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Um sopro

Posted: September 26, 2017 in Outros
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Somos um sopro diante da imensidão do universo, pequenos, minúsculos eu diria.
Temos nosso papel e significado, mas no todo somos quase nada.
Mas um quase nada importante para muitos, muitas vezes, familiares, amigos, amores… E como todos, partiremos um dia, como um sopro, pode ser que ninguém veja, somente nós saberemos… quem sabe?
Enquanto isso, difícil dizer, curtir a vida, que não se sabe quão longa será, deixar de lado o consumismo, o apego material, a falta de tempo para nós mesmos e para com aqueles que nos amam. Difícil viver num mundo capitalista e conseguir desapegar daquilo que nos é imposto,
Quero poder ver mais sorrisos das minhas crianças, pois amanhã, não mais serão. Amanhã, já não serei prioridade, meu valor e importância serão reduzidos, gradativamente. Como é difícil saber que nada é para sempre, que num sopro, tudo pode ruir.
(…)

Um Sopro

Apenas um sopro
Fuuuuuuuu…
É o que somos

Um longo sopro
e apagam-se as velas de comemoração
um suspiro…
seguido de outro longo sopro
e tomamos coragem,
para aquela
tão ensaiada declaração

Um forte sopro
para diminuir o sofrimento
daquele filho que se ralou
por andar desatento

Um curto sopro
até um cisco se vai
em um piscar de olhos

Somos um sopro,
oxigênio “puro”
e continuamos pouco,
minúsculos…

Um sopro
pra dizer Eu Te Amo
um sopro
pra deitar e dormir
um sopro
e os filhos crescem
um sopro
pra vê-los seguir

Um sopro
fazemos planos,
entusiasmados
noutro sopro
mudamos o rumo,
drasticamente

Somos um sopro
vivemos aqui por um sopro
partiremos
sabe-se lá quando…
com certeza, num sopro

Flávio Augusto Ramos de Souza

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Os textos são do meu irmão e leitor, Flávio.
Eles se completam, se complementam, se explicam.
Creio que outros comentários sejam dispensáveis…

por 
Flávio Augusto Ramos de Souza

figura retirada daqui

P.S.: outra sugestão de leitura, aqui

Tentemos imaginar um filho (ou filha) problemático.
Que se envolveu com drogas ou com gastos excessivos em cartão de crédito e agiotas.
Esse filho nos convence que vai de alguma maneira parar e nos faz gastar o dinheiro que temos guardado. Nos faz também vender a casa, vender pertences como computadores, etc.
Mas, sem ajuda, muitas vezes já sem emprego, não consegue se reerguer. E vendemos também os carros da casa. Carros que eram essenciais para a manutenção da economia doméstica. Pois auxiliavam na obtenção dos recursos básicos da família.

Não é um conto.
Tentei fazer uma analogia com o que está acontecendo com o nosso Estado nesse momento.
Acuado e com um gasto deficitário em 159 bilhões de reais, o governo federal desistiu de cortar custos relevantes e agora está mirando na privatização; com foco inicial na Eletrobrás.

Quando um governo tem déficit, significa que a arrecadação de impostos e os bens produzidos pelas empresas estatais não são suficientes para suprir os gastos que o mesmo governo tem com sua estrutura, sua “máquina”.
Significa, por exemplo, que regalias devem ser cortadas, aumentos de salários minimizados, postergados ou, melhor ainda, suspensos. Nada de renovação da frota de veículos parlamentares, compra de mobiliário, emissão de passagens aéreas… extinção de cartões de crédito corporativo (bloqueado no site da transparência, nota no fim do post), entre outras medidas que a família descrita no primeiro parágrafo precisou fazer ainda antes de se desfazer da poupança.

Mas não é o que ocorreu.
Os gastos com cartão de crédito seguem subindo desde que Temer chegou ao poder (aqui e aqui). Totalmente contra ao que prega a austeridade, ão defendida pelo governo e Ministério da Fazenda.
A jornalista Juliana Cipriani, em reportagem no Estado de Minas, levantou gastos abusivos do poder público nesse período de crise (link aqui). Na reportagem existem absurdos de todo tipo, de licitação para jatinho para viagens do governador Luiz Fernando Pezão, ao custo de R$2,5 milhões por ano, a R$1 milhão em sofás e colchões para o Congresso Nacional.
É como se a família estivesse devendo enquanto planeja viagens de avião e compra móveis!

Quando a economia de um país está em crise, não se viaja para Noruega ou Rússia sem agenda oficial e sem assertividade (post nosso aqui). Sequer se usa o avião oficial, dado o custo operacional do mesmo. Não se utilizam aviões da FAB sem um propósito concreto e inadiável, pelo mesmo motivo.

Falar em vender a Eletrobrás, empresa estratégica, num ramo estratégico. É o mesmo que vender a Petrobrás, privatizar a Polícia Federal.
O que o Chile pensaria se propusessem comprar a empresa CODELCO (Corporación Nacional del Cobre de Chile), estatal que explora o cobre, principal recurso do país?
Que tal propor aos Estados Unidos a privatização da CIA ou da NASA?
Aliás, ocorreu-me uma ótima pergunta: por que será que esses órgãos precisam ser públicos, geridos pelo Estado?

Não posso dizer que sou contra qualquer movimento nesse sentido.
Não sou daqueles que nega os avanços da telefonia do Brasil após a “rifa” que foi feita das “Teles”. Mas questiono se precisava ser daquela maneira, naquela velocidade e naquele preço.
Uma empresa de capital misto, bem gerida, talvez chegasse a resultados melhores… e ainda deteria a tecnologia e os profissionais capacitados.
Se avançamos em conectividade e redes móveis, retrocedemos em satisfação quanto aos serviços prestados e no custo desses serviços. Afinal, todas as empresas que exploram telefonia e transmissão de dados no Brasil estão entre as mais problemáticas em reclamações e processos.

Me questiono se seria da mesma forma, caso a ANEEL participasse da diretoria de todas elas e soubesse das artimanhas e subterfúgios para burlar leis ou se adaptar a imposições. Por exemplo, por que é obrigatório somente 10% da velocidade das conexões de internet? Se há uma limitação técnica, a empresa poderia investir mais, satisfazendo os clientes. Se o problema é infraestrutura, a contrapartida poderia vir do governo, após decisão de investimento conjunta: governo e empresa privada.

De volta ao tema da Eletrobrás.
De acordo com a BBC (link aqui), são 233 usinas de geração de energia, incluindo Furnas – que opera 12 hidrelétricas e duas termelétricas – e a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), além de seis distribuidoras e 61 mil quilômetros de linhas de transmissão, metade do total do país e o suficiente para dar uma volta e meia no planeta.
A Eletrobrás também controla 10 termelétricas, 70 parques eólicos… Mais de 70% de toda a transmissão e 30% de todo o potencial de geração de energia elétrica do país. Possui toda a tecnologia de interligação do grid.
Será que o comprador não se tornaria um “manipulador de preço”? O que o impediria?

Pergunta retórica ao governo? Por que se desfazer dos carros e computadores antes de mudar os hábitos de consumo?
Por que não passar a cozinhar em casa ao invés de levar toda a família em restaurantes? Por que não trocar o shopping center por um passeio no parque?

São tantas medidas que poderiam ser tomadas antes, como uma mudança do nosso ilustríssimo Presidente Temer para o Palácio oficial, deixando o Jaburu… que é até difícil lembrar de todas para enumerá-las.

Anunciar uma privatização rápida e “tosca”, através da venda dos títulos no mercado aberto (emissão de ações), compondo com outras cinquenta empresas um “pacote atrativo” é um sinal de fracasso anunciado.
Que tal identificar “pedaços” menos estratégicos e mais deficitários para começar?
Não que eu seja a favor. Sou contra! Mas seria possível diminuir o déficit da empresa Eletrobrás isoladamente (caso acredite-se que ela seja realmente um problema).
Repetindo… Empresas de controle misto podem ser bem administradas e não devem sofrer no jogo político de nomeações nepotistas.

No final, um valor de R$20 bilhões, nas estimativas atuais, entrando nas contas do governo uma única vez, não resolve o problema.
É como se o filho problemático pegasse os tênis mais novos da casa e as bolsas de grife e os vendesse por R$20 cada…

por Celsão revoltado

figura retirada do WhatsApp – numa piada sobre os chineses da State Grid assumirem o controle majoritário da Eletrobrás.

P.S.: Quando se consulta no Portal da Transparência (por exemplo, aqui) os gastos com cartão de crédito feitos por Michel Temer, o resultado da última linha chama a atenção. “Informações protegidas por sigilo, nos termos da legislação, para garantia da segurança da sociedade e do Estado. => R$14.162.667,38

Reuniões intermináveis. Cada qual com sua carga de deployments e follow-ups.
Como se não bastasse, demandas proveniente de clientes e colegas ocupam o restante dos minutos de forma a concluir que dez, doze horas trabalhadas são asseguradamente insuficientes para entregar as tarefas.
Tarefas que se acumulam. Prazos que se atropelam.
Equipes reduzidas. Cooperação dificultada.
Aquele sentimento de culpa acompanhando o trânsito do final do dia. Aquela carga de responsabilidade que não permite soltar o celular, que faz surgir até tarde da noite novas e constantes mensagens de WhatsApp. O tal “comichão” que faz o computador ser ligado “só por uma hora” para adiantar o trabalho do dia seguinte, que na realidade nada mais é que a tentativa vã e infrutífera de finalizar o trabalho acumulado dos dias anteriores.

Duvido que seja exclusividade desse que vos escreve.
O mundo corporativo atual demanda mais do que o possível de se entregar dia após dia.
Os chavões e clichés que ajudavam num passado próximo, hoje causam risadas.
“Matar um leão por dia”
“Aprender a ser o máximo possível de mim mesmo”
“Tomar as pedras do caminho para fazer a escada do sucesso”

E contrastam com o equilíbrio pregado na sociedade moderna.
Onde é preciso cuidar bem da família, investindo tempo de qualidade; e da saúde, praticando esportes e balanceando a alimentação.
Ser voluntário. Ser sustentável e ecologicamente correto. Ser ético e engajado socialmente.
Estar antenado. Participar de todas as redes sociais com comentários inteligentes e pertinentes…

Quem entra em toda essa pilha?
Quem realmente consegue balancear corporativo e pessoal sem se atrapalhar ou sem comprometer um dos dois?

Os que se dedicam ao mundo corporativo, fatalmente se arrependem.
Ou via cobrança da família, ou via auto-reflexão. Que até pode tardar, mas respeita o cliché, e não falha.
Os mais “frios” estabelecem metas, de idade-limite, de posição na carreira, de salário.
Todos falham.
Pois a idade traz a pressão da experiência. O mundo corporativo cobra uma entrega melhor dos mais experientes.
As posições hierárquicas vêm trazendo implicitamente a dedicação exclusiva, a liderança inspiradora e engajadora e o “algo mais” em termos de esforço pessoal e da equipe.
E o salário também é um inimigo perigoso. O capitalismo exige que um profissional “se pague” com o próprio esforço e tarefas bem realizadas.

Os que se dedicam à família não atingem os objetivos cobrados no capitalismo.
Não viajam para Miami todos os anos. Não trocam de carro com frequência. Não colocam os filhos nos melhores colégios. Não frequentam os melhores restaurantes.
E, fatalmente, vez ou outra, se cobram por isso.
Reiterando a cobrança do “sucesso social” que não possuem. Que o “sistema capitalista”, jargão que odeio, cobra com todas as suas forças.

Solução? Desconheço.
A rápida análise filosófica dessa noite concluiu que nos dedicamos tanto ao trabalho por ego. É como se nosso ego fosse massageado com cada meta batida, com cada hora extra “investida” corporativamente, com o reconhecimento.
Eu arriscaria dizer que é também um vício.
Como o vício de ir à academia malhar. O ego faz com que o tempo investido aumente a medida em que os resultados começam a aparecer, ou a esperança nestes.
Só que, no caso do fisiculturismo, pode-se classificar o vício como saudável.

Me encontrando na situação e filosofando sobre ela, o que decidi fazer? Um post…
Filosofia ajuda. Sempre. Talvez só a desopilar, mas a ajuda é inegável.

por Celsão irônico

figura retirada daqui

P.S.: atualizo o post adicionando uma sugestão de leitura, enviada por um amigo e leitor. O que nos faz mais felizes: tempo ou dinheiro?

Dia dos pais

Posted: August 14, 2017 in Comportamento, Outros
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Pai é quem cria. Pai é quem sustenta. Pai é quem educa. Pai é quem decide.

Independente da carga de responsabilidade dos verbos acima, não há como negar, após uma análise rápida, que os mesmos carregam certo machismo, ou paternalismo, de décadas atrás. De uma época e sociedade conservadoras. (ou mais conservadoras, para os que negam que o conservadorismo seja exclusividade de outro período)

Convido a todos, após a comemoração do dia dos pais, a assistir ao vídeo abaixo. Aos que não conseguirem acompanhar diretamente por aqui, o mesmo está disponível no link.

O conceito de família mudou. E não dá pra afirmar mais que não há amor, não há carinho ou não há proteção na “nova família”, no “novo conceito” de “pai e mãe”.
A classificação da primeira frase do post já não servia há um bom tempo. Soa tão absurdo hoje em dia, por exemplo, pais que não trocam fraldas e que não ajudam nos cuidados diários, quanto soará (espero), num futuro próximo, o “dia dos pais”.

Por que comemorar especificamente dias para pais e mães e não dia da família? (ouvi a ideia recentemente e achei perfeita!)
Afinal, se as crianças são criadas por avós, por somente um dos pais biológicos, por um casal homossexual, ou por amigos que decidem adotar menores carentes… Pode-se afirmar que não mereçam um dia especial, mesmo que extremamente comercial?
Essas pessoas não seriam exemplos para os seus filhos? Não os educariam de forma satisfatória? Não ensinariam, sustentariam, criariam e decidiriam com “sim’s e não’s”?

A resposta é sim para todas as perguntas. O resto é preconceito!

por Celsão correto

figura de arquivo pessoal. Eu na (linda) interpretação do meu filho.

P.S.: como alternativa, insiro também o vídeo em formato MOV, aqui abaixo…

Na balada

Posted: May 17, 2017 in Comportamento, Outros
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Olá Princesa.

Oi.

Você vem sempre aqui? Posso te pagar um drinque?

(…) E agora? (disse após algum tempo, fazendo uma interjeição desesperada)

E agora o quê?

Poderia ter sido rápida e responder com o risinho inocente que você estava esperando, ou começar a enrolar o meu cabelo enquanto te olhava de cima a baixo, demonstrando que ainda o avaliava. Ou ainda virar a cabeça, fingindo e sua inexistência. Perdi o tempo dessas reações conhecidas e não sei como lhe tratar nesse momento.

Nossa!

Nossa o quê? Não esperava frases coordenadas? Nem raciocínio rápido? Ou simplesmente não queria?

Fiquei surpreso…

Surpreso pelas minhas palavras, pela reação inesperada ou por encontrar uma mulher inteligente e capaz de usar palavras que você não conhece? (…) Eu bem que disse à Vanessa que queria ter ficado em casa.

É esse o problema?

Problema? Entre nós é você que está com problemas. Decidiu vir pra cá querendo uma diversão fácil, uma traiçãozinha inocente. E não sabe como lidar. Sequer tem coragem de arranjar uma desculpa e sair.

(Silêncio)

Alô? Falei rápido ou complicado demais?

Estou apaixonado…

Ah, entendi. Você é daqueles que “piram” num desafio e encontrou em mim algo inédito.

Onde está a Vanessa?

Deve estar beijando a terceira boca. Por quê?

Ela está se divertindo mais que você. Ela é que é esperta…

Ela simplesmente consegue “desligar” os problemas pelo tempo necessário de se divertir e entrar num Mundo de Alice. Do Facebook. Todos são felizes. Ou só o hoje interessa. Passei dessa fase. E… não posso deixar de comentar o “esperta” na sua colocação; eu não sei se foi preconceito ou rótulo.

Como assim?

Você está rotulando uma pessoa que nem conhece como fútil, fácil, burra. Deve aprender que beijar três bocas numa noite não a faz vagabunda. Você faria isso. Se pudesse e fosse mais que um rosto bonito numa roupa de marca.

Estou impressionado. Você é a mulher dos meus sonhos.

Acorda cara! Você não está preparada para uma mulher. Você quer uma menininha que te obedeça…

(Novo silêncio)

Sua mãe não me suportaria, pois eu leria os dramas artificiais dela para com você e talvez outros detalhes da sua família, imperceptíveis pra você, pro seu pai. Seus amigos fúteis não falariam comigo por medo e eu não conseguiria conversar com as namoradas deles. Você ia achar desculpas para sair sozinho com os amigos, mas não permitiria que eu fizesse o mesmo.

O que eu devo fazer agora pra te agradar?

Criar uma segunda impressão melhor que a péssima primeira, quer seja por citar um livro que eu li, de um autor que gosto, quer por fazer um comentário inteligente retirado de um filme premiado, ou ainda por me fazer rir.

Você sempre trata os homens dessa maneira?

As vezes. Os que “se acham” perfeitos ou acima dos outros, os preconceituosos, os indelicados, os grosseiros, sempre. Me interesso também pela reação dos demais…

Você sabe de tudo?

Não. Mas já sei que você conta na roda de amigos sobre suas conquistas, julga as mulheres pela roupa e pelo tanto que bebem.

Eu não sou machista.

Sob a própria ótica, nenhum homem é. A verdade é que poucos se assumem.

Estamos conversando demais. Poderíamos estar ocupados noutra atividade. Que tal um beijo?

De que planeta você veio? Acha mesmo que vou te beijar?

Acho!

Ao menos autoconfiança você tem…

 

 

por Celsão “contista”

figura retirada daqui. O site apresenta uma das muitas pesquisas sobre machismo.

P.S.: lembrem que o machismo mata muitas mulheres, todos os dias. Assédio, cantadas ofensivas, toques desnecessários dificilmente são bem vindos, sobretudo entre desconhecidos. Homens, por mais piegas que seja, pensem nas mulheres como suas mães, irmãs e filhas. Respeito! 

laerte-os-pobres-e-os-ricos
Não bate em Francisco no Brasil. Infelizmente.

Aqui me refiro às leis e às punições que elas geram/criam. E num paralelo entre pobres e ricos, entre os que possuem recurso financeiro e os que não possuem e sequer conhecem os próprios direitos.

Começando pela lei recém aprovada no Congresso sobre a terceirização.
Já fui temporário, terceiro, funcionário “residente”, prestando serviço em outra empresa. Também já contratei empresas prestadoras para serviços dos mais diversos e digo com certa propriedade: é diferente.
O terceiro é um semi-escravo que pode ser trocado a qualquer momento, a qualquer deslize; como um carro alugado que apresenta ruído, ou sobremesa imperfeita num hotel all inclusive.
Um terceiro tem de fazer mais e melhor, tem de ir além, a todo momento.
E a empresa prestadora, mesmo quando possui boas intenções e é comandada por pessoas de caráter, sofre a cada renovação de contrato e pode ser trocada pelo simples argumento preço. Resultado: a esmagadora maioria dos terceiros recebem o piso da categoria, o mínimo da lei. E quando há a troca, uns poucos funcionários da empregadora terceirizada anterior são aproveitados, num período de adaptação.

Para quem não sabe, atualmente, o serviço terceirizado não pode ser usado para a atividade-fim, somente para atividades “intermediárias”. Ou seja, uma empresa de transporte coletivo não pode ter motoristas terceirizados, uma fábrica de cerveja não pode ter operadores de máquina terceirizados e por aí vai.
Mas ambas podem ter segurança, limpeza e manutenção feitas por funcionários contratados via terceirização. O perigo da mudança é passarmos a ter semi-escravos em todos os níveis…

Concordo que a legislação trabalhista brasileira está estagnada por décadas e “pesa” na conta de pequenos e microempresários. Mas o razoável aqui seria fazer uma transição, preparar empregados e empresas para uma nova realidade.
Sem educação básica é impensável que os novos profissionais tenham preparo para a nova realidade de mercado e as novas profissões. Tenham, por exemplo, controle dos próprios gastos e saibam se preparar para eventuais férias, emergências médicas e aposentadoria…

A aposentadoria, ou a reforma da previdência é mais um ponto discordante, quando tomamos ricos e pobres.
Os primeiros têm melhores empregos, possuem assistência médica, planos privados de aposentadoria e ainda conseguem adquirir bens durante a idade produtiva, gerando renda extra. Sem contar políticos, militares, juízes e outros funcionários públicos que não obedecem o teto da iniciativa privada e só oneram a folha e o rombo da previdência nacional.
Os outros, além de não alcançarem a comodidade dos ricos, possuem trabalhos mais pesados e desgastantes, menor expectativa de vida, piores condições sociais…

Sem considerar esse fator de diferenciação, estabelecendo 65 anos como idade mínima para advogados e estivadores, médicos e cortadores de cana, fazendeiros e pequenos agricultores… teremos o segundo grupo sem possibilidade de exercer o próprio trabalho após os 50 e sem emprego nos últimos quinze anos de trabalho obrigatório!
E é esse grupo que começa a trabalhar (e contribuir) mais cedo. E é esse grupo também que precisa de suporte público para atendimento medico-hospitalar. E coincidentemente é o grupo que mais precisa do valor da aposentadoria, saído dos cofres públicos.

Outro “pau” que não agride Francisco é a Justiça.
É incrível ver os processos intermináveis e recursos contestáveis que “gente rica” consegue.
Basicamente, todo rico tem direito ao STF. Enquanto o pobre sequer sabe que pode ter um defensor público. E muitas vezes é coagido para aceitar uma culpa que não é dele.

Um exemplo é o goleiro Bruno, ex-Flamengo, cujo recurso foi deferido pelo juiz do Supremo Marco Aurélio Mello, após pouco mais de seis anos de reclusão…
Será que um pedreiro ou operador de máquina teria as mesmas condições?
Certamente não teria dinheiro suficiente para arquitetar sua defesa e programar seus recursos até o STF. Mas a pergunta certa seria: ele teria emprego assim que saísse da penitenciária?

Não é que eu condene o Clube Boa Esporte pelo que fez.
Mas eu gostaria de ver a mesma atitude em relação a presos “comuns”.
Uma vez que o discurso é de reintegração social, que tal contratar roupeiros, gandulas, cozinheiras, enfim, outros funcionários com ficha criminal, vindos de reclusão ou Febem/CASA?
Isso não calaria a minha boca e outras,  mas traria um exemplo a ser seguido.

Mas…
Enquanto tivermos políticos aumentando o próprio salário e usando jatos da FAB para viagens particulares, no fim de semana, levando família e amigos (aqui).
Enquanto houver conchavos e nepotismo para cargos de confiança, ministérios, cargos no STF.
E enquanto a oposição no Legislativo se resumir a PSOL e Rede… fica difícil acreditar na ética e mais difícil ainda acreditar no fim dessas diferenças.
Lamentavelmente.

por Celsão correto

P.S.: figura retirada de um excelente quadrinho do Laerte, que achei aqui

Começo compartilhando um vídeo extraído do Youtube (aqui a entrevista completa, para quem quiser ver o original).
Quem fala no vídeo é Mano Brown, vocalista dos Racionais MCs, ícone do rap nacional, e de toda a periferia paulista, desde o início dos anos 90. A entrevista é sobre o novo disco, o “novo estilo” do músico que “brinca” com a carreira solo.

Meu destaque vai para a análise de Brown sobre o Brasil, em pergunta provocativa já no final da entrevista.
Faz sentido sermos um país hoje “de direita”, enfrentando tantos problemas sociais?
Faz sentido vislumbrarmos o radicalismo de Malafaias e Bolsonaros, na política, antes mesmo de evoluir socialmente e nos certificarmos que nossa nova democracia, nossas jovens instituições funcionam? Antes de assegurar que podemos evoluir em ética (comportamental, política, social)?

Independente do resultado da Lava Jato, da pizza que venha a surgir…
Independente das delações, das listas de Janot, dos conchavos dos políticos que tentarão até o fim safar-se…
Independente dos infindáveis processos do STF, que julga até brigas de trânsito dos ricos em última instância…
Independente do esvaziamento das manifestações pós-PT, como se todos os problemas já estivessem resolvidos…
É preciso continuar lutando!

Por mais ingrato que seja a luta, por mais longo que seja o processo, por mais improvável que seja a condenação, por mais absurda que seja a a lei de última hora, aprovada durante a noite…

É preciso ouvir. É necessário que prestemos atenção aos pequenos grupos, às opiniões pirata, aos pensadores que arriscam “fora da caixa”.
Que os vídeos do Bob Fernandes, que blogs como o do Josias, que revistas como a Piauí e que TVs como a Cultura, sejam lidos e vistos. Principalmente como alternativas ao conteúdo normal de Globo, Estado, Folha e das revistas mais lidas do país (aqui).

Que tenhamos mais Browns, Mandelas, Luther Kings, Mujicas, Angelas Davis, Fred Haptoms…
Mas que a internet nos traga também entidades coletivas, onde a multiplicação da opinião do indivíduo ecoe rapida- e eficazmente, como o Avaaz, o Greenpeace, o Change.org

O tal “Caixa 2” é mesmo crime; e não duas vezes um “Caixa 1”. Qualquer coisa que digam contra ou qualquer isenção que seja aprovada no Legislativo é manipulação das mais reles.
As medidas de combate à corrupção, apresentadas por Dilma no longínquo março de 2015 (avaliadas aqui), quase dois anos atrás, e foco de ação popular pouco depois, não serão adotadas. Não adianta ter esperança nesse ponto. Ao menos não serão aprovadas sem drásticas mudanças. Como já escrevemos recentemente, a Câmara prepara a pizza, pois ainda verifica as assinaturas da ação popular (aqui).
As investigações dos políticos e empresários delatados, sobretudo nessa fase da Operação Lava Jato, levarão muitos anos. E provavelmente não extinguirão a corrupção. Se houverem condenações e prisões, mesmo tardias, teremos iniciado REALMENTE um movimento positivo.
A reforma da previdência, ou reforma trabalhista, será aprovada. Não por ser melhor para o país, mas aproveitando a maioria confortável que o governo Temer tem no Congresso atualmente. Não que eu seja contra reformas, só acho que essa merecia ser exaustivamente discutida e avaliada; sobretudo ouvindo empregados e sindicatos.
As aposentadorias de “marajás”: militares, juízes e políticos, que trabalham por pouco tempo e ganham salários exorbitantes não vai acabar; por mais que queiramos e por mais que seja mais justo e efetivo.

Somos poucos. Mas somos inconformados e continuaremos lutando!
No Legislativo ainda temos PSOL, outros pequenos partidos de esquerda como PCB e PCdoB, parte da Rede, do PDT e o que sobrou do PT. Nas ruas temos os inconformados, os pensadores, os curiosos, os críticos…

Terminando com outra frase de Mano Brown…

Nunca foi fácil, junta seus pedaços e desce para arena, mas lembre-se: Aconteça o que acontecer, nada como um dia após um outro dia!

por Celsão revoltado, já que citei Racionais e Congresso. 🙂

P.S.: figura retirada daqui, mais por não saber se o vídeo apareceria como figura no Facebook

P.S.2: abaixo o mesmo trecho de vídeo, no formato MOV, caso alguém tenha dificuldade em abrir o MP4

Pai-Herói

Posted: January 24, 2017 in Outros
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dia_dos_pais_0171No último dia cinco, um primo do meu pai, personagem do conto publicado recentemente (aqui), faleceu.
Dizem que qualquer homem pode ser filho, mas somente os homens especiais, podem ser pais.

Na época que escrevi o conto, meu tio (é assim que sempre o tratei), estava internado na UTI.
Mas o momento difícil me fez lembrar de estórias vividas por ele com meu pai, de estórias que vivemos juntos; eles dois, nós e meus primos pequenos. Época de “viajar de ônibus” dentro de São Paulo…

Ambos os pais detinham o magnetismo do “exemplo”.
Tínhamos medo de sermos apanhados em algo que eles não fariam. E, logo, não aprovariam.
Maior que o medo era a vergonha… Como explicar um deslize, algo “feio”, para alguém que era recebido aos gritos e correrias, mesmo com roupas sujas e mãos vazias?

Pequenos humanos, meninos e meninas, tornam-se grandes pessoas através da influência de grandes mentes que se preocuparam com eles, quando pequenos e no decorrer de toda a caminhada.

A perda fez com que minha prima, filha desse verdadeiro pai-herói, se expressasse com um poema-homenagem.
Eis-lo aqui.
Obrigado Lu!

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PAI, QUERO LEMBRAR…

Do seu sorriso, da sua gargalhada, daqueles óculos, do enorme bigode, do seu perfume.

Das festinhas de aniversário, dos almoços e comemorações em família.

Do seu trabalho suado para ver a alegria brilhar em nossas faces.

Dos banhos de mangueira, do balanço e escorregador improvisados.

Do seu jeito tímido de dizer “Eu te amo” com gestos.

Da bagunça que eu e meu irmão fazíamos na oficina.

De quando brincávamos de marceneiro e construtor com os pedacinhos de madeira que sobravam. Afinal, queríamos aprender o seu ofício, pois o senhor era (e sempre será) o nosso exemplo.

Da euforia que sentíamos na espera pela sua chegada ao fim do seu dia de serviço.

Da gente prometendo para a mamãe que não íamos mais fazer bagunça e que não era pra contar nada para o papai.

Da nossa mãe de avental correndo atrás da gente pelo quintal, dizendo: “O pai de vocês já já chega e vocês vão ter de se explicar com ele!”. Bastava um olhar que Lucinha e Juninho logo se aprumavam! Não era medo, era respeito.

Do senhor brincando de vovô com os netinhos. Demorou, mas a cegonha logo se apressou em mandar dois bem próximos um do outro!

Pai, quero lembrar sempre da sua presença.

Descanse em paz, o senhor cumpriu a sua missão aqui na Terra. Um dia nos encontraremos.

Que Deus o receba de braços abertos no Reino da Glória.

Te amo, meu pai-herói!

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por Celsão ele mesmo e Luciana Almeida da Silveira

figura de arquivo pessoal

herero_namaComecemos com um texto publicado esse ano pelo portal UOL (link aqui)

O título do texto é “Por que a Alemanha não se desculpou até hoje pelo primeiro genocídio do século 20” e ele trata do assassinato de dezenas de milhares de africanos assassinados pelo exército alemão entre os anos de 1904 e 1908.

Conhecemos diversos exemplos parecidos com este. Quando um país mais desenvolvido (Europeu – por exemplo), coloniza um país africano (ou de qualquer outro continente) durante décadas, séculos, explorando suas riquezas e enriquecendo enquanto estes empobrecem. Então um dia rebeldes resolvem reagir, e como contra-reação os colonos utilizam da máxima força bruta, crueldade, barbaridade e covardia, levando etnias praticamente à extinção.

Exploram, abusam, estupram, matam, sugam tudo de valioso de suas terras, e quando partem daquele país, deixam somente pobreza, atraso, destruição, traumas e ódio para trás.
Depois os intelectuais, políticos e cidadãos dos países desenvolvidos, algumas décadas mais tarde, dizem que os países explorados não se desenvolvem, pois são corruptos, ou não aproveitam as oportunidades, ou são incapazes de aprender com os erros, ou porque não têm nada a oferecer de volta num possível comércio…. ou seja, a culpa ainda é deles, povos explorados, assassinados, sugados….
Para piorar, os acadêmicos e intelectuais dos países explorados (América do Sul, África, Ásia, etc) aprendem com a mídia e com seus sistemas de ensino, as teorias que convêm e favorecem os interesses dos países exploradores. Em nossas Universidades e em nossos jornais, em na maior parte de nossa literatura, são difundidas ideologias que visam nos manter alienados e dominados. Assim nos ensinam que o neoliberalismo é bom para o Brasil, para o Vietnam, e para a Namíbia. Ensinam que os países Europeus se desenvolveram pois são mais organizados. Que somos atrasados devido ao nosso fracasso, nossa cultura “defasada”. E que a culpa de sermos atrasados, pobres, corruptos, é praticamente toda nossa, e que os  países exploradores têm pouca ou nenhuma parcela de culpa. Também nos ensinam que, se uma etnia foi explorada há algumas décadas, ou mais de um século no passado, não há mais nada a ser retratado, não há mais dívida, pois afinal, 1 século é tempo suficiente para um povo se colocar em pé de igualdade com outro (grande balela!).

Eu sou a favor de pedidos de desculpas e pagamentos justos de dívidas, seja financeiramente, seja com investimentos tecnológicos e acadêmicos naqueles países…. Não por parte da Alemanha somente, mas por parte de todos os países que hoje usufruem de um bem-estar social em parte devido às todas atrocidades feitas em outras regiões e contra outros seres humanos.
Imaginem se uma comoção mundial entrasse em vigor, organizada por ONGs sociais e com apoio da ONU, e uma onda de investimentos em educação, saúde e tecnologia, financiada pelos países ricos, começasse a acontecer nos países que foram explorados e sugados num passado recente? E assim, esses países recebessem um pouco daquilo que lhes foi tomado, e pudessem assim voltar a sonhar com uma certa independência e dignidade de vida?
Até mesmo as sociedades dos países ricos teriam enormes ganhos, pois além de dormir com a consciência mais  limpa, ainda teriam menos problemas com os efeitos colaterais causados pelas massivas imigrações (imigrantes e refugiados), que iriam ser reduzidas fortemente se as condições de vida naqueles países melhorassem, e ainda notariam uma forte redução nas ondas de terrorismo em seus países. Além disso tudo, estes países explorados se tornariam mais civilizados e mais seguros, tornando-se destinos turísticos ainda mais paradisíacos para os cidadãos dos países exploradores.
Como podemos ver, todos ganham!

O fato é que, enquanto nós, nascidos em países explorados, continuarmos reproduzindo o discurso  de quem nos explorou e ainda explora, nossos países continuarão nestas condições, num ciclo eterno de subdesenvolvimento, violência e ignorância. Afinal, o interesse e a vontade de mudança só podem surgir, se houver um despertar de consciência dentro de nós. Esse interesse jamais surgirá dos povos dominantes, pois eles usufruem dos mais diversos benefícios oriundos de nossa ignorância e desinteresse.

por Miguelito revoltado
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Menos violenta, mas não menos genocida, toda a colonização ostensiva Européia terminou “aculturando” civilizações seculares e inocentes na América Latina. As vezes por força da pólvora, como contam os relatos de Aztecas, Maias e Incas, mas muitas vezes simplesmente pela imposição de costumes e religiões.

Esse raciocínio, de genocídio ou de “extinção programada”, por exemplo, ocorreu com os índios Yamanás e Selknams, que viviam no extremo sul do continente americano.

Nus, não por acaso, estes povos eram adaptados às condições adversas do lugar, eram hábeis com canoas, usufruíam de abundante caça e pesca local, e passavam no corpo gordura de leões marinhos, para suportar o frio intenso. As fogueiras desses índios deram o nome ao lugar: “Terra do Fogo”, chamaram os Europeus.

Que fizeram explorações para cruzar o Cabo Horns, encontrando um caminho diferente entre Atlântico e Pacífico.
Que estudaram a Antártida a partir dali.
Que evoluíram em sua “evolução”, graças a Darwin e também à uma ilha da região.
Que lutaram por outras ilhas: Franceses, Portugueses, Espanhóis e Ingleses…

Mas… infelizmente… não respeitaram o povo oriundo e originário dali!
Impuseram condições, expulsaram das terras, exploraram e grilaram por onde estiveram.
Como, em sã consciência, um sujeito elitizado e capitalista, acostumado com regras europeias, toma por normal a construção permanente de casas, fortalezas e igrejas num terreno que não o pertence?

Seguindo a linha defendida pelo Miguel, o mínimo que o explorador poderia propor era um aluguel temporário.
Oferecer os serviços de benfeitorias, as casas, as igrejas. E, após concluídas, deixar que os habitantes locais determinassem o que fazer com elas.
Alguns relatos locais dizem que os primeiros índios Selknam que foram vestidos pelos Ingleses que lá estiveram e receberam aulas do idioma, abandonaram roupas e voltaram a viver a seu modo poucos meses depois. A insistência das “melhores condições morais e sociais europeias”, dizimou a população indígena do local.

Conclusão óbvia, os primeiros ingleses que realizaram um assentamento de “brancos” na Terra de Fogo, em companhia do Reverendo Thomas Bridges, já estão na 6ª. geração e seguem a morando na Estância Harberton, uma das mais concorridas estâncias de Ushuaia, famosa pos atrações turísticas. Ou seja, as casas e hotéis construídas, estão gerando renda há cinco gerações.
Enquanto que os quase 3 mil Yamanás que viviam naquela região à luz da época desapareceram em 50 anos. Na referência que li (aqui), o autor relata que há (ou havia) apenas uma última índia Yamaná, com cerca de 80 anos de idade. Sendo todos os demais descentes “mestiços e aculturados” (sic).

Finalizando… Quem realmente acredita que as imposições do rico para o pobre pararam?
Que somos e estamos livres ideologicamente nos dias de hoje? E que a nossa ignorância, passividade e subserviência não são comemoradas por países imperialistas e classes dominantes?

Vale o exercício de reflexão.

por Celsão correto.

figura retirada da matéria do UOL sobre os Herero e Nama (novamente aqui)

P.S.: para quem quiser ler a estória dos índios da Terra do Fogo, segue um link de partida bem bacana (aqui)

Conto de pai

Posted: January 12, 2017 in Outros
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conto-paiChego na escolinha e sou recebido com um imenso sorriso, seguido daquela corrida desajeitada (porém linda) em minha direção e de um abraço apertado.
“Hoje eu te levo na natação!”
E o “Eba!” é tão espontâneo e intenso que tenho a certeza que terei uma tarde esplêndida, ou melhor, que todo o tempo juntos será de curtição e aprendizado mútuo.

Consigo facilmente ignorar o celular durante a aula e curto “babando” pelo vidro as “manobras” do meu golfinho. Me impressiona a obediência ao professor novo.
No banho, nem a falta de água quente diminui nossa empolgação e nossa festa.
As ladeiras pra casa são de músicas, explicações divertidas sobre uma ou outra observação, planos de brincadeiras com dinossauros ao chegar em casa e… da primeira pirraça, quando peço que ele ande um pouco.
O sol ainda brilha e o calor do verão paulistano me faz suar.

Tudo bem.
Em casa tento retomar a rotina: oferecer fruta e bolacha para recuperar as energias, já avisando do jantar que estava porvir.
A comida é imediatamente recusada, assim como a água, o suco e os demais alimentos oferecidos: “quero pirulito!”, “não”, e o primeiro choro; daqueles sem lágrimas, que mostram apenas insatisfação.
Mudo o foco pegando um dinossauro que está por perto e imitando o seu rugido feroz; partimos pra brincadeira.

Em seu quarto, fecho a janela. A intenção é evitar os pernilongos.
Ele abre, dizendo estar com calor.
Eu ligo o ventilador, pois realmente faz calor.
Ele desliga, alegando numa frase imperfeita que “sinto frio de ventilador”.
Quando insisto e tento explicar os motivos, ele passa a mexer nos botões do eletrodoméstico, fingindo não ouvir o que eu digo.
Num rompante sai do quarto; e volta com uma porção grande de papel higiênico nas mãos. Passa a picar o papel sistematicamente e soltá-lo na frente do ventilador.
Eu até poderia reprimi-lo; mas achei aquilo tão criativo e ímpar, que decido viver o momento. Afinal, depois é só recolher aquele papel…
Ele me olha a cada pequeno pedaço que voa e ri com as reviravoltas que os mesmos dão…

Meu celular toca. É um dos números que insiste em falar com o Claudinei Gomes.
Ao invés de desligar ou explicar que não o conheço, peço, dessa vez, informações do local e empresa, bem como o nome do atendente.
Mais que depressa, recebo o peso do agitado pequenino nos ombros, insistindo no “quem é?” e pedindo para conversar com o moço.
A ligação cai sem que eu entenda resposta alguma do “moço”. Ao tirar o telefone do ouvido, explico calma e racionalmente que aquilo é inconveniente, que atrapalha e que me atrapalhou.
Novo choro. Nova mudança de foco, dessa vez tomando um carrinho nas mãos…

Hora de jantar.
Só consigo a presença na mesa com uma bolinha de tênis. Só que a mesma cai das mãos, invariavelmente, a cada colherada.
Aquilo me irrita, e passo a me perguntar se uma criança de três anos conseguiria ser irônica ou sarcástica, propositalmente. E se o papel no ventilador teve esse propósito de me irritar.
Me contenho e não ralho com as risadas e os repetidos movimentos para descer da cadeira, pois a comida é consumida pouco a pouco, apesar do “não quero o verdinho”.

Seguimos na brincadeira da bolinha até que meu celular toca novamente.
Uma tia, que pede para falar com a criança sapeca, não pôde ver que recebe em resposta uma cabeça afundada na almofada da sala. Nem uma palavra sequer, apesar da insistência e do viva-voz.
Será possível? Há um minuto atrás queria com todas as forças comunicar-se via celular!

E a sequência rotineira final chega: mamadeira, xixi, remédio, escova de dentes…
Tudo negado desde o princípio. Cabeça afundada. Esconderijo na cortina. Corrida para o quarto.
A mamadeira vai, entre brincadeiras com o controle remoto da TV. Repreendo e causo uma birra que não permite os demais passos sem choro.
Remédio cuspido. Xixi sentado à força. Pasta de dentes entre prantos. E, óbvio, depois de tudo, clamor pela presença da mãe.

Impossível não pensar que sou um péssimo pai.
Impossível não filosofar sobre a repreensão durante a mamadeira. Seria cansaço ou birra de minha parte?
Apenas cinco horas depois de começar o período esplêndido pai-e-filho, um deles esperneia na cama chamando pela mãe e o outro cogita pegar o celular para perguntar sobre o horário da volta.

O choro segue ininterrupto enquanto janto, assisto ao jornal e olho meu celular.
“Ninguém morre de chorar” disse o pediatra dele certa vez. Mas mesmo assim mando aquele whatsapp consultando a localização e o horário da volta.
Quando o choro-manha completa meia-hora, me levanto e vou até o quarto.
“Onde dói?”, “O que você tem?” e “O que aconteceu?” são ignoradas. Como o otimista sempre pensa na parte boa, ele não chama pela mãe…
Explico que é hora de dormir e saio.

Mais vinte minutos inteiros…
Ignoro conselhos, o pediatra, meu lado racional e a máxima de vó que “uma hora cansa” e entro novamente no quarto.
Dessa vez pego no colo, apoio no ombro e faço perguntas fechadas: “Quer leite?”, “Está com frio?”, etc. até obter uma resposta e levar um copo de suco de uva e duas bolachas “maizena” para a cama.
O silêncio vem como resposta em dois minutos. O sono em menos de dez.

Pai também erra. E sofre. E ama.

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui. Engraçado estar num texto do Silas Malafaia…