Pseudociência

Posted: January 16, 2019 in Outros, Sociedade
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O ser humano é realmente curioso, para dizer pouco.
Os mecanismos e “os caminhos” que tomamos para construir o que somos e o que pensamos são infindáveis labirintos intuitivos e irracionais, em certa maneira.

O psicólogo americano Michael Shermer afirma que somos “máquinas de crenças”, que evoluímos de certa forma, atrelados nisso.
As crenças nos fazem viver melhor, nos confortam. São como um refúgio para o nosso cérebro.
É sabido que o ser humano tem dois mecanismos de pensamento (aqui peço perdão aos psicólogos, filósofos e puristas, pois estou usando as palavras que me vêm a mente, independente da melhor definição). Coloquemos então os dois “mecanismos do pensamento” entre aspas: o primeiro rápido e intuitivo, irracional, baseado em experiências e crenças, não reflexivo. O outro reflexivo, onde se racionalizam as crenças, buscando evidências naquilo que, inicialmente, pressupõe-se verdade.

Se juntarmos, simplesmente, os dois mecanismos…
Intuímos, deduzimos, racionalizamos recolhendo alegações e fatos que corroborem para as crenças que temos, e passamos a defender o argumento em si; não estaríamos fazendo ciência, estaríamos exercitando um dos vieses cognitivos conhecidos pela psicologia: o viés de confirmação. (muito usado, aliás, nas redes sociais ultimamente para defender opiniões e políticos)

A psicologia, noutra corrente bem próxima, defende que o ser humano busca acreditar naquilo que lhe faz bem, naquilo que se quer acreditar. E não na verdade ou no que tem respaldo na ciência. E chama isso de auto-engano.

O último conceito da psicologia que eu gostaria de abordar aqui é a dissonância cognitiva.
Que é, na minha interpretação leiga (provavelmente sem as palavras corretas novamente), um “choque” que se toma quando as crenças se mostram imensamente diferentes da realidade. Quando percebemos que aquilo que cremos, que racionalizamos, que buscamos afirmação em pares, na mídia, etc.. é falso ou apresenta-se diferente em aspectos irrefutáveis.
A defesa mais racional seria abandonar a crença. Mas como não somos tão racionais quanto acreditamos que somos, buscamos diminuir a verdade (ou a crença), relativizando a diferença entre elas.

(…)

Já a ciência, não é democrática, como afirmou um colega de faculdade numa discussão de WhatsApp. Não depende de consenso ou de votação.
Cientistas pensam de maneira contra-intuitiva. Buscam testar os seus argumentos (geralmente os argumentos de outros cientistas) à exaustão.
Diz-se que só é ciência, primeiramente, se o argumento for falseável. Ou seja, se ele puder ser testado por outros, de modo a refutá-lo, a desmenti-lo. É assim que a ciência avança!

Citando um exemplo recente… muitos foram os cientistas que se debruçaram sobre o tema de clonagem após a divulgação em 1996 da clonagem bem-sucedida da ovelha Dolly.
A reprodução do processo fez com que outros animais, incluindo uma espécie de bode extinto na Espanha, fossem clonados a seguir.
(sem entrar no tema específico da clonagem, seja de animais ou humana, pois existem muitas outras implicações) 

(…)

Por que uma introdução tão longa?

O que vimos recentemente nos vídeos e declarações de Olavo de Carvalho, gravação antiga que voltou à discussão, questionando se a Terra orbita o Sol, e de Damares Alves, questionando os estudos de Darwin, é uma afronta!
Não a mim ou aos eleitores de Bolsonaro, que sequer é tema desse post, mas ao conhecimento humano e à Ciência.
Ambas teorias (heliocentrismo e evolução das espécies) já foram testadas e os argumentos contra refutados inúmeras vezes, desde Galileu Galilei, no caso de geo versus heliocentrismo. As notícias dos links a seguir, possuem explicações simplificadas para ambos questionamentos: aqui para Olavo e aqui para Damares.

O maior perigo, a meu ver, está no progresso da pseudociência.
Novamente nas minhas palavras: a pseudociência refuta a ciência embasado nas crenças comuns a um grupo. Parte muitas vezes de fatos científicos, mas se aproveita das lacunas de conhecimento da ciência para explicar, distorcidamente, uma ideia ou conceito.

É normal que a ciência tenha lacunas de conhecimento. Não é o caso da Teoria Geral da Evolução das Espécies ou do heliocentrismo.
Mas, uma vez que não seja possível, com a teoria de Darwin, explicar completamente a extinção de um certo animal ou a evolução de determinado vírus, pode ocorrer que, baseados na pseudociência, lunáticos conectem religião ou outras crenças a esses dois fatores naturais.

Para que tenhamos um exemplo mais claro e real, ocorre anualmente na India um congresso científico, que já está em sua edição 106.
Para desespero da comunidade científica mundial, cientistas indianos já declararam que o avião surgiu na India muito antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont, baseado no épico hindu Ramayana e que cirurgias estéticas já existiam na país desde a antiguidade, baseado na lenda do deus Ganesha, que possui cabeça de elefante implantada em corpo humano.
O texto pode ser lido aqui.

Não acho que há erro em crenças e religiões.
Pelo contrário. As crenças, como colocado na introdução, são os mecanismos intuitivos e instintivos de sobrevivência, que usamos há eras.
E a religião, sendo uma delas, conforta e refugia.
Só não vejo como prudente a mescla da ciência com a religião, ou a promoção da pseudociência.

Como os mais incautos já fazem, começa-se a diminuir declarações desse tipo, em clara dissonância cognitiva, em clara luta de reafirmação de crenças.

por Celsão correto.

P.S.: figura retirada daqui. Sobre a curiosa estória do Cruzeiro para a borda do Planeta Terra organizado por defensores da Terra Plana.

P.S.2: O psicólogo americano Michael Shermer é também crítico da pseudociência. (aqui)

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