Minha amiga e nossa leitora, Jéssica Pereira, escreveu um texto brilhante. Apesar de muito crítico, o texto consegue ser suave e capaz de nos tocar no cerne dos sentimentos: a alma.

Reproduzimos então o texto aqui na íntegra:

por Miguelito Filosófico

figura daqui


por Jéssica Pereira

Meritocracia_CriancaVocê nasceu, cresceu, seus pais trabalharam, você estudou, e hoje tem um emprego.

Espero que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, você possa pagar um jantar pra sua namorada.

Espero que sua namorada tenha um emprego.
E que vocês juntos decidam se casar.

Espero que vocês se casem. E com o suor que cai em vossos rostos, consigam se livrar do aluguel.

Espero que ao comprar uma casa, vocês tenham filhos. E que juntando os salários que você e sua esposa ganham, vocês sejam capazes de incluir seus filhos no plano de saúde. O inverno chegou e as crianças ficam doentes com mais facilidade. E nós sabemos que o SUS não presta.

Espero que seus filhos cresçam com saúde e entrem na escola. Mas que seus salários sejam suficientes para pagar uma escola e dar educação de qualidade, porque o ensino público não presta.

Espero que seu filho se forme e ingresse na universidade. Mas numa universidade privada, porque o ensino básico público não presta e não sei o que lhe faz pensar que a faculdade pública é diferente.

Espero que seu filho deixe a vaga da faculdade pública pra mim, porque meu pai é pedreiro no interior, e ganharia só um salário se não me deixasse sozinha o dia inteiro pra colocar comida na mesa da nossa casa. Eu sou uma criança e não posso trabalhar, é crime.

Espero encontrar alguém que me dê amor em qualquer esquina, porque discurso de ódio eu escuto sair da televisão. Tô crescendo “abandonada”. Meus pais me deixam sozinha, porque precisam me sustentar. Mas sou criança, e choro quando vejo mães com seus filhos de mãos dadas, enquanto a minha corta o cabelo da madame do bairro nobre.

Passei o inverno com pneumonia, o ensino da minha escola é ruim, e o meio que vivo não colabora. Eu sou pobre.

Enxugaram meus recursos básicos e vão torcer pra que eu não mate o teu filho. Na verdade, vão torcer pra que eu mate. É pra isso que alguém vai na mídia e te convence que prisão é a solução. Você tem grana pra pagar por saúde e por educação pro seu filho, o meu pai não. É pra isso que ele trabalha, porque ele sabe que eu, criança, tenho um futuro pela frente. O meu pai acredita em mim.

Lhe fazem – de mim – sentir medo, enquanto lhe arrancam todo dinheiro.

Mas espero que seu filho tenha um emprego, e que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, ele possa pagar um jantar pra namorada.

* Jéssica possui um blog filosófico-poético, que também não deixa de ter seu conteúdo intimista e crítico. Para interessados, segue o link AQUI

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