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O leitor que se prender somente ao título, um tanto sui generis, pode dizer de sopetão: nenhum dos dois.
O que eu gostaria de ter escrito, vetado por mim mesmo por ser demasiado longo, seria: “Era para ser como ‘Seminário dos Ratos’ e não como ‘Revolução dos Bichos'”.

O texto pretende fazer uma análise autocrítica da esquerda brasileira e de como chegamos até a situação atual.
Eu sei e todos os que se identificam com a esquerda sabem, que a autocrítica transforma-se em autofagia muito facil- e rapidamente, mormente se pensamos que a esquerda e quem a defende encontra-se na condição de minoria, quando não em pensamento, na propriedade e controle dos meios de produção e divulgação da mídia.
Mas a autocritica se faz necessária a mim nesse momento, por não ser inerte e inabalável à críticas de amigos e conhecidos. À opiniões contrárias dos poucos que argumentam com propriedade e lógica. E o fizeram durante o período eleitoral do ano passado.

O texto vai a estes que arguiram comigo, esperando ríspidas críticas aos movimentos da esquerda (sobretudo PT) durante as eleições de 2018; e vai, também, para mim mesmo: que escolhi os embates a entrar, ouvindo mais que falando e fazendo perguntas provocativas (principalmente quando o tema era corrupção, favorecimento, velha política, e outros mais).
Tentei duramente, mas não a todo momento, como coloquei, lograr que o interlocutor prometesse para si rechaçar o contrassenso da escolha por Bolsonaro, caso as promessas se provassem vazias e os famigerados atos (de corrupção, favorecimento, conchavos), seguissem acontecendo.

Os amigos “esquerdopatas” que me perdoem. Peço que se segurem por alguns parágrafos e me brindem com seus comentários ao final deste post.

A esquerda utópica que proclamo e acredito, ou a “minha esquerda” é aquela que toma o poder, parodiando uma declaração de José Dirceu, dada ao jornal Espanhol “El País” no fim da corrida eleitoral no ano passado.
Não digo tomar o poder com armas e violência. Mas a esquerda que toma o poder apoiada e referendada pelo povo, à quem jurou defender.
Parêntese para declarar que não sigo conscientemente nenhum dos rótulos preconizados mundo afora. Não sei classificar se sou stalinista, marxista, trotskista… Se prefiro Rússia, Vietnã, Cuba, China, ou mesmo Alemanha… Creio num governo “para o povo”, mas não necessariamente “do povo”, já que o poder corrompe e as afrontas talvez sejam inevitáveis.

A minha esquerda agiria como os ratos em “Seminário dos Ratos”, de Lygia Fagundes Telles.
Agiria cooptando apoio popular, na base. Teria uma maciça presença entre os menos favorecidos e entre as minorias, pois dialogaria diretamente com eles.
E, como os ratos no conto citado, no momento certo, roeria todo o sistema de dentro e por dentro; acabaria com o status quo sem que a classe dominante se apercebesse da sua presença. Atingindo e conquistando províncias, casas legislativas e entidades de classe concomitantemente.
Seguindo na viagem utópica, minha esquerda entraria na redação da Veja e na TV Globo no momento da revolução. E teríamos gritos de ordem, bandeiras, subversão e bundalelê em pleno Jornal Nacional

Para os que não conhecem o conto e livro homônimo, Lygia Fagundes Telles descreve brilhantemente ratos, representando o povo oprimido, em “enxame”, tomando o controle de um Governo que os combate, roendo e ruindo toda a sua estrutura e o seu suporte.
Isolam o Governo do próprio povo, afastando-o para longe das principais cidades; impedem o mesmo de se comunicar, roendo os fios de telefone e de antenas; impedem o Governo de fugir, de se locomover, atacando os meios de transporte; e culminam com a “destituição” do tal Governo “inimigo” (em sentido dúbio no conto).
Colocando em contexto histórico, o conto foi escrito em 1977. Período de ditadura militar, tolhimento de direitos e censura. Não só no Brasil, mas também na América Latina. E a autora é muito feliz nas correlações que conseguiu fazer no texto. (aqui compartilho um link para quem leu o conto e quer entender todas as nuances do mesmo numa ótima análise, ou para quem não leu e tampouco liga para spoiler)

A esquerda que vimos subir ao poder foi a esquerda ridicularizada por George Orwell em a Revolução dos Bichos.
Tivemos uma chance “de ouro” ao chegar ao poder. Mas só o atingimos com muito jogo político, conchavos e promessas.
Tais problemas afastaram nomes importantes, tanto no campo das ideias, como Chico de Oliveira, quanto no campo político. (lembro agora, sem consultar Google, de Heloísa Helena e de Luciana Genro. Mas certamente muitos dos fundadores do PSOL estão nessa lista)

Eu queria que o PT, ao haver chegado no poder, tivesse a hombridade e a consciência de seguir dialogando com o povo. De seguir sendo o que foi idealizado.
Gostaria que não tivessem se tornado os “porcos” de Orwell. Que não partilhassem da mesma “sede” pelo poder e da mesma “doença” dos humanos, seus antecessores.
Quando dialogo com os colegas mais radicais, ouço constantemente os termos “esquerda capitalista”, “esquerda burguesa” e discutimos sobre a incômoda cooperação que havia com banqueiros e grandes empresários.

Alguns podem interromper o raciocínio afirmando que Fernando Henrique Cardoso, e seu PSDB, também eram esquerda.
Verdade até a página dois.
FHC conseguiu estabilizar a economia, mas errou na minha opinião, quando preferiu distribuir renda ao funcionalismo público através do benefício da aposentadoria (integral, acumulativa, progressiva) a reformar todo o sistema, beneficiando a imensa maioria.
FHC tinha, ao menos no primeiro mandato, o apoio popular necessário pós-Plano Real, para enfrentar as agruras das reformas, já necessárias desde então. (até tentou algumas delas, bem da verdade, mas não com tanta dedicação se comparamos com a aprovação da própria reeleição).
E… Fernando Henrique também privatizou e apoiou medidas que iam contra o consenso popular. A própria reforma da previdência pode ser apontada como uma dessas medidas impopulares.

Lula e o PT, ao ascender, terminaram por abandonar os “velhos companheiros”, os ditos “radicais”, preterindo Maluf’s e Kassab’s.
Conseguimos inegáveis vitórias, geramos discórdia, ódio, embates internos e afrontas.
Mas o mais triste foi ver os “porcos”, que lideraram a revolução na “Granja do Solar”, aderirem ao modus operandi dos humanos, antigos opressores. Tornando-se distantes da classe trabalhadora, dos “bichos”, moradores da granja e apoiadores nos momentos difíceis.
(para quem, igualmente, quer ler um resumo do livro e uma análise, segue link. Mas insisto que a leitura do original vale muito o esforço)

Muitos apoiam ainda o PT (contra o Bolsonaro e asseclas acéfalos, eu deixo claro que seguirei apoiando) na esperança de que se possa corrigir o curso de uma potente arma política que [ainda] temos nas mãos.
Em conversas com o Miguelito, no período anterior ao impeachment da Dilma, nos dividíamos discutindo prováveis cenários futuros: seguir apoiando o PT e ignorando mazelas ou tentar erguer uma nova força de esquerda (PSOL?) com todo o custo acarretado, e tempo de maturação exigido?

Entendo e respeito os que apoiam o PT. Mas desejo que estes, se e quando subirem ao poder, sejam ratos e não porcos!

por Celsão revoltado.

as figuras são stickers do Telegram, que utilizo corriqueiramente e que encontrei aqui para download.

P.S.: “asseclas acéfalos” forma uma aliteração interessante. Daria um bom nome de banda ou música de punk rock! Ou mesmo um título de post.

P.S.2: autocrítica feita, peso tirado das costas, posso tranquilamente falar mal do Bolsonaro, seus asseclas, do Governo atual… UFA!

P.S.3: para os curiosos, segue link de leitura da notícia da “expulsão dos rebeldes” do PT, de Dezembro de 2003 (aqui).