O elevador

Posted: February 23, 2015 in Comportamento
Tags: , ,

como_agirA porta abre. Três pessoas em seus mundos estão lá dentro.
Recebo de volta um bom dia, um resmungo intelegível e um muxoxo. Cumprimentar as pessoas, pra mim, é um ato de mostrar que o dia pode começar melhor se as pessoas quiserem; a resposta ou a ausência dela não faz muita diferença no meu dia.

Os intermináveis segundos até fechar a porta são suficientes para olhar os dois suportes de circulares, imutáveis há dias. Não é que eu fuja dos olhares. Mas acho que estes papéis ficam no elevador exatamente para isso.
Porta fechada, percebo um movimento de sobrancelha do senhor, que é baiano de Alagoinhas, segundo me contou noutra ocasião; o mais jovem balança a garrafa d’água e decide “fugir” para o celular, tomando-o na mão direita. Fiquei de costas para o do muxoxo e, embora não tenha sido proposital, deduzo que ele não me olharia nos olhos.

Nova parada. Duas vizinhas entram conversando. Novo muxoxo do que acordou de mau humor (ou não gosta de interações sociais reais). Tento disfarçar a risada enquanto olho novamente um dos papéis pendurados. O plástico está quebrado, mas o aviso sobre a próxima visita de correção dos interfones é lido sem problemas. Meu olhar é acompanhado por outros, enquanto o celular é guardado no outro bolso.
Olhares para os pés e para cima são seguidos do fechamento das portas. Certamente muitos queixaram secretamente… “É incrível como essa porta demora a fechar!”

Na próxima abertura da porta, uma jovem com roupas coloridas e alternativas, pergunta sobre o funcionamento do elevador de serviço enquanto (aparentemente) avalia aborrecida se compartilha a descida com seus vizinhos. Entra e compartilha ao menos o muxoxo do mau humorado, repetindo-o.
Já não há muito espaço e alguém pergunta sobre o trânsito. Decerto também para ganhar instantes preciosos. Dois longos segundos depois, respondo que não olhei, para não deixá-la “no vácuo”. A pobre, no mínimo, sempre morou em casa térrea e tinha amizades dentre os vizinhos.

Minha imaginação vai à uma cena de queda de energia ou quebra repentina do elevador…
Busco nos rostos os desesperados, os corajosos e os engenhosos; sem encontrar os dois últimos personagens.
A criatividade sai da prisão não programada para uma improvável festa de amigo secreto do prédio. Como seriam os papeizinhos? Sou a Raquel do 118, gosto de música. Pedro do 215, paixão por automóveis. Suzana, plantas… Já pensou se a síndica convoca uma reunião só para apresentar as pessoas?

Nova parada. “Será possível?!?”
Entra sem titubear um sujeito com uma mochila grande bem cheia e uma mala de puxar.
Pronto! Sorrindo, penso com meus botões que teremos ao menos comida se houver a quebra. Não é possível numa mochila daquele tamanho não ter algo para beliscar…
Novos olhares para as circulares, lâmpadas do teto, câmera interna, piso e celulares.

O suor já brota em algumas faces quando a primeira parada no estacionamento acontece. As vizinhas se despedem combinando o próximo encontro. A jovem também desce. Será que tem mesmo um carro no térreo ou irá de escada aos subsolos?

Inexplicavelmente a próxima (e minha) parada ocorre num intervalo muito breve.
Despeço-me desejando um bom dia a todos, com a certeza que nos fecharemos várias vezes no trânsito nos próximos vinte minutos.

O que mais dizer, a não ser… “Viva a vida social de São Paulo!”

por Celsão irônico

figura: corte feito daqui

Comments
  1. Flavio A R Souza says:

    Excelente visão… Engraçado como as pessoas se comportam nos elevadores.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s