A montanha pariu um rato

Posted: May 19, 2017 in Política, Mídia
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O dia 17/05/2017 começou tenso pra mim.
Tinha muitos compromissos profissionais, mas queria de algum modo seguir ouvindo a assistindo às notícias após a “bomba” lançada do “colo” do Presidente Temer.

A noite anterior foi de jornais e memes sem fim.
Os programas televisivos tentavam detalhar o máximo da informação que possuíam, incompleta naquele momento, e ponderar os próximos passos do presidente, dos seus ministros e aliados, dada a gravidade do ocorrido.
Enquanto os “magos” da internet criavam e recriavam piadas compartilhadas intensamente no WhatsApp e Facebook. Famosos com camisetas, eximindo-se de uma culpa líquida

A primeira surpresa, compartilhada pela minha esposa, foi ver as pessoas surpreendidas… É um trocadilho cômico, se não fosse cruel.
Como podem achar que Michel Temer e Aécio Neves, já citados anteriormente por outros delatores fossem inocentes?!?
Depois de Jucá e do vazamento ocorrido, do Geddel, dos oito atuais ministros citados pela Odebrecht… Depois do avião com cocaína, de inúmeros favorecimentos em Minas Gerais…

Na rádio Jovem Pan ouvi um advogado que daria o tom da imoral defesa prévia: “o país não pode parar“.
Como se todos pudéssemos e devêssemos ignorar quaisquer atos indecentes e corruptos em nome da retomada da economia, do emprego e renda, que timidamente dava sinais.
Eu quero que tudo pegue fogo!
Que o Congresso seja dissolvido!
Que os áudios vergonhosos, de delatores indecorosos, de políticos indecentes, sejam tocados como introdução ao Hino Nacional; para que não os esqueçamos!
Que só restem Parlamentares íntegros (ou ao menos não-condenados)! Nem que tenhamos que convocar novas eleições. Nem que pra isso tenhamos de, nós mesmos, “pessoas normais”, entrar na política para mudar o status-quo de corrupção da mesma.
Pensar na simplicidade do “país não parar” e daí pra frente acobertar tudo e todos, me enojava.

Mas a Grande Mídia, até então, reagia bem: os jornais da manhã foram monotônicos e pareciam intermináveis.
E entre um Caiado, que lançou com certa lisura sua candidatura para 2018, aproveitando-se da crise, e um Carlos Marun, que defendia o vitimismo do Presidente Temer ante ao golpe político, ante a cilada… os comentários dos jornalistas e juristas convidados não deixavam dúvidas: tudo foi feito com anuência da Polícia Federal, num acordo de delação assinado pelos donos da JBS. Escutas, fotos, vídeos, rastreamento de dinheiro, depoimentos… tudo legitimamente legal!

A situação do presidente nacional do PSDB era pior.
Os mandatos de busca em casas de parentes foram seguidos de prisões dos mesmos, de declarações de correligionários contrárias, do afastamento do Senado e da presidência do partido tucano…

E eis que o anúncio de um pronunciamento de Temer as 16h fez surgir o furo-boato de renúncia.
E, as 16h, nervoso e quase sem companheiros para aplaudir, o temeroso Temer recusou-se a ceder. Disse ao povo que ficava! Também apelando à melhora da economia e às reformas. Disse que não precisava de foro privilegiado, falou de armação, mentindo sobre a legitimidade da escuta e terminou apelando para o STF.
Afinal, ele sabe que o “Gil” (Ministro Gilmar Mendes) já garantiu a vitória dele no TSE; com a não condenação da chapa de 2014. Conhece também o penoso trâmite do processo no judiciário.

E o PSDB?
Ah… o PSDB… Parece que decidiu sair de vez dos holofotes da política, abandonando o papel de oposição que estava desempenhando.
Poderia ter, numa única tacada, afastado o condenável Senador Aécio Neves e abandonar os quatro ministérios que possui no atual governo. Tiraria, ao meu ver, boa parte da mácula que obteve com a Lava Jato. E de quebra poderia lançar um novo “homem forte”, provável candidato a 2018. Não creio que Tasso Jereissati seja esse nome.
Se afastar da corrupção, no momento, não seria se afastar de todos os projetos e reformas que o governo quer aprovar nesse ano. Nem seria negar a esperança na recuperação econômica. Seria uma mensagem de intolerância à continuação da prática (mesmo que falsa).

O dia seguia agitado e os programas de rádio também.
E, com a evolução pós-pronunciamento e a decisão do PSDB em se manter ao lado de Temer, retornou a dicotomia direita-esquerda, vermelho-azul, bem-mal…
Reinaldo Azevedo defendeu que os promotores buscavam retornar o poder aos “pilantras da esquerda”. Que a delação foi “encomendada”, mirando o maior líder da oposição, Aécio, e o atual Presidente da República, Michel Temer.
Por que não podemos esquecer isso uma única vez e buscar a condenação de TODOS os culpados?
Por que delações só servem para um lado? Vazamentos só valem quando são contra o “meu lado”? Notícias e opiniões só prestam quando exprimem a “minha verdade” ou a minha opinião?
Sinto nessas horas que perco um pouco da minha utópica esperança. Não dá pra tolerar essa “religião” que defende políticos indefensáveis, acusados de inúmeros crimes, de qualquer lado politico-filosófico que este esteja.
Deixe que o judiciário julgue. Permita-se que o acusado se defenda. Só não incentive o ódio…

O dia terminou com os áudios e fotos da delação.
E, mesmo sendo uma conversa de mafiosos, de inegável cumplicidade e culpabilidade… Não é “tudo aquilo” que o furo jornalístico anunciava. Não é tão direto quanto foi o de Jucá, por exemplo.

E, como sabemos, a Justiça é como a mídia; e trocadilhos a parte, ambos são como pizza. Quando esfria, perde a graça.
Se não existem prisões preventivas decretadas, a Lava Jato leva as investigações no processo normal, que é lentíssimo.
Se a indignação do povo e da base aliada governista é comedida, novos conchavos são refeitos e talvez novas mesadas serão acordadas.
Rodrigo Maia não aceitará qualquer pedido de impeachment contra Temer.
E, no final… a montanha pariu apenas um rato, como diz a frase-título, atribuída ao próprio presidente Michel Temer.

por Celsão revoltado

figura retirada daqui.

P.S.: Parabéns ao PTN e PPS, que saíram da base de apoio a Temer.

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