Archive for July, 2018

“Que as nossas escolhas reflitam nossa esperança, não nosso medo!”

A frase acima é de Nelson “Madiba” Mandela, que se estivesse vivo, teria completado 100 anos ontem.
O líder sul-africano, falecido há cinco anos e afastado da vida pública há mais de dez, ainda é citado como exemplo de tolerância, cidadania, resiliência, relevamento e abnegação em prol de um bem maior.
São tantos os adjetivos cabíveis à pessoa, que me sinto “incomodado” cada vez que me arrisco escrever sobre ele.

Por exemplo, escrevemos na ocasião de sua morte (aqui – é, o blog já existia em 2013!) e também nos espantamos com o que ele “aprontou” no hino da Africa do Sul (aqui).

À ocasião das celebrações dos 100 anos, achei a trilha sonora do filme “Mandela: O Caminho para a Liberdade” ou “Long Walk to Freedom” em seu título original e a compartilho. Aqui o link do Google e aqui para os que usam Spotify.
Uma música da trilha me chamou a atenção ontem: Ordinary Love do U2.

Todos sabem que o U2 é um grupo engajado em temas humanísticos. Fez concertos em prol da libertação de Madiba, os fez após a libertação, compartilhavam as mesmas preocupações com o povo pobre sul africano e com outros temas, como direitos humanos e racismo.
A canção Ordinary Love foi feita especialmente para o filme.  A história conta que o grupo recebeu algumas cartas escritas por Madiba a Winnie (sua esposa) e as transformou em poesia…

I can’t fight you anymore
It’s you I’m fighting for

Eu não posso mais lutar contra você
É por você que eu luto

Em minha tradução livre e interpretação mais livre ainda do verso, não haviam mais forças para lutar contra os brancos, contra a Africa do Sul encontrada por Mandela no momento em que saiu da prisão.
É também por eles (brancos, Nação) que Mandela lutava.
O bem maior de Nação unificada e livre de preconceitos, almejado por Madiba, o fez perdoar os algozes e agressores.

We can’t fall any further
If we can’t feel ordinary love
And we cannot reach any higher
If we can’t deal with ordinary love

Não podemos nos apaixonar mais
Se não pudermos sentir um amor comum
A não podemos chegar mais longe
Se não pudermos lidar com um amor comum

Dispa-se da raiva e dos preceitos que você carrega. Não há como ir além, superar-se como indivíduo, como sociedade, como país, quando sequer um amor simples pode ser sentido, ou quando há dificuldades de aceitar esse amor.

Are we tough enough
For ordinary love?

Somos fortes o suficiente
Para um amor simples?

Conseguiríamos deixar um pouco o EU e buscar o NÓS?

Que tenhamos esse desprendimento, que consigamos seguir os ensinamentos de Madiba, que busquemos e cultivemos esse amor simples.
Enfim, que as nossas escolhas reflitam nossa esperança, não nosso medo

por Celsão correto

figuras retiradas daqui e daqui. Representam a capa do single do U2 aqui citado e uma imagem do videoclip da música.

P.S.: por último, mas não menos importante, há outro texto sobra Madiba também escrito nesse blog logo após sua morte. Nele, analisamos o vislumbramento de muitos com as atitudes do líder negro e a sua posição política. Uma das acusações enfrentadas por Madiba foi comunismo (post aqui)

Eu gosto de Copa do Mundo de futebol.
Gosto de ver a Bandeira e o verde e amarelo enfeitando ruas, praças, sacadas e bares.
Mesmo que a pintura da rua não seja unânime e que a vizinha não tenha contribuído para os enfeites coloridos.

Gosto do corre-corre, do trânsito pré-jogo, dos encontros furtivos, dos churrascos improvisados.
Mesmo quando perdemos o hino, parte da partida, ou mesmo toda ela, cuidando da carne e dos convidados.

Gosto da imprevisibilidade dos resultados e do arranjo apressado das empresas, que sabem ser improdutiva a manutenção dos funcionários na companhia na hora dos jogos.
Mesmo quando alguns patrões pregam uma falsa amizade e promovem integrações na empresa visando minimizar o impacto da Copa.

Gosto dos preparativos, da escolha da roupa, maquiagem, de adereços como perucas, chapéus e gorros.
Mesmo dos exagerados, que pintam a pele e se esquecem que o suor e o tumulto no ônibus espalham e sujam, acabando com a alegria de muitos, de empolgados a moderados.

Gosto das superstições, dos lugares marcados em cada casa, dos trajes corretos a usar, dos rituais.
Mesmo sabendo que pouco influenciam no resultado de um jogo de futebol (aqui eu deveria dizer “nada influenciam”, mas não consegui 😉 )

Gosto dos que enfeitam carros, sobretudo com a bandeira, mostrando seu patriotismo e sua torcida.
Mesmo que seja um brinde recebido em posto de combustível ou uma insistência do filho mais novo, ainda embevecido de nacionalismo. Mesmo que seja uma bandeira puída e maltratada pelo tempo.

Ah… A nossa Bandeira.
Símbolo máximo de reconhecimento internacional, de “pertencimento”, de orgulho… É ostentada não somente pelos filhos da Pátria, como por estrangeiros, que vêm e viram o algo “a mais” dessa terra varonil.

Gosto do hino. Que mesmo com palavras complexas e versos de pouco sentido cotidiano, causa o arrepio difícil de explicar e segue a multiplicar-se de boca em boca, ano após ano (ou Copa após Copa).
Mesmo quando não cantado, mesmo quando erroneamente entoado… Pouco importa. O recado é claro e retumbante: somos brasileiros e amamos do nosso país!

Gosto de ver os torcedores no Estádio. O choro e a alegria estampados em rostos que não conseguiriam fingir naquele momento.
Mesmo sabendo que representam desigualdades latentes da nossa Nação. Pois os negros, por exemplo, aparecem somente no campo.

Sou daqueles que curte o excesso de nacionalismo e patriotismo desse período.
Sem esquecer dos problemas e mazelas, do dantesco jogo político e da crítica situação social atual… A torcida pelo Brasil na Copa é o oásis de Nação que poderíamos ter o ano todo, e ano após ano.
A seriedade com que discutimos a escalação dos jogadores, as decisões do técnico Tite, do juiz no campo (atualmente dos juízes, uma vez que temos o novíssimo VAR) e até a seriedade com que comentamos os comentários que ouvimos na TV, poderia ser a seriedade de discutir política, citando um único exemplo.

A Copa acabou. Principalmente para nós, que saímos da competição sem o título e adoramos criar heróis e principalmente vilões.
É assim desde 1950, onde atribuímos o fracasso no Maracanã ao goleiro Barbosa.
Na Copa passada, novamente aqui no Brasil, e após a derrota acachapante para a Alemanha, vimos cenas lamentáveis, incluindo a queima da, aqui no texto exaltada, Bandeira Nacional (post nosso, já com quatro anos de “idade”, aqui).

O triste pra mim não é perder a Copa.
O que torna o futebol apaixonante é a “certa” imprevisibilidade do resultado. Fazendo com que o “melhor”, nem sempre vença.
E perder… perder é parte do jogo, da vida!

O triste é falharmos como Nação!
Triste foram os comentários racistas sobre o Mbappé, os vídeos sexistas repetindo palavrões em Português por mulheres russas, perseguições eletrônicas a jogadores…
Enquanto seguirmos apregoando e exaltando essas práticas, seremos apenas uma Nação que desempoeira camisetas amarelas e bandeiras a cada quatro anos.
Não há derrota maior que perdermos a noção de humanidade e a capacidade de acreditar.

por Celsão correto

figura retirada daqui