Convicções e vieses

Posted: March 18, 2016 in Comportamento, Política
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11050667_1140171285999582_7130393729177933607_nEstamos num período agitado.
Que nos bombardeia com intermináveis informações e ao mesmo nos força a tomar partido… a nos posicionarmos… a escolher um lado…
Será mesmo?

Dentre as inúmeros textos que li nos últimos dias, um dos notáveis segue abaixo.
Exprime um posicionamento neutro e explica alguns “porquês” das convicções, dos vieses, dos ânimos exaltados.

O texto é de autoria de Vinícius Waldow e pode ser lido em seu Facebook aqui.

Como é de costume em momentos de efervescência política, a razão fica escanteada.

O filósofo Bertrand Russell escreveu: “Todo homem, onde quer que vá, vive envolto por uma nuvem de confortantes convicções, que o acompanham como as moscas no verão.”

As pessoas geralmente acreditam que a sua mente é capaz de obter uma visão precisa da realidade. Contudo, as descobertas em relação ao que se chama de “cognição motivada” colocam por terra essa crença (pelo menos, deveriam colocar).

O viés confirmatório (do inglês, confirmation bias), por exemplo, é considerado o padrão mais robusto já descoberto pela psicologia cognitiva acerca do nosso raciocínio, e consiste na tendência dos indivíduos de procurar e interpretar evidências de maneira parcial em favor das suas crenças, convicções e expectativas prévias.

O viés confirmatório faz com que tenhamos uma predisposição fortíssima de ignorar ou então criticar veementemente as evidências contrárias às nossas convicções (por mais sólidas que sejam essas evidências), bem como aceitar de modo complacente e defender de modo ferrenho as evidências favoráveis às nossas convicções (por mais pífias que sejam essas evidências).

A ideia é que a nossa mente funciona mais como um advogado tentando defender uma causa pré-definida do que como um cientista buscando desinteressadamente a verdade.

Adicione a isso um outro ingrediente bem conhecido da cognição motivada: o grupismo. Essa é a tendência dos seres humanos a se dividirem em grupos-de-dentro e grupos-de-fora (“nós versus eles”) e sistematicamente perceberem e agirem como se os membros do grupo-de-dentro fossem muito diferentes e superiores em relação aos membros do grupo-de-fora.

Agora pense sobre os efeitos que a combinação explosiva entre viés confirmatório e grupismo exerce sobre qualquer debate político.

A visão grupista é a de que o nosso lado é inteligente e dotado de retidão moral, enquanto que o outro lado é composto por burros (que estão sendo ludibriados), mercenários (que foram comprados) e safados (que ludibriam os burros, compram os mercenários e querem acabar com o nosso lado). A partir daí, o viés confirmatório faz o trabalho de avaliar todas as evidências oferecidas de modo a sempre reforçar essa visão básica.

Além de apenas observar evidências, as redes sociais hoje permitem a você criar e distribuir suas próprias evidências, com todos os viéses possíveis.

Em toda manifestação pública de grandes proporções, se você buscar e selecionar bem, vai encontrar um bom número de pessoas com as opiniões e atitudes mais estapafúrdias, grosseiras e simplórias. Filme algumas delas, faça uma boa edição de vídeo e coloque uma manchete que funcione como isca para um público já propenso em concordar, e pronto: muita gente vai obter mais uma evidência de que o outro lado é burro, vendido e safado, e implicitamente de que o seu lado é inteligente e virtuoso.

Se você estiver com preguiça, então basta criar um meme.

Trazendo para o caso concreto do Brasil, se todo petista/tucano é burro, vendido ou safado, não há porque ficar perdendo tempo com os argumentos deles: a vitória é nossa de antemão. Estereotipar e desmerecer o outro lado é um caminho fácil demais para não ter que pensar de fato sobre os argumentos contrários.

“Os petralhas só querem continuar mamando na teta do governo.”

“Os coxinhas só querem manter seus privilégios de rico.”

“E ainda tem burro que defende esses safados.”

Achar que o principal problema do Brasil consiste em um único partido ou político é uma visão extremamente simplória para um problema complexo. Quem dera a solução para os nossos problemas políticos fosse apenas tirar o PT/PSDB/PMDB ou Dilma/Aécio/Cunha do jogo. Como uma hidra de Lerna, não adianta “cortar essas cabeças”: elas nascerão de novo, com outras faces, ou com a mesma face (Collor tá aí ainda).

A solução para problemas estruturais tem de ser estrutural também. Um exemplo: já passou da hora de reformar o nosso sistema eleitoral, que recruta parlamentares com base numa política altamente personalista (em contraste com uma focada em partidos); um sistema que é nitidamente distorcido pelo financiamento de campanha por grandes empresas (a corrupção também está na iniciativa privada).

Outro exemplo é o nosso sistema de governo baseado no presidencialismo de coalizão, o qual parece tornar quase obrigatória a relação fisiológica de “toma-lá-dá-cá” que se estabelece entre os poderes Executivo e Legislativo, e isso independentemente do partido que se encontra no poder.

Kwame Anthony Appiah, diretor do Centro para Valores Humanos da Universidade de Princeton, conta que às vezes lhe questionam com o que ele trabalha, e ele diz que é filósofo. Usualmente, a pergunta seguinte é: “Então, qual é a sua filosofia?” E a sua resposta padrão é: “Minha filosofia é de que tudo é mais complicado do que você pensa.”

Enfim, o convite é esse: que tal dar uma pausa no hábito de dar retruques automáticos, estereotipar o adversário e tratar partido político como se fosse clube de futebol para encarar a complexidade do mundo?

Lembre-se que aquele você tacha de “coxinha” ou “petralha” pode ser menos unidimensional do que você.

por Celsão correto (as vezes me confundo em meus alter-egos)

figura retirada da própria publicação original (aqui)

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