como não era interessante para os partidos “fortes”, como o PMDB, que elegeu o presidente da CPI, o afastamento dos políticos “suspeitos” não foi levada a cabo. E a casa votou sem problemas ou pudores e elegeu o presidente (Hugo Motta – PMDB) e o relator (Luiz Sérgio – PT).
O deputado Luiz Sérgio, eleito relator, foi inclusive o candidato que recebeu o maior valor dentre os componentes da CPI, valores próximos a um milhão de reais. O presidente eleito da CPI também seria afastado se o pedido de impedimento do PSOL tivesse sido acatado.

Notem que não estou criticando as doações em si. Embora seja contra elas (vejam aqui e aqui algumas opiniões nossas sobre as reformas políticas necessárias ao país de acordo com nosso julgamento), sei que as doações de empresas privadas, como empreiteiras, são lícitas, fazem parte do “jogo” atual para se eleger um parlamentar.
Tampouco quero “ver sangue” nas prováveis críticas à Petrobrás que estão por vir.
Acho que devemos sim investigar os ocorridos e punir duramente os culpados (como já disse aqui), sem condenar toda a empresa que é inovadora e referência mundial na exploração de petróleo.

Mas… precisava mesmo de uma nova CPI?
E… tinha de ser comandada por deputados “de rabo preso” com os investigados?
Copiando uma pergunta da própria página do deputado Ivan Valente, atribuído por ele à Folha: “Entre os financiadores e os eleitores, entre o dinheiro e o voto, de qual lado cada congressista ficará?”

Termino dando os parabéns ao PSOL que levantou a questão e propôs a medida mais cabível ao caso. Parabéns também aos deputados do PPS que foram os únicos a apoiar o PSOL no intento.

por Celsão revoltado.

figura retirada daqui

P.S.: link interessante para a página do deputado Ivan Valente, que contém o vídeo do pedido de afastamento – aqui

O elevador

Posted: February 23, 2015 in Comportamento
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como_agirA porta abre. Três pessoas em seus mundos estão lá dentro.
Recebo de volta um bom dia, um resmungo intelegível e um muxoxo. Cumprimentar as pessoas, pra mim, é um ato de mostrar que o dia pode começar melhor se as pessoas quiserem; a resposta ou a ausência dela não faz muita diferença no meu dia.

Os intermináveis segundos até fechar a porta são suficientes para olhar os dois suportes de circulares, imutáveis há dias. Não é que eu fuja dos olhares. Mas acho que estes papéis ficam no elevador exatamente para isso.
Porta fechada, percebo um movimento de sobrancelha do senhor, que é baiano de Alagoinhas, segundo me contou noutra ocasião; o mais jovem balança a garrafa d’água e decide “fugir” para o celular, tomando-o na mão direita. Fiquei de costas para o do muxoxo e, embora não tenha sido proposital, deduzo que ele não me olharia nos olhos.

Nova parada. Duas vizinhas entram conversando. Novo muxoxo do que acordou de mau humor (ou não gosta de interações sociais reais). Tento disfarçar a risada enquanto olho novamente um dos papéis pendurados. O plástico está quebrado, mas o aviso sobre a próxima visita de correção dos interfones é lido sem problemas. Meu olhar é acompanhado por outros, enquanto o celular é guardado no outro bolso.
Olhares para os pés e para cima são seguidos do fechamento das portas. Certamente muitos queixaram secretamente… “É incrível como essa porta demora a fechar!”

Na próxima abertura da porta, uma jovem com roupas coloridas e alternativas, pergunta sobre o funcionamento do elevador de serviço enquanto (aparentemente) avalia aborrecida se compartilha a descida com seus vizinhos. Entra e compartilha ao menos o muxoxo do mau humorado, repetindo-o.
Já não há muito espaço e alguém pergunta sobre o trânsito. Decerto também para ganhar instantes preciosos. Dois longos segundos depois, respondo que não olhei, para não deixá-la “no vácuo”. A pobre, no mínimo, sempre morou em casa térrea e tinha amizades dentre os vizinhos.

Minha imaginação vai à uma cena de queda de energia ou quebra repentina do elevador…
Busco nos rostos os desesperados, os corajosos e os engenhosos; sem encontrar os dois últimos personagens.
A criatividade sai da prisão não programada para uma improvável festa de amigo secreto do prédio. Como seriam os papeizinhos? Sou a Raquel do 118, gosto de música. Pedro do 215, paixão por automóveis. Suzana, plantas… Já pensou se a síndica convoca uma reunião só para apresentar as pessoas?

Nova parada. “Será possível?!?”
Entra sem titubear um sujeito com uma mochila grande bem cheia e uma mala de puxar.
Pronto! Sorrindo, penso com meus botões que teremos ao menos comida se houver a quebra. Não é possível numa mochila daquele tamanho não ter algo para beliscar…
Novos olhares para as circulares, lâmpadas do teto, câmera interna, piso e celulares.

O suor já brota em algumas faces quando a primeira parada no estacionamento acontece. As vizinhas se despedem combinando o próximo encontro. A jovem também desce. Será que tem mesmo um carro no térreo ou irá de escada aos subsolos?

Inexplicavelmente a próxima (e minha) parada ocorre num intervalo muito breve.
Despeço-me desejando um bom dia a todos, com a certeza que nos fecharemos várias vezes no trânsito nos próximos vinte minutos.

O que mais dizer, a não ser… “Viva a vida social de São Paulo!”

por Celsão irônico

figura: corte feito daqui

FestaXPobrezaO Brasil parece estar chocado com a informação de que a escola de samba do Rio de Janeiro, Beija-Flor de Nilópolis, foi patrocinada pelo ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, com a quantia de R$10 milhões.

O que eu não entendo é o seguinte: por que tanto espanto?

Nós, adultos, já passamos da fase de nos eximirmos de culpa com a desculpa de falsa inocência ou desconhecimento dos fatos.

Olhem para aqueles carros alegóricos do Carnaval da Sapucaí. Quanto vocês imaginam que custa o projeto e construção de um carro destes? E as fantasias? (sei que muita gente “compra” a própria fantasia, mas isso não é regra, pois muitas fantasias a própria escola “banca”).

Óbvio que, para construir um desfile com chances de vitória, necessita-se de fortunas. E por mais que os participantes, integrantes, organizadores, façam suas próprias doações, isso está longe de cobrir as despesas. Ou seja, de onde vem o dinheiro? Do céu?

Não gente. O dinheiro vem de patrocínios, muitas vezes, de grandes empresas. E qual a grande diferença de ser patrocinado por um ditador da Guiné, ou pela Coca-Cola, ou McDonalds, ou Nike, ou Apple, ou Samsung, ou Alstom, ou Itaú, ou Burger King, ou Shell, ou Volkswagen, ou Kalashnikov?

A diferença é que, se o dinheiro vem diretamente do ditador, então fica clara a conexão deste dinheiro com a barbárie. Agora, se o dinheiro vem de uma grande empresa de petróleo, armas, indústria alimentícia, vestuário, tecnologia, bancos, é primeiro necessário pesquisarmos (mas a minoria se interessa por pesquisar, ler, se informar) para então percebermos como essas empresas fazem negócios sujos pelo mundo, desde um simples cartel com pagamento de propina a políticos e empresários, até a exploração de trabalho escravo, assassinatos, contaminação química em países de legislações degeneradas ou pouco desenvolvidas.

Mas no fim, é a mesma coisa.

E é ainda mais inocente pensarmos somente no desfile das Escolas de Samba, e esquecermos do resto das alegorias existentes no mundo, que servem para satisfazer nossas ostentações.
No futebol não é diferente, ou então, como é possível comprar jogadores por algumas dezenas de milhões de dólares? Como é possível sustentar um time que paga, em média, 200 mil dólares de salário por jogador por mês!? Já pensaram o que significa ganhar 200 mil dólares por  mês? Existe alguém no mundo que precisa ganhar isso para ser feliz? Qual a parcela de influência disso na desigualdade social e na fome do mundo?
Ou seja, é gente ganhando dinheiro demais, desnecessariamente, e muitas vezes, dinheiro sujo.

Escolas de Samba, futebol, BBB, prêmio do Oscar, prêmio Grammy, basquete na NBA, festa de réveillon da Globo, propagandas distribuídas em novelas globais e em filmes, e “circus” como os programas do Luciano H. e da Regina C.. Até que ponto tais eventos, esportes, programas, ultrapassam o limite de proporcionar diversão e alegria, e invadem a esfera da busca ilimitada por dinheiro, gerando barbáries mundo afora?

Fala-se muito de “Pão e Circo” quando o assunto é política. Mas o verdadeira tática de “dominação” pão e circo, aparece no nosso dia a dia, e ela só existe, pois há demanda/consumo, ou seja, VOCÊ, EU, NÓS, aceitamos, consumimos, e assim, corroboramos.

Se passarmos a ser mais exigentes e seletivos com nossos lazeres, a oferta também começa a melhorar em qualidade.
Novamente, parece que o segredo e solução está somente em um lugar: VOCÊ!

por Miguelito Nervoltado

P.S.: Complementando o texto, segue um excelente video e análise dos fatos pelo Bob Fernandes (aqui) e a declaração do sambista mais famoso da escola sobre o financiamento (aqui)

figura retirada daqui

impeachment2Winston Churchill, político britânico, disse certa vez que a democracia é o pior sistema de governo, excluindo todos os outros. E, embora saibamos que a internet difundiu a informação e fundou uma nova “era”… sabemos também que a imensa maioria dos acessos se concentra em redes sociais (falando de Brasil), ausentes de pesquisas ou buscas por informações com conteúdo.

Por que estou escrevendo isso?
Fui, ou melhor, fomos bombardeados nos últimos dias por um “organizado” protesto que pretende como desfecho o impeachment da presidente Dilma. Faço questão de colar neste post um exemplo de texto divulgado (em figura) e um trecho também muito difundido, abaixo:

ATENÇÃO BRASIL
Dia 15/03/2015, domingo, nos reuniremos e sairemos as ruas de TODO O BRASIL pra pedir o IMPEACHMENT de DILMA ROUSSEFF como fizemos em 1992 com o então presidente Fernando COLLOR de melo.
Não pagaremos R$4.00 no litro da gasolina porque roubaram a Petrobras, não aceitaremos R$3.50 pra andar de ônibus ou trem, não aceitaremos aumento nos impostos já absurdos como IOF, ICMS, IPTU, IPVA e etc.. Estamos sem água graças ao Sr. Geraldo Alckmim que está no governo a 20 anos e nenhum reservatório construiu! Apenas roubaram nosso dinheiro!!! Chega dos mesmos, dia 15/03/2015 todos nas ruas pelo IMPEACHMENT!!!! Nosso protesto é pacifico, não será permitido bandeiras e camisas de partidos políticos e vândalos e black blocs serão detidos e entregues a policia pela própria população. Haverá jovens, adultos e idosos na manifestação, pedimos que todos vão de verde e amarelo como em 1992 com as cores do BRASIL e caras pintadas!!!
(trecho de texto obtido da internet)

As páginas do facebook se multiplicam e as pessoas não sabem sequer o que é o impeachment, o que é necessário para que haja o impeachment, etc…
Inclusive a maioria das propagandas em prol do protesto em Março, como o citado acima, inclui o governador Alckmin e a falta d’água em São Paulo, mas não clama pelo impeachment deste governador (que também é elegível para tal).
Me recuso a comentar as afirmações da figura, deixo-as como exemplo tosco e cômico, como piada; pois penso que o texto só pode ter sido feito de má fé.

Voltando aos argumentos do movimento pró-impeachment, há outras afirmações que pressupõe haver novo pleito e nova escolha de candidatos.
Faço questão de desmentir essa afirmação, embora saiba que os leitores deste espaço não creiam em tudo o que leem e recebem: Não! Não haverá uma nova eleição se houver impeachment; o vice Michel Temer assume e só caso este sofra também um processo (necessariamente movido pelo STF ou Senado Federal) no período de dois anos do mandato atual, serão convocadas novas eleições.
Ou seja, para que, digamos, o Aécio (ou qualquer outro) seja eleito antes de 2018, é preciso que o processo de impeachment contra a presidente Dilma seja aceito pelo Congresso, julgado e condenado por dois terços do Senado, assuma o vice-presidente, haja um processo contra ele (também aceito pelos órgãos “maiores” do país), haja também condenação de dois terços e não seja ainda 2017!

Difícil de acontecer, não?
impeachment4-450x386Não quero desanimar o pessoal do protesto “Fora Dilma”. Mesmo desconfiando do processo apartidário do movimento, eu apoio o ato, como apoio toda manifestação, sobretudo pacífica.

Mas, buscando mais informações, descobri que já foram encaminhadas ao Congresso dez denúncias de crime de responsabilidade contra a própria Dilma no primeiro mandato (resonsabilidade e improbidade administrativa são dois dos crimes passíveis de impeachment). E, antes destes, outros 34 foram apresentados contra Lula e 14 contra FHC.
Todos os 58 foram arquivados pelos presidentes do Congresso.

Na época do Collor, as denúncias entregues ao Congresso que desencadearam na renúncia e cassação do político, foram assinadas pelos presidentes da OAB e da Associação Brasileira de Imprensa; mas é interessante colocar que qualquer cidadão poderia e pode protocolar em Brasília uma denúncia de crime contra governantes e ministros, que será analisada pelo presidente do Congresso e pelos deputados, para ser levado a cabo ou não.

Utopicamente, desejo que o povo tome consciência do que quer e… se o processo não seguir adiante, dada a escolha dos representantes de Congresso e Senado; ou demorar pra ser concluído, dada a normal morosidade dos órgãos supremos da nossa democracia… que este mesmo povo engajado hoje, busque apoiar as alternativas “mais viáveis” de reformas ao invés de partir para o “quebra-quebra” e para as críticas vazias nas redes sociais.

por Celsão correto

figuras retiradas do site do catraca livre (aqui

P.S.1: Para os que querem mais informação, um jornalista fez um excelente resumo de 10 pontos sobre o impeachment (aqui). O catraca livre fez um post mais simples, mas igualmente informative (aqui)

P.S.2: Se algo não está bom pra você, ou se foi mal atendido ao contratar um serviço, proteste! Sempre! Nem que seja num site como o “reclame aqui”. É seu direito.

petrobrasPrimeiro foi divulgada a cifra de R$3 bilhões pelo valor econômico e outros veículos da mídia, ainda chamando de Mensalão da Petrobrás (aqui). Depois esse valor cresceu e especulou-se que já passaria dos 10 bilhões e, logo após, dos 20 bilhões de reais (como veiculado pela revista da extrema direita, por exemplo, aqui).
E, há alguns dias, veiculado pela Folha, o número cresceu para R$88 bilhões!!!

Afinal, por que tanta especulação sobre tais valores? Qual a credibilidade desta mídia que salta em poucas semanas de 3 para 88 bilhões? Será que nossos jornalistas e os editoriais dos jornais estão agindo de forma séria e profissional? Aliás, será que ao menos pararam para refletir no absurdo que é a cifra de 88 bilhões de reais?

Somos contra a corrupção e acreditamos que só uma punição exemplar, atingindo os culpados financeira- e moralmente pode começar a mudar a “mania de Gerson” e a sensação de impunidade no país, como escrevemos num post recente sobre a Petrobrás (aqui).

Mas também somos igualmente contra as especulações, manipulações, distorções aplicadas a tais escândalos, neste caso, pela oposição política, através de seu fiel escudeiro, a Grande Mídia. Nesta busca desesperada por sensacionalismo e holofotes, em tentativas de golpes políticos e manipulação da opinião pública, aqueles que levantam as bandeiras da moral, transparência e ética, acabam sendo igualmente tão antiéticos e corruptos quanto os acusados.

E não nos esqueçamos do principal: a cada “pancada” que a Petrobrás leva, mais esta se aproxima de ser privatizada por empresas estrangeiras, o que certamente, seria o maior desastre da economia e soberania brasileira dos últimos 30 anos. Portanto, a todos aqueles que torcem pela quebra da Petrobrás, sua ingenuidade e “vira-latismo” podem fazer com que todo nosso petróleo seja entregue de mãos beijadas a outros países, que ficarão com a maior parte do lucro para si, nos afundando ainda mais na pobreza.
No Oriente Médio, estes países desenvolvidos promovem guerras para se apoderarem do Petróleo. No Brasil, eles promovem golpes políticos e manipulação da opinião pública, forçando uma privatização ilegítima e sorrateira do mesmo.

Não se enganem, no meio deste bombardeio de informações e escândalos, o que acontece por debaixo dos panos é uma guerra violenta, onde um grupo luta pela manutenção da soberania brasileira de nosso Petróleo, e outro grupo luta para nos roubar a mesma.

Abaixo, compartilhamos na íntegra um artigo do DCM (Diário do Centro do Mundo) de Paulo Nogueira. (aqui)

por Celsão Correto e Miguelito Formador

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O festival de asneiras em torno dos 88 bilhões de reais da Petrobrás

Raras vezes tantas tolices foram publicadas e compartilhadas em cima de um número malcompreendido.

Entre no Twitter e digite Petrobras 88 bilhões, e você encontrará uma enxurrada daquilo que de mais imbecil a mente humana pode conceber.

A cifra de 88 bilhões de reais representaria aquilo que foi desviado por corrupção na Petrobras.

Para quem tem o mínimo de familiaridade com números, é um caso parecido com o do homem de oito metros.

Mas poucos tem, e a Folha, origem dos disparates, não está entre estes raros.

Foi a Folha que deu a “informação”. Ela estaria no balanço divulgado pela Petrobras.

Depois, a Folha corrigiu o erro, mas era tarde demais: a asneira já fora transmitida e incorporada por dezenas, centenas, milhares de analfabetos políticos que incluem suspeitos de sempre como Lobão e Danilo Gentilli.

Os 88 bilhões são um cálculo aproximado de ativos supervalorizados.

Imagine que, em vez da Petrobras, se tratasse da Abril. Suponha que a Veja, o principal ativo da casa, tivesse sido avaliada num balanço em 1 bilhão de reais.

Depois, se verificaria que o valor estava inflado em 50%, digamos. No ano seguinte, o balanço corrigiria o excesso, e a Veja surgiria com o valor de 500 milhões de reais.

É mais ou menos isso.

Dentro dos 88 bilhões, existe uma parcela associada aos desvios. Mas ninguém sabe quanto é.

Na reunião de diretoria que aprovou o balanço, chegou-se a cogitar – ou chutar — uma soma de 4 bilhões em desvios, com base nos 3% de taxa de propina de que falou o ex-diretor Paulo Roberto Costa.

Os 88 bilhões não fizeram a festa apenas de internautas sem noção de grandeza de números.

Numa rápida pesquisa no Twitter, encontrei o link de uma entrevista da CBN com um economista para falar dos “88 bilhões em desvios”.

Mesmo confessando não ter condição de analisar o balanço, ele concedeu uma entrevista de mais de seis minutos.

Pobres ouvintes da CBN. Uma rádio competente jogaria luzes onde há sombras. Mas a CBN cobre áreas cinzentas com ainda mais sombras.

Mas não se pode desprezar a contribuição da Petrobras para a confusão.

Tente entender o que a empresa quis dizer na sentença abaixo, que consta do balanço e é assinada por Graça Foster. Um determinado método foi descartado, e a explicação foi a seguinte:

“O amadurecimento adquirido no desenvolvimento do trabalho tornou evidente que essa metodologia não se apresentou como uma substituta ‘proxy’ adequada para mensuração dos potenciais pagamentos indevidos, pois o ajuste seria composto de diversas parcelas de naturezas diferentes, impossível de serem quantificadas individualmente, quais sejam, mudanças nas variáveis econômicas e financeiras (taxa de câmbio, taxa de desconto, indicadores de risco e custo de capital), mudanças nas projeções de preços e margens dos insumos, mudanças nas projeções de preços, margens e demanda dos produtos comercializados, mudanças nos preços de equipamentos, insumos, salários e outros custos correlatos, bem como deficiências no planejamento do projeto (engenharia e suprimento).”

Proust podia escrever parágrafos intermináveis, pelo talento excepcional em juntar palavras, mas nenhum redator de balanços pode fazer o mesmo.

Frases curtas, simples, fáceis de entender: eis o que um balanço deve conter, para ser compreendido para além dos números.

E então você tem o cruzamento de um jornal que admite o homem de oito metros com um balanço escrito numa linguagem não identificada – parecida, apenas, com o português.

Estava tudo pronto para um festival de asneiras nas redes sociais. Falsos gênios chegaram a fazer contas: com 88 bilhões de reais você compra x Fuscas e coisas do gênero.

Claro que o PSDB não poderia faltar.

Em sua conta no Twitter, o PSDB postou um quadro que dizia que “o prejuízo da Petrobras com corrupção pode chegar a 88 bilhões de reais.”

Neste caso, não é apenas erro. É má fé. É manipulação. É cinismo.

E uma tremenda duma mentira. O presidente do PSDB, Aécio, acaba de gravar um vídeo em que diz que Dilma mente.

Antes de ser julgada, a Petrobras tem que ser compreendida.

O barulho em torno dos 88 bilhões de reais mostra que a Petrobras, embora tão falada, é uma ilustre desconhecida para muitos brasileiros. Por isso, é fácil usá-la com propósitos canalhas por quem quer tudo — menos, efetivamente, contribuir para o bem dela.

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figura retirada do próprio DCM (aqui)