Archive for January, 2018

Piada pronta.
Um dos eventos, ou uma das pessoas que nos faz ter vergonha do país.
A provável futura Ministra do Trabalho segue sendo o Donald Trump brasileiro: divulgações vexaminosas e bombásticas diárias, por vezes nas redes sociais, por vezes em “descobertas” feitas pela emprensa que insiste em dar-lhe palco.

A última (ou mais recente) é um video que apresento abaixo:

Já não bastasse ter os processos trabalhistas que maculam o cargo que foi pateticamente nomeada a ocupar, Cristiane grava o vídeo numa lancha, cercada por ditos empresários.

A declaração, igualmente patética (quero crer que conscientemente jocosa), ataca o brio de trabalhadores que sofrem nas mãos de patrões como ela. Ataca aos dois motoristas não registrados.
Dizer que as pessoas pedem na justiça coisas “abstratas”, quando o motivo da ação é o registro em carteira professional… Desdenhar o pleito manobrando a frase “o que pode passar na cabeça das pessoas  que entram contra a gente em ações trabalhistas?” é, bem dizer, no mínimo, anti-ético para a postulante ao ministério que defende esse direito dos trabalhadores.
Direito esse muitas vezes abnegado por medo de represálias, de “sujar a carteira” e não mais conseguir emprego. (Para quem não sabe, há meios de pesquisar junto ao órgãos públicos se um trabalhador já moveu ação trabalhista, “filtrando-o”).

Voltando ao vídeo, dizer que foi divulgação fora de contexto é ridículo!
Duvido até que tenha sido algo espontâneo do amigo… Arrisco-me a dizer que foi planejado, para criar talvez “comoção”.
O problema é que a ética da deputada é quase tão flexível quanto a noção de honra, de bem e mal, de honestidade da elite. Se todos os empresários do vídeo possuem mesmo ações trabalhistas contra suas empresas… quem será o errado ou incongruente dessa estória? Patrão ou empregado?

Mesmo que instantânea e focada na comicidade, a reação da imprensa e da população foi positiva, mostrando à deputada e à equipe de governo o disparate dessa indicação para o Ministério do Trabalho.
Porém, como nada de positivo pode-se esperar de Michel Temer e seu governo chafurdado em conchavos, e como a nossa memória tem sido curta e seletiva, creio lamentavelmente que veremos Cristiane tomar posse.

Que a vergonha transforme-se um dia em revolta!

por Celsão correto.

figura retirada daqui de um dos “escândalos midiáticos” em que se envolveu Cristiane nos últimos dias

P.S.: busquei um link para pesquisa de ações trabalhistas movidas por trabalhadores. E ei-lo para São Paulo (aqui). Descobri que não possuo qualquer ação no momento… 🙂

Corrupção. Definitivamente a palavra mais ouvida e comentada no país no ano de 2017.
A corrupção esteve em todas as pautas jornalísticas, em todas as análises empresariais e de mercado, nas redes sociais, nas famílias, nas conversas de bar. Definiu investimentos, diminuiu a classificação do país frente à agências regulatórias internacionais, aprofundou a crise, influenciou economia, sociedade, opinião pública.

Foram dezenas os casos absurdos que vieram à tona, “esfregando na cara” da Nação a podridão e a cumplicidade da classe política, e também escancarando a passividade da população.
Mesmo filtrando as palavras não há como evitar adjetivos pesados. Foi horrendo, vergonhoso, indecente!

Citando alguns dos casos, começando por aqueles onde o nosso atual presidente Michel Temer foi citado, em pleno mandato, nosso governante maior foi acusado e “se livrou” dos processos, graças ao apoio político do Congresso.
Só relembrando, Temer foi gravado combinando propina com os empresários donos da JBS. A delação desses empresários, somam a grandiosa quantia de 1829 políticos!
Se lembrarmos também que os irmãos da JBS são acusados de enriquecimento ilícito, graças à benesses concedidas por políticos, junto ao banco de fomento BNDES, dá pra dizer que “tudo está errado”! Ou que “ladrão que rouba ladrão”…
O operador de Temer, para recebimento da propina, Rocha Loures, foi igualmente gravado e filmado saindo de um restaurante com uma mala que tinha o montante de R$500 mil. A mala foi devolvida em seguida, primeiro com conteúdo faltante, depois com toda a totalidade do dinheiro extorquido dos empresários.
Resumindo rapidamente o caso, o presidente Temer recebeu empresários fora da agenda oficial, foi gravado combinando propina com empresários de conduta duvidosa, combinou também o meio de recebê-la, a propina foi preparada, filmada, devolvida em seguida para a justiça.

Na mesma linha, o Senador e ex-presidenciável Aécio Neves foi gravado exibindo palavrões, ameaças de morte e conversas perniciosas. Foi afastado das funções no Senado Federal pelo STF, mas re-incorporado após um acordo indecoroso na “nobre” casa. Tal acordo incluiu carta de apoio do PT, partido que outrora fazia oposição direta.
É como se o cenário político tivesse acordado com medo de mais denúncias e represálias. Decidiram sem meias palavras proteger-se, ignorando uma decisão da Corte Suprema.
E como assistimos à essa “guerra de egos” entre Legislativo e Judiciário! Como aplaudimos decisões de um, sendo revogadas ou desafiadas pelo outro… como engolimos as canetadas de Gilmar Mendes.

Gilmar foi precursor do mais estapafúrdio movimento “abolicionista” de 2017. No final do mês de Dezembro, nos primeiros dias de seu plantão durante o recesso do STF, Gilmar soltou Adriana Anselmo, ex-primeira dama do Rio de Janeiro, esposa de Sérgio Cabral; Anthony Garotinho que já havia se beneficiado de uma transferência penitenciária sem explicação plausível; Antônio Carlos Rodrigues, foragido da Justiça após a condenação, ex-presidente do PR e acusado (também) de receber propina da JBS.
Sem contar as três liberações concedidas a Jacob Barata Filho, mega-empresário do setor de transportes. A Eike Batista. E a tantos outros…

Os mais atentos viram a mais clara tentativa de “estancar a sangria”, parodiando Romero Jucá, também acusado na Lava Jato, entre outras operações da PF.
A nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, teve apoio de políticos envolvidos com a Lava Jato.
O Ministro da Justiça, Torquato Jardim, junto ao recém nomeado diretor-geral da PF, Fernando Segovia, afastaram delegados da PF que faziam parte da Lava Jato, como Rosalvo Franco, além de transferirem equipes para outras funções, mudarem processos de fóruns…
E pra não dizer que estou vendo “pelo em ovo”, ou inventando moda, apresento uma frase do próprio Segovia, em seu primeiro pronunciamento, falando de Rodrigo Rocha Loures e da mala da JBS recebida em nome de Temer:

“…uma única mala talvez não desse toda a materialidade criminosa que a gente necessitaria para resolver se havia ou não crime, quem seriam os partícipes e se havia ou não corrupção…”

Seguindo e citando outro caso obsceno, tivemos ano passado a apreensão de 51 milhões de reais num apartamento, ou bunker, de Geddel Vieira Lima.
Falamos bastante do ex-Ministro nos últimos dois anos. Aqui um exemplo opinando sobre a denúncia do então Ministro da Cultura, Marcelo Calero, que acusou Geddel de intervenção indevida (pra dizer pouco).

Usando uma expressão cunhada pelo médico Paulo Saldiva, se a corrupção tem duas filhas: indignação e desesperança, vivemos ambas intensamente em 2017.
Quero dizer… a maioria da população deve ter vivido quando muito somente uma: a desesperança. Minha análise é que para essas, “o Brasil não está bem e é um país ruim para se viver”, ponto. Sequer há uma análise própria para enxergar a corrupção do dia-a-dia e dos pequenos atos, que permeia a todos.
Por mais estranho e anormal que possa parecer, tudo isso não causa mais indignação. Os “tapas na cara” foram fortes e seguidos o suficiente para amortecer a face e esmorecer as reações. Um político, um presidente, um advogado podem ter regalias, roubar, aumentar o próprio salário. Há reprovação, mas pouca ou nenhuma irritação ou repugnância a respeito. Parece que nos acovardamos…

E é curioso que hoje, dia 24 de Janeiro de 2018, data marcada para o julgamento de Lula, justamente hoje, seja marcado e valorizado como uma virada de página, uma mudança de atitudes, de mentalidade.
Não deveríamos pensar melhor após tudo o que foi (des-)feito em 2017?

Quanta compra de votos, quanto favorecimento, quanto conchavo vimos nos últimos meses?
Tudo foi em prol de uma melhora da economia – é o que dizem. Balela! – é o que digo.
E mesmo que houvesse melhora clara da economia… Valeria a pena? E os índices de desenvolvimento, de industrialização, índices sociais, porcentagem de desmatamento…?
Eu respondo: mesmo que todos estivessem excelentes, que tivessem melhorado por conta do presidente Temer e de sua equipe, não valeria. A ética deve(ria) prevalecer, a justiça vencer a corrupção, a coragem o medo…

Difícil crer que haja melhora quando as próprias agências internacionais de investimento, como a Standard & Poor’s, seguem rebaixando suas notas de crédito do país.
Temer prometeu e se comprometeu por votos no Congresso. Para se livrar das acusações que pesam. Matemática simples!

Lula, se condenado, recorrerá quantas instâncias forem possíveis.
E, se preso, apelará para o STF, apelará para Gilmar Mendes…
Assim como faria e fará Temer, Aécio, Jucá, Cabral, Garotinho, e outros pilantras.

Só adianto desde já que as manifestações que virão após a não-prisão de Lula serão politicamente manipuladas. (Sem querer usar o jargão da dicotomia esquerda-direita)
Por que simplesmente não aconteceram até agora? Onde estiveram em 2017?
Bem como serão politicamente manipulados os meios de comunicação que pouco falaram de Gilmar Mendes, Cabral, Garotinho, Rodrigo Rocha Loures, mas que exigirem a prisão do ex-presidente.

por Celsão revoltado

figura retirada daqui. Essa é a pessoa no Brasil mais correlata ao título. 🙂

P.S.: para quem quiser assistir à Retrospectiva 2017 da TV Cultura, o vídeo está disponível no youtube aqui. O bloco sobre corrupção foi o primeiro. Vai de 3’20” até 11’10”, aproximadamente.

P.S.2: outras indicações de leitura: os estragos de Gilmar Mendes à Lava Jato (aqui) e a análise, feita pela revista Época, da vitória da elite política sobre a Lava Jato (aqui)

 

 

Lady Buddha

Posted: January 12, 2018 in Comportamento, Outros
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No alto de uma península localizada na área central do Vietnã, fica uma estátua de 67 metros de altura, de pé sob uma flor de lótus de 35 metros de diâmetro. Destaca-se desde uma grande distância pela tamanho, pela impassível altivez e pela cor branca que a constituem.

A estátua apoia-se na montanha, encarando o mar, seus olhos meigos olham para baixo, uma mão abençoa enquanto que a outra segura uma garrafa de água benta, como que espalhando paz aos pescadores.

A tradução livre foi feita a partir do site oficial da atração turística (aqui). E representa bastante bem o “todo” da atração turística.
Abaixo vê-se uma praia e barcos pequenos de pesca completando o bucólico cenário.
Impossível não correlacionar com outras religiões, deusas protetoras, cenários…

A Umbanda é tida como uma religião brasileira por excelência. Suas origens sintetizam o Brasil e as crenças africana e cristã trazidas ao país com rituais e entidades indígenas originários daqui (para saber um pouco mais, leiam).
Jesus pode ser representado no congá (altar da Umbanda) em sua forma ocidental: aloirado e cabeludo, mas geralmente com o nome de Oxalá. Ele divide espaço com outros orixás do candomblé africano e com santos conhecidos e cultuados no cristianismo, como São Jorge.

Iemanjá é a deusa das águas ou rainha do mar. Tem sua origem em uma deusa nigeriana (Yemọjá). É a protetora dos pescadores, a grande mãe.
A “nossa” Lady Buddha é a mais celebrada dentre as divindades da Umbanda, talvez por ser identificada também como Nossa Senhora da Conceição, uma das manifestações católicas da Virgem Maria, mãe de Jesus.

Mas… Por que não temos uma estátua de Iemanjá nas mesmas proporções no Brasil?
Por que não oferecer ao turista, local ou estrangeiro, um pouco da nossa cultura, um pouco do sincretismo religioso nacional?

Conservadorismo? O popular complexo de vira-latas que impede a valorização nacional? Laicidade disfarçada de cristianismo neo-pentecostal?

Onde quero chegar com isso?

Nos países do sudeste asiático, lista que tem o Vietnã, o budismo é a religião predominante. Como tantas outras religiões, possui vertentes e diferenças regionais. E, mesmo pregando a harmonia, não há consenso sobre as “ladies Buddha“; não são todos os países (ou vertentes) que vêm com bons olhos a presença de mulheres, quer seja como sacerdotes, no caso, monjas, ou como entidades a cultuar.
Mesmo assim Lady Buddha está lá, abençoando os pescadores e recebendo turistas.

 

Como primeiro post do novo ano, proponho a reflexão.

Que em 2018 sejamos críticos e provocadores, exercitemos o diferente, pensemos mais no improvável!
Que a indignação e o inconformismo façam parte da nossa rotina.
Que a política entre de vez nas discussões do dia-a-dia, não como exercício de queixa, mas como mal necessário à evolução cidadã.
Que os abusos de poder: político, sexual, racial, etc., em todos os níveis, sejam punidos de alguma forma. Nem que seja de forma moral. E, consequentemente, que diminuam.

E, para aqueles que creem, que Lady Buddha, Iemanjá, a Força, Krishna, Gaia ou Nossa Senhora Aparecida nos abençoe nesse novo recomeço.
Para os que não creem, que a auto motivação e a força de vontade sejam suficientemente grandes para fazer a diferença.


por
Celsão correto.

figuras retiradas daqui e daqui.