Olhos para a vida

Posted: March 8, 2015 in Outros
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Brevidade_VidaÉ tão breve, a vida. Mas há mais por vir, que o que já se foi. Mesmo assim, já é possível sentir, como é breve.

Sendo sensível, vez por outra, ocorrem-lhe aqueles momentos que chegam sem avisar, e uma simples percepção lhe salta aos olhos, como se nunca tivesse havido… mas sempre houve. O que sempre existiu, se revela novo, e lhe preenche, ou lhe muda, ou ambos. Os olhos sempre foram, olhos… mas a retina de dentro, essa prega peças.

Yamandu Costa, nos bastidores de seu show com o “mágico” Dominguinhos, disse em entrevista: “em 1995 eu conheci o Dominguinhos. Estávamos tocando na mesma noite, e tinha uma música de encerramento onde todos os artistas subiam ao palco e tocavam juntos. Num certo momento abriu-se espaço para os improvisos. Eu entrei com “uma sede” – Yamandu movimenta rápido, dedos e mãos, ilustrando como tocava com empolgação seu violão – fiz milhares de notas, para querer impressioná-lo (Dominguinhos). No segundo improviso deram o sinal ao Dominguinhos, ele entrou, e tocou…. páááhh – Yamandu desacelera, fecha os olhos, ergue o corpo levemente, num movimento de quem está a flutuar – quatro notas… – breve silêncio. Naquele momento eu entendi o que era colocar o coração na música. Foi a primeira aula que Dominguinhos me dera.”

Também Renato Russo dizia que, para tocar as canções da Legião Urbana, são necessários apenas três acordes. De fato, em sua maioria, as músicas da Legião não possuem complexidade instrumental. Mas quanto à excelência da poesia, quanto à ousadia e sanidade da mensagem, quanto à profundidade do toque das palavras, e quanto à alma contida na melodia e arranjos… ah Legião, que arte! Parecem, assim como Dominguinhos, conhecer os segredos de algo, algo impalpável, mas perceptível; algo impronunciável, mas compreendido quando pronunciado pelo artista por essência.

O mundo hoje, ao que indica a história, é bem mais acelerado que o mundo de ontem. O sistema exige muito de nós todos, e o faz com nosso consentimento. Mas é consentimento aquilo que não nos é consciente? O sistema nos permite consciência?

São 8, 10, 12, 14 horas de labuta. Somam-se então as horas no trânsito. Cuidar de casa, conversar com o(a) parceiro(a), “perceber” os filhos e cuidar deles. Num tempinho que sobra, temos que escolher entre um esporte para que a saúde e a forma não se percam de vez; ou então ler mais umas páginas do livro empoeirado, há semanas na cabeceira da cama; talvez escolher um dos filmes pendentes dos últimos anos; ou quem sabe encontrar os amigos ou ir visitar os pais ou avós, que moram longe, mesmo que às vezes, morem perto… Ah, quando paramos pra pensar, dá vontade de dormir, pra parar de pensar.

Como esperar, numa vida de tantos afazeres, que se possa estar bem informado, se a única rápida oportunidade que se tem de se informar, é assistindo o rápido noticiário da noite na maior emissora da TV?

Buscar informações em outros meios? Isso é coisa para quem tem tempo…

No meio de tantos flashs diários da rotina, onde o tempo parece dar voltas em elipses pouco imprecisas, viver se tornou um Déjà vu imperecível. Como então esperar sentir a gloriosa sensação do toque do pingo da chuva quando encontra sua pele numa tarde de 40 graus? Só há tempo para procurar a próxima sacada, e se esconder, para não molhar o terno/vestido.

No meio de tanta poluição visual, como esperar enxergar o cartaz do artista que se apresentará, gratuitamente, no parque de seu bairro?

Tanto barulho, buzinas de carros e motos, gritos de ambulantes, o palhaço ao microfone na porta da Casas Varria, a sirene da ambulância que já vai em busca de mais um anônimo (ao menos para você); como ousar perceber a beleza do peso e sofrimento que carrega o dedilhar de cada tecla da sanfona do músico na esquina?

É como que se uma locomotiva passasse infinitamente em nossa frente, lotada de supérfluos e alegorias, mas, vez ou outra, escondidas no cantinho de um, entre tantos vagões, estivessem discretas receitas de felicidade. Muitas passarão, mas poucas, a percepção. A não ser que o “percebedor” se permita passar a observar esse trem com mais cuidado, mais atento, olhando menos com os olhos de fora, e mais com os olhos de dentro.

Belchior

Belchior – Um Concerto a Palo Seco

Também vítima dessas armadilhas da rotina, foi-lhe difícil aceitar o fato de que, foram necessários 31 anos de estrada e de amor à música, para enfim “perceber” o álbum Um Concerto a Palo Seco, de Belchior. Aquele menino de 14 anos, que ouvia todos os CDs da Legião Urbana sem fadiga, parecia reviver. A cada toque do violão de Gilvan Oliveira, uma surpresa, frente à melodia simples e perfeita. A cada canto rasgado de Belchior, uma navalhada na alma. Quanta pureza, quanta afinação, quanta transparência, quanta emoção, quanta bagagem, carrega o cantor.

E após duas semanas de paralisia, resolveu tirar a poeira de seu violão e imitar aqueles acordes e aquele canto. Doce ilusão, quando percebeu então, que não era tão simples assim… os sentimentos de outros, não são para si… Violão pro lado e play no teclado, pois agora, eu quero Tudo Outra Vez.

por Miguelito Filosófico

ps.: Para ouvir Belchior – Um Concerto a Palo Seco, clique na figura 2 ou aqui

figura 1 retirada daqui

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