Archive for November, 2015

CarlHartÉ incrível a quantidade de pequenas coisas que reparamos quando nos prestamos a atentar melhor aos detalhes.

A “Semana da Consciência Negra” que pode ser expandida ao mês ou resumir-se ao dia vinte de novembro, me fez apreciar bastante os caprichos dos atos humanos.
Tudo começou num almoço, em que dois colegas de trabalho argumentaram não existir racismo no Brasil, que não passava de “produto da TV”. Exemplos daqueles esdrúxulos e batidos foram usados, como o do “o primo do cunhado do meu pai é negro”, que todos os negros conhecemos; como se o ter convivido com negros no passado tivesse o poder de bloquear o racismo.
Respirei fundo e decidi somente ouvir; decidi há algum tempo escolher as lutas a lutar, e pelo perfil dos que me falavam e pelo modo como os argumentos foram colocados no início, seria apenas stress pra mim.

Enfim, saí de lá determinado a experimentar o racismo, a testar novamente constatações que conheço há muito tempo; como ser seguido por seguranças no Shopping Iguatemi em São Paulo, desde a adolescência, talvez por “afrontar” os transeuntes com minha cor (detalhe interessante, os seguranças são majoritariamente negros).

Primeiro resultado: eu continuo assustando madames quando atravesso a rua em direção a elas; fiz isso sem intenção, fora da faixa por estar apressado, e uma senhora loira apertou sua bolsa contra si e passou a caminhar olhando para o chão.
Sigo despertando curiosidade em encontros comerciais, principalmente no primeiro encontro, quando o parceiro nota que sou engenheiro e tenho conhecimento sobre os assuntos com os quais trabalho.
Ainda sou visto com extrema estranheza quando seleciono cerejas ou vinhos no Pão de Açúcar, Marché ou outros mercados da classe A.
E pra completar, ao esquecer um brinquedo do meu filho na lotérica perto de casa, causei um alvoroço inimaginável na fila, por entrar quase correndo e buscar o item em cima das mesas de aposta. Como resposta, mostrei aliviado a peça por mim recuperada.
Alguns estudiosos dizem que o dinheiro muda a sua cor, pois muda o modo como a sociedade o vê.
Concordo bastante com a afirmação, pois… independente da minha condição econômica atual (costumo dizer que sou rico – veja aqui), o meu “branqueamento” é limitado e só os que me conhecem podem negar minha negritude.

Pra sair um pouco do tom “racismo”, quero aproveitar a figura recebida no WhatsApp e confrontar outras realidades.

opressorVocê, branco e rico, consegue se colocar no lugar de uma mulher e compreender parte do que ela passa? Aquelas piadas que insistimos em disseminar, até quando elas estão escutando, as insinuações, acusações, ironias… Conseguiria passar pelas humilhações e pelos testes que elas enfrentam todos os dias?
Será que nós homens difundiríamos a asfixia do machismo se estivéssemos no lugar delas?

E em relação aos gays ou transexuais? Difícil, não?
Nordestinos, ex-presidiários, deficientes… Como termos consciência das dificuldades e (muitas vezes) do sofrimento que estes passam para ascender ou “vencer na vida”?

Proponho algo um pouco diferente de um post feito há quase dois anos (aqui); proponho o exercício da discussão, da preparação dos jovens para a sociedade machista e preconceituosa que devem encarar e conviver. Algo semelhante ao que o Miguelito Formador fez dois anos atrás, um dos posts mais lidos deste blog (aqui): discutir e se policiar, sempre!

Explicando a primeira figura do post: ela pertence ao professor americano Carl Hart, da Universidade de Columbia. Quando ele esteve no Brasil, em Agosto passado, causou confusão por ter sido supostamente barrado no hotel cinco estrelas que palestraria (notícia aqui).
Mas mesmo com o episódio desmentido, uma de suas entrevistas me chamou a atenção exatamente pelo fato do professor “se enxergar” de fora do problema racismo, compreendendo-o.
A entrevista toda está disponível aqui (atentar para a nota de esclarecimento) e no youtube aqui. Separei o trecho que queria destacar em upload aqui embaixo:

(como as legendas não apareceram, segue abaixo a tradução do trecho, feita pelo Estúdio Fluxo no youtube)

Na minha fala, eu tentei encorajar as pessoas,
sem ligação com o evento que supostamente aconteceu comigo,
pensar em como usamos a política de drogas
para perpetuar a discriminação racial.
E sobre esse evento… Eu espero que a gente supere
e foque no que realmente importa: os negros do Brasil
que são discriminados todo santo dia.
Não um professor burguês
que se hospede em hotel de cinco estrelas.
Isso não é uma questão. Isso não é um problema.
E receber todas essas desculpas.
Sim, eu não preciso de desculpas e apoio. Nós precisamos apoiar essas pessoas do dia a dia.
Uma das coisas que eu aprendi com esse evento
é que não sou mais um homem negro comum.
Se eu fosse, ninguém se importaria com o que aconteceu comigo.
Então que tal a gente se preocupar com as pessoas comuns e não comigo?

Pra terminar, algo do meu lado romântico (que sempre aparece):
Que possamos assumir todos os nossos pré-conceitos; quer seja com o mendigo que dorme ao léu, com o porteiro do prédio, com a colega de trabalho. E que a partir daí, se houver a possibilidade, que conheçamos as estórias e que peçamos desculpas, caso os tenhamos ofendido/discriminado.
Que expliquemos para as próximas gerações, abertamente, os preconceitos que carregamos.
E que tenhamos oportunidade e coragem de “consertar” o estrago já realizado.

por Celsão correto

primeira figura retirada daqui; segunda vinda do WhatsApp, mas também disponível em outras redes sociais, por exemplo, aqui

P.S.: pra quem quiser, um teste esdrúxulo sobre o “nível de opressor” pode ser encontrado aqui

Síria_FrançaA Roda Viva da história vai girando, causando perplexidade e assombro nos incautos. Para quem conhece – só um pouquinho – a história do Oriente Médio, o cenário atual, o mais complexo das últimas décadas, não causa assim tanta estranheza, ainda que grupos como o ISIS verdadeiramente nos assustem.

Ora, a região vem sofrendo com as intervenções políticas e militares desde o colapso do Império Otomano. Num breve resumo, assistimos:

– O 1º ministro Mossadegh foi derrubado do Irã, em 1954, por nacionalizar a indústria do petróleo. Sua queda deu poderes ilimitados ao monarca Reza Pahlavi, que erigiu um regime corrupto, anti-nacional e tirânico. Em 1979 ele foi deposto por Khomeini, que liderou a revolução Islâmica
– Nasser, presidente Egípcio e pai do Pan-Arabismo, também sofreu sabotagens das potências ocidentais. Viu o canal de suez ser invadido em 1956 por Franceses, Ingleses e Israelenses quando decidiu nacionalizar o canal. Se seguiu um bloqueio político e econômico que o forçou a buscar assistência técnica com os Soviéticos. Após a derrota em 67, na guerra dos 6 dias, viu seu poder minguar até que a morte o encontrou, em 70. Foi substituído por Sadat, militar de carreira, que levou a cabo a guerra de 73 contra Israel. Foi assassinado em 81 após, em tese, ter obtido um acordo com os Israelenses em 78. Seu assassinato possibilitou a subida de Mubarak, um dos mais corruptos líderes políticos da região, que mergulhou o Egito no caos e na pobreza. O Egito se tornou peça chave da geopolítica ocidental na região. A pobreza possibilitou o fomento de grupos fundamentalistas, que arrebanhavam jovens cansados da pobreza e da falta de perspectivas. A irmandade muçulmana venceu as eleições de 2012, após a queda de Mubarak, mas foi destronada poucos meses depois por um golpe militar.
– O Baathismo Sírio e Iraquiano, secularista, nacionalista e de tendências socialistas, inspirado na revolução modernizadora Turca, levada a cabo por Ataturk, manteve durante décadas as pressões internas de grupos distintos, em busca de unidade e lealdade ao poder central. Os Americanos destruíram o Iraque, levando-o para uma guerra sem sentido com Irã (1980-1988), e, falido pelos empréstimos contraídos durante a década passada (insuflado pelos americanos e sauditas), comete o erro de invadir o Kwait em 1993. O estado Iraquiano virtualmente acaba com a invasão americana de 2004.
– E temos assistido, no presente atual, o flagelo Sírio.

Ou seja, o ocidente minou e sabotou as experiências nacionalistas e seculares na região e fomentou (direta ou indiretamente) o surgimento de grupos fundamentalistas (como o ISIS) que arregimentam jovens cansados da pobreza e desacreditados da política.

Veja o caso Palestino. Arafat, filho político de Nasser, foi, durante sua vida, quase uma obsessão da política externa Israelense, que o tratava como terrorista. E quando este cria a gênese do estado palestino, chamado de “autoridade”, Israel torna o seu governo algo virtualmente impossível. Com a queda da OLP, surge o movimento do Hamas, religioso e fundamentalista. O Fatah, herdeiro da OLP e laico na sua essência, continua recebendo ataques israelenses.

Além disso, a Arábia Saudita, cuja família real governa o país com mão de ferro, violando várias leis internacionais de direitos humanos, é a virtual financiadora desses grupos radicais, além de inimiga de primeira ordem do Irã, Xiita e Persa. Aliás, a Arábia Saudita se converteu no GRANDE ALIADO do ocidente na Região.

Falem o que quiserem do Irã, mas ele sempre se portou com um agente geopolítico previsível, constituindo uma teocracia complexa e contraditória, mas previsível, e até certo ponto, responsável. Mesmo seu apoio ao Hezbollah é compressível, considerando que o Irã vive quase um cerco geopolítico e militar desde a revolução islâmica, em 79.

O Ocidente praticamente LEVOU O ORIENTE MÉDIO para o estágio atual de violência e caos, terreno fértil para o fanatismo religioso que despreza o diferente, resultado da frustração e do ódio de décadas e décadas de atrasos, interferências e interrupções dos processos históricos nacionais.

O ISIS é a resposta caótica e violenta da história.

Uma hora a conta chegaria. Chegou.


Este texto é de autoria de Rene Guedes, e foi publicado originalmente em seu facebook.

Clique AQUI para assistir um excelente vídeo sobre a história do Oriente Médio. E AQUI para entender quem, como e porque financiam os grupos rebeldes da Síria. O primeiro vídeo tem somente 10 minutos, e o segundo 14 minutos. Ambos cabem muito bem como complemento e como forma de ilustração ao texto de Rene.
Figura retirada do primeiro vídeo indicado acima.

por Miguelito Formador

Seca_Ubá_02_AUbá fica na Zona da Mata mineira. É minha cidade natal, onde mora a maior parte de minha família e onde tenho a maioria dos meus principais vínculos afetivos.
Ubá sofre atualmente uma grave crise hídrica, ocasionada por um longo intervalo de pouca chuva, maximizado pelo desmatamento e não preservação de suas nascentes. E para piorar, a empresa de tratamento de água da cidade, a Copasa, assim como as últimas décadas de gestões da Prefeitura e da Câmara dos Vereadores, pouco, ou nada investiram na rede de captação e distribuição de água na cidade nos últimos 30 anos, e não se precaveram com backups e planos B para eventuais momentos emergenciais, como agora.
Também nada foi feito para o tratamento do esgoto que cai no rio que corta a cidade, ferindo as narinas, os olhos e alma de quem passa na principal avenida de Ubá.

Esse texto foi inspirado por esta situação lamentável pela qual passa nossa Cidade Carinho!


– Vô, cadê a mamãe?

– Luquinha, acho que ela foi ao shopping. Por quê? O que você está precisando?

– É que hoje na aula o professor estava falando sobre clima e relevo. Depois no fim ele sugeriu alguns temas para trabalho, separou a gente em equipes, e cada equipe escolheu um trabalho. Eu convenci minha equipe a escolher o tema “deserto”, pois a mamãe já contou algumas histórias sobre deserto para mim.

– Clima e relevo, com 8 anos de idade? É… os tempos são outros mesmo! O que sua mãe te falou sobre deserto?

– Ah, sempre quando ela lembra da infância dela, ela fica triste, e fala: “Se não fosse a maldita seca, e nossa cidade carinho não tivesse virado um deserto, a gente estaria lá até hoje, e a sua avó ainda estaria aqui entre nós.”

– Luquinha, sua mãe tinha 6 anos quando eu precisei sair de Ubá. Ela tem boas recordações, pois era menina, já as minhas recordações são bem diferentes. Se você quiser, eu te conto.

– Sim, eu quero.

– Na época que papai, o seu bisavô, era criança, o Rio Ubá, que cortava a cidade, era limpo e as crianças brincavam dentro da água. A cidade era arborizada, e tinha muitas fazendas ao redor. Numa dessas fazendas moravam papai e mãezinha, seus bisavós, e eu com meus irmãos.

– Quando você era criança ainda dava para nadar no rio?

– “Risos”… não, meu filho, não… já naquela época quase ninguém tinha coragem de entrar no rio, que já era cheio de esgoto.

– Quando foi isso, vô?

– Vixi, isso que estou contando foi lá por volta de 1985. Quando seu bisavô nadava no rio ainda era década de 50. A gente tinha sorte, pois nossa fazenda era perto da nascente do Miragaia, a principal nascente que compunha o Rio Ubá. A gente andava meia hora e já dava pra nadar!

– E o que aconteceu depois?

– Bom, eu acabei ficando com a fazenda. Casei com sua avó, e juntos tivemos sua mãe e sua tia Marta. Sua mãe nasceu há 45 anos, em 2014, ano de festa, pois foi Copa do Mundo no Brasil. Mas a situação de Ubá já estava ruim naquele ano, e parece que a partir dali foi uma bola de neve!

– Como assim bola de neve?

– Veja bem, Luquinha. O Rio Ubá, desde antes de eu nascer, foi sendo cada vez mais judiado. A cada ano era mais esgoto sem tratamento que era jogado lá dentro. Além disso, a atividade industrial e a agropecuária foram crescendo na cidade. As indústrias e os fazendeiros começaram a desmatar tudo quanto é floresta, para abrir indústria, ou para criar gado, ou plantar as coisas.
Esse povo começou a desmatar também perto das nascentes, e sem vegetação a terra absorve pouca água, e as nascentes começam a secar. Veja: cidade crescendo significa mais esgoto; gente desmatando significa menos água. O resultado foi um rio cada vez mais seco, e mais porco.

– Credo vô, mas ninguém fez nada para salvar o rio não?

– Muito pouco meu filho, muito pouco. E o pouco que foi feito, foi feito tarde demais.

– Mas é por causa disso que vocês tiveram que sair de Ubá?
Seca_Ubá_01_A

– Não. Saímos, por causa da seca. Ubá ficava numa região, onde, de vez em quando, o inverno era muito seco. Porém, enquanto a natureza estava equilibrada, a região conseguia se recuperar desses picos, as plantas voltavam a nascer, as nascentes enchiam novamente. Porém, a falta de consciência do povo, junto com a falta de providências e planejamento do Poder Público e da empresa que era responsável pela água, tirou o equilíbrio da região. Bastou acontecer um ano ruim de chuva, e tudo desandou!

– Como assim?

– Não choveu por meses… o pouco que chovia, a terra não absorvia, a água caía e ia embora. A pouca vegetação que restava começou a morrer de sede. As nascentes secaram de vez! O Rio Ubá era só esgoto, mais nada! Sem água nos rios e nascentes, pouca evaporação, o que gera menos nuvens e ainda menos chuva. É um ciclo vicioso! Seca gera mais seca! Sem nuvem, e sem água, o Sol ardia na nossa cabeça.
Os dias com 40 graus ou mais passaram a ser cada vez mais constantes.

Pra piorar a situação, a empresa de tratamento de água passou décadas sem investir direito na cidade. A cidade se tornou quatro vezes maior, mas a empresa nada fez para aumentar sua capacidade de armazenamento e distribuição. Ali tinha uma confusão de contrato com a prefeitura, contrato feito na época que eu era criança eu acho, e era um negócio complicado, cheio de detalhes sacanas e acordos políticos. E enquanto os políticos e empresários se perdiam em burocracia, o povo morria de sede.

– E o povo, vô?

– Tudo foi virando um caos. Gente reclamando, casas há mais de um mês sem água. Aí, a pouca água que chegava nas casas, começou a chegar contaminada, hospitais sem a devida higienização, escolas sem água nos banheiros, e assim começaram as epidemias. Numa dessas, sua avó nos deixou. Era setembro de 2020, começo de primavera e temperaturas na casa dos 42 graus. Eu buscava água na cidade, pois todas as 15 nascentes do nosso sítio estavam secas. A água daquela vez estava contaminada, e sua avó pegou uma bactéria. Dois dias depois ela se desidratou, por causa do calor e da bactéria, e acabou falecendo.

– Que triste, vô!

– Poucos dias depois todas nossas coisas estavam empacotadas, peguei o nosso carro, e um amigo ajudou com a Kombi dele, e nós viemos para Caxambu. Diziam que era a Cidade das Águas! Prometi para mim mesmo que não sofreria mais por falta d’água! “risos”

– Então foi assim que a gente veio parar aqui, legal! Mas e o que aconteceu com Ubá?

– Luquinha, menos de 10 anos depois Ubá virou uma cidade fantasma. As famílias se foram, e a história da cidade se diluiu. O pouco que sobrou, está na cabeça das pessoas que viveram lá, e em alguns acervos de livros de alguns que se dispuseram a conservar a história. Hoje em Ubá, e num raio de 20 km ao redor da cidade, chove no máximo 30 vezes ao ano. Normalmente são pancadas de chuva, e a terra não absorve nada.
O Rio Ubá virou um longo buraco vazio. A cidade parece um caldeirão, com destroços de casas abandonadas, caindo aos pedaços, e temperaturas acima dos 40 graus no verão. A antiga Mata Atlântica deu lugar a uma vegetação semiárida, tipo a Caatinga. Sabia Luquinha, que a maior parte dos desertos do mundo já foram florestas um dia?

– Uai, não sabia não.

– Pois é. Esse é um processo natural, que acontece às vezes mesmo sem a interferência do homem. Porém, com a interferência do ser humano, esse processo passou a ser cada vez mais comum. Nós aceleramos mudanças que aconteceriam em séculos, milênios, ou talvez nunca, e fazemos com que elas aconteçam em poucas décadas. Ubá é um exemplo disso!

por Miguelito Formador

Para quem ficou interessado sobre os assuntos seca, desertos, e o resultado da interferência do homem na natureza, segue um sequência de links-referência:

  1. Um fenômeno provocado pelo homem que ameaça todo o Planeta: AQUI 
  2. Descubra como se formam os desertos: AQUI
  3. Como surge um deserto: AQUI
  4. Formação e Transformação do Relevo: AQUI
  5. Transformação das paisagens naturais pelo homem: AQUI
  6. Desertificação: AQUI

* Este mesmo texto, com pequenas variações, foi publicado no jornal Gazeta Regjornal, de Ubá-MG. As fotos foram fornecidas pelos editores do jornal. 

Cunha_Repatriação_02Deus é amor.
Deus é compaixão, solidariedade, Deus é caridade, desprendimento, é fazer para os outros o melhor, é amar o teu próximo como a ti mesmo; Deus é abnegação, é deixar o seu em prol de um bem maior, é pensar na comunidade, no povo de Deus!

Mesmo para aqueles que não confessam uma religião, mesmo para os que não acreditam em Deus, mesmo aos que são avessos a crenças; imaginar um crente, um cristão com as características acima, não é difícil, idealmente falando. E seguir o exemplo D’Ele (de Deus) é o esperado pela assembléia que congrega a mesma fé.

Não sou contra religião alguma. E acho interessante a laicidade declarada do Estado Brasileiro, dando liberdade de religião a todo cidadão. Tampouco condeno, sob qualquer forma, o acúmulo de riquezas que foi uma das razões do surgimento do protestantismo; enfim, acho que todo aquele que produz algo e recebe pelo seu trabalho, deve escolher quando usufruir do seu dinheiro.

Muito bem.
Me pergunto há algum tempo qual seria o Deus do Sr. Eduardo Cunha.
Ele mente, manipula, engana, inventa, transgride. Dá entrevistas afirmando, por exemplo, não possuir conta no exterior. Sua declaração de imposto de renda (aberta ao público por conta da candidatura) não atesta os valores encontrados na Suiça.
A estória muda e passa a usar o nome oblíquo de trust para a titularidade das contas encontradas! Pois é… ele possui mais de uma conta fora do Brasil! Mas mesmo assim ele segue dizendo na imprensa que aquilo não lhe pertence, ao melhor estilo Maluf, da clássica: “Essa assinatura é minha, mas não fui eu que assinei”. Cunha usou: “A conta possui o meu nome, mas não sou eu que a manipulo, não a movimento”.

Agora novamente essa mentira caiu. Uma procuração enviada por autoridades suiças mostra que o próprio Cunha possui plenos poderes de movimentação da conta. (link aqui)

E, como se não bastasse, Cunha a seu modo maniqueísta e manipulador; contando obviamente com seu apoio costumeiro na casa, conseguiu aprovar (pasmem!) uma absurda lei de repatriação de dinheiro ilegal no exterior!
Quer dizer que o dinheiro dele, surgido sem explicação plausível no início de Outubro (aqui), negado e disfarçado de trust após novas denúncias e, muito provavelmente, criminalmente condenável no futuro próximo poderá ser trazido de volta? SIM!
E o absurdo maior pra mim é que a lei vem com anistia a crimes como: lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, evasão de divisas, falsificação de identidade e documentos para manipulação de câmbio, etc.
Ou seja, se você, deputado pilantra, político corrupto ou empresário inescrupuloso sonegou impostos, pagou salários e propinas para um “laranja” com identidade falsa e usou os paraísos fiscais para mandar os seus dólares, euros ou francos suíços… basta pagar 15% de imposto e outros 15% de multa… aproveitando que a moeda aqui se desvalorizou na mesma proporção.
Cunha e toda a gentalha pode trazer a grana da aposentadoria de volta, sem que sejam considerados criminosos, numa boa taxa de câmbio e com a desculpa perfeita de ajudar o governo a aumentar a arrecadação de impostos! (aqui uma matéria com vídeo do resultado da votação, explicando a proposta absurda)

Não fosse só isso, retomando o ponto da religião, surgiu também nos últimos dias uma declaração de apoio a Cunha, vinda de partidos da chamada “bancada evangélica”, como o PSC (Partido Social Cristão), cujo líder na Câmara, deputado André Moura, foi o leitor da nota.
Pois bem… Aqui temos aqueles que só querem manter Cunha para que ele tire Dilma, como declarou o Solidariedade através do deputado Paulinho “da Força”; temos os que “seguem o fluxo”, como o PMDB; mas temos os que estão apoiando Cunha pelo simples fato dele ser “de bem”, “um homem de Deus”…
Mais uma vez pergunto: que Deus é o dele?

por Celsão revoltado

P.S.: figura retirada do vídeo citado acima, sobre a aprovação prévia da lei de repatriação

Post_SA_HinoNelson Mandela, ou Madiba, como era chamado por muitos (principalmente pelos negros), era um homem exemplar.
Diferente de seres humanos “normais”, que deixam mágoa, orgulho próprio e conceitos pré-concebidos tomarem o controle assim que ascender ao poder, Mandela esqueceu-se propositalmente de sua negritude e uniu o povo de seu país, criando um governo para todos os sul-africanos.
“Tá bom, Celso. Essa estória todos conhecemos; até aqui, nenhuma novidade”.

Pois bem, fui gratamente surpreendido ao assistir à semifinal do campeonato mundial de rugby no mês passado. E a surpresa veio no momento do hino sul-africano.
O que me surpreendeu foram grandalhões brancos (e negros também), abraçados e entoando Nkosi Sikelel’ iAfrika (Deus abençoe a África) a plenos pulmões.

Para quem não conhece, a canção, em idioma Xhosa, foi considerado por algum tempo hino da África negra e foi também hino oficial de países como Tanzânia, Zimbábue e Namíbia. Na época do Apartheid, na África do Sul, a canção era o cântico do Congresso Nacional Africano (ANC) e, obviamente, considerada subversiva pela minoria branca naquele país.
O que os brancos da África do Sul cantavam à época? Die Stem van Suid-Afrika (A voz da África do Sul). As letras são distintas, a “negra” é mais emotiva e espiritual; a “branca” tem um som de marcha, de conquista. Os modelos e exemplos eram distintos, a começar pelos idiomas completamente diferentes.

E estava eu, boquiaberto e arrepiado, ouvindo aquela equipe de rugby cantando aquele hino em Xhosa… E a letra mudou; ou melhor, o idioma mudou e passou a parecer-se com o Alemão… Mais uma estrofe e parecia que eu estava ouvindo Inglês!

Aí está a sagacidade, a “travessura” de Madiba.
Ele uniu os hinos, símbolos nacionais, acrescentando outros idiomas falados no país. Genial!
O resultado e uma tradução livre, feita por mim, estão na tabela abaixo. Baseei-me no link da Wikipedia (aqui)

Idioma Letra Original Tradução em Português
Xhosa Nkosi sikelel’ iAfrika
Maluphakanyisw’ uphondo lwayo,
Deus abençoe a África
Permita que seu chifre (seu símbolo) seja elevado
Zulu Yizwa imithandazo yethu,
Nkosi sikelela, thina lusapho lwayo.
Ouça igualmente às nossas orações,
Deus nos abençoe, nós somos a sua família (África).
Sesotho Morena boloka setjhaba sa heso,
O fedise dintwa le matshwenyeho,
O se boloke, O se boloke setjhaba sa heso,
Setjhaba sa, South Afrika, South Afrika 
Deus abençoe a nossa Nação,
Interrompa guerras e conflitos,
Salve (a África), salve a nossa Nação,
A Nação da África do Sul, África do Sul.
Afrikaner Uit die blou van onse hemel,
Uit die diepte van ons see,
Oor ons ewige gebergtes,
Waar die kranse antwoord gee,
Do azul dos nossos céus,
Da profundeza do nosso mar,
Sobre as montanhas eternas,
Onde os rochedos ecoam em resposta,
Inglês Sounds the call to come together,
And united we shall stand,
Let us live and strive for freedom
In South Africa, our land.
Soa a chamada da união,
E unidos, devemos persistir,
Vivamos e lutemos por liberdade
Na África do Sul, nossa terra.

O hino é único, tem uma mudança de ritmo que o deixa ainda mais charmoso…
É “mágico”, pois mostra respeito às etnias que formaram o país; sem privar os conquistadores brancos que exploraram, discriminaram e acorrentaram os negros.
Mandela segue sendo o melhor exemplo de ser humano que conheço!

por Celsão correto.

P.S.: pra quem quiser assistir no youtube o hino que me surpreendeu, segue o link. Outras ótimas performances podem ser encontradas no youtube em diferentes ocasiões e com distintos intérpretes, todas emocionantes. Retirei a figura do vídeo.

P.S.2: acrescentando dois links entre outras publicações nossas sobre Nelson Mandela: aqui uma correlação interessante entre as ideias do líder negro e o socialismo e aqui nossa singela homenagem póstuma