Consciência para quem não a tem

Posted: November 25, 2015 in Outros, Sociedade
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CarlHartÉ incrível a quantidade de pequenas coisas que reparamos quando nos prestamos a atentar melhor aos detalhes.

A “Semana da Consciência Negra” que pode ser expandida ao mês ou resumir-se ao dia vinte de novembro, me fez apreciar bastante os caprichos dos atos humanos.
Tudo começou num almoço, em que dois colegas de trabalho argumentaram não existir racismo no Brasil, que não passava de “produto da TV”. Exemplos daqueles esdrúxulos e batidos foram usados, como o do “o primo do cunhado do meu pai é negro”, que todos os negros conhecemos; como se o ter convivido com negros no passado tivesse o poder de bloquear o racismo.
Respirei fundo e decidi somente ouvir; decidi há algum tempo escolher as lutas a lutar, e pelo perfil dos que me falavam e pelo modo como os argumentos foram colocados no início, seria apenas stress pra mim.

Enfim, saí de lá determinado a experimentar o racismo, a testar novamente constatações que conheço há muito tempo; como ser seguido por seguranças no Shopping Iguatemi em São Paulo, desde a adolescência, talvez por “afrontar” os transeuntes com minha cor (detalhe interessante, os seguranças são majoritariamente negros).

Primeiro resultado: eu continuo assustando madames quando atravesso a rua em direção a elas; fiz isso sem intenção, fora da faixa por estar apressado, e uma senhora loira apertou sua bolsa contra si e passou a caminhar olhando para o chão.
Sigo despertando curiosidade em encontros comerciais, principalmente no primeiro encontro, quando o parceiro nota que sou engenheiro e tenho conhecimento sobre os assuntos com os quais trabalho.
Ainda sou visto com extrema estranheza quando seleciono cerejas ou vinhos no Pão de Açúcar, Marché ou outros mercados da classe A.
E pra completar, ao esquecer um brinquedo do meu filho na lotérica perto de casa, causei um alvoroço inimaginável na fila, por entrar quase correndo e buscar o item em cima das mesas de aposta. Como resposta, mostrei aliviado a peça por mim recuperada.
Alguns estudiosos dizem que o dinheiro muda a sua cor, pois muda o modo como a sociedade o vê.
Concordo bastante com a afirmação, pois… independente da minha condição econômica atual (costumo dizer que sou rico – veja aqui), o meu “branqueamento” é limitado e só os que me conhecem podem negar minha negritude.

Pra sair um pouco do tom “racismo”, quero aproveitar a figura recebida no WhatsApp e confrontar outras realidades.

opressorVocê, branco e rico, consegue se colocar no lugar de uma mulher e compreender parte do que ela passa? Aquelas piadas que insistimos em disseminar, até quando elas estão escutando, as insinuações, acusações, ironias… Conseguiria passar pelas humilhações e pelos testes que elas enfrentam todos os dias?
Será que nós homens difundiríamos a asfixia do machismo se estivéssemos no lugar delas?

E em relação aos gays ou transexuais? Difícil, não?
Nordestinos, ex-presidiários, deficientes… Como termos consciência das dificuldades e (muitas vezes) do sofrimento que estes passam para ascender ou “vencer na vida”?

Proponho algo um pouco diferente de um post feito há quase dois anos (aqui); proponho o exercício da discussão, da preparação dos jovens para a sociedade machista e preconceituosa que devem encarar e conviver. Algo semelhante ao que o Miguelito Formador fez dois anos atrás, um dos posts mais lidos deste blog (aqui): discutir e se policiar, sempre!

Explicando a primeira figura do post: ela pertence ao professor americano Carl Hart, da Universidade de Columbia. Quando ele esteve no Brasil, em Agosto passado, causou confusão por ter sido supostamente barrado no hotel cinco estrelas que palestraria (notícia aqui).
Mas mesmo com o episódio desmentido, uma de suas entrevistas me chamou a atenção exatamente pelo fato do professor “se enxergar” de fora do problema racismo, compreendendo-o.
A entrevista toda está disponível aqui (atentar para a nota de esclarecimento) e no youtube aqui. Separei o trecho que queria destacar em upload aqui embaixo:

(como as legendas não apareceram, segue abaixo a tradução do trecho, feita pelo Estúdio Fluxo no youtube)

Na minha fala, eu tentei encorajar as pessoas,
sem ligação com o evento que supostamente aconteceu comigo,
pensar em como usamos a política de drogas
para perpetuar a discriminação racial.
E sobre esse evento… Eu espero que a gente supere
e foque no que realmente importa: os negros do Brasil
que são discriminados todo santo dia.
Não um professor burguês
que se hospede em hotel de cinco estrelas.
Isso não é uma questão. Isso não é um problema.
E receber todas essas desculpas.
Sim, eu não preciso de desculpas e apoio. Nós precisamos apoiar essas pessoas do dia a dia.
Uma das coisas que eu aprendi com esse evento
é que não sou mais um homem negro comum.
Se eu fosse, ninguém se importaria com o que aconteceu comigo.
Então que tal a gente se preocupar com as pessoas comuns e não comigo?

Pra terminar, algo do meu lado romântico (que sempre aparece):
Que possamos assumir todos os nossos pré-conceitos; quer seja com o mendigo que dorme ao léu, com o porteiro do prédio, com a colega de trabalho. E que a partir daí, se houver a possibilidade, que conheçamos as estórias e que peçamos desculpas, caso os tenhamos ofendido/discriminado.
Que expliquemos para as próximas gerações, abertamente, os preconceitos que carregamos.
E que tenhamos oportunidade e coragem de “consertar” o estrago já realizado.

por Celsão correto

primeira figura retirada daqui; segunda vinda do WhatsApp, mas também disponível em outras redes sociais, por exemplo, aqui

P.S.: pra quem quiser, um teste esdrúxulo sobre o “nível de opressor” pode ser encontrado aqui

Comments
  1. Flavio A R Souza says:

    Belo texto!
    Vamos encontrar sim, pessoas que se dizem “não preconceituosas”, mas no dia a dia o fazem “sem perceber”…
    Algumas lutas não são importantes (ignorar e seguir), disseminar em nossos filhos, nossa postura de que somos todos iguais no mundo em que vivemos, SIM!

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  2. Ivan says:

    Então agora ser branco e hetero q n usa droga faz alguém ser opressor … Devia ter vergonha em escrever esse tipo de merda para q pessoas de pouca informação leia e firme suas opiniões a partir desse seu texto deveria se envergonhar.

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