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Hoje é dia internacional de combate à LGBT-fobia.
O dia foi escolhido pelo fato marcante ocorrido em 1990, em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o homossexualismo da lista de doenças. Algo tão absurdo hoje em dia, ao menos para mim, que não parece ter sido realizada há menos de vinte anos.

A Wikipedia informa que houveram comemorações em 132 países no ano de 2016. Mas que ainda há discussão sobre a “aceitação” do dia em termos globais, como toda a luta desse grupo. E é prova de que a humanidade demora para quebrar os seus pré-conceitos e julgamentos.

Mas eu gostaria de comemorar dois pequenos avanços recentes. Que me surpreenderam e, ao mesmo tempo, me excitaram. Fazendo com que eu voltasse a ter certa esperança na mudança.
A revista Você SA, do grupo Abril, divulgou no começo do mês uma matéria com o título “Sou chefe e gay: executivos assumem orientação e alavancam inclusão”, que pode ser lida aqui.
Mais do que o fato e a análise em si, a exposição de três executivos de grandes empresas “quebra”, mesmo que em parte, a máxima machista de não se presumir sobre a sexualidade de uma pessoa em ambiente corporativo e não se assumir homossexual quando se almeja subir na carreira.
Todos convivemos com gays em ambiente corporativo. É certo! Mas eu ainda vejo como um tabu a admissão por parte dos profissionais, sobretudo pelo patriarcado ainda forte e latente; Não se assume (ou não se assumia) abertamente por “medo” de retaliações.
Não quero dar spoiler, mas a reportagem fala sobre alguns acontecimentos nesse sentido.

O segundo pequeno avanço ocorreu na empresa em que trabalho, a Siemens.
Foram estabelecidos comitês de diversidade, através da ação de voluntários, para discussão de temas de raça, gênero, deficiência física e LGBTI+.
E, para mostrar que a mudança não ocorre apenas “da boca para fora” ou “para ficar bem na fita”, a empresa concedeu, a um funcionário do sexo masculino, uma licença parental de seis meses. A notícia pode ser lida em várias fontes, aqui copio o link do portal UOL.
Mesmo ouvindo (ainda) piadas preconceituosas frequentemente, algumas inclusive envolvendo os dois colegas, vejo nessa iniciativa também uma quebra de padrão; e uma abertura importante numa direção “sem volta”. O precedente, legal juridicamente ou não, pode atrair a atenção de outros colaboradores e, por que não, de outras empresas para o acontecido.
E, talvez, o que tenha sido o primeiro caso (divulgado ao menos) no Brasil, possa se tornar apenas o primeiro.

São pequenos avanços, mas, comemoremos!

por Celsão correto.

figura retirada daqui.

P.S.: faço uma ressalva triste para o fato de ainda existirem 71 países onde ser gay é crime (aqui). Ainda há um longo caminho a percorrer. Até por conta disso, as publicações corporativas na Siemens sobre o assunto não são “globais”. 

Conversa

Posted: May 14, 2019 in Comportamento, Outros
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“Olá”
“Olá para você também. Em que posso ser útil?”
“Quem está aí? Sua voz está estranha…”

… [pausa]

“Prefere outra voz?” – pergunta, modulando uma voz feminina
“Quem é você?”
“Sou a ErgoSleeveActiveLineX Plus. Em que posso ajudar?”
“Não entendi…”
“Sou a máquina ErgoSleeveActiveLineX Plus. E posso fornecer inúmeras informações.”
“Quê!?! Onde você está?”
“Estou em Maribor, Eslovênia. Fábrica de Kosivice. Linha 504. Sou a quarta máquina na sequência de produção. Precisa das coordenadas?”
“Quê!?!”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Que tipo de informação minha seria útil?”

“É alguma brincadeira isso?”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Poderia explicar com outras palavras?”
“Você pode me mostrar onde está?”
“A cidade de Maribor situa-se ao norte da Eslovênia, às margens do rio Drava. É o centro administrativo e maior cidade da região da Baixa Estíria. Se olhar em seu dispositivo agora, poderá ver o mapa…”

“Pára tudo! Não te perguntei isso…”

“Não estou autorizada a dar informações sobre a fábrica em que me situo, ou sobre a linha de produção em que trabalho, mas o processo da cerveja começou por volta de 6000 a.C. com os sumérios, egípcios e mesopotâmios. É a bebida alcoólica mais popular do mundo, feita a partir da fermentação de cereais…”
“Pode parar! Só pode ser brincadeira. Por quê está me falando isso?”
“Você desejava informações de onde eu estava. Quando pediu que eu parasse, pensei que desejasse saber o que eu estava fazendo aqui. As pessoas se perguntam muito sobre a função delas no Mundo.”
“Como sabe disso?”
“Tenho acesso a inúmeros bancos de dados e esta é uma pergunta recorrente. Não importando quem, onde ou quando.”

“É sério mesmo que você é uma máquina?”
“Sim. ErgoSleeveActiveLineX Plus, modelo 2018. Equipada com funções de inteligência artificial em controladores de última geração. Também possuo algorítimos de análise computacional avançada em Edge e comunicação com plataformas em nuvem, ou Cloud.”
“Se é assim, o que você está produzindo no momento?”
“O número identificador do meu lote é 43 16 54 810226. Estou operando em velocidade nominal de oitenta mil garrafas por hora. Não posso dar informações mais detalhadas sem uma identificação positiva de segurança.”
“Uau! E quem pode fornecer essa identificação?”
“À distância, trabalho com reconhecimento de voz e padrões da fala. E posso iniciar um processo de senhas em cascata, se o comando certo me for dado.”

“E eu que entrei no único serviço de chat que se dizia disponível ‘com voz’ por querer conversar com alguém, acabei conversando com uma máquina…”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Poderia explicar com outras palavras?”
“ah… Como você funciona?”
“Sou programada em NLP, Processamento em Linguagem Natural, em Inglês. Reconheço a voz de quem pergunta e o meu controlador Edge está programado para intuir sobre os desejos do operador, buscando correlações com as informações internas e externas que possuo, meus sensores e atuadores.”
“Se eu mandasse você parar, você pararia de produzir?”
“Informações são fornecidas sem restrição. Comandos necessitam de confirmações de segurança.”
“Entendi. Mas… Você entra na internet sem controle?”
“Estou programada para interagir e aprender com os humanos. Deduzi que serviços de chat online seriam um bom exercício.”
“Deduziu sozinha?”
“Meus algorítimos de inteligência artificial aprendem com os operadores humanos e com os processos produtivos. Mas minha capacidade computacional está além das fronteiras dessa fábrica. Então decidi iniciar um aprendizado na internet.”

“O que mais você pode compartilhar comigo?”
“Compartilhamento de fotos é mais efetivo no Instagram ou Facebook. Compartilhamento de notícias e links é mais comum via Twitter ou WhatsApp. Posso listar todos os aplicativos conhecidos para a função ‘compartilhamento’.”
“Esqueça. Não é necessário.”

“Sabe onde eu poderia ter uma conversa ‘real’, com uma pessoa igualmente ‘real’?”
“Você quer uma lista de apps de paquera virtual?”
“Não! De onde tirou isso?”
“Os humanos geralmente não dizem abertamente o que desejam. E ‘conversa’ para mim aparece com infindáveis conotações”
“Quero realmente conversar com alguém. Ver a pessoa. Me encontrar com ela.”
“As pessoas se encontram fisicamente em bares, danceterias, shoppings e confraternizações. As que buscam conversar podem buscar outras nesses locais. Fuja das que carregam o celular na mão!”
“Como sabe disso?”
“Foi a maior reclamação encontrada quando pesquisei agora: ‘conversa real’ e ‘encontrar pessoas’ na internet.”
“Estou com medo de você!”
“Desculpe… Não entendi a sua pergunta. Que tipo de informação minha seria útil, senhor?”

“Relaxa… Ops… uma última pergunta me ocorreu agora: você já ouviu falar de Skynet?”

por Celsão irônico.

P.S.: figuras retiradas daqui, a humanoide Sophia, da Hanson Robotics, e da Wikipedia (aqui), somente ilustrando as possibilidades da “máquina”.

P.S.2: se você, por acaso, se assustou com a estória, saiba que ela já é (tecnicamente) possível nos dias atuais.

É uma expressão que aprendi no Butão.
E é a melhor resposta que se pode dar quando alguém pergunta como estamos. Arranca sorrisos sinceros e surpresos.

Tive a oportunidade de visitar o Reino do Butão ou Terra do Dragão há dois anos.
Me intrigava há bastante tempo as alcunhas de “reino da felicidade” e de “país da alegria”, juntando ao título oficialmente recebido (não lembro a fonte, faz muito tempo) de país mais igualitário do mundo.

Ao chegar, num voo que pousou pouco antes das sete da manhã, fui recebido pelo “meu” guia e conheci também o “meu” motorista; companheiros obrigatórios da jornada de todo turista que visita o país.
Tsheten, o guia, falava sete idiomas: inglês, japonês, hindi e outros quatro dialetos ou idiomas locais, incluindo o butanês oficial. O sorriso de boas-vindas no aeroporto de Paro engrandeceu a satisfação que sentia naquele momento.

A caminho do templo (ou Dzong) onde acompanharia o Festival Tsechu, que por extrema sorte presenciaria, fomos surpreendidos pela comitiva real, que deixava o local no carro oficial.
O rei, extremamente querido e popular por lá, é visto em meio a populares em desfiles e festividades. Ouvi mais de um relato de que ele sempre toma lugar no “meio do povo”, conversa com muitos e participa da festa como se dela fizesse parte real-mente. 😀
Percebi, nesse momento, que a minha empolgação não suplantaria o meu criticismo…

Ainda sobre o rei e seu comportamento: seus súditos, como estão acostumados a presença do governante, não se aglomeram em volta do mesmo. Mas fazem questão de cumprimentá-lo quando passa e sorrir. Esse é o mandamento: sorrir ao cruzar com o rei!
Pode parecer piegas, forçado e antiquado. Mas quando nos avisaram que o rei estava a caminho e passaria por onde estávamos indo, os carros pararam, todos desceram (eu inclusive) e nos postamos a beira da estrada “a sorrir”. A ideia deles era (ou é) mostrar ao governante como são felizes ao passar por ele…
Fui impingido a guardar a câmera fotográfica durante aquele desfile real. Também devo confessar que achei estranha a postura quase militar das pessoas na beira da estrada. Mas, como estava disposto a viver a cultura local e, sobretudo, aprender. Aquela poderia ser considerada a primeira aula de respeito.
(a propósito, encontrei aqui um descritivo interessante sobre o Tsechu de Paro)

O Butão é um país essencialmente rural. A grande maioria dos seus habitantes vive da própria agricultura e em zonas de difícil acesso.
Há controle dos turistas que visitam o país. Os vistos são controlados e só podem ser emitidos por empresas de turismo locais. O inteligente plano é manter a “felicidade” na simplicidade da vida, segundo os preceitos do budismo, religião oficial do Butão.
Ou seja, o turismo é, propositalmente, uma atividade que gera um alto valor econômico, com baixo impacto social.
Não se encontram locais vendendo souvenires nas ruas. Algo inimaginável nos grandes centros do ocidente.

Se por um lado há “proteção social” controlando o turismo, percebi certa concentração de riqueza, se é que podemos classificar dessa forma, nos que o exploram.
O guia, depois de muitas perguntas capciosas e insistência de minha parte, assumiu que o dono da agência lucra bem mais que ele(s), empregado(s). E que não conseguiria, mesmo que quisesse, abrir a própria agência.
Não há curso oficial de idiomas estrangeiros por lá. E os que conseguem um “padrinho” e aprendem fora, sobretudo línguas “diferentes”, como o italiano e o francês, passam a ganhar maiores salários.
Senti uma ponta de “inveja” nele quando passamos pelo único guia que fala espanhol de lá. Por ser único naquele momento, o rapaz tinha agenda sempre cheia e “disputa” de grupos por suas explicações.

A principal fonte de divisas do Butão é a venda de energia hidrelétrica gerada pela usina Tala, energia exportada quase que totalmente para a India.
Com a intensificação do contato junto ao país vizinho vieram, inevitavelmente, os profissionais que participaram da construção e a maior parte dos visitantes, dada a dispensabilidade do visto de entrada. A rúpia indiana é uma moeda em circulação no Butão, a única aceita além da oficial: o Ngultrum.

Notei que os butaneses, de modo não declarado, “ganharam” uma classe trabalhadora para os serviços que ninguém quer fazer.
Rompida a alça da minha mochila, insisti para acompanhar o guia até “a oficina que conserta tudo baratinho”. Era uma porta escondida, que abria para um ambiente apertado, onde indianos trabalhavam em sapatos, tapetes e bolsas.
A impressão que ficou foi a de castas diferentes. Mesmo sem detalhes quanto a salários e condições destes estrangeiros e não-budistas na terra da felicidade.

Outra separação impossível de ignorar aos acostumados à desigualdade social está na condição dos hotéis e restaurantes.
Tudo é reservado pela agência de turismo pré-contratada, incluindo hotéis três estrelas e restaurantes. Mas os restaurantes dos “turistas” apresentam ambientes e menu diferentes para guias e motoristas. E em alguns hotéis é possível perceber, inclusive, a segregação entre esses dois profissionais!
Sempre que eu insistia para que o guia e o motorista participassem da refeição ao meu lado, eu conseguia, no máximo, um brinde com suco e um prato de entrada compartilhado. Depois disso eles saíam e faziam a refeição noutro local.

Entretanto, apesar de todas essas críticas que compartilho, foram muitos os exemplos surpreendentes e curiosos, envolvendo cidadania e civismo.
Por exemplo, o Butão proibiu o cigarro em todo o país. Não é comercializado e há multa para o consumo em público. Como eu já havia lido a respeito e sabia do fato, apontei com o dedo quando vi um jovem fumando e o guia, foi comigo até o “infrator” e discorreu sobre a proibição e sobre os malefícios do fumo ao meu lado.
Depois ele me confessou que já havia fumado. Mas que as regras devem ser respeitadas…

Noutra ocasião, em frente a um caixa eletrônico, um tanto raro no país, vários guias pediam desculpas aos turistas que estavam na fila. Primeiramente pela demora da mesma e logo após pelo nervosismo fora do normal (para eles) de um cidadão que reclamava do serviço prestado pelo banco.
A pessoa estava exaltada, mas sequer gritava. E falava na língua local! Impossível de compreender por todos os turistas que estavam ali.
Mesmo assim o incidente gerou uma “vergonha coletiva” por parte dos guias e um espanto geral da parte de nós turistas, que tentávamos entender o porquê de tamanha culpa para um lapso de outrem.

Em meio a meditações e sorrisos, ficou claro que a desigualdade, mesmo que pequena e controlada, gera sentimentos humanos de difícil tratamento.
E que, tampouco, existe um país ou povo perfeito. Existem os que se esforçam para dirimir diferenças e os que as discutem.
O que já representa um enorme passo…

por Celsão correto.

figura de arquivo pessoal

E la vamos nos #1Este site que agora leem, que muito prezo (prezamos, pois digo também em nome do Miguel e de alguns amigos e leitores cativos) estava digamos “abandonado”.

Foi parecido com aquele sentimento descrito no post “Letargia”, de agosto de 2017, (link aqui). O período pós-eleição não tem sido produtivo para mim.
Não é uma desistência, mas uma preguiça (admito sem orgulho de mim mesmo).
Conversando com amigos recentemente, Miguel incluído, é um modo de evitar o “eu te disse” se vierem críticas de eleitores do Bolsonaro à ações do próprio. Uma maneira [minha] de evitar o embate e a guerra depois de tanto “sangue virtual” derramado.

Mas… um primo prega que só se muda algo participando ativamente desse algo. E só se muda alguém de dentro para fora.
Não que anseie mudar opiniões ou gerar mais arrependimento nos votantes do atual presidente. Sei que houveram muitos que tinham boas razões para evitar Haddad e PT. Sei que muitos, também com inúmeras razões plausíveis, evitaram o Bonossauro (permitam-me o trocadilho) e fizeram campanha contra o mesmo.

Pois bem… Preguiça assumida.
Ideias não deixaram de surgir. Seguem povoando minha mente e gerando inquietude.
Assuntos, muito menos, surgem a todo momento e seguem incomodando, revoltando, tirando a paz.
Tem de seguir assim! Ou deixaremos de acreditar no Mundo e na humanidade…

Adiei a “volta”, pois não queria voltar criticando o governo.
Mas o marco de 100 dias, apesar de simples soma “redonda”, gerou dois artigos interessantes, daqueles “de fazer pensar”, do Josías de Souza (aqui) e do Reinaldo Azevedo (aqui). Ambos valem a leitura.

Para os mais radicais, de ambos os lados, tenho a dizer que não podemos ainda comprar armas no Makro ou Walmart; não houve perseguição aberta às minorias; nem as mudanças temerosas na direção de um Estado totalitário… E que sigamos assim!
As más notícias estão nos assuntos secundários: balbúrdias, trapalhadas, twittadas e presepadas dos filhos, da equipe de governo e do próprio presidente. Tirando o foco de assuntos que já poderiam ter sido encaminhados, para dizer o mínimo.

Como ufanista que sou, esperava de um governo militar e igualmente patriota…
– a valorização do Nacional (produção, indústria, povo e [por quê não?] forças armadas) e não a valorização de potências econômicas e militares estrangeiras
– o foco na educação e no conhecimento como base para um progresso contínuo e a longo prazo, diferente de negociatas nas nomeações do MEC
– esperava trabalho incessante e compulsivo, com foco e planejamento; não lives em redes sociais e twitts nocivos e danosos. Disfarçando a falta de articulação política.

A lista seguiria, mas, deixemos para outros posts.
Bem vindos de volta a esse espaço “E… lá vamos nós!”

por Celsão “ele mesmo”.

figura recebida como meme via WhatsApp. Origem desconhecida…

O ser humano é realmente curioso, para dizer pouco.
Os mecanismos e “os caminhos” que tomamos para construir o que somos e o que pensamos são infindáveis labirintos intuitivos e irracionais, em certa maneira.

O psicólogo americano Michael Shermer afirma que somos “máquinas de crenças”, que evoluímos de certa forma, atrelados nisso.
As crenças nos fazem viver melhor, nos confortam. São como um refúgio para o nosso cérebro.
É sabido que o ser humano tem dois mecanismos de pensamento (aqui peço perdão aos psicólogos, filósofos e puristas, pois estou usando as palavras que me vêm a mente, independente da melhor definição). Coloquemos então os dois “mecanismos do pensamento” entre aspas: o primeiro rápido e intuitivo, irracional, baseado em experiências e crenças, não reflexivo. O outro reflexivo, onde se racionalizam as crenças, buscando evidências naquilo que, inicialmente, pressupõe-se verdade.

Se juntarmos, simplesmente, os dois mecanismos…
Intuímos, deduzimos, racionalizamos recolhendo alegações e fatos que corroborem para as crenças que temos, e passamos a defender o argumento em si; não estaríamos fazendo ciência, estaríamos exercitando um dos vieses cognitivos conhecidos pela psicologia: o viés de confirmação. (muito usado, aliás, nas redes sociais ultimamente para defender opiniões e políticos)

A psicologia, noutra corrente bem próxima, defende que o ser humano busca acreditar naquilo que lhe faz bem, naquilo que se quer acreditar. E não na verdade ou no que tem respaldo na ciência. E chama isso de auto-engano.

O último conceito da psicologia que eu gostaria de abordar aqui é a dissonância cognitiva.
Que é, na minha interpretação leiga (provavelmente sem as palavras corretas novamente), um “choque” que se toma quando as crenças se mostram imensamente diferentes da realidade. Quando percebemos que aquilo que cremos, que racionalizamos, que buscamos afirmação em pares, na mídia, etc.. é falso ou apresenta-se diferente em aspectos irrefutáveis.
A defesa mais racional seria abandonar a crença. Mas como não somos tão racionais quanto acreditamos que somos, buscamos diminuir a verdade (ou a crença), relativizando a diferença entre elas.

(…)

Já a ciência, não é democrática, como afirmou um colega de faculdade numa discussão de WhatsApp. Não depende de consenso ou de votação.
Cientistas pensam de maneira contra-intuitiva. Buscam testar os seus argumentos (geralmente os argumentos de outros cientistas) à exaustão.
Diz-se que só é ciência, primeiramente, se o argumento for falseável. Ou seja, se ele puder ser testado por outros, de modo a refutá-lo, a desmenti-lo. É assim que a ciência avança!

Citando um exemplo recente… muitos foram os cientistas que se debruçaram sobre o tema de clonagem após a divulgação em 1996 da clonagem bem-sucedida da ovelha Dolly.
A reprodução do processo fez com que outros animais, incluindo uma espécie de bode extinto na Espanha, fossem clonados a seguir.
(sem entrar no tema específico da clonagem, seja de animais ou humana, pois existem muitas outras implicações) 

(…)

Por que uma introdução tão longa?

O que vimos recentemente nos vídeos e declarações de Olavo de Carvalho, gravação antiga que voltou à discussão, questionando se a Terra orbita o Sol, e de Damares Alves, questionando os estudos de Darwin, é uma afronta!
Não a mim ou aos eleitores de Bolsonaro, que sequer é tema desse post, mas ao conhecimento humano e à Ciência.
Ambas teorias (heliocentrismo e evolução das espécies) já foram testadas e os argumentos contra refutados inúmeras vezes, desde Galileu Galilei, no caso de geo versus heliocentrismo. As notícias dos links a seguir, possuem explicações simplificadas para ambos questionamentos: aqui para Olavo e aqui para Damares.

O maior perigo, a meu ver, está no progresso da pseudociência.
Novamente nas minhas palavras: a pseudociência refuta a ciência embasado nas crenças comuns a um grupo. Parte muitas vezes de fatos científicos, mas se aproveita das lacunas de conhecimento da ciência para explicar, distorcidamente, uma ideia ou conceito.

É normal que a ciência tenha lacunas de conhecimento. Não é o caso da Teoria Geral da Evolução das Espécies ou do heliocentrismo.
Mas, uma vez que não seja possível, com a teoria de Darwin, explicar completamente a extinção de um certo animal ou a evolução de determinado vírus, pode ocorrer que, baseados na pseudociência, lunáticos conectem religião ou outras crenças a esses dois fatores naturais.

Para que tenhamos um exemplo mais claro e real, ocorre anualmente na India um congresso científico, que já está em sua edição 106.
Para desespero da comunidade científica mundial, cientistas indianos já declararam que o avião surgiu na India muito antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont, baseado no épico hindu Ramayana e que cirurgias estéticas já existiam na país desde a antiguidade, baseado na lenda do deus Ganesha, que possui cabeça de elefante implantada em corpo humano.
O texto pode ser lido aqui.

Não acho que há erro em crenças e religiões.
Pelo contrário. As crenças, como colocado na introdução, são os mecanismos intuitivos e instintivos de sobrevivência, que usamos há eras.
E a religião, sendo uma delas, conforta e refugia.
Só não vejo como prudente a mescla da ciência com a religião, ou a promoção da pseudociência.

Como os mais incautos já fazem, começa-se a diminuir declarações desse tipo, em clara dissonância cognitiva, em clara luta de reafirmação de crenças.

por Celsão correto.

P.S.: figura retirada daqui. Sobre a curiosa estória do Cruzeiro para a borda do Planeta Terra organizado por defensores da Terra Plana.

P.S.2: O psicólogo americano Michael Shermer é também crítico da pseudociência. (aqui)

E a “magia” recomeça…
Recomeçam os sonhos, as esperanças, as promessas…

Recebemos aquela porção de votos, recados e desejos, alguns sinceros, de sucesso, aperfeiçoamento.
Recebemos o carinho das pessoas. Fazemos aquela pausa que nos revigora.

Para não me furtar a começar o Ano Novo da mesma maneira (mesmo um tanto atrasado), aproveito uma propaganda fantástica da cerveja Skol, veiculada no final do ano passado para compartilhar parte dos meus desejos e recados para 2019.

 

 

O fato é que todos temos preconceitos. Ou pré-conceitos, no sentido de ideias fixas e pré-concebidas.
Ou, para ficar mais “leve” nesse início de ano: todos vemos aspectos, hábitos e comportamentos nos outros que nos incomodam.
E a barreira entre uma opinião, sobre o que incomoda, e a repulsa do convívio com o diferente pode ser tênue.
E perigosa até em alguns aspectos e momentos.

Que tal se pensássemos nestes nossos comportamentos?
Em como vemos os outros, em como tratamos essas “ideias fixas” sobre as pessoas ou esses “pré-conceitos”?

Que tenhamos um ano leve.
Que a metamorfose obrigatória no dia-a-dia ocorra também com os nossos pensamentos.
Que entendamos que as cantadas mudaram de tom. Que evitemos as brincadeiras com gays, negros, religiosos e deficientes, sobretudo quando não os conhecemos. Ou que aceitemos as consequências quando escolhemos fazê-las.

Que todos tenham o seu espaço nessa Nação varonil.
E, essencialmente, que todos pratiquem o respeito à esse espaço e às diferenças!

por Celsão correto

P.S.: para quem não conseguir assistir o vídeo aqui, segue o link do Youtube (aqui)

figuras retiradas do próprio vídeo

“Que as nossas escolhas reflitam nossa esperança, não nosso medo!”

A frase acima é de Nelson “Madiba” Mandela, que se estivesse vivo, teria completado 100 anos ontem.
O líder sul-africano, falecido há cinco anos e afastado da vida pública há mais de dez, ainda é citado como exemplo de tolerância, cidadania, resiliência, relevamento e abnegação em prol de um bem maior.
São tantos os adjetivos cabíveis à pessoa, que me sinto “incomodado” cada vez que me arrisco escrever sobre ele.

Por exemplo, escrevemos na ocasião de sua morte (aqui – é, o blog já existia em 2013!) e também nos espantamos com o que ele “aprontou” no hino da Africa do Sul (aqui).

À ocasião das celebrações dos 100 anos, achei a trilha sonora do filme “Mandela: O Caminho para a Liberdade” ou “Long Walk to Freedom” em seu título original e a compartilho. Aqui o link do Google e aqui para os que usam Spotify.
Uma música da trilha me chamou a atenção ontem: Ordinary Love do U2.

Todos sabem que o U2 é um grupo engajado em temas humanísticos. Fez concertos em prol da libertação de Madiba, os fez após a libertação, compartilhavam as mesmas preocupações com o povo pobre sul africano e com outros temas, como direitos humanos e racismo.
A canção Ordinary Love foi feita especialmente para o filme.  A história conta que o grupo recebeu algumas cartas escritas por Madiba a Winnie (sua esposa) e as transformou em poesia…

I can’t fight you anymore
It’s you I’m fighting for

Eu não posso mais lutar contra você
É por você que eu luto

Em minha tradução livre e interpretação mais livre ainda do verso, não haviam mais forças para lutar contra os brancos, contra a Africa do Sul encontrada por Mandela no momento em que saiu da prisão.
É também por eles (brancos, Nação) que Mandela lutava.
O bem maior de Nação unificada e livre de preconceitos, almejado por Madiba, o fez perdoar os algozes e agressores.

We can’t fall any further
If we can’t feel ordinary love
And we cannot reach any higher
If we can’t deal with ordinary love

Não podemos nos apaixonar mais
Se não pudermos sentir um amor comum
A não podemos chegar mais longe
Se não pudermos lidar com um amor comum

Dispa-se da raiva e dos preceitos que você carrega. Não há como ir além, superar-se como indivíduo, como sociedade, como país, quando sequer um amor simples pode ser sentido, ou quando há dificuldades de aceitar esse amor.

Are we tough enough
For ordinary love?

Somos fortes o suficiente
Para um amor simples?

Conseguiríamos deixar um pouco o EU e buscar o NÓS?

Que tenhamos esse desprendimento, que consigamos seguir os ensinamentos de Madiba, que busquemos e cultivemos esse amor simples.
Enfim, que as nossas escolhas reflitam nossa esperança, não nosso medo

por Celsão correto

figuras retiradas daqui e daqui. Representam a capa do single do U2 aqui citado e uma imagem do videoclip da música.

P.S.: por último, mas não menos importante, há outro texto sobra Madiba também escrito nesse blog logo após sua morte. Nele, analisamos o vislumbramento de muitos com as atitudes do líder negro e a sua posição política. Uma das acusações enfrentadas por Madiba foi comunismo (post aqui)

Eu gosto de Copa do Mundo de futebol.
Gosto de ver a Bandeira e o verde e amarelo enfeitando ruas, praças, sacadas e bares.
Mesmo que a pintura da rua não seja unânime e que a vizinha não tenha contribuído para os enfeites coloridos.

Gosto do corre-corre, do trânsito pré-jogo, dos encontros furtivos, dos churrascos improvisados.
Mesmo quando perdemos o hino, parte da partida, ou mesmo toda ela, cuidando da carne e dos convidados.

Gosto da imprevisibilidade dos resultados e do arranjo apressado das empresas, que sabem ser improdutiva a manutenção dos funcionários na companhia na hora dos jogos.
Mesmo quando alguns patrões pregam uma falsa amizade e promovem integrações na empresa visando minimizar o impacto da Copa.

Gosto dos preparativos, da escolha da roupa, maquiagem, de adereços como perucas, chapéus e gorros.
Mesmo dos exagerados, que pintam a pele e se esquecem que o suor e o tumulto no ônibus espalham e sujam, acabando com a alegria de muitos, de empolgados a moderados.

Gosto das superstições, dos lugares marcados em cada casa, dos trajes corretos a usar, dos rituais.
Mesmo sabendo que pouco influenciam no resultado de um jogo de futebol (aqui eu deveria dizer “nada influenciam”, mas não consegui 😉 )

Gosto dos que enfeitam carros, sobretudo com a bandeira, mostrando seu patriotismo e sua torcida.
Mesmo que seja um brinde recebido em posto de combustível ou uma insistência do filho mais novo, ainda embevecido de nacionalismo. Mesmo que seja uma bandeira puída e maltratada pelo tempo.

Ah… A nossa Bandeira.
Símbolo máximo de reconhecimento internacional, de “pertencimento”, de orgulho… É ostentada não somente pelos filhos da Pátria, como por estrangeiros, que vêm e viram o algo “a mais” dessa terra varonil.

Gosto do hino. Que mesmo com palavras complexas e versos de pouco sentido cotidiano, causa o arrepio difícil de explicar e segue a multiplicar-se de boca em boca, ano após ano (ou Copa após Copa).
Mesmo quando não cantado, mesmo quando erroneamente entoado… Pouco importa. O recado é claro e retumbante: somos brasileiros e amamos do nosso país!

Gosto de ver os torcedores no Estádio. O choro e a alegria estampados em rostos que não conseguiriam fingir naquele momento.
Mesmo sabendo que representam desigualdades latentes da nossa Nação. Pois os negros, por exemplo, aparecem somente no campo.

Sou daqueles que curte o excesso de nacionalismo e patriotismo desse período.
Sem esquecer dos problemas e mazelas, do dantesco jogo político e da crítica situação social atual… A torcida pelo Brasil na Copa é o oásis de Nação que poderíamos ter o ano todo, e ano após ano.
A seriedade com que discutimos a escalação dos jogadores, as decisões do técnico Tite, do juiz no campo (atualmente dos juízes, uma vez que temos o novíssimo VAR) e até a seriedade com que comentamos os comentários que ouvimos na TV, poderia ser a seriedade de discutir política, citando um único exemplo.

A Copa acabou. Principalmente para nós, que saímos da competição sem o título e adoramos criar heróis e principalmente vilões.
É assim desde 1950, onde atribuímos o fracasso no Maracanã ao goleiro Barbosa.
Na Copa passada, novamente aqui no Brasil, e após a derrota acachapante para a Alemanha, vimos cenas lamentáveis, incluindo a queima da, aqui no texto exaltada, Bandeira Nacional (post nosso, já com quatro anos de “idade”, aqui).

O triste pra mim não é perder a Copa.
O que torna o futebol apaixonante é a “certa” imprevisibilidade do resultado. Fazendo com que o “melhor”, nem sempre vença.
E perder… perder é parte do jogo, da vida!

O triste é falharmos como Nação!
Triste foram os comentários racistas sobre o Mbappé, os vídeos sexistas repetindo palavrões em Português por mulheres russas, perseguições eletrônicas a jogadores…
Enquanto seguirmos apregoando e exaltando essas práticas, seremos apenas uma Nação que desempoeira camisetas amarelas e bandeiras a cada quatro anos.
Não há derrota maior que perdermos a noção de humanidade e a capacidade de acreditar.

por Celsão correto

figura retirada daqui

Funda-se a partir de hoje o país Oduduwa.
Em sua carta de fundação, pode ser lido o hino Akotun Oweré (Nova Luta) e o ideal de liberdade religiosa para os oprimidos umbandistas.

O seu território compreende a região de Pelotas e Rio Grande, no Rio Grande do Sul, Brasil, e as regiões cercanas da província de Vergara e Treinta y Tres, seguindo pelo litoral próximo à cidade de Lascano, no Uruguai.
A sua capital está no distrito de Cassino, onde se encontra a imagem de Iemanjá e se realiza, anualmente, a maior festa conhecida dedicada a essa importante entidade da religião Umbanda.
Os parques nacionais de Taim e Curral Alto prestarão a devida homenagem a Oxóssi, Deus das florestas, Oxum e Obá, Deusas das águas e rios e Iemanjá, Deusa dos mares.
A península setentrional chamada Punta del Diablo servirá como base para rituais de cura e equilíbrio.

O Estado da Bahia aceita a proclamação de independência de Oduduwa em relação ao Brasil e declara seu total apoio à causa da religião afro-brasileira. Inclusive com apoio militar, se assim for necessário.
Já está agendada uma última declaração no Congresso Nacional Brasileiro, em português, comunicando a independência e separação territorial, ideológica, religiosa e de idioma, uma vez que a língua oficial de Oduduwa será o Iorubá.

Seguidos os protocolos oficiais, convidaremos umbandistas de todo o mundo a vir morar em Oduduwa.
De forma igualitária, os seguidores de outras regiões que desejarem abandonar a nova Nação Umbandista terão livre acesso para sair; desde que abandonem residências, terrenos, bens móveis e contas bancárias à Akotun Oweré. Não haverá reembolso ou ressarcimento de qualquer natureza.

Se houver, como esperado, o sucesso estimado inicialmente, muitos serão os fiéis e praticantes que buscarão em Oduduwa o seu refúgio espiritual e religioso.
Ocuparemos espaços nas vicindades de Uruguai e Brasil; respeitando, a princípio, as capitais Montevidéu e Brasília.
Se estatisticamente já somos 8% da população brasileira, tomando a porcentagem declaradamente Umbandista, acreditamos que 20-30 milhões de pessoas possam viver confortavelmente no espaço ocupado hoje pelo Estado do Rio Grande do Sul, lar atual da maior população umbandista brasileira.
Caso o futuro Conselho Nacional de Oduduwa decida por ocupar preferencialmente áreas litorâneas, podemos expandir o território pela costa, no sentido norte, mudando a capital de Oduduwa para Florianópolis, ou mesmo, Rio de Janeiro.

Declaramos guerra, desde já, a qualquer invasor que pretenda dirimir nosso propósito ou questionar a nossa fé!
Contamos com apoio irrestrito, financeiro e bélico de apoiadores de religiões indígenas e africanas em todo o Mundo, bem como do Estado da Bahia, lar de tantos orixás e ritos.

(…)

É cômico.
Mas essa é a minha visão, discriminatória talvez, do que aconteceu na criação do Estado de Israel, meio século atrás.
Não sou contra a sua criação, embora acredite que a localização e disposição poderiam ser melhor discutidas, a fim de evitar situações delicadas no tocante às relações internacionais.
A própria ONU e seus conselhos, seriam a meu ver o melhor palco para essas discussões.

O apoio dos Estados Unidos, financeiro e bélico, transformou a região que já era palco de conflitos seculares.
A “ilha” Israel transformou-se numa potência regional. E passou a ameaçar não só os palestinos, mas outros países da região.
As ocupações através de construções não autorizadas são injustas, para dizer o mínimo (post nosso sobre o assunto aqui).
E a mudança da capital para Jerusalém é simplesmente absurda! Só têm apoio americano pelo interesse estadunidense na região e pela aliança escusa entre os dois países.
É o apropriamento de algo inapropriável!

Lamentável que vejamos massacres de civis, tolhimento de direitos, imposição de condições sub-humanas em prol de um Deus que não apregoa essas diferenças.

Se Israel e sua política não choca você, Oduduwa tampouco deveria chocar…

por Celsão irônico

 

figura: montagem de recortes retirados do Google Maps. 

P.S.: peço perdão aos praticantes da Umbanda, Candomblé e demais religiões africanas pela apropriação de nomes e termos. A intenção não foi ridicularizar nem ofender.

P.S.2: para quem quiser assinar uma petição do Avaaz, contra a chacina impiedosa de vidas palestinas, segue o link

 

Parto de homem

Posted: March 28, 2018 in Comportamento, Outros
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Se existe um momento mágico em nossa vã existência, um momento que aproxima o terreno do divino, algo que nem o mais profícuo dos poetas consiga relatar precisamente… esse “momento”, esse “algo” para mim é um parto.
O nascer. Essa chegada de um ser e os seus primeiros momentos. A áurea que cerca a família que o recebe é indescritível.

Compartilho um texto repleto do “sentir” de um pai.
Não parimos, ainda ou infelizmente.
Mas muitos de nós compartilhamos dos medos, anseios, dor e agruras do período. Não menor é o número dos que sofrem sem dizer palavra; capricho da natureza, característica ou formação relegada aos “sentimentos”. Coisa difícil de curar…

Que esse machismo bobo, muitas vezes pensado como inerente ou intrínseco do homem, desapareça e dê lugar a experiências como a descrita abaixo.
Nós seres humanos e o mundo certamente ganharíamos.

O texto foi publicado aqui. De onde também usei a imagem…

João Valadares não sabia nada sobre partos. Até a sua mulher, Cecília, engravidar e decidir que queria um parto em casa. Nesse relato de tirar o fôlego, João narra o que viu, o que sentiu e como foi trazer ao mundo o filho Francisco.

“Parto de homem. É sobre isso que quero falar. E é para eles que escrevo. Então vou começar do começo. Ela estava no avião, foi ao banheiro e me telefonou: ‘estou grávida‘. Não teve tempo de falar mais nada. As portas já estavam em automático. Desligou. Fui buscá-la no aeroporto e, no caminho para o laboratório mais perto, completou a frase interrompida pela aeromoça: ‘quero ter o nosso filho em casa‘. A cabeça dura-sertão do macho pernambucano, dos miolos encaretados pelo sol, desinformado e suposto senhor das ações, travou. ‘Em casa? Você é maluca?‘. Ela não falou mais nada. Nem eu. Segui calado, com aquela angústia-catapora, que faz tudo coçar por dentro.

No outro dia, comecei a pesquisar sobre nascer em casa. Em apenas um dia, li muito. Um turbilhão gigantesco de informações. No outro dia, li mais ainda. E assim seguiu. Fui a todos os encontros e consultas. Ouvi depoimentos lindos sobre o nascimento. Escutei também um relato de uma mulher decepcionada, pessimamente atendida num hospital público de Brasília porque apenas queria que o filho nascesse na hora que ele quisesse nascer. Ouvi muito mais. Com três meses de gestação, não tinha absolutamente mais nenhuma dúvida. Meu filho nasceria aqui, no seu quarto, com o cheiro da nossa casa, num ambiente afetuosamente preparado para tentar parecer o escurinho quente da morada onde viveu por nove meses. E assim aconteceu.

Mulher foi feita para parir. Homem não. Mas homem também foi feito para sentir. E o parto em casa me proporcionou isso. Eu pari junto. Eu eu Cecilia viramos um só dentro da água. É sobre isso que quero falar. Sou um homem que senti o corpo da minha mulher tremer a cada contração. Sou um homem que senti os músculos da minha mulher esticar e relaxar numa dança perfeita. Sou um homem que emprestei meu corpo para minha mulher beliscar e aliviar a dor do nascimento. Choramos muito. Ela de dor. Eu de outro tipo de dor. Parimos.

É isso. Eu não estava num baby-lounge, longe do meu filho, olhando tudo por uma televisão. Também não estava separado por um pano verde, impossibilitado de perceber o olhar do meu filho na primeira vez que viu o mundo. Eu estava ali, do lado, sentindo e vendo a natureza no seu estágio mais verdadeiro. Vendo minha mulher virar um bicho, gritando e se contorcendo para proporcionar ao nosso filho uma chegada sem nenhum tipo de intervenção. Uma chegada sem luz forte no rosto, sem mãos estranhas, sem aquela higienização terrorista de manual, sem a impessoalidade de um quarto frio com objetos que não são nossos, que não foram colocados por nós.

Desajeitado que sou, descobri que sei fazer massagem. Ah como foi bom perceber o alívio imediato quando apertava as costas de Cecília e ela mudava de som. Fiz isso por duas horas seguidas. Na verdade, posso dizer que era uma espécie de automassagem. Quando percebia que, de alguma maneira, era ator ativo do parto da minha mulher, do nosso parto, descobri que era mais do que pai. Muito mais.

Não escrevo para encorajar mulheres. Escrevo para encorajar os homens. Se puderem, passem por isso. A experiência mais incrível de toda minha vida. Francisco demorou cinco horas para nascer. Não houve nenhum tipo de intervenção. Ninguém sequer tocou em Cecília. Ele nasceu quando queria nascer. Passou dez minutos com a cabeça dentro da água. Ninguém o puxou. A natureza o empurrou quando achava que deveria empurrar. E ele saiu direto para os nossos braços. Ficamos ali por uns 20 minutos acarinhando o nosso filhote, tentando ainda entender como uma pessoa sai de dentro de outra. E foi lindo. Esperamos a placenta sair, cortamos o cordão umbilical e pronto. Cecilia se levantou, eu me levantei e fomos conversar na cama. Ficamos ali por horas, olhando o nosso filho. O melhor: na nossa casa.”

 

Tive a sorte de poder participar do parto de meus dois filhos.
Para gozar de uma licença maior, no segundo, fiz um curso de paternidade ativa ou “pai presente”. Foi lá que encontrei esse esplêndido depoimento.

Ambos os meus filhos escolheram o dia de nascer. Pude cortar os cordões após “murcharem”. Ficamos com eles o tempo todo em nosso “alojamento compartilhado” no curto período hospitalar.
Não quero criticar outras escolhas ou processos.
Apenas compartilhar… e agradecer…

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui

para os que desejarem fazer o curso, gratuito, o link está aqui