Discursos de direita

Posted: May 13, 2015 in Comportamento
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discurso“Ainda há muito espaço para criar gado no Brazil”
A frase foi dita numa conversa corriqueira, sobre preços, crise e situação do Brasil. Antes da afirmação do colega, eu havia dito que o gado já se tornara uma “praga”, que requeria muito espaço e que era contra a expansão da criação em prol de duas ou três empresas que lucram atualmente com a pecuária.
“Viajei para Chapecó esses dias, e daqui até lá há um sem-fim de terras inexploradas” (estávamos em Criciúma)
“Mas será que vale mesmo a pena usar essa terra toda para criar boi ou plantar soja? Queremos ser puramente exportadores de alimentos?” – perguntei.
Antes disso já havíamos falado sobre a difícil situação de mercado de empresas de autopeças e dos fornecedores de máquinas para estes; concluímos juntos, para minha surpresa, que fosse qual fosse o partido no governo, a situação não seria outra.

Eis que fomos interrompidos, por um dos participantes daquele almoço, interpelando uma mulher que passava entre as mesas, perguntando-a sobre a verba da obra do CAEP (foi uma sigla que não entendi, significando um centro de detenção provisória para menores).
Por não conhecer o assunto e estarmos numa mesa com outras seis pessoas, não me foquei aos detalhes, mas me atentei à frase seguinte.
“Devia é matar os delinquentes ao invés de prender!”
E outras como; “Viram que há menores aqui que já mataram oito, dez pessoas?” ou “Os vagabundos gostam da cadeia, pois são bem tratados, tem comida, local para dormir…”
A mulher alegou que não acreditava na melhora do cenário através da diminuição da maioridade penal, fazendo visível cara de descontentamento às afirmações de violência e descaso.
“Mas é muito dinheiro empregado nosso numa causa perdida. Não há recuperação!” – afirmava com veemência o mais “problemático” dos companheiros de mesa.
“E se os menores trabalhassem?” Tal frase criou um frenesi entre os presentes, que concordaram em ocupar presos adultos e juvenis. Lavoura, estradas e até as minas locais foram citados como exemplo.
Eu não sou contra, embora acredite que os menores possam ser treinados ou preparados profissionalmente. Sequer consegui colocar meu argumento. A senhora pagou e saiu, enquanto nosso interlocutor efusivo, falava sobre os prodígios dos EUA.

“Viram como a Colômbia está crescendo? É graças à intervenção americana lá. Eles estão acabando com as FARC, com a violência e há crescimento.”
Meu lado mais esquerdo coçou e, enquanto começava a montar na cabeça alguns argumentos, ele seguia.
“A Venezuela está uma bagunça. O Maduro e o PT acabaram com o país!”
Achei divertido a correlação, mas ainda tinha dúvidas se a pessoa tinha conhecimento ou só raiva.
“Por exemplo, os EUA poderiam ter invadido Cuba e acabado com a ditadura e o comunismo de lá se quisessem. Se eles entrassem na Venezuela, resolveriam o problema. E a Venezuela tem algo que os Estados Unidos querem: petróleo!”
Hein?!? Resolveriam o problema ou derrubariam o governo tomariam o petróleo que não é deles?
“Na Síria e Líbia, a situação está bem ruim, depois que o Kadafi caiu…”
“Mas quem colocou o Kadafi e outros ditadores africanos no poder?” atravessei perguntando, para tentar entender onde os argumentos nos levariam.
“Os Estados Unidos!”
“Ufa!”, pensei comigo mesmo aliviado e sorri restaurando a calma. “Não preciso mais levar o cara a sério…”
E, enquanto ele seguia explicando aos demais os excessos do ditador, que montou uma tenda numa conferência da ONU e só colocou mulheres como guardas, apareceu fardado e armado (segundo ele) na reunião principal, montei na mente uma série de perguntas cujas respostas não seriam tão diretas e não trariam sorrisos tão fáceis.

– O que faz a ditadura do Kadafi melhor que a ditadura cubana?
– Você tem ideia dos números sociais dos países do norte da África? Como IDH, educação, liberdades como cidadãos.
– Acha mesmo que os EUA intervêm num país ou governo em prol da liberdade, ou da população?

Respeito as pessoas de direita, que acreditam no capitalismo “romântico”, onde o desenvolvimento traz automaticamente uma “melhora geral”, pois coloca o dinheiro nas esferas superiores e estas “necessitam” das outras esferas para prestar serviços, quer sejam diretos (empregados, segurança) ou indiretos (o consumo emprega em lojas, restaurantes, shoppings)
Mas não consigo respeitar os que criticam a corrupção, mas assumem que fariam o mesmo se tivessem o poder; argumentam contra a distribuição de renda simplesmente porque os pobres agora têm smartphones ou carro zero e acessam os mesmos espaços antes restritos, como Cabo Frio ou Shopping JK.
Não dá pra analisar um assunto sob duas óticas distintas, usando sempre os argumentos mais interessantes naquele momento.

O almoço terminou e cada um seguiu o seu caminho. Por não sermos próximos, fiquei satisfeito por ter “segurado minha onda”, mas não resisti em “plantar” minha opinião no papo seguinte, durante a carona pro aeroporto, com um dos presentes.
Só recebi afirmativas concordando comigo…

por Celsão irônico

figura retirada daqui

Comments
  1. Vanessa says:

    Olha, há momentos em que eu tenho que respirar bem fundo porque escuto tanta bobagem, e pior, tanto ódio. Por exemplo (não tem muita relação com teu texto), ontem mesmo li um texto que uma moça dizendo que se pudesse viraria homem para oprimir as mulheres!!!

    Não sei viu, às vezes me parece que as pessoas só quererem colocar pra fora toda a raiva que sentem, toda a infelicidade, mesmo que não entendam o que causa isso…

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