Archive for September, 2016

Outros Setembros

Posted: September 27, 2016 in Outros
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11162237501418Quando alguém do meio do século XXI abrir livros de História os capítulos começarão todos pela data ocorrida nesse mês: 11 de setembro.
Neste dia, em 2001, o mundo civilizado pediu paz e começou uma guerra que já dura 15 anos.

Foi bonito ver líderes mundiais, comovidos, uníssonos, circunspectos, solidários, pedindo, implorando e até mesmo impondo a paz. Mas os pedidos de paz foram encaminhados para o endereço errado. Não é o fanático que nasceu num gueto, nem o miserável guerrilheiro desdentado que resolveu ser terrorista, o grande fomento de violência.

Ou vocês acham que os miseráveis, os excluídos, os sem-terras, os repatriados, os espoliados, os humilhados e os condenados a viverem sem razão, barrados na grande festa da prosperidade que o mundo globalizado e neoliberal promove para 20% da população mundial que desfruta dos bens e serviços que a modernidade propiciou não querem a paz?

Os pedidos de paz deveriam ser direcionados para os banqueiros que não pagam impostos, aos latifundiários que escravizam e matam camponeses, aos laboratórios e aos planos privados de saúde que fazem a regra do jogo, à televisão com sua programação de violência e mentira. Os pedidos de paz deveriam envergonhar os governantes desonestos, o administradores corruptos, os juízes comprometidos; deveria mudar os “bispos” com letras minúsculas que roubam dízimo de operárias e operários, sensibilizar a polícia barbárie que assusta mais do que acalma.

A retaliação poderia atingir também o protecionismo, os embargos econômicos, a remessa de lucros, a mão de obra barata das multinacionais, o descaso com o meio ambiente, a submissão de governantes pouco éticos e a arrogância dos xerifes da terra.

É claro que até esses querem a paz, mas são eles que fabricam a miséria e a violência. Se quisermos realmente a paz deveríamos tentar distribuir a riqueza do mundo, estender a todos os benefícios dos avanços tecnológicos; partilhar as descobertas científicas, sonhar junto a utopia de uma sociedade justa e igualitária com bom senso.

Não existe violência (ou quase não) onde há prosperidade.
Não há prosperidade sem justiça social. Sem justiça social, não há nada, não há nada, não há nada. Só radicalismo, fundamentalismo, lamentações e entulho arrastado.

por Raul Filho

figura retirada daqui

bandeira-do-brasil-se-derretendo_v1Eu queria que ser esquerda no Brasil não fosse condenável, não fosse sinônimo de burrice ou vagabundagem.
A esquerda daqui, ou classificando melhor, a esquerda em sua essência, quer reparação de injustiças, quer oportunidades iguais, ou seja, quer ISONOMIA! Afinal é impossível falar de meritocracia sem equiparidade de condições.
Vagabundos (disléxicos, preguiçosos, deficientes) surgem e surgirão qualquer que seja o regime de governo e qualquer que seja o partido político no poder.
Num regime justo ou de condições “iniciais” equiparadas, eles teriam as mesmas oportunidades, sem razão para os “mimimis” tão criticados. Seria lhes garantido um emprego e um salário suficiente (?) para sobreviver dignamente. E, se não houver emprego ou capacidade de exercer função produtiva, há auxílio estatal, como em outros países do mundo.
Em nosso país, de regime distorcido, um vagabundo bem nascido usará seus meios e contatos familiares para seguir exercendo sua influência e seu poder. Terá casa, carro, férias e Facebook. Mas se houver nascido pobre, passará por necessidades e sequer terá o básico para si.

Eu queria que o PT fosse a esquerda.
Que todo o sonho de ascensão do povo, dos trabalhadores ao poder fosse bem representado. Não somente com aumento real de renda e diminuição da desigualdade social (que inegavelmente ocorreu), mas que as reformas tão pleiteadas e necessárias também fossem realizadas: tributária, política, midiática, agrária…
Como seria bom se o discurso do PSOL de hoje, vide Luciana Genro nas eleições de 2014, pudesse ser implementado. Do povo e para o povo!

Eu queria que o sistema político brasileiro fosse diferente. Fosse outro.
Queria que não houvessem conchavos, que os partidos e políticos avaliassem as leis propostas independente de um “comando geral”, ligado a diretórios e interesses espúrios. Que não houvesse troca de cargos por favores em votações… Ou que o poder do legislativo não fosse tão vasto.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, criticou nessa semana o sistema político na revista Isto É (aqui). Eu admirava bastante o FHC. A clareza em expor ideias, a fluência em idiomas, o período de transição de Ministro a Presidente e o plano Real.
Mas ele foi o presidente que mais “se afundou” em conchavos, em minha curta experiência de observação política. E o fez exatamente para que a reeleição fosse aprovada e para que tivesse o seu segundo mandato! Assunto que o desagrada atualmente…
Voltando ao parágrafo anterior, se o PT não tivesse “se rendido” ao PMDB e outras alianças ainda piores, talvez não tivesse um governo longo, talvez não tivesse “surfado” na onda de popularidade, mas seria ideologicamente elogiável.

Eu queria que o país não fosse intrinsecamente corrupto.
Que ao realizar um boletim de ocorrência em uma delegacia, eu não precisasse ouvir da própria delegada que fui tolo ao entregar a minha licença de conduzir ao órgão competente, para uma punição de três meses, após atingir um limite de pontos determinado por lei. A delegada em questão disse que não o faria e que aconselha amigos e familiares para que não o façam…
Queria que criticássemos a corrupção olhando para nós mesmos, sem hipocrisia. E que a palavra ‘corrupção’ fosse classificada como palavrão, ideia já publicada aqui no blog no final de 2013 como desejo para 2014.

Eu queria que os partidos políticos envolvidos com corrupção fossem extintos! Que fossem dissolvidos.
E que os futuros partidos a se formar tivessem de se adaptar a “correntes políticas”, já que o meu sonho dos cinco ou seis partidos é utópico demais no Brasil (aqui).

E eu queria que não fossemos tão egoístas e preconceituosos. E que aceitássemos gays, mulheres, negros e pobres na sociedade que vivemos, nos mesmos lugares ou em posições de liderança e poder.
Pense! Realmente aceitaríamos essas minorias em todos os lugares que eles podem ocupar?
Aceitaríamos eles nos mesmos restaurantes, no açougue e no mercado? Como colegas de trabalho ou como chefes… síndico do prédio, diretor da escola do filho…
No barzinho, também com um chinelo havaianas, mas talvez como o único calçado, aceitaríamos que um morador de rua comesse ao nosso lado?

Voltando ao PT, eu queria que a opção para 2014 não fosse a Dilma. Ou que ela fosse uma política nata, boa de retórica e de convencimento. Que ela fosse uma estadista como a Merkel ou pudesse unificar o Congresso o suficiente para conseguir governar.
Queria que a esquerda tivesse se desenvolvido aceleradamente e se apresentasse com um quadro político e técnico suficiente para compor pastas e secretarias.

Eu queria que, também, o apoio no Congresso não fosse tão importante para a governabilidade.
Pois afinal, não foram somente os discursos atrapalhados e as conclusões confusas que afastaram a presidente do povo e das graças da Grande Mídia. A falta de apoio legislativo, a ausência de “tato” fez ruir a apertada diferença de votos obtida nas eleições de 2014.
Criamos a jurisprudência de afastar qualquer presidente sem apoio majoritário do Congresso. Tão grave quanto danoso à nossa jovem democracia.

Eu queria que o afastamento, se tivesse de ocorrer, fosse por um crime inegável e irrefutável. De dolo provado. Por exemplo, pela utilização de recurso proveniente de corrupção para financiamento de campanha. (acusação ainda em trâmite, no TSE, levantada pelo derrotado PSDB de Aécio Neves)
Nesse caso não teríamos Temer, talvez sequer PMDB no cargo mais alto do Executivo da Nação.
Teríamos uma nova eleição, de resultados pouco previsíveis…
Voltando ao ponto do apoio do Congresso, o crime perpetrado, das pedaladas, nunca seria sequer investigado se a presidente ainda gozasse de apoio no Legislativo. Se ainda tivesse os mesmos aliados do primeiro mandato.

Eu queria também que as revistas mais lidas do Brasil, os programas de TV mais vistos, os sites mais acessados não pertencessem a grandes grupos, de grandes famílias, representando oligarquias históricas. Meios sem escrúpulos que guiam suas matérias e coberturas meramente pelo interesse, que comandam os golpes suaves, que se alinham a movimentos internacionais de controle…

Concluindo, usarei a chance para migrar para os recentes acontecimentos políticos.
Eu queria que todos avaliassem a seguinte hipótese: se o PT fosse direita, se não houvesse corrupção, se Dilma fosse homem e se Lula fosse um burguês paulista e bem nascido, da família Frias ou Marinho?
Não quero defender ninguém de modo unilateral. Nos desejos para 2015 também publicado aqui, eu já defendia “cortar na carne” quando houvesse desvio de conduta e/ou de comportamento.
Eu queria que esquecêssemos a frase do “ele também fez” e passássemos a uma nova fase, de oposição atuante e apoio consciente à boas ideias.

Eu queria que todos os culpados fossem presos (e que sejam!). Ou ao menos condenados ao ostracismo político (que, creio, seria igualmente dolorido).
Deixemo-los filiados e militantes, mas os proibamos de ocupar cargos, de exercer poder. Se o interesse for realmente ideológico e puramente político, a militância seguirá e o trabalho pode ser bem útil, no sentido de despertar interesse em outras pessoas.

E, finalmente, eu queria que a esquerda ressurgisse já em 2018, como alternativa sempre necessária ao status quo capitalista e segregacionista.

por Celsão revoltado

figura: montagem do contorno do mapa do Brasil com figura retirada do Pinterest aqui

Portas Fechadas

Posted: September 5, 2016 in Sociedade
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Porta-fechadaJosé saiu de casa muito cedo.

Mulher e três filhos ainda dormiam nos dois cômodos que fez nos fundos da casa de sua sogra. Sem tempo e zelo para o café ralo e puro, caminhou apresado rumo ao ponto da única linha de coletivos que serve sua comunidade. O bruto veio atrasado, lotado e mal cuidado, tarifado pela ida e pela volta por meio dia de serviço que José nem tem.

Horas intermináveis com fumaça e buraco, pigarros e bocejos. Parecia uma coreografia mal ensaiada com bailarinos como  ele.

Fim do primeiro trecho, numa Central do Brasil muito longe de ser holywoodiana. José entre centenas, milhares talvez de outros josés, manés e bonés. As portas fechadas por preocupação, o dia começando lá fora e a cidade descobrindo seus sons e sonhos urbanos. Camelôs e prostitutas, menores abandonados, ladrões e trabalhadores, todos em um mesmo fundo de tela. Vários josés, centenas de marias, outros tantos anônimos, disputando uma corrida sem chegada, sem podium, sem nada.

José confere o recorte de jornal: “Temos vagas”. Sonha novamente, pensa na mulher, nos filhos, na cachaça e no farto almoço. Na marmita, nada de novo. Mais lotação, mais condução, mais confusão. De novo lotado, de novo mais caro, José sacudindo rumo ao endereço recortado, mal cortado. No ônibus, um grito, um susto, um assalto, um beijo, um pastor e duas putas. Um motorista rude, um cobrador sem alma, um ponto final longe da calçada. Desce José com o papelzinho na mão e uma esperança na cabeça. Fosse ele um cineasta do cinema novo, faria um daqueles filmes que não são compreendidos.

Desembola o papel e confirma o endereço. “Há Vagas”. José sorri, mas nem percebe.  Tempo não tem, mas lhe deram. Porta fechada. Reabre depois, quando o chefe quiser. José vê a obra, José olha as horas, caminha na calçada pro tempo passar, mas a fome não passa.

Espera na banca, lendo manchetes com outros josés, algumas marias: Palestinos  e atentados,  Congo e campos da morte, Argentina e desespero, preços sobem com o dólar, demissão de metalúrgicos, assassinatos de sem-terra, mandantes absolvidos, hipocrisia e Bolsonaro, Wack e Hulk, corrupção  e impunidade, crime organizado e polícia desorganizada, seca malvada, chuvas ingratas, padres pedófilos e comunistas ungidos, políticos canalhas, descuido e descaso, maracutaias e deputados, besteiras e mulheres peladas.

Os sons da rua, uma rua do Centro, ambulância e pedintes, freadas e discussão, vitrines e ofertas, estudantes e secretárias, gravatas e apertos. José confere a porta fechada, fila de dez, 12 talvez. Mais uma vez, a porta fechada se abre pro aviso – “ficha só depois do almoço! – procurem o dotô!”, que vai ver, nem formou, mas é doutor. José ganhou tempo sem pedir, pensa na mulher, pensa nos meninos, dois na escola sem professor, um com a avó. A mulher na lida, na luta, faxinando o sustento em casas vizinhas. Lembrou-se da promessa: “Só volto empregado!” Perdeu meio dia, mas não a marmita. Almoça sentado, é abordado por um PM fardado, os documentos mostrados, a dúvida, o esculacho, o desrespeito, a vergonha e a porta fechada.

José pensa no bairro, na rua, na vila. Lembra do barro, do mato, dos ratos. Imagina ambulância, hospital, doutor, vacina, saneamento, escola, condução, jornal, prefeito e polícia no seu bairro distante, feudo de traficante. Ri sozinho do dengo, do Mengo e da vida. Vasculha a memória, se lembra  de um sorriso que deu na infância, doce lembrança no sal da avenida cinzenta que mantém  portas fechadas.

Porta aberta, José se assanha, se apressa e se apresenta pro mestre de obras que tem  emprego e afilhado, José chegou tarde. Porta fechada. Mais uma na cara. José desde cedo na rua, procurando trabalho, não quer ser bandido, não quer sem mendigo, não quer ver seus filhos chorando ou no crime, quer trabalho e cidadania, quer respeito e cafuné na nuca. José chora pra dentro, soluça escondido.

Seis da tarde, hora de ir embora, gente com pressa andando ligeiro, esse é o Rio de Janeiro. Na volta pra casa, o pensamento distante, a promessa quebrada, um guarda safado, um bandido estirado, dois ônibus lotados, os últimos trocados,  o santo xingado, sua rua esburacada, sem poste, sem ambulância, sem segurança, um cachorro enjoado lhe morde o calçado, José chuta o bicho pro lado. Nesse instante surge a vizinha: “Não chuta o cachorro, José, violência não!”

José nem responde. Não tem nem por onde.

Em casa, outra porta fechada.

por Raul Filho

figura retirada daqui

static1.squarespace.comGostaria de usar esse post para divulgar uma mensagem que muito me espantou.
(uns podem dizer que é uma fuga dos temas políticos da semana. Na realidade, quero “digerir” os acontecimentos e fugir dos memes e das conclusões já conhecidas e alarmadas outrora)

Voltando ao tema…
A prefeitura de São Paulo aceitou uma petição criada na página Change.org (aqui a petição e aqui a vitória comemorada no Facebook).
A tal petição pedia para que as bandeiras do orgulho LGBT permanecessem na praça, no caso, no Largo do Arouche, mesmo depois do dia do Orgulho LGBT. E o local já representa na cidade um símbolo de luta contra a homofobia.

Pra quem não conhece São Paulo, pode desmerecer esta vitória. Mas a nossa “megalópole” apresenta múltiplas variações de personagens e personalidades.
Há resistência de todas as minorias; sim, é verdade. E há organização por parte dessas, com pleitos, celebrações e ganhos marginais.
Mas há muito, mas muuuito preconceito (perdão pelo exagero disfarçado de neologismo). Sem mencionar a arrogância.
O preconceito era outrora estampado em célebres gazetas, como o “Notícias Populares”. E ainda segue sua sina em todo rincão ou esquina da cidade. Todo paulistano ou cidadão brasileiro que aqui vive tem a sua opinião distorcida, o seu “quê” problemático e discriminatório. Mas sempre com aquela frase distorcida…
“Nada tenho contra negros, mas…”
“Eu até entendo o problema dos usuários de drogas, na ‘Crackolândia’, só que…”
“O cunhado do meu genro é gay. Eu os aceito, porém…”

Nem é preciso citar exemplos, pois são inúmeros e recorrentes.
De gays agredidos e espancados ao caminhar na rua e em casas de show, a mulheres abusadas moral ou fisicamente todos os dias.

Achei importante a posição tomada pelo prefeito. Acho que este governo Haddad (que já critiquei e elogiei aqui no blog) primou por ouvir, por fazer valer as opiniões e, sobretudo, as diferenças.
Creio honestamente que precisamos, primeiro como cidadãos, “fincar bandeiras” contra as discriminações diversas que sofremos e/ou observamos. Educarmos os mais jovens para que não as pratiquem e reprimirmos os mais velhos para que não as repitam.
E como cidade, como um órgão público e vivo, que seja o princípio da obtenção do pleno direito de ir e vir. Aqui não importando gênero, credo, opção sexual, cor da pele ou condição social. Que sejamos exemplo em algo maior, mais importante e mais amplo que PIB, IDH e desenvolvimento industrial.

por Celsão correto

figura retirada do próprio Facebook do Change.org.

P.S.: da mesma forma que no Avaaz, na página do Change.org é possível iniciar uma petição ou abaixo-assinado a favor ou contra algo. É possível começar a mudança. Pra quem não conhece, sugiro entrar na página e observar o que eles têm feito. No Brasil e no exterior!