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Depois de acompanhar várias postagens de meus “amigos” do Facebook, e de ler algumas “curtas notícias” (pleonasmo no mais profundo sentido da palavra) que apareceram e continuam surgindo na mídia televisiva e escrita, sobre a possibilidade do governo Federal do Brasil fechar um acordo com o governo cubano, onde estes exportariam 6 mil médicos Cubanos para o Brasil, resolvi escrever um pouco sobre o assunto e indicar algumas leituras.

Inicialmente, tive contato com um artigo de uma das minhas fontes de informação mais visitadas. Li por alto, e não dei muita atenção, pois achei o assunto trivial (ou seja, julguei ser legal, fiquei satisfeito, e bola para frente). Mas daí começaram a surgir os movimentos em ondas nas redes sociais, os quais também me direcionaram às notícias da “grande mídia” (para quem não sabe, o presidente do Wikileaks, Julian Assange, aponta que 70% da mídia brasileira está nas mãos de 6 famílias  (*) ). Ao começar a ver esse movimento, comecei a me preocupar, mas não me surpreendi, pois afinal, envolve mais uma ação positiva do governo do PT, e para agravar ainda mais, envolve Cuba como parceiro, ou seja, a maior parte da classe média e da mídia convencional só poderia ser avassaladoramente contrária e crítica.
Mas ainda assim, deixei as águas rolares, sem entrar mais a fundo no assunto. Foi então que fui contactado por um parente da área da saúde, que pediu-me para abrir dois links sobre o assunto, e sugeriu-me a postagem no meu blog. Os dois links eram de petições públicas dos conselhos de Medicina, exigindo maior rigorosidade na avaliação e controle dos médicos estrangeiros que almejam adentrar no mercado brasileiro.
Esse meu parente, não viu relação direta com o caso de Cuba, mas eu vi, pois há! Ou então é mais uma daquelas coincidências que as pessoas insistem em fingir que acreditam, onde duas petições do conselho de medicina brasileiro são criadas justamente quando explode um movimento social contra a vinda de médicos cubanos para o Brasil. É coincidência demais para meu bom senso, ainda mais sabendo como as coisas funcionam (mídia derruba, classe média chuta, pobres pedem pênalti, e a elite come pipoca e se diverte).

Os argumentos do grupo de pessoas que são contrárias à vinda dos cubanos ao Brasil, seguem um padrão estereótipo, por parte deste mesmo grupo, de reação contrária a qualquer ação voltada para o social (tendência de esquerda). Os argumentos são:

  1. Não tem nada a ver com os cubanos, mas sim uma necessidade geral de se regular e controlar a entrada de médicos estrangeiros no Brasil, sem que os médicos brasileiros sejam injustamente prejudicados.
  2. Os cubanos irão adentrar no mercado sem o devido preparo, sem realizar os mesmos testes exigidos aos brasileiros.
  3. Que o governo Federal prefere trazer cubanos despreparados para cá, a tentar solucionar os problemas do Brasil com os muitos profissionais que já possuímos.
  4. Que o governo Federal prefere trazer cubanos despreparados, que melhorar as condições para que os médicos brasileiros queiram trabalhar em regiões carentes.
  5. Que esse governo sempre encontra uma maneira de fazer alianças com países atrasados, e de política ditatorial e autocrata, gastando dinheiro com pactos medíocres com estes países, ao invés de investir nas áreas que são realmente importantes para a sociedade.
  6. Que trazer médicos de fora, ainda mais despreparados, não irá ajudar em nada.
  7. Que a vinda deste médicos piorará a qualidade da medicina do país.
  8. Que a medicina cubana é atrasada e ineficiente.
  9. Que essa é uma ação parecida com as tantas bolsas que o governo oferece, que em nada melhora realmente, só coloca panos quentes nas feridas.
  10. Que esses estrangeiros que vêm dos países em crise (Espanha, Portugal, etc), ou de países pobres como Cuba, se sujeitam a trabalhar por salários mais baixos, e assim prejudicam os profissionais locais, roubando seus postos de trabalho (veja minha análise no nível 8 abaixo).

E eu poderia continuar estendendo minha lista de argumentos e reclamações corriqueiras.

Porém, se analisarmos mais friamente, usando dados internacionais, de órgãos responsáveis por medir e avaliar sociedades, ou pensarmos de forma racional, tentando enxergar a realidade como ela realmente é, sem utopias, veremos que existem diversos equívocos nestas formas de condução do raciocínio expostas acima.
Vejamos alguns pontos:

  1. Sim, o movimento de reação contrária é, principalmente, por causa dos cubanos, pois quase não se vê reclamações contra os médicos portugueses e espanhóis, entre outros, que também vêm às centenas ou milhares para o Brasil. Mas obviamente, o conselho de Medicina jamais citaria especificamente os cubanos, pois daí ficaria clara a discriminação e o preconceito, então, fazem uma petições que abranja todos.
  2. Cuba exporta médicos para 69 países do mundo, no total são 32 mil médicos pelo mundo. Em alguns destes países, onde estes médicos já atuam por mais tempo, os resultados destes programas já são conhecidos, e sempre, extremamente positivos, melhorando radicalmente as estatísticas relativas à saúde nestes países, como taxa de mortalidade e expectativa de vida.
  3. Cuba é o país que mais tem médicos distribuídos pelo mundo, e graças a isso várias catástrofes sociais já foram evitadas nos últimos 40 anos.
  4. Segundo a OMS (Organização Mundial de saúde), Cuba tem o melhor sistema de saúde da América Latina (apesar de muitos dizerem que os médicos de lá são despreparados, e os equipamentos são rudimentares).
  5. Os médicos cubanos que possivelmente virão ao Brasil, virão para atuar em áreas carentes. É isso que eles fazem pelo mundo. E pelo que os dados dizem, eles o fazem por ideologia, pois querem prestar um serviço grandioso aos países mais necessitados nessa área. Os cubanos não vêm ao Brasil para trabalhar no sírio-libanês ou no Albert Einstein.
  6. Como eles vão para regiões carentes, eles vão tratar principalmente de problemas corriqueiros, mas que tiram milhares de vidas anualmente devido a inexistência de um sistema de saúde MÍNIMO nessas regiões. Problemas como diarreia, verminoses, inflamações, infecções simples, desidratação, febre, gripe, etc, parecem simples para quem tem um mínimo de acesso, mas lá, tiram vidas!
  7. Os médicos brasileiros não vão para lá, pois não veem nestes lugares um local com um mínimo de condições para exercerem seu trabalho. Então, argumenta-se que o governo deveria melhorar as condições ao invés de trazerem gente de fora que se sujeite a fazer isso, certo? Bom, quais as opções?
    A) Acabar com a pobreza e miséria, pois só assim daríamos condições para que os médicos possam trabalhar nestes locais com um mínimo de dignidade. Mas não se acaba com a pobreza e miséria dum dia para o outro!!! Isso demora décadas, séculos, ou às vezes, nunca acaba. Ou seja, vamos dizer para essas famílias aguentarem uns séculos, até o governo conseguir extinguir a miséria no país, né?  Vejam o artigo (***) que mostra a distribuicao de médicos pelo nosso país, e vejam que, enquanto Sao Paulo, DF, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul tem média de 3 médicos para cada 1000 habitantes, enquanto Maranhao, Pará, Amapá, Amazonas, Acre, tem média menor que 1 médico para cada 1000 habitantes. 
    B) Ou seria “Melhores condições para os médicos” = “maiores salários”? Pois isso já existe. Mas mesmo assim, é relativo. Digamos que um médico que ganha 10 mil reais no Rio de Janeiro, tem a possibilidade de ir para o Acre ganhar 13 mil reais. Será que ele vai? Aí diz-se: pô, mas então pague 20 mil para o cara! Caramba, que governo sustenta isso? Não dá gente! Os cubanos se sujeitam a fazer o que os brasileiros não querem. E não é porque o Fidel é impiedoso! Eles fazem, pois são treinados para isso, foram educados formalmente e academicamente para fazer isso, por salários normais, sem exigirem fortunas, pois acreditam que estão fazendo um bem para as populações carentes do mundo, e estão de fato!
  8. Engraçado como o brasileiro pensa. Ficam indignados quando países europeus e EUA estabelecem forte controle e burocracia para brasileiros que querem trabalhar nestes países. Mas daí, quando estrangeiros querem vir para o Brasil, esses mesmos que gostariam de ter-lhes aplicado menor controle no exterior, exigem mais controle do Brasil aos estrangeiros. Sempre olhando para o próprio umbigo!
  9. E o controle feito sobre esses estrangeiros no Brasil, será que é realmente fraco? Os dados mostram exatamente o contrário. Que no Brasil, reprova-se muito mais médicos estrangeiros que em Portugal, por exemplo. (**) 

Por fim, a diferença de linhas de raciocínio se resume em:
De um lado as pessoas que aspiram melhorias sociais como um todo, e consideram o problema do próximo, como também seu problema, e sonham por viver em um mundo mais igualitário e justo.
De outro lado, grupo de pessoas que não tratam dessas questões como prioridade em suas vidas, e vivem principalmente dentro de seu individualismo, e tudo que possa trazer qualquer tipo de ameaça para si, por menor que seja essa ameaça  mesmo que traga um grande benefício para a sociedade como um todo, receberá sua crítica fervorosa e repulsiva, e buscarão argumentos retóricos para defenderem sua posição individualista.
obs.: Poderíamos também criar um terceiro grupo, de pessoas que são consumidas pela rotina capitalista, trabalham como loucos, e devido à falta de tempo, se informam pouco, e mal, sempre consumindo o que vem na mídia convencional, e assim, acabam por apoiar estes movimentos. Mas eu ainda prefiro unir este grupo, ao segundo grupo, ou seja, dos individualistas.

(*) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-bom-que-os–governos-tenham-medo-das-pessoas-,992367,0.htm (entrevista com Julian Assange – Wikileaks)

(**) http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-questao-da-vinda-dos-medicos-cubanos-para-o-brasil (médico brasileiro que vive em Portugal, fala com conhecimento de causa sobre o assunto, desmitificando alguns argumentos usados no Brasil)

(***) http://www.viomundo.com.br/politica/pedro-porfirio-por-que-os-medicos-cubanos-assustam.html (Inúmeros dados e verdades sobre a medicina de Cuba, e sobre a política de Cuba de exportar médicos para ajudas sociais. Além disso, dados de distribuição do acesso à medicina no Brasil)

por Miguelito Formador