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hoaxÉ lamentável, mas terei novamente que voltar ao tema farsas, ou mais especificamente, farsas de internet, também conhecidas como “hoax”.

É certo que invenções, mentiras, textos e vídeos maliciosos e desonestos estão aí aos montes. E se alguém for se incomodar com cada um das dezenas/centenas destes que surgem diariamente, estará fadado a enlouquecer. Portanto, já sabendo desta realidade, eu simplesmente ignoro a maioria daqueles com os quais me deparo, até porque de tanto já ter sido incomodado com tais hoax e, justamente por isso, já ter estudado bastante sobre o assunto, na maioria das vezes, basta eu bater o olho numa farsa e já a identifico como tal, e assim eu poupo meu tempo e energia.

Por e-mail venho recebendo bem menos hoax. Penso que isso tenha sido o resultado da minha luta travada durante muito tempo com alguns amigos que insistem em acreditar na maioria delas, pois lhes agrada ao ego e as suas convicções pessoais. Ou estes amigos aprenderam nestas discussões comigo a serem mais críticos e pararam de acreditar em tudo que viam na internet, ou então eles passaram a não me enviar mais tais e-mails, sabendo que “o chato do Miguel” certamente irá criticar com suas teorias da conspiração…. enfim, se for o segundo caso, nada posso fazer, pois tem gente que nao “pega” nem no “tranco”.

Pelo facebook a história não é muito diferente. Com o tempo eu fui “filtrando” muitos contatos. Entre os principais motivos de filtro está a falta de senso crítico, tendendo à imbecilidade crônica mesmo. Por exemplo: uma pessoa posta algo assumido pelo próprio autor como sátira/brincadeira. Mas aquele que o está a compartilhar está acreditando que aquilo seja verdade. Daí eu, com toda a educação e diplomacia que me foi “dada”, abordo a pessoa, muitas vezes por mensagem privada, às vezes no próprio post, e sugiro que ele olhe o perfil do próprio autor do texto, onde aquele diz que este se trata de uma piada, e que as informações são fictícias, e por isso, não deve ser levado a sério.
Após fazer essa sugestão, sou tratado como arrogante, metido, sabichão, ignorante, conspirador e até como “alienado”, pelo “amigo” que compartilhou o texto. Tento explicar mais uma vez que não é nada disso, e que só enviei o link onde o próprio autor diz que as pessoas não devem acreditar no texto, pois trata-se de uma história inventada, algo humorístico. Os insultos e grosserias continuam em minha direção, agora apoiados pelos amigos deste meu “amigo”, os quais estão ali dentro do post exaltando as “verdades” do texto em tom voraz.
Só me resta ativar o botão “filtro de imbecilidade”, para que eu nunca mais veja nada que essa pessoa escreva ou compartilhe. Afinal, essa não pega nem no tranco.

Mesmo já tendo filtrado algumas dezenas de pessoas por este motivo, ainda continuo a ver, aqui e acolá, besteiras insanas a serem compartilhadas e ovacionadas. Só não tenho mais a mesma energia de debater sobre coisas óbvias. Então, quando me manifesto, o faço de maneira lacônica, se colar colou, senão, azar, me dou por vencido e nado para longe para não me afogar na rasura destas pessoas médias.

Bom, mas quero aqui mencionar duas farsas/hoax que merecem minha preciosa atenção, pela popularidade que ganharam, e também por terem conquistado a simpatia e credibilidade de amigos e entes dos mais queridos.

Angela Merkel ataca Dilma Roussef e tece críticas ao seu Governo
merkeldilma620388Trata-se de um suposto depoimento de Angela Merkel, Chanceler alemã, onde ela haveria tecido duras críticas ao Governo brasileiro, mais diretamente à Presidente Dilma Roussef.
A tradução que circulou pela internet no Brasil, com aplausos e vibrações eufóricas de uma boa parcela de brasileiros (principalmente da classe média) segue abaixo:
Diante da arrogância da Dilma, a Chefe de Estado alemã, Angela Merkel, deu
entrevista à TV alemã ontem à noite na qual mandou um recadinho:
– Essa senhora vem à Alemanha nos dizer o que temos de fazer? Ora, a
Alemanha vai bem obrigada apesar de tudo. Mas vou aproveitar para dar um
conselho a ela… antes de vir aqui reclamar das nossas políticas
econômicas, por que ela não diminui os gastos do governo dela e também os
juros que são exorbitantes no Brasil? Se eu posso emprestar dinheiro a juros
baixos e o meu povo pode ganhar juros absurdos lá no país dela, não vou ser
eu que direi ao meu povo que não faça isso.
Ela que torne a especulação no país dela menos atraente.

Para acessar a reportagem original em alemão, onde se encontra o que realmente foi dito por Dilma e Merkel, clique aqui.

Tudo isto que está aí acima e que supostamente foi dito pela Chanceler alemã, é um conjunto de invenções, criações. E nem estou a falar de sentido adulterado, mas sim de invenções deliberadas. Merkel em nenhum momento fez críticas à presidente brasileira, nem falou de juros, muito menos disse que estes são absurdos no Brasil (até porque, se ela assim dissesse, mostraria uma profunda ignorância histórico-política, pois o Brasil tem no governo Dilma os juros mais baixos depois de décadas, chegando a ser tão baixos que foram atacados pela mídia e pela elite, principalmente os banqueiros – que são os donos não só do Brasil, mas do Mundo).
Resumidamente, Dilma teceu diplomaticamente críticas a algumas medidas da Alemanha e da Zona do Euro, e Merkel concordou com algumas destas críticas e observações feitas por Dilma, mas ressaltou que essas medidas são provisórias, de emergência, e que em breve outras posturas serão tomadas. Não há críticas ao Brasil, e não há atrito entre as duas presidentes. Tudo extremamente técnico, diplomático e respeitoso por ambos os lados.

Gente, mas não precisa saber falar alemão para saber que essa tradução cheira à mentira, certo? Será que a Chanceler (presidente) de uma das 3 nações mais importantes do Mundo, iria se referir à presidente de uma outra nação tão importante, chamando a mesma de “esta senhora”??? Será que ela falaria em público “vou dar um conselho a ela”??? Poxa, não precisa ter doutorado em política, nem ser um gênio da diplomacia, nem ter o senso crítico mais apurado do Universo, para perceber que esta tradução é uma picaretagem.

Outra coisa que já resolveria o problema neste caso, seria, pegar o texto original em alemão, colocar em algum tradutor, tipo o Google, Babylon, etc, e ver o resultado que ele dá. Claro que a tradução fica uma porcaria, mas já consegue-se pegar uma ideia do que está contido no texto original.
Por fim, se você não quer jogar no Google, por preguiça, ou porque não confia na tradução do mesmo. Se você não tem nenhum amigo alemão ou que fale alemão, e possa te dizer o que está presente no texto original. Então só lhe resta uma posição coerente e sensata: ignorar o texto em português, pois você não faz a menor ideia se o mesmo está te fazendo de palhaço, mentindo na cara dura, inventando coisas! A não ser que ele venha em alguma fonte segura de informação, de algum jornalista respeitado, daí a história muda. Mas se o texto está sendo replicado no facebook, ou em blogs de procedência “x”, poxa, não dá para acreditar né?

O Governo, a sociedade, Lula e Dilma, e o Brasil como um todo são detonados pela Francefootball, uma revista francesa de futebol e esportes, ao que se diz, uma das revistas mais respeitadas do Mundo
revista_france_footballPara acessar o texto em português com o suposto resumo do que está contido nesta edição da revista francesa, clique aqui.

Primeiramente fui marcado neste texto por um amigo do facebook. Ao me marcar, ele já se adiantou: “Miguel, sei que você dirá que há sensacionalismo e alguns dados não são totalmente verdadeiros, mas gostei e concordo com a ideia geral do texto”.
E eu me pergunto: Tem tanta revista, tanto blog, tanto jornal, tantos intelectuais por aí escrevendo sobre tudo que se possa imaginar; será que é necessário compartilhar e disseminar um texto de procedência desconhecida, contendo informações sabidamente falsas e maliciosas, só porque a “ideia geral” nos agrada? Sei lá se eu sou um ET, ou se a cabeça da galera tá do avesso. Quem compartilha tais coisas, está disseminando mentiras e colaborando para a “idiotização” da sociedade! Será que essa é uma atitude ética, civilizada e cidadã, especialmente quando for feita com consciência?

Não aguentei ler tudo, pois estava me dando ânsia realizar aquela leitura sabendo que estava jogando meu tempo fora, tamanho o descaramento das mentiras ali contidas.
Porém, passados alguns dias, precisei dar maior atenção ao texto, pois isso me foi requisitado por mais duas pessoas da minha família. Enquanto isso, o texto bombava no facebook, por e-mail e em blogs imundos.

Gastei algo em torno de 2 horas vasculhando a internet. Procurei esta capa e esta reportagem em francês (original) no site da revista, mas não achei. E aqui já começa a PRIMEIRA coisa extremamente estranha, que já basta para vermos a falta de seriedade. O texto fornece um link (…A revista pode ser acessada no site: www.francefootball.com mas apenas…), mas não fala se é o site do Brasil, da França, ou sei lá de onde. Clicando no HIPER-LINK do site contido no texto, ele não nos direciona para o site da revista, mas sim para o link desta matéria no FACEBOOK. Ou seja, ao invés de colocarem no hiperlink o site da revista, colocaram o link do facebook de quem criou este texto. Percebem a falcatrua? E esse é só o começo.

Digitando www.francefootball.com no browser da internet, este te direciona para http://www.francefootball.FR, pois é de domínio francês.

Entrei no site francês da revista e procurei por esta capa. Procurei pelos títulos e pedaços do texto que estão contidos na capa, não achei nada. Procurei por Brésil (Brasil em francês) e aí achei várias reportagens… abri todas as últimas dos últimos 2 meses, e nenhuma parece ter qualquer relação com o texto acima. (aqui mais um problema. O texto diz “a capa desta semana da revista francefootball….” Qual semana? Cadê a data do texto? Por que não colocar: “a capa desta semana, ex.: 28.01.2014, da revista bla bla bla, traz uma reportagem….?” Percebem que as informações são omitidas propositalmente para ficar mais difícil o rastreamento?

Portanto, trata-se de um texto fake/falso, que foi criado não por um pé-rapado qualquer, mas sim por uma equipe que sabe o que faz, e escreve um texto que parece, aos olhos de  pessoas “médias”, um texto profissional e sério, cheio de links de referência, supostamente embasando os dados. Porém, eles sabem que essas pessoas médias, não irão abrir todos os links, nem checar as informações. Pois se o fizessem, e tivessem um pouquinho de senso crítico, já começariam a ver diversas coisas estranhas.
Quem criou este texto, o fez de forma criminosa, sabendo que cativaria o seu público alvo, que é raso e gosta de sensacionalismo, imediatismo, críticas e soluções simples para os mais complexos problemas.

Misturaram verdades com inverdades, realidades com distorções, e usando de sensacionalismo extremo, buscam apontar culpados (o governo atual e o descaso público) de forma bem simplória. Ou seja, cada acusação que eles fazem, ou está repleta de mentiras, ou é parcialmente verdadeira, porém omite todos os 500 anos de história do Brasil, omite diversas influências políticas/sociais/econômicas/geográficas, omite dados e estatísticas, omite curvas de evolução, e simplificam problemas seculares como um erro político de 1 ano atrás. A má fé predomina neste texto, e isso não é casualidade, isso é proposital, pois quem o fez tem um objetivo bem claro.

Como exemplo concreto, abordarei uma passagem do texto, a qual já ilustra tudo que estou querendo dizer. Segue:
Para os taxistas não há cursos de inglês financiados pelo governo, mas para as prostitutas sim. Parece piada, mas é verdade: (vide:www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/01/1211528-prostitutas-de-bh-tem-aulas-gratis-de-ingles-para-se-preparar-para-a-copa.shtml)

Esse boato surgiu há quase 2 anos. À princípio, uma revista holandesa teria vazado essa informação que o governo brasileiro estava pagando curso de inglês para prostitutas, preparando-nas para a Copa. Isso virou uma febre no Facebook e nas correntes de e-mail.
Naquela época postei um texto aqui no blog tratando exatamente deste tema. Clique AQUI.

Resumindo o que escrevi na época: a reportagem da Holanda falava da associação das prostitutas de Belo Horizonte, a qual estava pagando cursos de formação para as prostitutas, entre os quais, inglês era a prioridade. É a associação delas, que é organizada pelas próprias trabalhadoras, para representar os seus próprios interesses. Não tem governo Federal, nem estadual, nem prefeitura, nem vereador envolvido. Nem empresários, nem sociedade. São elas, tirando vontade e dinheiro de seu próprio caixa. E é só Belo Horizonte, não é Brasil…..
Pelo amor de Deus né?

Mas sabe o que é pior? Nem é necessário saber dessa história toda que contei, nem abrir meu blog, nem saber falar alemão/holandês. Basta abrir o link da Folha.uol, que está aí acima, o qual foi fornecido pelo próprio texto e ler o que ali está escrito. O texto ali presente não menciona governo, mas sim a associação das prostitutas. Ali está explicado direitinho, que elas buscam até voluntários para dar aulas. GOVERNO ou POLÍTICA, ou qualquer palavra que vincule este fato ao Governo, não estão presentes no texto. Ou seja, a versão em português da edição da Francefootball, diz que prostitutas estão recebendo cursos de inglês pagos pelo Governo, e para embasar isso, fornecem um link da Folha.uol cujo o texto não fala nada disso. Para quê continuar lendo um texto destes? Se o autor age com tanta má fé assim, e pior, de forma ridícula, chamando “nós” leitores de idiotas e analfabetos funcionais. Será que vale à pena continuar lendo o texto, com a esperança de que coisas boas estão por vir? Para mim está claro: Não!

Ao invés de dar mais exemplos de mentiras e canalhices contidas nesta tradução da Francefootball, deixo aqui um link do próprio site da UOL que desmascara o texto. Não deixem de lê-lo, pois eles apontam inúmeras mentiras e afirmações maliciosas contidas nesta hoax. Clique AQUI.

Para encerrar, deixo também a dica de mais dois outros textos meus postados neste blog.
1) Trato de farsas e da burrice da oposição brasileira. AQUI 
2) A farsa do Nióbio, tema que já circula há anos na internet. AQUI

por Miguelito Nervoltado

figura 1 daqui
figura 2 daqui

Brasil-e-Alemanha-bandeirasPor saberem que vivo na Alemanha, quase todos meus conhecidos já me fizeram a seguinte pergunta: Você sofre muito preconceito na Alemanha?

Essa é uma pergunta que parece simples de se responder: Sim ou não! Quem dera fosse assim…..

A verdade é que o assunto é complexo, e depende de várias variáveis.

Todo mundo cria estereótipos em suas próprias cabeças. Estes estereótipos são auxiliados pelas mídias tendenciosas, pelos materiais didáticos muitas vezes falhos, pelos preconceitos transmitidos através do DNA intelectual familiar, entre outros. Por exemplo: A maioria das pessoas do mundo, quando pensam no Brasil, pensam em futebol, praia, floresta, samba e em mulata pelada e de bunda grande, ahhh e agora lembram também do Michel Teló. Esses são os principais estereótipos sobre o Brasil (será que são só estereótipos? Enfim…).

Da mesma forma, o brasileiro cria estereótipos sobre outros povos. Sobre os alemães, eu destacaria alguns: bebem muita cerveja e estão sempre vestidos com calcas de couro com suspensório (Lederhose), comem linguiça o dia inteiro, falam “hemorroidas ardem, aftas idem”, são frios e fechados, são ignorantes, e….. são nazistas preconceituosos.

Muitos destes estereótipos se refletem na realidade. O alemão come sim muita linguiça, e toma muita cerveja. Muitos deles são frios e fechados, mais que os brasileiros, numa média, mas isso também faz com que sejam mais sinceros e mais confiáveis.
Mas o alemão não anda de calca de couro com suspensório, não fala “hemorroidas ardem”, não são nazistas.

O fato é que o povo alemão tem um trauma com seu passado. Imagine que seu avô deu calote em metade da cidade na década de 1960 e isso deixa o nome da sua família sujo até hoje. Você terá vergonha de falar de seu avô, certo? Muito provavelmente. A história e estudos comportamentais das gerações dizem que você terá uma tendência forte de fazer o contrário de seu avô, por ter vergonha deste tipo de comportamento.
A idéia aqui é tipo essa. O povo alemão tem vergonha do passado, não gosta de falar sobre a segunda guerra mundial, e tenta diariamente limpar sua imagem. Não tenho dados, mas já ouvi diversos alemães dizendo que o povo alemão é o povo que mais faz doações para o mundo. Consigo imaginar que isso seja verdade.

Li uma artigo fantástico outro dia, o qual indico fortemente para leitura, onde uma professora negra de Salvador conta sobre sua experiência na Alemanha. O título é “Como lidar com o Racismo?”, e pode ser encontrado no blog “Pragmatismo Político”.
Ela relata várias observações feitas por ela. Um relato achei especialmente interessante: Ela estava num trem, e percebeu que um passageiro estava incomodado com a presença dela. Até que o passageiro fez um comentário racista. Ela se levantou para dizer algo, mas não deu tempo, pois todos os outros passageiros se levantaram em sua defesa, brigaram com o cara, exigiram que ele se desculpasse, e como ele não o fez, chamaram a polícia para ele. E daí ela diz que os alemães têm muito senso de justiça e a certeza de que um problema social é um problema de cada um deles.
Ela também diz que o racismo existe na Alemanha, mas é muito debatido, e fortemente atacado na mídia, nas escolas. Além disso, a Alemanha normalmente é um dos pioneiros a aprovar leis de progresso social, igualdade de direitos, e eliminação de preconceitos.

Eu costumo dizer que é difícil saber se há mais racismo na Alemanha que no Brasil. Mas uma coisa é fato: Aqui, o racismo/preconceito/xenofobia quando ocorre, é claramente exposto, e vem de uma parcela pequena da população. A maior parte da população não é preconceituosa, e essas pessoas se policiam diariamente buscando não pensar e muito menos falar ou agir de forma preconceituosa.
Já no Brasil, há uma hipocrisia que funciona como chantilly por cima do lixo. Os estudos científicos são fartos nesse ponto. É comprovado que o brasileiro é preconceituoso, machista, racista, homofóbico, mas nunca assume. Todo mundo no Brasil conhece um amigo que é preconceituoso, mas ninguém se auto-declara preconceituoso. Ou seja, em algum dos dois lados existe alguém mentindo, e eu suponho que seja no lado de quem defende a si mesmo.

Desta forma, eu me arrisco a dizer que no Brasil há mais racismo e preconceito que aqui, mas aí estão escondidos no meio da hipocrisia, estão escondidos nas sutis ações cotidianas, nos gestos, nas falas, nas piadas (e aqui o assunto é grave), no meio profissional, no atendimento nos estabelecimentos públicos, estão disfarçados em ditados, no folclore, na literatura, no cinema, no material didático, e dessa forma, para os menos sintonizados e menos críticos, isso passa despercebido, dando a impressão que no Brasil é tudo mil maravilhas.

Mas tem neonazista na Alemanha não é? Claro que tem! Mas é difícil ver um. Posso passar alguns meses sem ver alguém que tenho certeza ser um neonazista. Em certas regiões há mais, em outras menos, mas em geral são uma parcela mínima da sociedade. E sim, existem muitos casos de ataques de neonazistas contra negros, indianos, asiáticos, homossexuais, muçulmanos, etc. Mas peguemos quantas pessoas morrem por ataques nazistas na Alemanha, e quantas mulheres morrem por machismo no Brasil. Analisando estes números, eu diria que deve ser umas 1000 vezes pior ser mulher no Brasil, que ser estrangeiro na Alemanha.

Mas a discriminação não existe só pelos neonazistas. Existem aqueles que discriminam por discriminar. Essa xenofobia existe em quase todos os lugares. O brasileiro gosta de dizer que no Brasil não há. Não há, pois o brasileiro adora gringo, somos muito hospitaleiros e adoramos aumentar nosso círculo de amizades, além de possuirmos um forte complexo de vira-lata que sempre acha o Brasil uma b@st@, e por isso acha que tudo de fora é melhor, e por isso babam ovo para estrangeiro. Mas pensemos internamente no Brasil. Nas regiões Sul e Sudeste, ao verem alguém fazendo algo errado, dizem que é serviço de baiano. Em São Paulo, qualquer nordestino, ou é baiano, ou é Paraíba (quando é para insultar de forma pesada). Em toda a turma de amigos em São Paulo, é impossível não encontrar uma meia dúzia que dizem que a criminalidade de São Paulo existe por culpa dos Paraíbas que imigraram sem qualificação e agora ganham pouco, ou são desempregados e acabam marginalizando o estado lindo deles. O Paulista entende que o fato de terem uma economia muito forte e por isso pagarem muito imposto absoluto, o Brasil inteiro mama nas tetas deles. Imigre para São Paulo e reclame do trânsito, rapidinho encontrará um paulistano nasalado que mora num apartamennnnto da Bela Cinnnntra para te dizer: mêuuuu, não tá satisfeito, volta para Minas Gerais e vai comer pão de queijo e tomar pinga.
Acho que a discriminação que sofre o nordestino no Sudeste e/ou no Sul, ou a discriminação que sofre um mineiro ou um capixaba, em São Paulo, é maior que a discriminação que um brasileiro sofre na Alemanha.

Então, minha resposta para você que me pergunta se aqui há preconceito, eu diria: Sim, mas bem menos que no Brasil, em quase todos os sentidos.

por Miguelito Formador