Archive for August, 2017

Tentemos imaginar um filho (ou filha) problemático.
Que se envolveu com drogas ou com gastos excessivos em cartão de crédito e agiotas.
Esse filho nos convence que vai de alguma maneira parar e nos faz gastar o dinheiro que temos guardado. Nos faz também vender a casa, vender pertences como computadores, etc.
Mas, sem ajuda, muitas vezes já sem emprego, não consegue se reerguer. E vendemos também os carros da casa. Carros que eram essenciais para a manutenção da economia doméstica. Pois auxiliavam na obtenção dos recursos básicos da família.

Não é um conto.
Tentei fazer uma analogia com o que está acontecendo com o nosso Estado nesse momento.
Acuado e com um gasto deficitário em 159 bilhões de reais, o governo federal desistiu de cortar custos relevantes e agora está mirando na privatização; com foco inicial na Eletrobrás.

Quando um governo tem déficit, significa que a arrecadação de impostos e os bens produzidos pelas empresas estatais não são suficientes para suprir os gastos que o mesmo governo tem com sua estrutura, sua “máquina”.
Significa, por exemplo, que regalias devem ser cortadas, aumentos de salários minimizados, postergados ou, melhor ainda, suspensos. Nada de renovação da frota de veículos parlamentares, compra de mobiliário, emissão de passagens aéreas… extinção de cartões de crédito corporativo (bloqueado no site da transparência, nota no fim do post), entre outras medidas que a família descrita no primeiro parágrafo precisou fazer ainda antes de se desfazer da poupança.

Mas não é o que ocorreu.
Os gastos com cartão de crédito seguem subindo desde que Temer chegou ao poder (aqui e aqui). Totalmente contra ao que prega a austeridade, ão defendida pelo governo e Ministério da Fazenda.
A jornalista Juliana Cipriani, em reportagem no Estado de Minas, levantou gastos abusivos do poder público nesse período de crise (link aqui). Na reportagem existem absurdos de todo tipo, de licitação para jatinho para viagens do governador Luiz Fernando Pezão, ao custo de R$2,5 milhões por ano, a R$1 milhão em sofás e colchões para o Congresso Nacional.
É como se a família estivesse devendo enquanto planeja viagens de avião e compra móveis!

Quando a economia de um país está em crise, não se viaja para Noruega ou Rússia sem agenda oficial e sem assertividade (post nosso aqui). Sequer se usa o avião oficial, dado o custo operacional do mesmo. Não se utilizam aviões da FAB sem um propósito concreto e inadiável, pelo mesmo motivo.

Falar em vender a Eletrobrás, empresa estratégica, num ramo estratégico. É o mesmo que vender a Petrobrás, privatizar a Polícia Federal.
O que o Chile pensaria se propusessem comprar a empresa CODELCO (Corporación Nacional del Cobre de Chile), estatal que explora o cobre, principal recurso do país?
Que tal propor aos Estados Unidos a privatização da CIA ou da NASA?
Aliás, ocorreu-me uma ótima pergunta: por que será que esses órgãos precisam ser públicos, geridos pelo Estado?

Não posso dizer que sou contra qualquer movimento nesse sentido.
Não sou daqueles que nega os avanços da telefonia do Brasil após a “rifa” que foi feita das “Teles”. Mas questiono se precisava ser daquela maneira, naquela velocidade e naquele preço.
Uma empresa de capital misto, bem gerida, talvez chegasse a resultados melhores… e ainda deteria a tecnologia e os profissionais capacitados.
Se avançamos em conectividade e redes móveis, retrocedemos em satisfação quanto aos serviços prestados e no custo desses serviços. Afinal, todas as empresas que exploram telefonia e transmissão de dados no Brasil estão entre as mais problemáticas em reclamações e processos.

Me questiono se seria da mesma forma, caso a ANEEL participasse da diretoria de todas elas e soubesse das artimanhas e subterfúgios para burlar leis ou se adaptar a imposições. Por exemplo, por que é obrigatório somente 10% da velocidade das conexões de internet? Se há uma limitação técnica, a empresa poderia investir mais, satisfazendo os clientes. Se o problema é infraestrutura, a contrapartida poderia vir do governo, após decisão de investimento conjunta: governo e empresa privada.

De volta ao tema da Eletrobrás.
De acordo com a BBC (link aqui), são 233 usinas de geração de energia, incluindo Furnas – que opera 12 hidrelétricas e duas termelétricas – e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), além de seis distribuidoras e 61 mil quilômetros de linhas de transmissão, metade do total do país e o suficiente para dar uma volta e meia no planeta.
A Eletrobrás também controla 10 termelétricas, 70 parques eólicos… Mais de 70% de toda a transmissão e 30% de todo o potencial de geração de energia elétrica do país. Possui toda a tecnologia de interligação do grid.
Será que o comprador não se tornaria um “manipulador de preço”? O que o impediria?

Pergunta retórica ao governo? Por que se desfazer dos carros e computadores antes de mudar os hábitos de consumo?
Por que não passar a cozinhar em casa ao invés de levar toda a família em restaurantes? Por que não trocar o shopping center por um passeio no parque?

São tantas medidas que poderiam ser tomadas antes, como uma mudança do nosso ilustríssimo Presidente Temer para o Palácio oficial, deixando o Jaburu… que é até difícil lembrar de todas para enumerá-las.

Anunciar uma privatização rápida e “tosca”, através da venda dos títulos no mercado aberto (emissão de ações), compondo com outras cinquenta empresas um “pacote atrativo” é um sinal de fracasso anunciado.
Que tal identificar “pedaços” menos estratégicos e mais deficitários para começar?
Não que eu seja a favor. Sou contra! Mas seria possível diminuir o déficit da empresa Eletrobrás isoladamente (caso acredite-se que ela seja realmente um problema).
Repetindo… Empresas de controle misto podem ser bem administradas e não devem sofrer no jogo político de nomeações nepotistas.

No final, um valor de R$20 bilhões, nas estimativas atuais, entrando nas contas do governo uma única vez, não resolve o problema.
É como se o filho problemático pegasse os tênis mais novos da casa e as bolsas de grife e os vendesse por R$20 cada…

por Celsão revoltado

figura retirada do WhatsApp – numa piada sobre os chineses da State Grid assumirem o controle majoritário da Eletrobrás.

P.S.: Quando se consulta no Portal da Transparência (por exemplo, aqui) os gastos com cartão de crédito feitos por Michel Temer, o resultado da última linha chama a atenção. “Informações protegidas por sigilo, nos termos da legislação, para garantia da segurança da sociedade e do Estado. => R$14.162.667,38

Reuniões intermináveis. Cada qual com sua carga de deployments e follow-ups.
Como se não bastasse, demandas proveniente de clientes e colegas ocupam o restante dos minutos de forma a concluir que dez, doze horas trabalhadas são asseguradamente insuficientes para entregar as tarefas.
Tarefas que se acumulam. Prazos que se atropelam.
Equipes reduzidas. Cooperação dificultada.
Aquele sentimento de culpa acompanhando o trânsito do final do dia. Aquela carga de responsabilidade que não permite soltar o celular, que faz surgir até tarde da noite novas e constantes mensagens de WhatsApp. O tal “comichão” que faz o computador ser ligado “só por uma hora” para adiantar o trabalho do dia seguinte, que na realidade nada mais é que a tentativa vã e infrutífera de finalizar o trabalho acumulado dos dias anteriores.

Duvido que seja exclusividade desse que vos escreve.
O mundo corporativo atual demanda mais do que o possível de se entregar dia após dia.
Os chavões e clichés que ajudavam num passado próximo, hoje causam risadas.
“Matar um leão por dia”
“Aprender a ser o máximo possível de mim mesmo”
“Tomar as pedras do caminho para fazer a escada do sucesso”

E contrastam com o equilíbrio pregado na sociedade moderna.
Onde é preciso cuidar bem da família, investindo tempo de qualidade; e da saúde, praticando esportes e balanceando a alimentação.
Ser voluntário. Ser sustentável e ecologicamente correto. Ser ético e engajado socialmente.
Estar antenado. Participar de todas as redes sociais com comentários inteligentes e pertinentes…

Quem entra em toda essa pilha?
Quem realmente consegue balancear corporativo e pessoal sem se atrapalhar ou sem comprometer um dos dois?

Os que se dedicam ao mundo corporativo, fatalmente se arrependem.
Ou via cobrança da família, ou via auto-reflexão. Que até pode tardar, mas respeita o cliché, e não falha.
Os mais “frios” estabelecem metas, de idade-limite, de posição na carreira, de salário.
Todos falham.
Pois a idade traz a pressão da experiência. O mundo corporativo cobra uma entrega melhor dos mais experientes.
As posições hierárquicas vêm trazendo implicitamente a dedicação exclusiva, a liderança inspiradora e engajadora e o “algo mais” em termos de esforço pessoal e da equipe.
E o salário também é um inimigo perigoso. O capitalismo exige que um profissional “se pague” com o próprio esforço e tarefas bem realizadas.

Os que se dedicam à família não atingem os objetivos cobrados no capitalismo.
Não viajam para Miami todos os anos. Não trocam de carro com frequência. Não colocam os filhos nos melhores colégios. Não frequentam os melhores restaurantes.
E, fatalmente, vez ou outra, se cobram por isso.
Reiterando a cobrança do “sucesso social” que não possuem. Que o “sistema capitalista”, jargão que odeio, cobra com todas as suas forças.

Solução? Desconheço.
A rápida análise filosófica dessa noite concluiu que nos dedicamos tanto ao trabalho por ego. É como se nosso ego fosse massageado com cada meta batida, com cada hora extra “investida” corporativamente, com o reconhecimento.
Eu arriscaria dizer que é também um vício.
Como o vício de ir à academia malhar. O ego faz com que o tempo investido aumente a medida em que os resultados começam a aparecer, ou a esperança nestes.
Só que, no caso do fisiculturismo, pode-se classificar o vício como saudável.

Me encontrando na situação e filosofando sobre ela, o que decidi fazer? Um post…
Filosofia ajuda. Sempre. Talvez só a desopilar, mas a ajuda é inegável.

por Celsão irônico

figura retirada daqui

P.S.: atualizo o post adicionando uma sugestão de leitura, enviada por um amigo e leitor. O que nos faz mais felizes: tempo ou dinheiro?

Dia dos pais

Posted: August 14, 2017 in Comportamento, Outros
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Pai é quem cria. Pai é quem sustenta. Pai é quem educa. Pai é quem decide.

Independente da carga de responsabilidade dos verbos acima, não há como negar, após uma análise rápida, que os mesmos carregam certo machismo, ou paternalismo, de décadas atrás. De uma época e sociedade conservadoras. (ou mais conservadoras, para os que negam que o conservadorismo seja exclusividade de outro período)

Convido a todos, após a comemoração do dia dos pais, a assistir ao vídeo abaixo. Aos que não conseguirem acompanhar diretamente por aqui, o mesmo está disponível no link.

O conceito de família mudou. E não dá pra afirmar mais que não há amor, não há carinho ou não há proteção na “nova família”, no “novo conceito” de “pai e mãe”.
A classificação da primeira frase do post já não servia há um bom tempo. Soa tão absurdo hoje em dia, por exemplo, pais que não trocam fraldas e que não ajudam nos cuidados diários, quanto soará (espero), num futuro próximo, o “dia dos pais”.

Por que comemorar especificamente dias para pais e mães e não dia da família? (ouvi a ideia recentemente e achei perfeita!)
Afinal, se as crianças são criadas por avós, por somente um dos pais biológicos, por um casal homossexual, ou por amigos que decidem adotar menores carentes… Pode-se afirmar que não mereçam um dia especial, mesmo que extremamente comercial?
Essas pessoas não seriam exemplos para os seus filhos? Não os educariam de forma satisfatória? Não ensinariam, sustentariam, criariam e decidiriam com “sim’s e não’s”?

A resposta é sim para todas as perguntas. O resto é preconceito!

por Celsão correto

figura de arquivo pessoal. Eu na (linda) interpretação do meu filho.

P.S.: como alternativa, insiro também o vídeo em formato MOV, aqui abaixo…

Quase três meses sem escrever aqui…
E mais de 70 dias desde o último post (aqui) que descrevia desapontamento após as denúncias graves contra Temer e Aécio Neves. Delações (ou vazamento de delações) de executivos da JBS.

Retorno de uma letargia…
Daquelas que sentimos nas noites de domingo… no momento em que percebemos que o final de semana, significando uma tola porém verdadeira “liberdade”, acabou.
O período de letargia coincide com um período complicado para o governo Federal, teve mala de dinheiro, negação de autenticidade de gravação, autenticidade comprovada, declaração sendo contradita, teve corte de orçamento da Polícia Federal e subsequentemente da Lava Jato… teve uso da agência de inteligência brasileira (ABIN) para investigar Fachin e para instalar dispositivo antigrampo no Palácio do Jaburu e em diversos gabinetes da “base” (aqui)…

Mas não teve uma definição por parte do PSDB. Definição que podia ser crucial, dado o apoio deste partido ao impeachment de Dilma e ao governo interino de Michel Temer.
Não teve manifestação na rua. Apesar de algumas tentativas. As panelas não saíram da cozinha e nem as camisetas amarelas deixaram o armário. (Com exceção de um arremedo, na condenação em primeira instância do Lula, pelo juiz Sérgio Moro)

O povo fala de política e de crise em conversas rasas, “de elevador”.
O habitual questionamento “quebra-gelo” numa conversa mudou de assunto. Se antes era o tempo, ou o trânsito, constantemente carregado para Paulistas,  hoje é a crise política e econômica.
Mas não se iludam os que pensam que o aumento das citações e das conversas rasas é benéfico. Muito pelo contrário. Quando um assunto entra nesse “estágio”, letárgico como as noites de domingo, o que mais se quer é furtar-se a ele, é fingir preocupação evitando a segunda ou terceira perguntas. Ou, no máximo, “testar o alinhamento” do interlocutor ao próprio pensamento, antes de seguir o discurso.
Denúncias através de grampos pararam de surpreender, gastos exorbitantes de dinheiro público pararam de estarrecer, malas de dinheiro, laranjas, empresas fantasmas saíram das páginas criminais para os quadrinhos do final do jornal.
É triste, mas a maneira mais realista e segura de manter-se informado sobre os desmandos e desmazelos da corrupção e dos corruptores do atual governo está nos programas de comédia noturno, em formato stand-up.
Escrachado e cômico, sim, trágico até, porém pura verdade! Casos reais são apresentados para fazer rir. E obtêm sucesso, pois são verdadeiros absurdos mesmo! Pena não obterem resultados concretos de punição ou sanção…

No momento do “estouro” das delações da JBS, do encurralamento de Temer e do afastamento de Aécio, aproximei o contato com o Miguel, compartilhando as impressões daqui e os desdobramentos prováveis.
Quando ele me perguntou sobre o desfecho que eu previa, afirmei que Temer escaparia por ter base (comprada) no Congresso; mas que acreditava na prisão de Aécio, ao menos a sua cassação já era certa pra mim.
Pouco tempo depois, “fugi” de Miguel quando Aécio voltou ao Senado. Ainda não queria acreditar na pizza, ainda estava em estado letárgico…

E a letargia chegou ao fim ontem, com um episódio crasso: a votação pela suspensão da investigação do presidente Temer. Acusado em pleno exercício do governo por atos de corrupção.
O show dantesco terminou com transmissão ao vivo dos votos na TV. Mas não em sua totalidade, como fora no impeachment ansiado pela mídia; apenas no clímax, quando do atingimento do quórum necessário para impedimento da abertura de processo no STF.
Pela primeira vez na história um presidente foi acusado em pleno mandato.
Talvez pela primeira vez tenhamos invertido um crime legislativo, a compra de votos de parlamentares, em algo normal e aprovado por mídia e sociedade.
Nosso presidente Temer comprou diversos votos com emendas. Licenciou ministros para que voltassem às funções no Congresso e auxiliassem na negociação dos indecisos, fizessem o chamado “corpo-a-corpo” (aqui um exemplo feito momentos antes do pleito de ontem), pressionassem partidos da base e deputados indecisos. Chegou a pedir a lista dos votantes contrários na CCJ para atuar diretamente neles (aqui). Pediu também aos partidos de base para trocarem suas bancadas da CCJ, a fim de garantir um relatório e uma votação prévia favoráveis (aqui).
Houve também um acordo com os ruralistas, um dia antes da votação. (aqui)
Preciso citar como votou o deputado Alan Rick do Acre, assediado pelo Ministro Imbassahy? E o resultado da bancada ruralista?

Para quem não lembra, o Mensalão do PT, único que teve investigações concluídas, criminalizou e condenou exatamente a prática de compra de votos. Isso mesmo! A compra de votos de parlamentares levou a condenação de tesoureiros, doleiros, políticos e assessores.
O que vimos de Maio pra cá, foi uma possível letargia na memória das pessoas, embaladas por discursos eloquentes e por frases de efeito.

“O Brasil não pode parar!” – se a classe empresarial da iniciativa privada, dependesse unicamente de decisões governamentais, já teria parado. A corrupção assola e precisa (ou precisava) acabar. Não está parado, mas caminhamos mais lentos do que poderíamos e deveríamos.

“Estamos superando a maior crise que esse país já viu” – sem voltar muito no tempo, eu diria que o período de super-inflação foi pior. E, “superando” é hipérbole. O capital especulativo pode voltar, uma vez que o governo deve completar o seu mandato. Só isso. Crescimento orgânico e recuperação industrial estão fora de cogitação.

“Tudo feito no Estado Democrático de Direito” – sem entrar no cerne, por não ser jurista, impossível dizer que TODOS estão sob a mesma tutela e a mesma régua post nosso aqui). Muitos dos parlamentares que votaram ontem “SIM” (que era a favor de Temer e do relatório da CCJ e contra a investigação da denúncia de corrupção pelo STJ), disseram que a investigação de Temer será feita após o governo, após 2018.
Creio que nem o mais letárgico admirador de William Bonner acredita em tal possibilidade.

Enfim…
De volta ao blog, de volta da letargia, de volta ao nosso país e aos problemas dele.
O que fazer? Como fazer? Quando fazer? Que batalhas escolher?
São as perguntas difíceis de responder nesse momento…

por Celsão correto

figura retirada daqui

P.S.: indicações de vídeos no Youtube – Bob Fernandes e Josías de Souza

P.S.2: indicação de leitura – aqui – pode ser propaganda própria, mas não deixa de ser verdade. Ministro do STF Luis Roberto Barroso fala sobre a operação “abafa” contra a corrupção