A ética do radicalismo

Posted: June 21, 2016 in Outros, Política, Sociedade
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Começo o post compartilhando um pensamento do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Ainda vivo, o filósofo construiu com Karl Otto-Appel a ética do discurso.

Uma discussão deve tender ao infinito. Todos os argumentos de ambos os lados devem ser esgotados, debatidos até o fim. E, em algum momento no infinito, alguém terá que rever “mais” seus posicionamentos que o outro, pois normalmente não existem duas verdades absolutas num mesmo assunto. E, aquele que está mais próximo da verdade, irá mostrar racionalmente isso para o outro.
Porém, para que isso ocorra, ambos os debatedores devem, obrigatoriamente, ser o tempo todo 100% honestos, e não guardar “cartas na manga”, não omitir nada, não se encobrir de hipocrisia. Caso um dos dois faça isso em qualquer momento, o debate está automaticamente viciado e jamais terá solução.

O trecho é do Miguel, colega de blog, interpretando a ética do discurso que pode ser encontrado aqui e parcialmente na página da Wikipedia do Habermas – aqui.
E me levou a pensar sobre radicalismo.

Seriam os radicais aqueles que defendem os seus argumentos honestamente e analisam os mesmos de “coração aberto” ao se depararem com impasses numa discussão?
Ou os radicais são os que defendem-nos de forma hipócrita e enviesada sua posição?

Minha opinião pirata é que no Brasil estamos muito mais próximos do segundo exemplo. E, não somente, pela falta de cultura geral, que impede análises pautadas em argumentos; mas também por aqueles que detém o poder, a tal “força invisível” que se beneficia da pobreza intelectual da população.

Mas as vezes ser radical, faz falta. Nota-se que a Sociedade, a Mídia e a Política, no sentido maiúsculo e macro, ganhariam com alguns radicais.

622_b14ba104-20b0-3d74-a76c-b3fda8e4cc02Meu exemplo (ou mau exemplo) é o técnico Tite, recém escolhido como técnico da seleção brasileira de futebol.
Em forma de protesto contra a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ditatorial e corrupta, assinou em conjunto com outros treinadores, atletas, ex-atletas, jornalistas e entidades como o Bom Senso FC um protesto contra a CBF e a FIFA.
Tal assinatura ocorreu em Dezembro do ano passado, pouco depois do escândalo internacional que envolveu inúmeros dirigentes das entidades que controlam o futebol no Mundo. (o documento pode ser lido aqui na íntegra)
O documento cita que “a sucessão é determinada por um estatuto viciado, (…) arquitetado e aperfeiçoado para a manutenção do poder nas mãos da mesma linhagem” e também “A crise de corrupção é (…) um profundo problema estrutural, que travou o desenvolvimento do futebol brasileiro

Como uma pessoa dessa, que se diz ética e assina de livre e espontânea vontade um manifesto contra CBF, FIFA, a corrupção dentro desses órgãos e contra seus mandatários, permanece por horas em reunião com esses mesmos “cartolas” e aceita os termos destes, quaisquer que sejam? Aceita o trabalho que os corruptos lhe propõem?
Como eu gostaria que houvesse uma exigência por parte de Tite para que Marco Polo del Nero deixasse a presidência da CBF. E, seguindo o modelo radical, como seria gratificante se o mesmo Tite apresentasse esse argumento para a imprensa caso o presidente da CBF não quisesse renunciar.
Será que a pressão popular não se multiplicaria ao ponto de recriar uma nova Confederação?

Creio que como o futebol é paixão, e é acompanhado por muitos brasileiros, a “onda positiva” (e radical) teria mais efeito que os poucos deputados e senadores radicais que compõe o legislativo atual.

Entrando na política, como seria bom se tivéssemos radicais que se propusessem a governar sem negociar apoio e cargos…
Como seria enriquecedor se a discussão proposta por Habermas fosse adotada nas casas do legislativo. Se os políticos votassem no que acreditam e não seguindo ordens e pautas de seus partidos e, lamentavelmente, de suas bancadas…

Sou a favor da reforma política, principalmente a favor da mudança do voto distrital e da diminuição do número de partidos (que seja via cláusula de barreira) e integralmente contra o financiamento privado a eleições e partidos políticos.
Esses assuntos já foram tratados aqui e aqui, entre outros posts.

E sou a favor do radicalismo, da discussão sem hipocrisia e sem defesas prévias, sem verdades pré-consebidas ou pré-conhecidas. E a favor da busca incessante por “heróis éticos”, brasileiros preferencialmente.
Afinal, como melhorar a Sociedade sem isso? Sem que a corrupção torne-se vil a todos os olhos.

por Celsão correto

figura retirada daqui

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