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Começo compartilhando um vídeo extraído do Youtube (aqui a entrevista completa, para quem quiser ver o original).
Quem fala no vídeo é Mano Brown, vocalista dos Racionais MCs, ícone do rap nacional, e de toda a periferia paulista, desde o início dos anos 90. A entrevista é sobre o novo disco, o “novo estilo” do músico que “brinca” com a carreira solo.

Meu destaque vai para a análise de Brown sobre o Brasil, em pergunta provocativa já no final da entrevista.
Faz sentido sermos um país hoje “de direita”, enfrentando tantos problemas sociais?
Faz sentido vislumbrarmos o radicalismo de Malafaias e Bolsonaros, na política, antes mesmo de evoluir socialmente e nos certificarmos que nossa nova democracia, nossas jovens instituições funcionam? Antes de assegurar que podemos evoluir em ética (comportamental, política, social)?

Independente do resultado da Lava Jato, da pizza que venha a surgir…
Independente das delações, das listas de Janot, dos conchavos dos políticos que tentarão até o fim safar-se…
Independente dos infindáveis processos do STF, que julga até brigas de trânsito dos ricos em última instância…
Independente do esvaziamento das manifestações pós-PT, como se todos os problemas já estivessem resolvidos…
É preciso continuar lutando!

Por mais ingrato que seja a luta, por mais longo que seja o processo, por mais improvável que seja a condenação, por mais absurda que seja a a lei de última hora, aprovada durante a noite…

É preciso ouvir. É necessário que prestemos atenção aos pequenos grupos, às opiniões pirata, aos pensadores que arriscam “fora da caixa”.
Que os vídeos do Bob Fernandes, que blogs como o do Josias, que revistas como a Piauí e que TVs como a Cultura, sejam lidos e vistos. Principalmente como alternativas ao conteúdo normal de Globo, Estado, Folha e das revistas mais lidas do país (aqui).

Que tenhamos mais Browns, Mandelas, Luther Kings, Mujicas, Angelas Davis, Fred Haptoms…
Mas que a internet nos traga também entidades coletivas, onde a multiplicação da opinião do indivíduo ecoe rapida- e eficazmente, como o Avaaz, o Greenpeace, o Change.org

O tal “Caixa 2” é mesmo crime; e não duas vezes um “Caixa 1”. Qualquer coisa que digam contra ou qualquer isenção que seja aprovada no Legislativo é manipulação das mais reles.
As medidas de combate à corrupção, apresentadas por Dilma no longínquo março de 2015 (avaliadas aqui), quase dois anos atrás, e foco de ação popular pouco depois, não serão adotadas. Não adianta ter esperança nesse ponto. Ao menos não serão aprovadas sem drásticas mudanças. Como já escrevemos recentemente, a Câmara prepara a pizza, pois ainda verifica as assinaturas da ação popular (aqui).
As investigações dos políticos e empresários delatados, sobretudo nessa fase da Operação Lava Jato, levarão muitos anos. E provavelmente não extinguirão a corrupção. Se houverem condenações e prisões, mesmo tardias, teremos iniciado REALMENTE um movimento positivo.
A reforma da previdência, ou reforma trabalhista, será aprovada. Não por ser melhor para o país, mas aproveitando a maioria confortável que o governo Temer tem no Congresso atualmente. Não que eu seja contra reformas, só acho que essa merecia ser exaustivamente discutida e avaliada; sobretudo ouvindo empregados e sindicatos.
As aposentadorias de “marajás”: militares, juízes e políticos, que trabalham por pouco tempo e ganham salários exorbitantes não vai acabar; por mais que queiramos e por mais que seja mais justo e efetivo.

Somos poucos. Mas somos inconformados e continuaremos lutando!
No Legislativo ainda temos PSOL, outros pequenos partidos de esquerda como PCB e PCdoB, parte da Rede, do PDT e o que sobrou do PT. Nas ruas temos os inconformados, os pensadores, os curiosos, os críticos…

Terminando com outra frase de Mano Brown…

Nunca foi fácil, junta seus pedaços e desce para arena, mas lembre-se: Aconteça o que acontecer, nada como um dia após um outro dia!

por Celsão revoltado, já que citei Racionais e Congresso. 🙂

P.S.: figura retirada daqui, mais por não saber se o vídeo apareceria como figura no Facebook

P.S.2: abaixo o mesmo trecho de vídeo, no formato MOV, caso alguém tenha dificuldade em abrir o MP4

Pai-Herói

Posted: January 24, 2017 in Outros
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dia_dos_pais_0171No último dia cinco, um primo do meu pai, personagem do conto publicado recentemente (aqui), faleceu.
Dizem que qualquer homem pode ser filho, mas somente os homens especiais, podem ser pais.

Na época que escrevi o conto, meu tio (é assim que sempre o tratei), estava internado na UTI.
Mas o momento difícil me fez lembrar de estórias vividas por ele com meu pai, de estórias que vivemos juntos; eles dois, nós e meus primos pequenos. Época de “viajar de ônibus” dentro de São Paulo…

Ambos os pais detinham o magnetismo do “exemplo”.
Tínhamos medo de sermos apanhados em algo que eles não fariam. E, logo, não aprovariam.
Maior que o medo era a vergonha… Como explicar um deslize, algo “feio”, para alguém que era recebido aos gritos e correrias, mesmo com roupas sujas e mãos vazias?

Pequenos humanos, meninos e meninas, tornam-se grandes pessoas através da influência de grandes mentes que se preocuparam com eles, quando pequenos e no decorrer de toda a caminhada.

A perda fez com que minha prima, filha desse verdadeiro pai-herói, se expressasse com um poema-homenagem.
Eis-lo aqui.
Obrigado Lu!

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PAI, QUERO LEMBRAR…

Do seu sorriso, da sua gargalhada, daqueles óculos, do enorme bigode, do seu perfume.

Das festinhas de aniversário, dos almoços e comemorações em família.

Do seu trabalho suado para ver a alegria brilhar em nossas faces.

Dos banhos de mangueira, do balanço e escorregador improvisados.

Do seu jeito tímido de dizer “Eu te amo” com gestos.

Da bagunça que eu e meu irmão fazíamos na oficina.

De quando brincávamos de marceneiro e construtor com os pedacinhos de madeira que sobravam. Afinal, queríamos aprender o seu ofício, pois o senhor era (e sempre será) o nosso exemplo.

Da euforia que sentíamos na espera pela sua chegada ao fim do seu dia de serviço.

Da gente prometendo para a mamãe que não íamos mais fazer bagunça e que não era pra contar nada para o papai.

Da nossa mãe de avental correndo atrás da gente pelo quintal, dizendo: “O pai de vocês já já chega e vocês vão ter de se explicar com ele!”. Bastava um olhar que Lucinha e Juninho logo se aprumavam! Não era medo, era respeito.

Do senhor brincando de vovô com os netinhos. Demorou, mas a cegonha logo se apressou em mandar dois bem próximos um do outro!

Pai, quero lembrar sempre da sua presença.

Descanse em paz, o senhor cumpriu a sua missão aqui na Terra. Um dia nos encontraremos.

Que Deus o receba de braços abertos no Reino da Glória.

Te amo, meu pai-herói!

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por Celsão ele mesmo e Luciana Almeida da Silveira

figura de arquivo pessoal

herero_namaComecemos com um texto publicado esse ano pelo portal UOL (link aqui)

O título do texto é “Por que a Alemanha não se desculpou até hoje pelo primeiro genocídio do século 20” e ele trata do assassinato de dezenas de milhares de africanos assassinados pelo exército alemão entre os anos de 1904 e 1908.

Conhecemos diversos exemplos parecidos com este. Quando um país mais desenvolvido (Europeu – por exemplo), coloniza um país africano (ou de qualquer outro continente) durante décadas, séculos, explorando suas riquezas e enriquecendo enquanto estes empobrecem. Então um dia rebeldes resolvem reagir, e como contra-reação os colonos utilizam da máxima força bruta, crueldade, barbaridade e covardia, levando etnias praticamente à extinção.

Exploram, abusam, estupram, matam, sugam tudo de valioso de suas terras, e quando partem daquele país, deixam somente pobreza, atraso, destruição, traumas e ódio para trás.
Depois os intelectuais, políticos e cidadãos dos países desenvolvidos, algumas décadas mais tarde, dizem que os países explorados não se desenvolvem, pois são corruptos, ou não aproveitam as oportunidades, ou são incapazes de aprender com os erros, ou porque não têm nada a oferecer de volta num possível comércio…. ou seja, a culpa ainda é deles, povos explorados, assassinados, sugados….
Para piorar, os acadêmicos e intelectuais dos países explorados (América do Sul, África, Ásia, etc) aprendem com a mídia e com seus sistemas de ensino, as teorias que convêm e favorecem os interesses dos países exploradores. Em nossas Universidades e em nossos jornais, em na maior parte de nossa literatura, são difundidas ideologias que visam nos manter alienados e dominados. Assim nos ensinam que o neoliberalismo é bom para o Brasil, para o Vietnam, e para a Namíbia. Ensinam que os países Europeus se desenvolveram pois são mais organizados. Que somos atrasados devido ao nosso fracasso, nossa cultura “defasada”. E que a culpa de sermos atrasados, pobres, corruptos, é praticamente toda nossa, e que os  países exploradores têm pouca ou nenhuma parcela de culpa. Também nos ensinam que, se uma etnia foi explorada há algumas décadas, ou mais de um século no passado, não há mais nada a ser retratado, não há mais dívida, pois afinal, 1 século é tempo suficiente para um povo se colocar em pé de igualdade com outro (grande balela!).

Eu sou a favor de pedidos de desculpas e pagamentos justos de dívidas, seja financeiramente, seja com investimentos tecnológicos e acadêmicos naqueles países…. Não por parte da Alemanha somente, mas por parte de todos os países que hoje usufruem de um bem-estar social em parte devido às todas atrocidades feitas em outras regiões e contra outros seres humanos.
Imaginem se uma comoção mundial entrasse em vigor, organizada por ONGs sociais e com apoio da ONU, e uma onda de investimentos em educação, saúde e tecnologia, financiada pelos países ricos, começasse a acontecer nos países que foram explorados e sugados num passado recente? E assim, esses países recebessem um pouco daquilo que lhes foi tomado, e pudessem assim voltar a sonhar com uma certa independência e dignidade de vida?
Até mesmo as sociedades dos países ricos teriam enormes ganhos, pois além de dormir com a consciência mais  limpa, ainda teriam menos problemas com os efeitos colaterais causados pelas massivas imigrações (imigrantes e refugiados), que iriam ser reduzidas fortemente se as condições de vida naqueles países melhorassem, e ainda notariam uma forte redução nas ondas de terrorismo em seus países. Além disso tudo, estes países explorados se tornariam mais civilizados e mais seguros, tornando-se destinos turísticos ainda mais paradisíacos para os cidadãos dos países exploradores.
Como podemos ver, todos ganham!

O fato é que, enquanto nós, nascidos em países explorados, continuarmos reproduzindo o discurso  de quem nos explorou e ainda explora, nossos países continuarão nestas condições, num ciclo eterno de subdesenvolvimento, violência e ignorância. Afinal, o interesse e a vontade de mudança só podem surgir, se houver um despertar de consciência dentro de nós. Esse interesse jamais surgirá dos povos dominantes, pois eles usufruem dos mais diversos benefícios oriundos de nossa ignorância e desinteresse.

por Miguelito revoltado
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Menos violenta, mas não menos genocida, toda a colonização ostensiva Européia terminou “aculturando” civilizações seculares e inocentes na América Latina. As vezes por força da pólvora, como contam os relatos de Aztecas, Maias e Incas, mas muitas vezes simplesmente pela imposição de costumes e religiões.

Esse raciocínio, de genocídio ou de “extinção programada”, por exemplo, ocorreu com os índios Yamanás e Selknams, que viviam no extremo sul do continente americano.

Nus, não por acaso, estes povos eram adaptados às condições adversas do lugar, eram hábeis com canoas, usufruíam de abundante caça e pesca local, e passavam no corpo gordura de leões marinhos, para suportar o frio intenso. As fogueiras desses índios deram o nome ao lugar: “Terra do Fogo”, chamaram os Europeus.

Que fizeram explorações para cruzar o Cabo Horns, encontrando um caminho diferente entre Atlântico e Pacífico.
Que estudaram a Antártida a partir dali.
Que evoluíram em sua “evolução”, graças a Darwin e também à uma ilha da região.
Que lutaram por outras ilhas: Franceses, Portugueses, Espanhóis e Ingleses…

Mas… infelizmente… não respeitaram o povo oriundo e originário dali!
Impuseram condições, expulsaram das terras, exploraram e grilaram por onde estiveram.
Como, em sã consciência, um sujeito elitizado e capitalista, acostumado com regras europeias, toma por normal a construção permanente de casas, fortalezas e igrejas num terreno que não o pertence?

Seguindo a linha defendida pelo Miguel, o mínimo que o explorador poderia propor era um aluguel temporário.
Oferecer os serviços de benfeitorias, as casas, as igrejas. E, após concluídas, deixar que os habitantes locais determinassem o que fazer com elas.
Alguns relatos locais dizem que os primeiros índios Selknam que foram vestidos pelos Ingleses que lá estiveram e receberam aulas do idioma, abandonaram roupas e voltaram a viver a seu modo poucos meses depois. A insistência das “melhores condições morais e sociais europeias”, dizimou a população indígena do local.

Conclusão óbvia, os primeiros ingleses que realizaram um assentamento de “brancos” na Terra de Fogo, em companhia do Reverendo Thomas Bridges, já estão na 6ª. geração e seguem a morando na Estância Harberton, uma das mais concorridas estâncias de Ushuaia, famosa pos atrações turísticas. Ou seja, as casas e hotéis construídas, estão gerando renda há cinco gerações.
Enquanto que os quase 3 mil Yamanás que viviam naquela região à luz da época desapareceram em 50 anos. Na referência que li (aqui), o autor relata que há (ou havia) apenas uma última índia Yamaná, com cerca de 80 anos de idade. Sendo todos os demais descentes “mestiços e aculturados” (sic).

Finalizando… Quem realmente acredita que as imposições do rico para o pobre pararam?
Que somos e estamos livres ideologicamente nos dias de hoje? E que a nossa ignorância, passividade e subserviência não são comemoradas por países imperialistas e classes dominantes?

Vale o exercício de reflexão.

por Celsão correto.

figura retirada da matéria do UOL sobre os Herero e Nama (novamente aqui)

P.S.: para quem quiser ler a estória dos índios da Terra do Fogo, segue um link de partida bem bacana (aqui)

Conto de pai

Posted: January 12, 2017 in Outros
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conto-paiChego na escolinha e sou recebido com um imenso sorriso, seguido daquela corrida desajeitada (porém linda) em minha direção e de um abraço apertado.
“Hoje eu te levo na natação!”
E o “Eba!” é tão espontâneo e intenso que tenho a certeza que terei uma tarde esplêndida, ou melhor, que todo o tempo juntos será de curtição e aprendizado mútuo.

Consigo facilmente ignorar o celular durante a aula e curto “babando” pelo vidro as “manobras” do meu golfinho. Me impressiona a obediência ao professor novo.
No banho, nem a falta de água quente diminui nossa empolgação e nossa festa.
As ladeiras pra casa são de músicas, explicações divertidas sobre uma ou outra observação, planos de brincadeiras com dinossauros ao chegar em casa e… da primeira pirraça, quando peço que ele ande um pouco.
O sol ainda brilha e o calor do verão paulistano me faz suar.

Tudo bem.
Em casa tento retomar a rotina: oferecer fruta e bolacha para recuperar as energias, já avisando do jantar que estava porvir.
A comida é imediatamente recusada, assim como a água, o suco e os demais alimentos oferecidos: “quero pirulito!”, “não”, e o primeiro choro; daqueles sem lágrimas, que mostram apenas insatisfação.
Mudo o foco pegando um dinossauro que está por perto e imitando o seu rugido feroz; partimos pra brincadeira.

Em seu quarto, fecho a janela. A intenção é evitar os pernilongos.
Ele abre, dizendo estar com calor.
Eu ligo o ventilador, pois realmente faz calor.
Ele desliga, alegando numa frase imperfeita que “sinto frio de ventilador”.
Quando insisto e tento explicar os motivos, ele passa a mexer nos botões do eletrodoméstico, fingindo não ouvir o que eu digo.
Num rompante sai do quarto; e volta com uma porção grande de papel higiênico nas mãos. Passa a picar o papel sistematicamente e soltá-lo na frente do ventilador.
Eu até poderia reprimi-lo; mas achei aquilo tão criativo e ímpar, que decido viver o momento. Afinal, depois é só recolher aquele papel…
Ele me olha a cada pequeno pedaço que voa e ri com as reviravoltas que os mesmos dão…

Meu celular toca. É um dos números que insiste em falar com o Claudinei Gomes.
Ao invés de desligar ou explicar que não o conheço, peço, dessa vez, informações do local e empresa, bem como o nome do atendente.
Mais que depressa, recebo o peso do agitado pequenino nos ombros, insistindo no “quem é?” e pedindo para conversar com o moço.
A ligação cai sem que eu entenda resposta alguma do “moço”. Ao tirar o telefone do ouvido, explico calma e racionalmente que aquilo é inconveniente, que atrapalha e que me atrapalhou.
Novo choro. Nova mudança de foco, dessa vez tomando um carrinho nas mãos…

Hora de jantar.
Só consigo a presença na mesa com uma bolinha de tênis. Só que a mesma cai das mãos, invariavelmente, a cada colherada.
Aquilo me irrita, e passo a me perguntar se uma criança de três anos conseguiria ser irônica ou sarcástica, propositalmente. E se o papel no ventilador teve esse propósito de me irritar.
Me contenho e não ralho com as risadas e os repetidos movimentos para descer da cadeira, pois a comida é consumida pouco a pouco, apesar do “não quero o verdinho”.

Seguimos na brincadeira da bolinha até que meu celular toca novamente.
Uma tia, que pede para falar com a criança sapeca, não pôde ver que recebe em resposta uma cabeça afundada na almofada da sala. Nem uma palavra sequer, apesar da insistência e do viva-voz.
Será possível? Há um minuto atrás queria com todas as forças comunicar-se via celular!

E a sequência rotineira final chega: mamadeira, xixi, remédio, escova de dentes…
Tudo negado desde o princípio. Cabeça afundada. Esconderijo na cortina. Corrida para o quarto.
A mamadeira vai, entre brincadeiras com o controle remoto da TV. Repreendo e causo uma birra que não permite os demais passos sem choro.
Remédio cuspido. Xixi sentado à força. Pasta de dentes entre prantos. E, óbvio, depois de tudo, clamor pela presença da mãe.

Impossível não pensar que sou um péssimo pai.
Impossível não filosofar sobre a repreensão durante a mamadeira. Seria cansaço ou birra de minha parte?
Apenas cinco horas depois de começar o período esplêndido pai-e-filho, um deles esperneia na cama chamando pela mãe e o outro cogita pegar o celular para perguntar sobre o horário da volta.

O choro segue ininterrupto enquanto janto, assisto ao jornal e olho meu celular.
“Ninguém morre de chorar” disse o pediatra dele certa vez. Mas mesmo assim mando aquele whatsapp consultando a localização e o horário da volta.
Quando o choro-manha completa meia-hora, me levanto e vou até o quarto.
“Onde dói?”, “O que você tem?” e “O que aconteceu?” são ignoradas. Como o otimista sempre pensa na parte boa, ele não chama pela mãe…
Explico que é hora de dormir e saio.

Mais vinte minutos inteiros…
Ignoro conselhos, o pediatra, meu lado racional e a máxima de vó que “uma hora cansa” e entro novamente no quarto.
Dessa vez pego no colo, apoio no ombro e faço perguntas fechadas: “Quer leite?”, “Está com frio?”, etc. até obter uma resposta e levar um copo de suco de uva e duas bolachas “maizena” para a cama.
O silêncio vem como resposta em dois minutos. O sono em menos de dez.

Pai também erra. E sofre. E ama.

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui. Engraçado estar num texto do Silas Malafaia… 

jesus-rosto-realTodo o alvoroço de fim de ano, agregado a alguns prazeres que o dinheiro pode comprar, coisas fúteis e exageradas em qualquer cultura, me fizeram pensar na razão disso tudo.
E então vieram as mensagens de final de ano via whatsapp… e um amigo me lembrou que Jesus era de esquerda.

É inacreditável o quanto se consome, se gasta, se desperdiça, nas duas principais datas do cristianismo: Natal e Páscoa. Coincidentemente, ambas têm relação com o mais famoso dentre os cristãos: Jesus Cristo.

“Se o aniversário é de Jesus, por que você quer presente?” – dizia uma piadinha em meu celular – enquanto eu me perguntava quantos realmente sabiam que era aniversário “dele”, e quantos, mesmo sabendo, se importavam com o fato.
Percebo, infelizmente, que aquele “espírito natalino”, que nos toma e nos acomete de bondade, caridade e boas ações para com o próximo, está um tanto raro. E, num desperdício de “all inclusive”, imagino quantas famílias seriam abastecidas pelo que se consome aqui; e por quanto tempo…

Todo aquele que teve educação cristã, mesmo não sendo um católico ou protestante praticante, sabe que Jesus pregava a igualdade. Condenava a usura, a desigualdade e a exploração do homem por si próprio.
Mesmo que não acredite em toda essa “inclinação política”, sabe também que Jesus pregava contra o domínio irrestrito dos romanos e da elite judaica do seu tempo em Israel. E… andar, sentar-se a mesa com “impuros”, quer sejam eles mendigos, prostitutas e leprosos, era uma afronta às classes dominantes (e por que não dizer), ao imperialismo da época.

Numa das passagens mais famosas da Bíblia, Jesus, criticando o comércio exploratório nas portas do templo de Jerusalém, durante a Páscoa, quebra as barracas e condena aquela exploração; até os historiadores que pesquisam o “Juses real” (link no final do post), acreditam que essa arruaça existiu mesmo e foi causada por um judeu pobre, provavelmente descontente com a desigualdade social e o excesso de tributos.

Citando parte de um texto do comediante Gregório Duvivier (aqui), que escreveu como Jesus em primeira pessoa, fazendo crítica direta ao pastor evangélico Silas Malafaia, como outro exemplo do Jesus-esquerda:

(…) eu sou de esquerda. Tem uma hora do livro [Bíblia] em que isso fica bastante claro (atenção: SPOILER), quando um jovem rico quer ser meu amigo. Digo que, para se juntar a mim, ele tem que doar tudo para os pobres. “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

(…) Sou mais socialista que Marx, Engels e Bakunin — esse bando de esquerda-caviar. Sou da esquerda-roots, esquerda-pé-no-chão, esquerda-mujica. Distribuo pão e multiplico peixe -só depois é que ensino a pescar.
Mesmo para os que não acreditam, em Deus, Jesus, na “Força” do Star Wars ou em qualquer entidade-pai à qual atribuimos as coisas que não explicamos… Fazer o bem, repartir, compartilhar é esquerda!
E é disso que precisamos para o futuro. É isso que desejo para o ano vindouro: mais esquerda para o mundo!
Se essa “revolução da esquerda” virá através da Alemanha revogando a “devolução” dos refugiados que entraram na Europa nesse 2016, na erradicação da fome, na devolução das terras palestinas ocupadas por assentamentos de Israel, através de mais empregos com salários justos, da doação de fortunas de bilionários, de melhores condições sociais nos países em desenvolvimento, de campanhas de melhoria no saneamento básico, proporcionando melhor saúde para populações carentes, ou, simplesmente de nós próprios, ajudando àqueles que precisam e estão bem próximos… não sei.
Sei que o ser humano, como tal, precisa evoluir. Darwin, na contramão da espiritualidade e da religião, provou que há evolução e ela é constante.
E EVOLUIR, ou ser melhor, na minha opinião, não é possuir mais, comprar mais, mostrar ao outro o que fez e faz…
É, sim, SER mais, no sentido puro, de evolução pessoal, principalmente evolução moral e intelectual. Sem descartar possíveis evoluções espiritual, física e material, que não impedem nem atrapalham necessariamente as citadas primeiramente.

Estou há dias encucado com essa filosofia cristã-consumista-cara-de-pau que temos adotado e atormentado com maneiras de irromper isso em palavras.
Ei-las aqui.

Que os ensinamentos cristãos do primeiro esquerdopata, Yeshua de Nazaré, ou que a evolução de Darwin nos guiem para um 2017 de ensinamentos, evolução e consequentes realizações.

por Celsão correto

figura retirada daqui. É a foto aproximada do Jesus real. Sem o romantismo Europeu que o transformou num ser bonito e mais aceitável…

P.S.: quem quiser disfrutar de duas leituras sobre o tema Jesus e sua real existência, a revista Super Interessante escreveu em 2003 e 2013 dois artigos aqui e aqui.  Outro texto que recomendo, principalmente ao que acreditam em Deus e criticam as instituições que o “amarram” a preceitos e dogmas, é o atribuido ao filósofo Espinoza, chamado “Deus segundo Espinoza” (aqui um link que apresenta ao fim uma breve biografia do autor)

P.S.2: Valeu Fabinho!

2Herói ou tirano?
Ditador sanguinário ou ultra-protetor nacionalista?
Creio que a primeira avaliação passa, infelizmente, pelo “lado político” que nos últimos tempos classifica as pessoas.
E hoje, infelizmente para um “esquerdopata” convicto, como eu, creio que a História absolveria Recep Erdogan e Bashar al-Assad, usando como trocadilho um dos textos mais conhecidos de Fidel.

Pra mim, Fidel Castro foi ambos: herói e tirano.
É impossível negar avanços sociais em Educação, Saúde e Segurança.
Principalmente para a parte mais carente da população cubana: até hoje o sistema de saúde é referência na América Latina e os índices estudantis também o são (aqui uma notícia da UNESCO. Cuba não participa do PISA).
O herói Fidel mudou a realidade de um país que, a menos de 150 quilômetros de distância dos Estados Unidos, servia há anos como “bordel” à cidadãos americanos. Antes da revolução, Cuba era conhecida por seus cassinos, hotéis de luxo e pela prostituição, diversão completa com praias deslumbrantes em mar caribenho…
Fidel e sua revolução mudaram a condição de milhares em Cuba.

O tirano Fidel, tomou propriedades, bens e meios de produção, nos anos seguintes à tomada do poder, para efetivar as melhorias, para fazer valer a revolução.
E obviamente isso não agradou aos burgueses e proprietários roubados. Que, aos muitos, deixaram o país nos êxodos observados nas décadas de 60 e 80, sobretudo para os Estados Unidos.
Difícil governar sem tirania e transformar o futuro dos compatriotas (ou companheiros) com o “peso” e a “pressão” dos outrora donos e mandantes americanos, com a própria irmã como informante da CIA, com um mundo dividido entre esquerda e direita (ou bem e mal).

1Mas o tirano venceu.
Enfrentou a maior potência mundial, seu boicote, seu bloqueio, seus golpes e assédios contra cidadãos.
Talvez pela extrema preocupação, o entusiasta do Nacionalismo negou-se ao permanecer no comando e tornar-se ditador, título que criticava nos primeiros anos de golpe e contestou como rótulo enquanto pode.
Escolheu o lado “mau”, a esquerda, representada pelo apoio soviético, não por afinidade direta; viu-se cercado de ameaças do lado “bom” e foi forçado a buscar uma saída para a produção agrícola da ilha. Arrisco dizer que após a escolha, percebeu o alinhamento com as teorias anunciadas na União Soviética e nos países sob sua influência.

O erro de Fidel, pra mim, foi exatamente esse: permanecer no poder por tempo demais.
Alguns estudiosos citam que o carisma e a firmeza o impediram de deixar o poder. Passando de General Comandante no período de transição a Primeiro Ministro e a Presidente no governo.
Mas não seria o mesmo carisma populista que vemos hoje em Ângela Merkel, que vai para o seu quarto mandato como chanceler Alemã e provavelmente passará de 15 anos no poder?
E não é o mesmo carisma buscado por muitos brasileiros que falam em intervenção militar ou num governante “salvador” e sobre-humano, ora Joaquim Barbosa, ora Sérgio Moro?
(Parêntese importante: será que não elegeríamos Sérgio Moro presidente? E que poderes ele teria como presidente-juiz-supremo do Brasil?)

“Lutar pela liberdade ou contra ela. Não é a mesma coisa”.
Fulgêncio Batista, o presidente anterior, ex-militar, perseguia dissidentes e usava de métodos severos de tortura aos oposicionistas. Fidel fez o mesmo, não na mesma intensidade, mas o fez como parte de um serviço de (contra-)inteligência necessária naquele momento.
Difícil defender isso hoje, eu sei.
Nem se lembrássemos que houve apoio popular, em toda a campanha da Sierra Maestra (ou guerrilha)? E o mesmo apoio não ocorreu anos depois, quando rebeldes apoiados e financiados pelos Estados Unidos invadiram a ilha?
Fidel e os revolucionários lutaram pela liberdade de um povo!

Aproveito e cito outra frase, dessa vez do filósofo e ativista Noam Chomsky: “A necessidade de possuir Cuba é a mais antiga questão da política externa norte-americana”.
Treinar e armar rebeldes, planejar atentados, bloquear todo e qualquer negócio de parceiros comerciais, mesmo contra a OMS e ONU, tomar parte de um território soberano e reconhecido internacionalmente para construir uma prisão, para presos políticos e terroristas… foram apenas alguns dos atos patrocinados pelos Estados Unidos a Cuba.
E, evidentemente, a mídia americana também contribuiu para a difamação e para a distorção. Alguém lembra de notícias falsas sobre a morte do ex-presidente cubano? (aqui uma notícia de 2015, aqui uma confusão de 2013)

Fidel era classe média alta.
Filho de um migrante espanhol, fazendeiro, produtor de cana-de-açúcar. Estudou em bons colégios, aprendeu inglês. Fatalmente seria bem-sucedido na Cuba-Americana, no país de Fulgêncio, dada a condição social e as oportunidades aproveitadas.
“Somos pessoas pobres num país rico”, frase dele, mostra a preocupação, então nova no continente, no terreno da justiça social, da distribuição de renda, da isonomia ansiada.

“Patria o Muerte!”
Isonomia atingida, mas aplastada.
A Revolução Social foi feita, mas depois do pão, o povo pede, fatalmente, o circo!
E a cobrança desse circo tirou um pouco o brilho das conquistas. Da ideologia. Da resistência. Da luta contra o imperialismo.

Abraço carinhoso entre os amigos Fidel e Mandela

Adeus Fidel!
Se nacionalizar companhias de eletricidade, de telefonia, fazendas, indústrias e até postos de gasolina não trouxe a integridade e a soberania nacional tão preconizadas por Marx… Se alcançar e distribuir o básico para o seu povo, incluindo uma educação de qualidade que os fez críticos… Se reduzir a desigualdade social gerou ainda desejos além do possível e atingível a todos… Paciência!
Certamente, valeu a intenção da semente*.

por Celsão correto

figuras retiradas do documentário da Fox – “Especial Fidel” e de post publicado aqui

(*) frase do escritor brasileiro Henfil (aqui)

 

img-20161130-wa0001Me pareceu que, ontem, a Terra parou.

A brevidade da vida. A imprevisibilidade de um acidente aéreo. A fragilidade do ser humano.

Paramos ontem para lamentar um acidente de uma equipe de futebol que voava para um sonho.
Mas que isso, paramos para analisar a própria vida. E o impacto que a inevitável morte traz, sobretudo aos que ficam.
Impossível não pensar em familiares, amigos e até nos desconhecidos de Chapecó, e no sentimento de perda deles. Improvável não lembrar paralelamente da NOSSA fragilidade e repensar nossas ações e objetivos de ultimamente…
Somos felizes?
Quanto tempo será que ainda temos de vida?

A fatalidade de ontem interrompeu o post quase concluído, sobre a morte de Fidel Castro.
Coincidentemente, fiz quarenta anos ontem. A idade daquela marca de “começo” ou “recomeço” segundo o ditado.
Mas subjetivo impossível.

Donde no puedas amar, no te demores” – roubo a citação de Frida Khalo para lamentar consoante não só a perda e a impotência em mudar certas coisas; mas também lamentar o desperdício de tempo, do dia-a-dia que nos consome atrás daquilo que não sabemos se conseguiremos, nem sempre temos a certeza que o queremos e as vezes nem sabemos ao certo ser correto sob a ótica moral.
Lamentar também, sobretudo, o desperdício de amor!
Com ou sem uma religião ou credo que explique o inexplicável e traga conforto, no amor todos cremos; e muitas vezes é ele, apesar de estranho e desconhecido, que preenche os vazios e dá sentido.
Se o pequeno clube catarinense mostrava grandeza em sua breve história, movia e comovia uma cidade em prol de suas conquistas, o fazia também por amor, pela sensação boa de dever cumprido, pela busca do “algo mais” na incessante batalha diária.
É possível afirmar que todo o país adotou a “Chape” por representar essa busca, por ter a superação como lema, por ver muitas vezes no esporte o espelho da vida. E em suas improváveis e vibrantes vitórias o reconforto desejado.

img-20161130-wa0002E as homenagens do mundo, principalmente as feitas por desportistas de diferentes nacionalidades e esportes, reforçaram o choque da perda e a sensação de que não existem super-homens, não há livramento para tudo, por mais que sejamos famosos e bem sucedidos.
O minuto de silêncio memorável, proporcionado na partida do Liverpool (vídeo aqui), e o símbolo da Chapecoense projetado nos telões da NBA, antes dos jogos dessa terça, deram a proporção do ocorrido. Mostraram que realmente “paramos”, em choque…

Foi como uma “sacudidela” impossível de ignorar. Aquele “toque” para mostrar que nós não somos seres superiores.

por Celsão filosófico

figuras recebidas por whatsapp no dia de ontem. Desconheço a autoria

Vida

Posted: November 9, 2016 in Outros
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postÂngelo sentou-se no sofá.
Afundando em tristeza enquanto a própria deformação do móvel envolvia o seu corpo magro.
Os minutos se passaram daquela forma taciturna e indolente. Mas foram respeitados.
Seu rosto estava ainda mais marcado. Era como se parte dele não estivesse mais ali.
Não havia necessidade de palavra. O silêncio caía bem, dada a situação. Ao mesmo tempo em que muito era dito em pensamentos.
A admiração mútua, as estórias e aventuras compartilhadas em São Paulo, o sonho de regressar à terra natal…

O outro acabava de voltar de uma viagem especial.
Sentia um misto de alívio, pela missão cumprida, e vazio. Mas entendia aquela tristeza.
Os últimos meses passaram pela negação, revolta e demais fases psicológicas descontroladamente. Escancarando a humanidade que a própria humanidade tenta negar.
A fragilidade, a frivolidade… a vida como vivemos!

Anos antes partilharam festas de aniversário com refrigerantes em garrafa de vidro, programas Sílvio Santos em salas apertadas, visitas sem aviso prévio que não acabavam antes daquele café passado na hora e dos biscoitos, bolos, pães. Coisa de baianos, ou de nortistas, como eles próprios se classificavam.

Voltando ainda mais no tempo, partilharam aventuras num São Paulo sem trânsito na Rebouças, com Pelé no Pacaembu e torcidas misturadas nos estádios, fotos em monóculos, excursões para Aparecida, bailes na tal “terra da oportunidade”.
Emigração corajosa, sofrimento, sub-empregos, profissões descobertas, família! Tudo partilhado e compartilhado.

Mas aquele encontro era único. Algo ainda não experimentado.
A perda gerava desconforto.
Aquele típico desconforto aflitivo, provocador, que se tenta sanar dizendo algo inteligente, marcante, útil.
Mas não era possível. O silêncio dizia mais. Declarava o respeito e o amor sentido por eles, para com o que havia partido.

Incontáveis instantes depois, uma frase banal rompeu aquele silêncio, mas irrompeu lágrimas reprimidas e verdadeiras.
As barreiras do machismo e preconceito deram lugar ao extravasar de sentimentos.

A dor foi celebrada e partilhada, naquele momento, para dar lugar, posteriormente e novamente, à vida.

por Celsão filosófico

figura retirada daqui

previdencia-08_08_16Nos últimos dias, voltou à voga a discussão sobre a reforma na Previdência Social. Que significa diretamente a mudança no modus operandi dos benefícios de aposentadoria pagos pelo governo.

A mudança nesse ponto é constante e se deve ao fato irrefutável que o brasileiro vem aumentando sua longevidade. Isso, aliado à baixa natalidade, traz cada vez menos contribuintes [do INSS], ou simploriamente trabalhadores, para um número crescente de beneficiários, também chamados de aposentados.
Fiz uma conta “burra”, numa conversa informal: se tivermos 50% de aposentados e 50% de trabalhadores, cada trabalhador pagando 11% do seu salário ao INSS, cada beneficiário terá um salário de apenas 11% do salário dos contribuintes. Pouco, se pensarmos que a média de salários do país é de R$1987 (dado para 2014, homens – aqui). Se quiséssemos um sistema eficiente e auto-suficiente, essa seria a conta-base.

Isso posto, vamos aos pontos “piratas” que tenho a expor.

Não adianta mudar a regra, de 30-35 anos de contribuição ou de 60-65 anos de idade, aumentando ambos os números indefinidamente. A relação de quem paga versus quem usufrui está errada. E não é somente pelo número de pessoas, mas principalmente pela ausência de teto e uniformidade nos benefícios concedidos.
Enquanto o trabalhador da iniciativa privada tem teto de R$5.189, 82 (fonte aqui), funcionários do serviço público, concursados ou não, militares e ex-funcionários dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não possuem limite.
E são exatamente essas aposentadorias de 20 ou 30 mil reais que oneram a Previdência na minha opinião.

Os políticos representam um caso a parte.
Aumentam o próprio salário, causando aumentos em cascata para cargos correlatos em outros poderes.
E possuíam uma previdência especial, chamada IPC (Instituto de Previdência dos Congressistas), hoje extinta, que previa aposentadoria a partir do segundo mandato, a partir dos 50 anos de idade.
Só as aposentadorias do IPC drenaram dos cofres públicos R$116 milhões em 2014 (fonte aqui).
Proponho não apenas o mesmo limite para cargos públicos , nos R$5.189,82, mas a adoção do salário do político baseado na média dos seus vencimentos dos últimos 24 meses. Afinal, é injusto “lucrar” com a política e com a posterior aposentadoria, se o cidadão era taxista e obtinha vencimentos médios de R$2.000,00.

Outro capítulo poderia ser erigido em relação aos militares; que passam (ou passavam sem custo extra até 2001) os seus benefícios para as viúvas ou filhas solteiras ao falecer.
O mínimo que poderia ser feito (e essa é a minha proposta pirata) é o recadastramento das beneficiárias, sobretudo as filhas, que propositalmente não se casam para seguir exaurindo montantes significativos dos cofres públicos, via pensão vitalícia.
É curioso, inclusive, o fato do presidente Michel Temer e seus ministros haverem decidido “poupar” os militares na atual agenda (aqui). Curioso inclusive pelo montante dos benefícios pagos a essa classe de “trabalhadores do Estado”. De acordo com o link anterior, o valor pago aos militares superou os R$32 bilhões em 2015 (sendo quase R$4 bilhões em pensões para as filhas solteiras – aqui)

E as mudanças que proponho não atingiriam somente esses, mas todos os “marajás”, emprestando um termo do ex-presidente Fernando Collor de Mello; proponho reduzir todo valor acima do teto num período de “carência” de doze meses, trazendo para um limite único. (como já proposto nas ideias piratas para o Brasil – aqui)
Um procurador da República ou professor universitário, com salário acima do teto da aposentadoria “privada”, aproveitou das benesses do salário e cargo durante a vida profissional. E, via de regra, conseguiu adquirir bens ou mesmo constituir fontes alternativas de renda nesse período, como previdências complementares.
(Se não o fez, terá de se adaptar à nova vida. Como outros cidadãos brasileiros. Simples assim!)

Proponho também acabar com aposentadorias acumulativas. Se os ex-presidentes Lula e FHC possuem mais de uma aposentadoria, quer seja por ter sido exilado, anistiado, professor aposentado… E se o atual presidente Michel Temer também usufrui de aposentadoria há mais de vinte anos, segundo ele próprio um mau exemplo (aqui), há erro e erro grave!
No caso de Temer, poderia ter renunciado a aposentadoria de Procurador do Estado de São Paulo ao ser eleito vice-presidente…
Minha regra seria: se o trabalhador ainda quer e pode trabalhar, ótimo! Mas ao se aposentar, não deve sobrecarregar um sistema deficitário, extraindo ainda mais do mesmo. Pode até escolher qual dos benefícios será usado para o cálculo da aposentadoria, mas deve escolher uma única.

previdencia-social-300x246E não é só no teto, no limite superior dos benefícios que há problema…
O maior problema pra mim está no trabalhador “normal” ou “não-intelectual”, muitas vezes do campo ou braçal. Ele não vive os mesmos sucessos de aumento da longevidade e de qualidade de vida das classes abastadas.
Parar de trabalhar por força maior (ou pela falta dela) será cada vez mais frequente, com o avanço da idade mínima de aposentadoria. E o aumento dessa idade, diminuirá diretamente a probabilidade deste trabalhador chegar a gozar do sonhado “salário fácil”.
E… Se este contribuinte não tiver saúde para exercer o seu trabalho, será demitido; e não conseguirá outro trabalho formal, que o permita contribuir. Sem contribuir não terá acesso.
O que faz do aumento da idade, um meio de segregar os que mais precisam, ou precisarão da aposentadoria para viver dignamente.

E solução para esse último ponto eu não tenho.
O ex-Ministro e ex-Governador Ciro Gomes propõe a mudança completa de um regime de repartição para um de capitalização (algumas ideias podem ser lidas aqui). O dinheiro da previdência complementar e obrigatória do funcionalismo público geraria um fundo e cada trabalhador da iniciativa privada seria responsável por seu próprio “bolo” a dividir e usufruir nos anos de aposentado.

É melhor do que temos hoje… Mexer nos “graúdos”, principalmente políticos, militares e funcionários públicos com múltiplos benefícios; e poupança própria para os novos ingressantes.

por Celsão correto

figuras retiradas daqui e daqui

P.S.: São muitos os pontos propostos na Reforma da Previdência que não agradam trabalhadores e sindicatos. Uma delas é a alteração da integralidade da aposentadoria por invalidez (aqui). Que pode ser vista também como uma segregação social, da própria Previdência Social

P.S.2: para quem quer saber o valor das aposentadorias pagas a senadores e deputados pelo IPC, o link está aqui. Ali estão José Sarney, Fábio Feldmann, Eduardo Suplicy e Delfim Neto. Pra citar alguns poucos exemplos…

Encontros no Encontro

Posted: October 16, 2016 in Outros
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img_8276Erlangen, Alemanha.
A manhã se desnuda fria e ensolarada, como muitas já vividas aqui. Diferente mesmo é o imponente prédio da Universidade de Erlangen, incontáveis vezes ladeado, mas pela primeira vez invadido. O riso me vem a face, assumindo o lapso de quem se descobre desconhecedor das cercanias de onde viveu por mais de dois anos e visita com frequência há dez.

Encontro o velho amigo Miguel, camarada das mal rabiscadas linhas daqui, e um grupo de escritores heterogêneo e internacional, embora composto em grande maioria por brasileiros.
Encontro também outros parceiros de risadas, ali a convite do Miguel e da Jamile, que descobri artífice do evento em terras alemãs.
O tema do encontro são escritoras brasileiras diaspóricas e a maior frequência de sua produção quando em outro país. E melhor que discutir estatísticas e hipóteses sobre a profícua produção feminina no exterior, é reviver a academia, essa querida de outrora…

“Portas mais fechadas, livros mais abertos”(*), resume e sintetiza muitas das agruras que um expatriado vive. A necessidade de se expressar, de se fazer ouvir, de se reconhecer como humano, brasileiro, indivíduo. Dotado ainda de sabedoria e poder criativo, mesmo sem as etiquetas que ostentava no Brasil: o filho de fulano, o estudante, o professor da UXY, o profissional bem sucedido. Inverno e distância trazem sim reflexão. E a literatura, o criar, também foram meus remédios para enfrentar os desafios impostos pela nova etapa.

Os versos colhidos das folhas de árvores seminuas, e sua declamação majestosa, pelo autor Natan Barreto, deleitam a plateia, extasiando e empolgando inclusive a este prosador, nunca poeta nem literário, mas que escreve também sem esperar por aplauso.
A reflexão impressionante sobre o texto e sobre o processo criativo de poetas, mal permite que o ar entre nos pulmões dos ouvintes, pela concentração exigida no parco tempo da apresentação.

O intervalo é de Bob Dylan e seu Nobel, de estilos, de comparações entre produção criativa e acadêmica, de inserções de diálogos lançados por estranhos em poesias…
Autores citados, livros, lugares e processos criativos a conhecer.
O que sei é que nada sei. Pequeno entre gigantes, mas orgulhoso da nacionalidade desses e de dividir a experiência por poucas horas.
Bom saber que aquela necessidade que as vezes me assalta, de precisar “soltar as palavras”, independente de haver público e do alcance delas, já passou por aqui. Como a parábola citada da transmissão de uma ilha e dos rádios desligados…

Miguel e sua Sofia, brinda a busca da mesma. Passando por Adam Smith, Roger Scruton, Marion Zimmer Bradley. Sem Brecht, sem Haroldo de Campos, sem perder o propósito do que quer compartilhar.
Sinto pena de não ter visto a pena de Jamile. De não ter desfrutado os títulos que me chamam a atenção no programa.

Por quase quatro dias, Natan amou Else que amou Jamile, que amou Roberto, que amou Roseni.
E foram tantas as estórias de um livro ainda aberto, que definiram um novo encontro no Líbano, que ainda não havia entrado na história.

por Celsão ele mesmo

P.S.: o “encontro” do título foi o IV Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior, evento do qual tive o prazer de participar no último dia. A foto da figura do post foi tirada no encerramento.

(*) frase “emprestada” de Simone Malaguti, que participou do encontro