Archive for October, 2018

Começo explicando o título, que vem do poema-figura desse post. O poema é de Ruy Proença, e o encontrei aqui

Os fatos da atualidade me causam estranheza e perplexidade.
Nenhum fato divulgado, por qualquer veículo de imprensa, tem a capacidade de chocar, de fazer pensar, de provocar cisma ou medo, de incitar arrependimento ou reconsideração.
Minto. Nenhum fato que seja contrário ao idealismo atual, ao conceito de verdade, ao que acreditamos.

É como se tivéssemos bloqueado nossos ouvidos para as opiniões contrárias.
Como se o ódio substituísse a razão.
Como se soubéssemos tudo sobre tudo. E sequer respeitássemos opiniões diferentes.

(…)

Por um lado, considero compreensível.
Nos encontramos em um “novo período do conhecimento humano”.
A tal da “pós-verdade” recriou uma nova maneira de entender as coisas, baseado no que se quer acreditar e em truques apelativos para enfatizar, ou fazer valer o pseudo-fato.
O termo, inclusive, existe há alguns anos e foi “turbinado” recentemente, graças às mídias sociais. (Nos links a seguir, a definição na Wikipedia e no Dicionário Informal)

Na pós-verdade, tem-se um desmedido apelo emocional aliado à hermenêutica (interpretação de fatos) que cria versões distorcidas e transfere aos fatos, ou verdades, uma importância secundária.
Vê-se isso em vídeos de propaganda espalhados via WhatsApp.
Vimos isso, recentemente, na distorção proposital das declarações de Cid Gomes e Mano Brown; distorções (ou pós-verdades) criadas por apoiadores de Bolsonaro.

Explicando…
Mesmo que ambos tenham criticado a campanha de Haddad e o próprio PT com razão, veemência e com fatos… não são eleitores de Bolsonaro!
E recriar ou reproduzir os discursos com subtítulos categóricos e emocionais de: “chega de esquerda”, ou “fora PT”, distorce a mensagem que os interlocutores desejavam passar.

No artigo que destaco aqui, assinado por Paolo Demuru no Nexo, o autor destaca correlaciona quatro estratégias dos apoiadores do candidato Jair Bolsonaro à semiótica, atribuída a Umberto Eco por ele como “a disciplina que estuda tudo aquilo que pode ser usado para mentir“.
Abaixo destaco as quatro estratégias:
Objetividade aparente: simplificação de um fato à uma parte que atenda aos objetivos.
Edita-se um trecho de vídeo, declaração ou texto, focando em algo contundente, mas com significado reduzido ou também, diluído do contexto de onde estava inserido.
É o caso da declaração em vídeo de Mano Brown: se os apoiadores de Bolsonaro tomassem, por exemplo, a frase dele “Eu tinha jurado pra mim mesmo nunca mais subir em palanque de ninguém” a rigor, saberiam que a interpretação implícita é: “mas estou aqui, no palanque do Haddad, pois acredito ser a melhor opção contra Bolsonaro“…

A “minha verdade” ou as auto-verdades: vídeos autorais, de pessoas que se identificam, mostram a cara, trazem veracidade e cumplicidade ao discurso, há uma identificação própria e, com isso, um “aumento da realidade”. Mesmo que o discurso não seja factual.
Um pastor evangélico que afirma uma taxação das igrejas, um militar que tem informações privilegiadas do diretório do PT e “sabe” que verbas serão reduzidas, um empresário que afirma que a crise é advinda do governo Lula, um representante das minorias ignorando discursos prévios e ratificando seu apoio ao Bolsonaro…

O êxtase passional: onde maiúsculas, alterações de voz em vídeos e áudios, exclamações dão o tom dramático e transferem ao emocional decisões que são absolutamente racionais.
Esse é a principal estratégia dos grupos de WhatsApp, juntamente com a estratégia temporal a seguir.

A urgência: aqui o tempo é agora! O compartilhamento deve ser feito o quanto antes, e para todos os grupos, para todos os contatos, para que “o PT não volte”.

(…)

Não importa se é uma verdade construída, se há dissonância em relação à verdade. O que importa é mostrar, e difundir, o meu ódio e o meu desacordo.

Aliás, uso os apoiadores de Bolsonaro como os maiores utilizadores das mídias sociais para as pós-verdades e a difamação e os de Fernando Haddad como as maiores vítimas, pois são diversos os relatos na própria mídia dessa supremacia. Aqui e aqui estão exemplos do grupo Exame e do jornal El País, correlacionando o compartilhamento de Fake News em sua maioria por apoiadores do PSL. Sem citar o recente escândalo da campanha patrocinada por empresários…
Sei que o “outro lado” também o faz, o PT e seus apoiadores também espalham boatos tentando se beneficiar por isso. É lamentável.
Mas não creio que eu precise contrabalancear o exemplo, já que tomo a maioria.

Também do lado derrotado (já me dou por vencido), observamos paredes nos ouvidos.

Mas compartilho uma máxima que ouvi recentemente…

Entendo os que votam em Bolsonaro por serem contra o PT. Entendo os que votam no PT por serem contra o Bolsonaro.
Tenho dificuldades de entender os que votam neles por gostarem deles e se identificarem…

Como escrevi recentemente, aqui, julgo ser essa a pior eleição em termos de escolha, que enfrentamos.
Certamente, pra mim, são os piores candidatos possíveis dentre as opções que tínhamos no primeiro turno.

Finalizo com um pequeno texto, recebido via WhatsApp, que faz analogia entre o período que vivemos hoje e o mito da caverna, de Platão…

Imaginem várias pessoas presas num grupo de WhatsApp. Se alguma delas [acordasse to transe] conseguisse fugir e trouxesse verdades do mundo exterior, traria luz e razão aos prisioneiros, mas seria tida como mentirosa e, certamente, duramente agredida.


por
Celsão correto.

figura retirada daqui.

 

Dormi cansado.
A rotina de quem está com um familiar internado definitivamente não é fácil. O stress mental se junta ao cansaço físico e “desmonta” até os mais resilientes.

Eis que passos me despertam.
Como o apartamento é daqueles com piso de madeira antigo, que se expande e retrai, surrado pelo tempo, é quase impossível andar ser sem percebido.
Pensei comigo: “receberei uma visita do filho mais velho. É abraçá-lo e seguir dormindo.”

Mas então o ouvido encontra a razão real de haver despertado: os passos são bruscos, noutro apartamento, e estão acompanhados de gritos.
Como um que não quer se deixar despertar completamente, forço a consciência a esquecer o episódio ou incorporá-lo num sonho qualquer.

Não dá certo. E sem querer crer no que ouço, escuto a palavra “Bolsonaro“.
Tento mais uma vez (re-)dormir. Mas as vozes falam alto…
“Chega! Sai daqui!”
“É uma vergonha essa discussão numa hora dessas” – o relógio marcava 1:30.
“Eu não quero mais ouvir falar em Bolsonaro nessa casa” – pausa com um som inaudível, provavelmente em resposta – “Nem Bolsonaro, nem Haddad. Chega!”

Nossa! É um casal de namorados repreendido pelo pai de um deles… certo?
“Vá já para o seu quarto!”
Irmãos! Corrijo a subjeção anterior.
“Enquanto morarem nessa casa vocês tem que me respeitar e respeitar o que eu disser…”
O suposto pai fala mais alto que os demais. Está tão exaltado que a voz já se encontra rouca e muita raiva, ódio até, pode ser percebida em seus berros.

Como pudemos chegar nesse ponto? A privação de raciocínio e o ódio alimentado e retroalimentado estão causando irracionalidades.
Não é privilégio dessa família. Cada um tem o seu caso para contar nessas eleições 2018. Alguns envolvendo parentes e amigos bem próximos.

A mente desperta de vez e repenso a definição de democracia, talvez esquecida pelo próprio povo, que a compõe.
Democracia vem do grego: demos é o povo e kratos significa poder. (Wikipedia)
E embora na Grécia antiga fazia oposição à aristocracia. E embora tenha representado um contraste à monarquia e à oligarquia posteriormente… hoje se define como o regime oposto a ditaduras e tiranias. Prega-se que há liberdade de trocar os líderes na democracia, pelo clamor ou decisão popular.

Pois bem, como favorável a democracia que sou, aceito e aceitarei a escolha das urnas do próximo dia 28/10. (mesmo tendo escrito aqui, que ambos os postulantes sejam as piores escolhas possíveis no momento).
Me é estranho ver reclamações do PSL sobre as urnas eletrônicas, como em aqui. Foram essas urnas que contabilizaram número recorde de votos para seus deputados federais e estaduais.
Da mesma forma como me serão estranhos e condenáveis as passeatas e manifestações que virão pós-pleito, motivado pelo lado derrotado.
Se estamos numa democracia. Se a prezamos. O que a maioria escolher deve ser acatado por todos!

Parêntese para uma pesquisa divulgada recentemente.
Foi perguntado a brasileiros qual o melhor regime e a democracia teve aprovação recorde: 69%. (notícia aqui)
As outras opções eram ditadura (12%) e tanto faz (13%). Mesmo que, dentre os eleitores de Bolsonaro, 22% prefiram a ditadura, a maioria, 64%, diz preferir a democracia.

Por que então as cenas de ódio e a polarização estúpida se repetem e certamente se repetirão nas ruas e nas famílias?

Achei um excelente artigo publicado no Nexo em 2016, em plena polarização de impeachment ou pós-eleição de 2014; polarização esta entre PT e PSDB ou entre Dilma e Aécio (artigo aqui).
Sociólogos, psicólogos e cientistas sociais enumeram os elementos que podem trazer o comportamento violento relacionado a manifestações políticas. Tristemente temos, novamente, todos estes elementos presentes:
– Descrença na eficiência da política tradicional – há tempos não temos confiança no modo como fazemos política no Brasil: os conchavos e favorecimentos, as nomeações, os partidos de aluguel, o fundo partidário advindo da reforma política mal feita, etc.
Polarização de opiniões – o voto de ódio fez os eleitores esquecerem-se das propostas dos demais candidatos. E eram muitos, de todo o espectro de orientações políticas.
– Choque moral – corrupção e desvios (acusação ao PT) versus homofobia, racismo, sexismo, entre outros (contra o PSL e Jair Bolsonaro)
Um alvo específico – ambos os lados têm um: Lula versus o próprio Bolsonaro.
Desigualdade social – é um grave problema. Ignorado como elemento de conflito por muitos, até então. Ricardo Azevedo escreveu sobre os motivos que fizeram e fazem os mais necessitados votarem no PT (aqui). Criticando a elite, que preferiu “tiro, porrada e bomba” ao diálogo e avanço pragmático de médio prazo.

O radicalismo não trará qualquer avanço necessário e imprescindível à Nação.
Se pararmos para ouvir, conseguimos (até) encontrar pontos positivos nas duas propostas de governo. O PT fala em combate à corrupção. O PSL fala agora em expansão de investimentos em programas sociais.

Difícil de acreditar? Talvez.
O que penso é que nosso papel seja o de, apenas, aceitar o desejo do povo e protestar sobre o que não concordamos. Sem destilar ódio.
Que o protesto seja, antes de tudo, possível, depois sadio e constante. É impossível concordar com tudo! E é igualmente impossível rejeitar tudo!

Para acabar: eleição sem Lula não é fraude.
E, de forma semelhante, caso o PT ganhe nas urnas [eletrônicas], não será fraude.
E que todos os argumentos do vídeo abaixo sejam abnegados e rechaçados.

por Celsão revoltado.

P.S.: figura e vídeo recebidos por whatsapp. Difícil determinação de autoria.

Decido começar o texto lamentando os resultados das últimas pesquisas de intenção de voto à presidência da República.
Lamentavelmente, na minha opinião, os líderes das pesquisas são os piores candidatos de esquerda e direita, se tomarmos essa dicotomia ou polarização em consideração.
E, ao contrário do que os opositores pregam, Fernando Haddad, do PT, está longe de ser o extremo da esquerda. O PT está bem mais próximo do centro e, fatalmente (também infelizmente), fará acordos com o MDB e o chamado para governar…

A corrupção escrachada na Lava Jato e a descrença em toda a política gera o perigo do analfabetismo político, da apolítica, do ódio destilado em banho maria contra todos os avanços dos últimos anos.
A descrença gera votos de revolta, de protesto. Gera Tiriricas, Enéas, Levys Fidélix, Bolsonaros…
A intolerância ao diálogo faz com que boas ideias de ambos os lados sequer sejam ouvidas. Geram homofobia, por exemplo, freiam investimentos em desenvolvimento através de parcerias privadas; geram reformas que beneficiam poucos. Leis para os legisladores!
A falta de confiança na politica e nos políticos afastam o povo e a própria Nação das decisões.
E, se não escolhemos, alguém escolherá por nós.


Pausa para uma propaganda excelente do Burger King. (aqui o vídeo no Youtube, para quem não conseguir assistir o vídeo no post)
A marca entrega um sanduíche a quem diz que votará em branco ou nulo com ingredientes “surpresa” e incompletos. Aludindo à máxima que acabei de escrever:
“Se você não escolhe, alguém escolhe pra você!”
Uma das conclusões é sensacionais:
“Quatro anos desse lanche aqui, hein!?!” – Traduzindo: quatro anos de uma escolha que não é minha… é algo difícil de encarar.

Isso posto e, uma vez que temos 13 candidatos a Presidente, doze candidatos a governador e vinte ao senado em São Paulo…
(Consulte aqui os candidatos do seu estado e Distrito Federal.)

Que tal se escolhêssemos o candidato que melhor represente as nossas ideias hoje?
Que tal se abandonássemos a ideia de voto útil? De votar em “x” para retirar “y” ou de tentar focar nos primeiros das pesquisas…
Aliás, as pesquisas vêm errando há bastante tempo. Desde eleições municipais de Erundina (1988) e Celso Pitta (1996) até João Dória em 2016, citando novamente o estado e a cidade de São Paulo, onde vivo… há vencedores que sequer estavam cotados para o segundo turno. Dória, ganhou em primeiro turno numa eleição em que sequer aparecia na terceira posição um mês antes do pleito.
Deixemos para o segundo turno o eventual dilema, ou mesmo a anulação do voto.
Dou a mão a palmatória dessa vez e aceito, independente do que escrevi em 2014 (aqui); que, talvez seja impossível escolher entre dois candidatos ruins, o menos pior.

Outro ponto a considerar: é normal repensar o voto quando se escuta uma notícia sobre o candidato, seu vice, quando te lembram os detalhes de seu plano de governo, suas ações no passado, ou mesmo quando citam os demais partidos da coligação.
Se não há dúvida alguma, cuidado! Você pode estar confundindo política e eleição com religião!
É um jogo de prós e contras e, perfeição, não há.
Voltando ao assunto religião, muitos dizem que houve um ser perfeito, mandado dos céus à Terra por Seu Pai; e teve a vida terrena encerrada com algo próximo a um linchamento público seguido de uma crucificação…

Para ajudar até os que já se acham decididos, indico dois sites interessantes, onde a opinião do eleitor é comparada à dos candidatos.
No primeiro, com os candidatos a presidente, responde-se perguntas e há comparação com citações dos candidatos e seus planos de governo.
O segundo é focado em Senadores e Deputados Federais. As perguntas que o internauta responde foram feitas aos candidatos e a correlação nas respostas, junto com o “peso” do tema traz o alinhamento em porcentagem.
Vale a pena fazer os dois. Vale responder novamente o questionário e depois estudar onde não houve correspondência na resposta. As vezes, mesmo que exista 75% de compatibilidade, a contradição pode estar num tema chave e gerar repúdio.
O primeiro é a Calculadora de Afinidade Eleitoral, na página do “O Iceberg” (aqui). Note que alguns presidenciáveis responderam com mais detalhe às perguntas que o eleitor responde.
O segundo está hospedado no UOL e Folha. Chamado Match Eleitoral. Link aqui.

Finalizo com o que acho mais importante, coincidentemente é o meu maior medo no momento: é preciso aceitar o resultado dessa eleição!
Quem quer que seja eleito, o será com base em um processo democrático; e na opinião da maioria da população brasileira.
O método pode ser discutido, a urna pode ser impugnada num futuro próximo; porém, até então, é uma ferramenta elogiada noutros países, parte de um processo independente e pátrio.
Aceitarei, por mais que me doa, o resultado advindo das urnas. E torço para que o lado derrotado, sobretudo, aceite e faça uma oposição inteligente…

por Celsão correto

figura retirada daqui. Não sei o porquê escolheram as cores dos candidatos como tal.
[…]
em 02/10 – alteração para inserção de vídeo da propraganda do Burger King citado