Archive for September, 2015

Há poucas semanas tive o privilégio de assistir a um show antológico: Caetano Veloso e Gilberto Gil, juntos, dividindo o palco. Isso aconteceu durante a turnê destes na Europa. Fui até Bruxelas para vê-los.

Bom, o que dizer desses dois ícones da música brasileira? Por mais que eu elogie, não passará de pura redundância. São maravilhosos! Suas vozes, um pouco desgastadas após longos 73 anos (ambos), porém com excesso de experiência, maturidade e doçura.
Caetano suave e elegante, Gil maroto e marcante, nada de incomum, muito de fascinante.
Ahhh, e como toca violão o Gil! Quanta ginga, quanta técnica, quanto domínio. Dá aquela “inveja boa” a qualquer mineiro que tem o violão como Hobby. Ali, na sexta fileira, a 10 metros deles, eu já estava no meu terceiro babador.

Levantaram-se, despediram-se, muitos aplausos. Gritos de “mais um”! Eles voltaram, tocaram mais quatro canções. Levantaram-se, despediram-se, aplausos e gritos de “mais um”. Era um pedacinho do Brasil em Bruxelas. O público não ia embora, e continuava gritando “mais um”.

E eles voltaram. Dava para ler os lábios de Caetano, ainda caminhando em direção ao seu banquinho, reclamando com o Gil e dizendo: “vamos tocar o quê? Não ensaiamos mais nada!” E então li Gil dizendo: “toque qualquer coisa sua e pronto!”… Caetano emburrado, Gil rindo à beça. Tocaram cada um mais uma, e aí sim, fim.

Bom, essa foi a parte bonita do show. Mas também teve uma parte feia, para meu desgosto, mas não para minha surpresa: o público.
Ao chegar ao local do evento, percebi um público bem mesclado, mais ou menos metade brasileiro e metade belga ou europeu. Cheguei com 30 minutos de antecedência. O show estava marcado para as 20:00. Às 19:45 sentei-me em meu lugar e esperei.

Já eram 19:55 e notei que muitos lugares estavam vazios. Às 20:00 a maioria dos lugares já estavam preenchidos, mas uns 15% ainda estavam vazios, e muitos deles nas fileiras de frente.

O show atrasou, e assim alguns ainda conseguiram chegar a tempo. Alguns espertões começaram a vir de trás e pegar os lugares mais à frente, que na cabeça deles estariam desocupados. Pensei com meus botões: pronto, isso não vai prestar…..
Quando Caetano e Gil apareceram no palco às 20:35 ainda haviam muitos lugares vazios, o que já começou a me incomodar, pois eu sabia que aquelas pessoas, principalmente as das primeiras fileiras (as mais caras), já já chegariam.

Bingo! Foi o show começar, as luzes se apagarem, e os atrasadinhos começaram a chegar. Uns às 20:45, outros às 21:00, normalmente em grupos maiores que 4 pessoas, o que sempre gerava um alvoroço, pois os seguranças tinham que acompanhá-los até seus lugares, com lanternas que quebravam o clima do show. Chegando aos lugares, precisavam convencer os espertalhões que pularam para a frente a voltarem para seus lugares, para então poderem acomodar os atrasadinhos. Cada grupo que chegava, eram 3 a 8 minutos de barulho, luz de lanterna, e cabeças na frente. Notava-se que o idioma entre eles era, em sua maioria, o português.

Os campeões chegaram às 21:35, 1 hora e 35 minutos após o horário marcado para começar o show!!! Fala a verdade, tem que ser muito cara de pau, não?

Em paralelo, a cada 5 minutos passava alguém agachado, ia lá para debaixo do palco com o pretexto de tirar aquela foto especial, e aí, “como já estava ali mesmo”, sentava-se no chão, pertinho do palco. Aí vinha o segurança com a lanterna, e pedia para a pessoa voltar ao seu lugar. E assim foi durante todo show, até que os seguranças perderam o controle.

Quando Caetano e Gil despediram-se pela primeira vez, o público levantou-se para aplaudi-los. Ali na frente havia dezenas de pessoas agora, em pé, tirando suas fotos e fazendo seus filmes, e tampando a vista de todos os que estavam sentados em suas cadeiras. Os dois voltaram, e essa galera não mais se sentou ao chão, ficaram de pé, na frente do palco, enquanto todas as outras cerca de duas mil pessoas estavam sentadinhas em seus lugares. Então começaram os gritos de “senta aí”, “abaixa”, “senta por favor, não estou vendo nada”…

Caetano_Gil_Civilidade
A senhora ao meu lado, de uns 70 anos, sozinha, belga, estava apavorada com aquele comportamento. Obesa, levantou-se e pediu com toda sutileza que se sentassem. Foi ignorada.
Então foi minha vez, não tão sutil assim, somente mantendo a voz baixa para não atrapalhar o espetáculo. Com muito custo eles se sentaram. E assim, aqueles que pagaram pelo direito de estar mais perto dos artistas puderam assistir as últimas 2 canções sem maiores aborrecimentos.

Isso se chama “civilidade”, ou a falta dela. Mas eu, como incansável sonhador, acredito que nossa sociedade brasileira chegará lá, num futuro próximo.

por Miguelito nervoltado

figura retirada daqui

borussia-dortmund-hannover-96-0-1Eu não queria colocar nenhuma das figuras tristes e drásticas dos acontecimentos recentes para dar uma ênfase dramática ao assunto. Mesmo descobrindo ser bem difícil encontrar uma figura que não seja trágica sobre o tema.
Apelei para o futebol…
Quer seja entrando na Grécia, quer seja invadindo o Eurotunel para Londres, em barcos apertados no Mediterrâneo tentando entrar na Itália ou mesmo embarcando em ônibus no Acre para chegar a São Paulo, inúmeros são os refugiados que saem de seus países forçadamente, fugindo de perseguições políticas, religiosas ou mesmo de guerras.

E para os que de prontidão são contra, mostrando uma detestável xenofobia, friso que é forçosamente que as viagens desses refugiados ocorrem. Não são férias, nem aquela oportunidade que muitos têm de vivenciar uma experiência noutro país e voltar enriquecido culturalmente. Impossível também comparar com os que migram em busca de melhores empregos e condições financeiras, como o exemplo dos nordestinos que vão para São Paulo ou os brasileiros de todas as partes que foram para Brasília nos anos 60; esses tinham família e lar em outras partes e podiam com uma simples ajuda de um bilhete de ônibus ou avião, voltar para o aconchego de parentes e conhecidos.
Os refugiados deixam para trás o seu passado, sua profissão e suas crenças; abandonam a família, o idioma e a própria cultura por correrem real perigo de vida. Por estarem á mercê de uma Guerra Civil, de uma invasão terrorista, de Boko Haram’s e Estado Islâmico’s. Não é comparável às tentativas de cruzar o mar do Caribe em balsas como fazem os Cubanos, ou a fronteira do Texas com “coiotes” que levam Mexicanos e outros latinos ao sonho americano… É sair para não morrer, sabendo que o tentar e falhar, mesmo morrendo no caminho, é melhor que o ficar e esperar o sofrimento sem fim.

Acho que todos já leram distintas notícias que circulam pela rede nesses tempos. O que me chocou numa delas foi saber que apenas uma pequena parcela é a que aparece na mídia, pois é a que cruza grandes distâncias. Por exemplo, a maioria dos Sírios se refugiou da guerra interminável dentro do próprio país e nos países fronteiriços como Jordânia e Líbano. O caos Sírio tem mais de cinco anos e segue indefinido, pois contra as forças do presidente Bashar Al-Assad, lutam rebeldes contra o regime ditadorial e, contra ambos, está o “califado” terrorista do Estado Islâmico.

Todos também leram que os países mais buscados pelos que enfrentam as largas distâncias são Alemanha, França e Reino Unido. E a razão é clara: oportunidade.

No capitalismo perfeito, a concentração de renda gera “lacunas” de necessidades que os “já ricos” não querem executar e aceitam pagar por isso. E é nessas lacunas que os pobres recém-egressos ao sistema se encaixam perfeitamente: cozinheiros, garçons, babás, lixeiros, pedreiros, empregados domésticos estão na base da pirâmide e só por isso (lembrando que estou falando idealmente), aceitam estes empregos. O pós-guerra europeu recebeu vários povos que se mesclaram aos desenvolvidos pela falta de mão-de-obra e também em busca dessas oportunidades.
Porém ao mesmo tempo, provocativamente falando, o capitalismo perfeito não possui assistencialismo; já que as oportunidades apareceriam independentemente do Estado…

Podemos discutir se o sistema de cotas proposto pela Chanceler Angela Merkel é justo, principalmente para os países “pobres” da zona do Euro (notícia aqui). Só não acho correto discutir o fechamento das fronteiras e alguns argumentos absurdos de perda de empregos ou violência iminente… vale lembrar que muitos dos países europeus financiaram e financiam, junto aos Estados Unidos, as guerras separatistas, os regimes totalitaristas e indiretamente (ou não) o terrorismo advindo desses regimes.
Promover a paz nos países dos refugiados certamente levaria muitos destes de volta ao lar. Negar assistência a essa gente é negar o passado bélico, é deixar de ser humano. Um milhão de pessoas representa menos de 1,5% da população alemã hoje. É muito se pensarmos no número como um todo, mas muito pouco proporcionalmente. Ignorar o fato e bloquear os acessos, como tentaram fazer os ingleses no início da onda migratória, é impossível!
(pra quem não leu, seguem dois posts nossos relacionados com o tema aqui, onde Merkel responde diretamente a uma menina sonhadora Palestina e aqui, onde um conto aborda ludicamente o assunto).

O desejo aqui é que sejamos mais abertos e menos xenófobos. Que abramos um sorriso àquele garçom negro que nos atende com sotaque, àquele taxista… que os respeitemos e busquemos aprender com eles.
Termino com duas indicações de leitura. A primeira é a estória de um refugiado Sírio, professor, que trabalhou na Copa do Mundo graças à ajuda de um bom coração – aqui. E a segunda apresenta opções de ajuda a esses refugiados, seja no Brasil ou no exterior, pra quem quer sair da página 2 (link aqui). Detalhe: nas entidades e ONGs aparecem outras entidades e ONGs.

por Celsão correto.

figura “positiva” retirada daqui. Foram muitas as torcidas alemãs de futebol que fizeram faixas pró-refugiados.

 

pirata_downloadMuitas vezes tenho ideias tipicamente utópicas e impraticáveis, classificáveis como “revoltadas”, se tomarmos o pensamento linear da maioria.
Nesse post eu reuni quatro delas discorrendo rapida- e rasamente sobre os possíveis efeitos benéficos das ideias.

1) Redução da taxa de juros para 5% ao ano.
Aqui a proposta é quase uma aposta com o empresariado e com os “especialistas econômicos” que pregam que o aumento da taxa básica de juros freia o desenvolvimento e só atrai capital especulativo.
Não há como negar que juros altos direcionam os investimentos para os bancos e não para a produção industrial; mas ao mesmo tempo muitos defendem que um controle eficiente da inflação se dá através da redução de demanda, e esta é bem efetiva com aumento de juros. Ou seja, há uma “escola” na economia, uma “doutrina”, que defende os juros altos para manter a inflação em patamares razoáveis; além de outros pontos, como a manutenção de reservas em dólar (ou noutra moeda forte)
Minha ideia para o governo é “radicalizar”, reduzindo a taxa por um período de teste (de seis meses por exemplo), vinculada ao aumento da atividade industrial e consequente redução dos lucros bancários.
Os empresários não reclamam que os juros altos os atrapalham? Veremos como se saem com eles a quase um terço do valor atual!

2) Impostos para as montadoras proporcionais à margem aplicada
O setor automotivo está entre os que mais reclamam dos “altos impostos” e é o primeiro a demitir numa crise.
Algo inédito para eles são promoções. Não aquelas onde um ano de garantia é dado, sempre dependente de caras revisões nas concessionárias, ou aquelas em que um jogo de tapetes, um rádio ou a pintura metálica são oferecidas. Nunca vi uma real redução de preço, promoção daquelas comuns no comércio ou em linhas de produtos, como eletrodomésticos.
Proponho uma diminuição dos impostos incidentes nos veículos. Mas proporcional ao lucro obtido na venda.
As montadoras abrem a planilha de custos para o governo, sem máscaras, e quanto menor a margem, menor o imposto (ex. IPI) a ser recolhido. Uma mão lavando a outra!
Uma segunda “etapa” poderia taxar proporcionalmente os lucros dos banqueiros…

3) Redução verdadeira de cargos comissionados
Quando o governo fala em redução de gastos, sabe que há um limite para isso e sabe também “onde” é possível se fazer a redução.
Muitos órgãos, como os ministérios, tem 75% dos gastos com folha de pagamento. E a grande maioria dos empregados passou por concurso público e não pode ser demitida sem justa causa. Ou seja, não é puramente reduzindo o número de ministérios e ministros que surgirá a desejada redução de gastos públicos.
Obviamente as despesas de gabinete, viagens, carros, etc., serão sempre proporcionais ao número de ministros e, sim, serão reduzidas. Mas não o suficiente.
Proponho a redução drástica no número de funcionários indicados, os chamados “comissionados”. Algo como 50% ou eventualmente mais. Manteria apenas alguns especialistas, essenciais ao funcionamento das pastas. Demitir mil num universo de 120 ou 140 mil sequer elimina os “encostados”…

4) Teto para as aposentadorias
Ué… Mas já não há teto nas aposentadorias?
Sim, claro. Para a iniciativa privada.
Porém militares, juízes, políticos e até professores universitários têm sua aposentadoria integral, não importando o valor calculado no momento da aposentadoria. Daí vêm valores absurdos, acima de R$30mil, que oneram a previdência e premiam uma pessoa que já acumulou em vida bens e valores suficientes para desfrutar o merecido descanso.
Pode parecer radical e “esquerdista” demais, mas “um teto para todos” (parodiando um programa social) é ao meu ver o mais justo e algo que daria fôlego ao sistema vigente.
“É um bem adquirido! É algo imutável…” – podem dizer alguns.
“Lamento. Mas acaba hoje!” eu responderia. E poderia até completar romanticamente “para o bem da Nação!”

por Celsão revoltado

figura retirada daqui