Vida

Posted: November 9, 2016 in Outros
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postÂngelo sentou-se no sofá.
Afundando em tristeza enquanto a própria deformação do móvel envolvia o seu corpo magro.
Os minutos se passaram daquela forma taciturna e indolente. Mas foram respeitados.
Seu rosto estava ainda mais marcado. Era como se parte dele não estivesse mais ali.
Não havia necessidade de palavra. O silêncio caía bem, dada a situação. Ao mesmo tempo em que muito era dito em pensamentos.
A admiração mútua, as estórias e aventuras compartilhadas em São Paulo, o sonho de regressar à terra natal…

O outro acabava de voltar de uma viagem especial.
Sentia um misto de alívio, pela missão cumprida, e vazio. Mas entendia aquela tristeza.
Os últimos meses passaram pela negação, revolta e demais fases psicológicas descontroladamente. Escancarando a humanidade que a própria humanidade tenta negar.
A fragilidade, a frivolidade… a vida como vivemos!

Anos antes partilharam festas de aniversário com refrigerantes em garrafa de vidro, programas Sílvio Santos em salas apertadas, visitas sem aviso prévio que não acabavam antes daquele café passado na hora e dos biscoitos, bolos, pães. Coisa de baianos, ou de nortistas, como eles próprios se classificavam.

Voltando ainda mais no tempo, partilharam aventuras num São Paulo sem trânsito na Rebouças, com Pelé no Pacaembu e torcidas misturadas nos estádios, fotos em monóculos, excursões para Aparecida, bailes na tal “terra da oportunidade”.
Emigração corajosa, sofrimento, sub-empregos, profissões descobertas, família! Tudo partilhado e compartilhado.

Mas aquele encontro era único. Algo ainda não experimentado.
A perda gerava desconforto.
Aquele típico desconforto aflitivo, provocador, que se tenta sanar dizendo algo inteligente, marcante, útil.
Mas não era possível. O silêncio dizia mais. Declarava o respeito e o amor sentido por eles, para com o que havia partido.

Incontáveis instantes depois, uma frase banal rompeu aquele silêncio, mas irrompeu lágrimas reprimidas e verdadeiras.
As barreiras do machismo e preconceito deram lugar ao extravasar de sentimentos.

A dor foi celebrada e partilhada, naquele momento, para dar lugar, posteriormente e novamente, à vida.

por Celsão filosófico

figura retirada daqui

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