Posts Tagged ‘bom senso’

Post_9mesesNove meses. Reta final.
Dessa vez não é um bebê que vem ao mundo, mas uma presidente eleita que deve ser permanentemente afastada, sofrerá o quase certo impeachment.

Hoje pensei em exercitar a memória e me perguntar o que aconteceu no período.

Primeiro o processo foi iniciado pelo então (e provavelmente futuro) presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, exercendo o poder a ele concedido.
O senhor Cunha não precisa de apresentações. Procrastina o próprio processo de cassação há um bom tempo e articulou sabiamente até aqui para que o mesmo acabe em pizza.
Se alguém não mais acompanha, o atual presidente, Rodrigo Maia, marcou para 12 de Setembro a seção de votação do processo de cassação de Cunha. A data é propositalmente uma segunda-feira, historicamente sem grande movimento na casa, e o mais próximo possível da data das eleições municipais deste ano. Sem quórum, sem cassação.
Sem contar que ocorrerá depois da definição sobre Dilma, aumentando as chances do perdão ao peemedebista.
Além disso, não esqueçamos, que o pedido de impeachment de Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal é de Setembro de 2015! Mais precisamente, 01/09/2015. E só foi aceito pelo ilustríssimo Eduardo Cunha em Dezembro (!) após a bancada do PT votar a favor da cassação de Cunha no Conselho de Ética.
Ou seja, tudo começou por birra e pelo fato de deputados do PT buscarem algo de ética no legislativo!
(referências aqui sobre o pedido de impeachment e aqui sobre o início do processo)

Depois vieram as reuniões e promessas da oposição (não querendo simplificar nem classificar aqui como direita).
Foi um período de discussões ácidas e acusações mútuas em redes sociais. Julgamentos. Dicotomia. Ou se era coxinha, ou petralha. Um lado precisava ser escolhido, como o sexo com que se nasce…
Foi o período também que as palavras golpe e democracia foram usadas pelos “dois lados” com interpretações e maquinações diversas.
Destaco que o lado coxinha, “apelou” de modo confuso e unilateral para o fim da corrupção, para a retomada do crescimento, da confiança dos empresários, do fim da crise.
O lado petralha acusava a oposição de fazer (e haver feito) o mesmo “crime”, das tais pedaladas fiscais.
Escrevemos sobre isso algumas vezes, destaco uma interpretação de americanos que estudam o Brasil e os chamados “golpes suaves”, aqui.

E, complementando, o período também foi de Lava Jato. De furor, de heroísmo do poder Judiciário, que vivia uma ganância por aparecer. Uma “ambição de vitrine” no ícone Sérgio Moro.
Este personagem dantesco, vivia um período de absolutismo. Deteu, coagiu, forçou delações premiadas. Aqui, o interessante foram as críticas de juristas e juízes aos seus métodos. E a comparação à uma operação semelhante ocorrida na Itália.
Naquele país, o juiz que condenou políticos e empresários, entrou para a política.
Aqui, o nosso herói deixava escapar sorrisos ao ser aclamado nas ruas e ao receber convites para filiações partidárias.
Os crimes também foram relativizados. Uma escuta clandestina pôde valer para um, mas não para outro. Uma acusação em delação, idem. A mídia execrou quem ela quis, apoiando a oposição e direcionando o brasileiro mediano a aceitar os caminhos que estavam em curso…
Um exemplo do que ocorreu, quando Jucá assume em gravação que participou da manipulação para o impeachment, pode ser lido aqui. Um exemplo dos contrapontos jurídicos do herói Moro pode ser lido aqui.

Temer assume.
Glória a Deus nas alturas! Nesse caso quase que literalmente, pois nosso interino se declarou católico e simpatizante dos evangélicos nas redes sociais. Além disso, fez aparecer que sua esposa, apesar de muito mais nova que ele, era “bela, recatada e do lar”. Segundo uma tal revista, apoiadora de todo o movimento (aqui).
A imagem estava em plena construção.

Ministros nomeados. Patética demonstração de rabo preso e desconstrução do passado recente.
Se toda a mudança é positiva, não é tudo o que se precisa mudar…
Muitos condenados na lista, nenhuma minoria: negro, mulher. Cortes de pastas em setores “pouco importantes”, como a Cultura (totalmente desinteressante quando se quer manipular) e a reforma agrária (afinal, quem quer terra é pobre aproveitador. Um pobre correto busca outro trabalho!)
A confusão se instaura quando muitas das decisões são revogadas e ministros afastados (como o próprio Jucá, citado em link acima). Nós publicamos a nossa análise do ministério, vindo de outra fonte, aqui.

E agora estamos aqui.
A Operação Lava-Jato, ícone para muitos do “combate à corrupção” caminha a passos de tartaruga. Como que se já tivesse cumprido a função pré-determinada…
A tal redução de gastos virou chacota. Um dos maiores aumentos de salários do STF e poder judiciário está em curso. Aumento, lembremos, vetado por Dilma no ano passado e adiado por Meirelles no momento da posse (para não correr o risco de causar problemas e revoltas no princípio da “retomada”).
Tal aumento, certamente desencadeará outros tantos. Pois os outros poderes terão prerrogativas de equiparação.
E o rombo, que seria de R$139 bilhões, pode passar facilmente dos 200!
E, ao meu ver, isso não preocupa o presidente interino, nem a sua equipe. Parodiando Ciro Gomes: “Cobrar austeridade de Temer é esperar maracujá em pé de maçã” (aqui)

Ainda espero a mágica do fim da corrupção, do fim da crise, do crescimento industrial, do Brasil rico!
Pois a mágica do Brasil igualitário, essa está cada dia mais distante…
Enquanto esperamos, vemos coisas como o plano de demissões voluntárias da Embraer. Numa economia em plena recuperação…

por Celsão revoltado

figura: composição entre figuras retiradas daqui e daqui

 

Dilma_Cabisbaixa
Privar o Palácio Alvorada de comida (comida para Dilma).
Restringir os voos de Dilma.
Proibir a TV pública de usar a palavra Presidenta.

Para qualquer pessoa com um mínimo de sanidade mental e honestidade intelectual, SÓ isso já é suficiente para entender que o Brasil está vivendo um golpe de Estado, com características presentes em qualquer ditadura da história.

E olha que nem mencionei o processo de impeachment, que ocorreu sem legalidade constitucional, pois faltaram os princípios geradores de Impeachment. Nem mencionei as conversas de Jucá, Sarney, Calheiros, etc, onde confessam tirar a Dilma para se livrarem da Lava-Jato, tampouco mencionei que, também nessas conversas gravadas, o Ministro da Transparência (órgão máximo anti-corrupção), Fabiano Silveira, dá dicas a Renan Calheiros de como driblar a Lava-Jato.

Não mencionei que a Transparência Internacional, maior organização do mundo no combate à corrupção, rompeu relações com o Brasil e o governo Temer, após o escândalo envolvendo o Ministro Fabiano Silveira. (Aqui)

Olha que não mencionei que documentos do Wikileaks e de Snowden (NSA) revelam SEM CHANCE DE REFUTAÇÃO, que Michel Temer serviu de informante para inteligência americana CONTRA os interesses nacionais do Brasil, o que configura o crime mais grave contra a soberania da nação.

Nem mencionei que, entre os ministros de Temer, não há 1 negro nem 1 mulher, e que mais de 70% dos ministros sofrem atualmente processos judiciais por corrupção e outros crimes até mais graves (esse corpo do Governo JAMAIS venceria uma eleição, e só é possível assim, tirando um presidente eleito democraticamente pelo voto, e se apoderando do Estado sem a menor legitimidade do povo)…..

Não mencionei que TODOS os ministérios extintos pelo Governo Temer, são ministérios que servem aos já poucos direitos de minorias, e/ou que servem à cultura e educação do povo. E que os cortes públicos que estão ocorrendo, todos eles, somente impactam o bolso e as vidas do povo pobre, já tão sofrido…. enquanto isso, servidores do judiciário e cargos políticos como os parlamentares, têm “gordo” aumento salarial aprovado pela Câmara em MEIO Á CRISE e a CORTES DE GASTOS PÚBLICOS.

Nem mencionei que José Serra, Ministro das Relações Exteriores, já anuncia medidas claras para abrir a exploração de nosso Petróleo para o capital estrangeiro, e já “abana o rabo” para a privatização total ou parcial da Petrobrás (os recursos advindos do Petróleo representa”va”m o nosso sonho de um país realmente melhor, e emancipado.

Eu nem mencionei….. Ah, nem mencionei um monte de coisa.

Mesmo que você não acredite, com toda essa boa/má-fé sua, que não houve golpe de Estado, pelo menos, o mínimo que você deveria aceitar e entender, é que o maior golpe está sendo dado contra o POVO brasileiro e em nossa soberania enquanto Nação.

* Assistam ao vídeo, de apenas 3 minutos, inspirador deste texto. Comentários de política com Bob Fernandes (Aqui)

por Miguelito Formador

figura daqui

Impeachment

Nada tenho escrito, tamanha minha frustração e espanto com a sociedade brasileira. Parece-me em vão escrever para “analfabetos funcionais”.

Mas vou falar um pouco da mídia do país onde vivo, Alemanha.
A maior revista alemã, Spiegel, mais centro que esquerda, chama o processo do impeachment contra Dilma Rousseff de “Revolução dos hipócritas”.

Já no primeiro parágrafo eles dizem: “O Congresso brasileiro mostra sua verdadeira face. A maioria dos parlamentares não somente escolheram pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Estes parlamentares vem trazendo, através de artifícios no mínimo questionáveis, o Brasil a uma guinada para a direita”.

Lembrando que, quando um alemão fala de direita, ele não está a falar de capitalismo, EUA, etc…. ele está a falar de fascismo e nazismo.

A revista ainda lembra que a maioria daqueles que votaram a favor do impeachment, usando a palavra ética e combate à corrupção, são eles próprios políticos investigados por corrupção, enquanto contra Dilma, sendo afastada do cargo, nunca houve qualquer processo investigativo por corrupção!!!

Li nos últimos dias artigos alemães, espanhóis, portugueses (Portugal), e ingleses (EUA e Inglaterra), sempre na mesma linha.
Será que só os brasileiros não percebem a insanidade (hospício mesmo) que se passa em seu país? E pior, com a legitimação do próprio POVO!

Sequer sei como meus amigos de luta ainda têm alguma esperança. Pra mim, apesar de o brasileiro culpar a política, esta é o menor de nossos problemas. Cada um de nós é o maior dos problemas… somos reféns de uma cultura hipócrita, corrupta, individualista, mal educada, grosseira, agressiva, fútil, racista, machista, elitista, coronelista, vira-latista, e o pior, prepotente e arrogante, sendo essa última a responsável por não nos deixar enxergar todas as outras.

Será que estamos fadados ao fracasso e à barbárie eterna?

* Jornal brasileiro falando sobre o artigo da Spiegel: AQUI
* Artigo original da Spiegel: AQUI

* Artigo do The Economist, revista inglesa com orientação centro-direita, critica o processo de impeachment, e fala de cenas bizarras vistar no Congresso brasileiro: AQUI
* The Guardian, na mesma linha: AQUI

por Miguelito Formador

figura retirada do próprio artigo da Spiegel

Post_02_Festa desdemocraciaNão sei como intitular o que está se passando…
Mas sei que a votação do impeachment será feita de forma declarada (cada deputado se dirigirá ao centro da casa e terá um tempo para explicar os porquês), iniciando-se as 14h de domingo.

Isso mesmo, DOMINGO. Num estabelecimento onde se trabalha normalmente três dias por semana, de terça a quinta.
Não haverá transmissão de partidas de futebol.
Aliás, sequer haverá partidas de futebol no dia mais tradicional para elas.
Mas, afinal, não é a Globo que manda (também) nos clubes de futebol e no calendário das confederações estaduais deste esporte?

Dizem que tampouco haverá Faustão. A rede televisiva “roubará” a melhor oportunidade de audiência que a TV Câmara terá nos últimos tempos.

E o que se espera de tudo isso?
Óbvio: que a votação chegue ao seu final ou ao menos já esteja definida no horário do Fantástico, a revista semanal do Brasil!
Parece piada, mas não é…

Estamos prestes a afastar uma presidente do poder. Uma presidente que teve (aceitando-se ou não) a maioria dos votos dos eleitores em pleito livre, há menos de dois anos.
E não há a seriedade que o ato de afastamento exige. Não há respeito!
Sequer respeito pelos que seguem contra o impeachment, por qualquer motivo que os leve a isso.
E se houverem confrontos na rua? Em frente ao Congresso em Brasília, na Avenida Paulista e em muitos outros lugares, haverá certamente populares pró- e contra-impeachment.

Ao invés da sociedade prestar um “luto democrático”, de conscientização de voto (imaginando que a esmagadora maioria dos votantes de Dilma tenha se arrependido do ato), teremos festas e celebrações.
(por falar em voto, não esqueçamos que, ainda neste ano, elegeremos representantes municipais, para os poderes Executivo e Legislativo)

Dentre as celebrações, haverá em São Paulo, em frente ao MASP, a apresentação do grupo “Carreta Furacão”, que tem os personagens Capitão América, Fofão, Mickey e Popeye como artistas (notícia aquilink alterado e funcionando).
De novo, não é piada!
O MBL (Movimento Brasil Livre) e seus apoiadores contratarão o grupo do interior de São Paulo para brindar (?), comemorar (?), achincalhar o momento, no melhor estilo “paulista golpista”.
Detalhe: o criador do personagem Fofão, Orival Pessini, é contra a utilização do personagem para esta festa de DESmocracia.

Mas não para por aí. A avacalhação segue…
O Partido Solidariedade, cujo líder é o deputado conhecido como Paulinho da Força, está organizando um bolão entre os deputados.
A meta é acertar o placar final da votação de domingo. E o prêmio vai somente para aquele que “cravar” o resultado. (notícia aqui)
Piada, ou palhaçada?
O Congresso não está preocupado com a repercussão desse fato, não está preocupado com sua própria imagem, nem com a governabilidade após o provável afastamento da presidente. Estão preocupados em qual deles acertará o número final do pleito.
É como se a instituição que melhor representa o povo (ao menos deveria), suas demandas e vontades, estivesse abandonado às chacotas!

Outra do Congresso: a ordem da declaração dos deputados.
Dizem que não seguirá critérios lógicos, como sorteio aleatório, ordem alfabética de nomes, de estados da federação ou ordem por partido (maiores bancadas iniciam, ou menor número de representantes primeiro)…
A ordem será definida pelo Sr. Eduardo Cunha e deve começar com representantes do Sul do país, em ordem “geográfica reversa”.
Como se entende e supõe que o Sul tem maior concentração de deputados contra o impeachment, é uma maneira clara de pressionar deputados que ainda não declararam seu voto e apoiadores. E também de reacender a estúpida disputa ou divisão observada logo após a reeleição de Dilma: Norte-Nordeste ignorante e Sul-Sudeste iluminado.
Como se já não bastasse a recente dicotomia que enfrentamos: direita = o bem, Deus; esquerda = o mau, Diabo, o PT.

Para completar a transmissão da Rede Globo no domingo, sugiro escalar o Galvão Bueno para narrar os votos entre 16h e 18h (com comentários de Casa Grande), Faustão assumir a programação na sequência, e William Bonner apresentar excepcionalmente o Fantástico. No final do programa, Pedro Bial pede que a Dilma renuncie, enquanto ouvimos ao fundo a música do Big Brother Brasil…

por Celsão revoltado

figura retirada de outro vídeo muito bom do pessoal da Porta dos Fundos (aqui). Afinal, nós aqui do blog também comemos caviar, defendemos bandidos e somos satanistas

hhPor que o PMDB decidiu abandonar a coalisão com o governo?
Esta pode ser a pergunta que muitos se fizeram na semana passada. E a ela responderam com aquelas acusações já alardeadas por toda a mídia brasileira: por conta da corrupção, das investigações da Lava Jato, pedaladas, impeachment…

A pergunta que faço é outra:
Por que o PMDB ainda não abandonou o governo?
E dela seguem várias outras:
Por que não devolveu os seis ministérios que detém? Por que não deixou a vice-presidência? Por que segue na presidência das casas do Legislativo? Por que continuam “negociando” simultaneamente com partidos do governo e da oposição?

Diz-se que a política é a arte de convencer a outros, a arte de manipular o poder.
E, infelizmente, na minha opinião, o PMDB é o partido mais político dentre os partidos políticos: sempre está no poder, “compondo” a base ou “dando forças” para o governo. Não importa o lado, a ideologia partidária ou outras alianças.

Tanto que, no mês passado, recomeçou o seu “jogo” de busca pelo poder assim que se achou em risco já que compunha (e ainda compõe) o governo do PT; para quem não viu, líderes do PMDB se encontraram com lideranças do PSDB, franco opositor ao atual governo federal, em reunião ocorrida apenas horas após um encontro com o ex-presidente Lula (aqui e aqui notícias relacionando os dois encontros).
Me enoja isso. Não o jogo político, que faz parte de um regime presidencialista baseado em três poderes; mas a hipocrisia, a falta de posicionamento e caráter do partido e de seus líderes. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, citando dois dos proeminentes peemedebistas, flertam com o PSDB simplesmente para permanecer no poder!
Michel Temer, o vice-presidente, finge-se de morto esperando que o cargo-mor do Poder Executivo Brasileiro caia em seu colo. Não aparece nem para apoiar o governo em meio a crise política, nem para criticá-lo, opondo-se a ele.

Depois das reuniões e de saber que estaria “coberto”, que teria a nova “consorte” PSDB ao deixar a esposa PT, o PMDB ainda fez joguinho em sua convenção nacional; esperando decerto a reação da imprensa e da opinião pública. E… já que a maioria está mesmo na onda da crucificação… decidiu em ato simbólico e repleto de cobertura midiática deixar o governo, abandoná-lo, romper, desembarcar!
Mas… que raio de rompimento é esse em que não se deixa a casa da ex-esposa? Continua-se a usar o mesmo banheiro, a mesma cozinha, o mesmo barco! Não se desembarca mantendo-se no barco!

Sinto que estamos em maus lençóis.
Qualquer ser sensato já percebeu que o PMDB não tem cara e não é opção política viável.
Para ilustrar, destaco uma declaração do ministro do STF, Luis Roberto Barroso, que sem saber que estava sendo gravado, disparou um “Meu Deusdo do céu! Essa é a nossa alternative de poder.” (aqui)

Bem…
Eu diria que as cenas dos próximos capítulos serão de causar arrepios. Os hipócritas do PMDB (também qualificáveis como urubus) seguirão no poder, oscilando entre os dois lados, como numa balança.
O processo de cassação do Eduardo Cunha será postergado indefinidamente. O do Renan sequer será lembrado.
E, se acaso houver o impeachment, todo o “clamor popular” contra a corrupção será devidamente abafado pelos que já estão no controle de CPIs e Comissões de Ética. Teremos uma enorme pizza para dividir, e ainda um novo político, ex-juiz, concorrendo ao cargo de deputado federal por Curitiba.

Mas, sendo sincero, espero estar errado!

por Celsão revoltado

P.S.: figura retirada daqui

Coreografia_CavernaImagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles.

Imagina homens que passem para além da parede, carregando objetos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro.
Não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?

Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam.
Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?

Quando você vê uma sombra, Sofia, na mesma hora você pensa que alguma coisa deve estar projetando esta sombra. Por exemplo, pode acontecer de você ver a sombra de um animal. Talvez a de um cavalo, mas você não está bem certo. Então você se vira e vê o animal verdadeiro, que, naturalmente, é muito mais bonito e de contornos mais nítidos do que a imprecisa sombra. É por isso que Platão considera todos os fenômenos da natureza meros reflexos das formas eternas, ou ideias. Só que a maioria das pessoas está satisfeita com sua vida em meio a esses reflexos sombreados. Elas acreditam que as sombras são tudo o que existe, e por isso não as veem como sombras.

Os sentidos nos fornecem uma visão enganosa do mundo; uma visão que não está em conformidade com o que nos diz a razão.
Nós mesmos contribuímos para o que sentimos e percebemos, pois somos nós que escolhemos aquilo que nos é importante.
… saber que não se sabe também é uma forma de conhecimento.

Os homens embarcam nos trens, mas já não sabem mais o que procuram.
Para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar.
Quando a gente anda sempre em frente, não pode ir muito longe.
Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.

É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio.

Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.
… perguntar é importante, mas não é preciso se apressar com uma resposta.


Acima está uma colagem, um tanto quanto aleatória, de passagens dos livros “O pequeno príncipe”, “O mundo de Sofia”, e da “Alegoria da Caverna” presente na obra “A República” de Platão.

Cada um em sua maneira, essas obras visam despertar o bom senso, o senso crítico, o interesse, a moral e ética, o discernimento no leitor, e automaticamente, na sociedade.

Diante dos acontecimentos recentes do Brasil, com uma intensificação da utilização da mídia e da justiça como ferramenta de caça partidária, com a radicalização, principalmente da parcela mais rica e “branca” da sociedade, no ato de condenar de forma “seletiva” atos de corrupção e/ou antiéticos (inaceitável quando praticado por um partido político específico, mas se praticado por outros, ignora-se ou alivia-se). Frente a protestos com direito a abadá, carros alegóricos, madame rica lançando garrafa de prosecco em caminhão da tropa de choque estacionado, “esquentas” para protestos em hotéis de luxo, passeatas regadas a muita cerveja, música e coreografia estilo carnaval.

Diante dos atos de um Juiz e seus comparsas do Ministério Público de São Paulo, em sua caça implacável e irredutível a um ex-presidente e aos integrantes de um partido, atos esses criticados por quase unanimidade dos juristas brasileiros mais respeitados, por ministros do STF, pela OAB, e até mesmo por políticos da oposição ao atual Governo.

Em meio a tudo isso, e ao notar a celebração, da maioria das pessoas pelas quais tenho apresso, comemorando e concordando com esses absurdos, essas aberrações; e notando assim a que grau de primitividade, insensatez, desonestidade intelectual, baixaria e agressividade o ser humano pode chegar, encontro-me sem palavras para expressar o tamanho de minha dor e frustração.
Sendo assim, ficam as passagens acima, algumas delas pensadas a milhares de anos, mas que hoje se fazem tão necessárias quanto antes, e outras destinadas a um público infantil, mas que podem ser aplicadas muito bem aos adultos das “Avenidas Paulistas” Brasil afora.

por Miguelito Filosófico

A figura é uma montagem de duas imagens, retiradas daqui e daqui

11050667_1140171285999582_7130393729177933607_nEstamos num período agitado.
Que nos bombardeia com intermináveis informações e ao mesmo nos força a tomar partido… a nos posicionarmos… a escolher um lado…
Será mesmo?

Dentre as inúmeros textos que li nos últimos dias, um dos notáveis segue abaixo.
Exprime um posicionamento neutro e explica alguns “porquês” das convicções, dos vieses, dos ânimos exaltados.

O texto é de autoria de Vinícius Waldow e pode ser lido em seu Facebook aqui.

Como é de costume em momentos de efervescência política, a razão fica escanteada.

O filósofo Bertrand Russell escreveu: “Todo homem, onde quer que vá, vive envolto por uma nuvem de confortantes convicções, que o acompanham como as moscas no verão.”

As pessoas geralmente acreditam que a sua mente é capaz de obter uma visão precisa da realidade. Contudo, as descobertas em relação ao que se chama de “cognição motivada” colocam por terra essa crença (pelo menos, deveriam colocar).

O viés confirmatório (do inglês, confirmation bias), por exemplo, é considerado o padrão mais robusto já descoberto pela psicologia cognitiva acerca do nosso raciocínio, e consiste na tendência dos indivíduos de procurar e interpretar evidências de maneira parcial em favor das suas crenças, convicções e expectativas prévias.

O viés confirmatório faz com que tenhamos uma predisposição fortíssima de ignorar ou então criticar veementemente as evidências contrárias às nossas convicções (por mais sólidas que sejam essas evidências), bem como aceitar de modo complacente e defender de modo ferrenho as evidências favoráveis às nossas convicções (por mais pífias que sejam essas evidências).

A ideia é que a nossa mente funciona mais como um advogado tentando defender uma causa pré-definida do que como um cientista buscando desinteressadamente a verdade.

Adicione a isso um outro ingrediente bem conhecido da cognição motivada: o grupismo. Essa é a tendência dos seres humanos a se dividirem em grupos-de-dentro e grupos-de-fora (“nós versus eles”) e sistematicamente perceberem e agirem como se os membros do grupo-de-dentro fossem muito diferentes e superiores em relação aos membros do grupo-de-fora.

Agora pense sobre os efeitos que a combinação explosiva entre viés confirmatório e grupismo exerce sobre qualquer debate político.

A visão grupista é a de que o nosso lado é inteligente e dotado de retidão moral, enquanto que o outro lado é composto por burros (que estão sendo ludibriados), mercenários (que foram comprados) e safados (que ludibriam os burros, compram os mercenários e querem acabar com o nosso lado). A partir daí, o viés confirmatório faz o trabalho de avaliar todas as evidências oferecidas de modo a sempre reforçar essa visão básica.

Além de apenas observar evidências, as redes sociais hoje permitem a você criar e distribuir suas próprias evidências, com todos os viéses possíveis.

Em toda manifestação pública de grandes proporções, se você buscar e selecionar bem, vai encontrar um bom número de pessoas com as opiniões e atitudes mais estapafúrdias, grosseiras e simplórias. Filme algumas delas, faça uma boa edição de vídeo e coloque uma manchete que funcione como isca para um público já propenso em concordar, e pronto: muita gente vai obter mais uma evidência de que o outro lado é burro, vendido e safado, e implicitamente de que o seu lado é inteligente e virtuoso.

Se você estiver com preguiça, então basta criar um meme.

Trazendo para o caso concreto do Brasil, se todo petista/tucano é burro, vendido ou safado, não há porque ficar perdendo tempo com os argumentos deles: a vitória é nossa de antemão. Estereotipar e desmerecer o outro lado é um caminho fácil demais para não ter que pensar de fato sobre os argumentos contrários.

“Os petralhas só querem continuar mamando na teta do governo.”

“Os coxinhas só querem manter seus privilégios de rico.”

“E ainda tem burro que defende esses safados.”

Achar que o principal problema do Brasil consiste em um único partido ou político é uma visão extremamente simplória para um problema complexo. Quem dera a solução para os nossos problemas políticos fosse apenas tirar o PT/PSDB/PMDB ou Dilma/Aécio/Cunha do jogo. Como uma hidra de Lerna, não adianta “cortar essas cabeças”: elas nascerão de novo, com outras faces, ou com a mesma face (Collor tá aí ainda).

A solução para problemas estruturais tem de ser estrutural também. Um exemplo: já passou da hora de reformar o nosso sistema eleitoral, que recruta parlamentares com base numa política altamente personalista (em contraste com uma focada em partidos); um sistema que é nitidamente distorcido pelo financiamento de campanha por grandes empresas (a corrupção também está na iniciativa privada).

Outro exemplo é o nosso sistema de governo baseado no presidencialismo de coalizão, o qual parece tornar quase obrigatória a relação fisiológica de “toma-lá-dá-cá” que se estabelece entre os poderes Executivo e Legislativo, e isso independentemente do partido que se encontra no poder.

Kwame Anthony Appiah, diretor do Centro para Valores Humanos da Universidade de Princeton, conta que às vezes lhe questionam com o que ele trabalha, e ele diz que é filósofo. Usualmente, a pergunta seguinte é: “Então, qual é a sua filosofia?” E a sua resposta padrão é: “Minha filosofia é de que tudo é mais complicado do que você pensa.”

Enfim, o convite é esse: que tal dar uma pausa no hábito de dar retruques automáticos, estereotipar o adversário e tratar partido político como se fosse clube de futebol para encarar a complexidade do mundo?

Lembre-se que aquele você tacha de “coxinha” ou “petralha” pode ser menos unidimensional do que você.

por Celsão correto (as vezes me confundo em meus alter-egos)

figura retirada da própria publicação original (aqui)

moroÉ incrível como em duas semanas tivemos muita coisa acontecendo, muita história, muita mesmo!
Nesse momento até aqueles que não gostam de política, que são alheios a telejornais e notícias em rádios e internet, se “chocaram” com os vazamentos, as manipulações e as manifestações dos últimos dias…

Começou com indicações arbitrárias e fracas da justiça.
Mandar o ex-presidente Lula para o aeroporto de Congonhas sem provas suficientes para enviá-lo a Curitiba foi criticado inclusive por ícones da direita, como o jornalista Reinaldo Azevedo.
Também o Ministro do STF, Marco Aurélio Mello, comentou abertamente no programa Canal Livre da TV Bandeirantes (aqui) as arbitrariedades do movimento de Sérgio Moro.
A Globo só faltou cancelar as novelas. Estava trabalhando de casa nesse dia e toda a manhã foi de cobertura ao assunto; ignoraram a programação matutina para filmar o aeroporto de Congonhas, a casa do petista em São Bernardo e repetir a mesma estória, infinitamente.
Foi ruim para a democracia e extremamente arbitrário. O processo de investigações da operação Lava Jato corria (a meu ver) de acordo com a Justiça e seus meandros. Focar numa pessoa simplesmente visando incitar revolta “popular” (ou encher uma manifestação) não era necessário, nem justo.

A mídia seguia sendo tendenciosa (pra variar), pois não mencionava os tucanos do discurso vazado “espontaneamente” do senador (ou ex-senador) Delcídio do Amaral.
Aliás, era de extrema estranheza (pra dizer o mínimo) o vazamento de uma delação de quatrocentas páginas, ainda inválida, às vésperas de uma manifestação em prol do impeachment da presidente. Nem é preciso desconfiar que foi proposital. Principalmente se pensarmos na revista que a publicou.
Alguns juristas inclusive afirmaram que tal depoimento poderia ser invalidado com sua divulgação prévia, dado o sigilo judicial necessário.

Porém, até a condução coercitiva de Lula, só haviam desvantagens legais por parte da oposição e do juiz Moro. Nenhuma acusação “real” ou mandato de prisão contra Lula ou Dilma. A mobilização do dia treze estava garantida, de modo pouco honrado, mas garantida.

Daí veio o mandato de prisão ainda “mais fraco” da justiça paulista e com ela a primeira menção ou boato sobre a nomeação do ex-presidente para Ministro de Estado.
Parecia pura especulação, como fazem as pessoas do mercado financeiro (plantando boatos) para ganhar dinheiro no curto prazo, com quedas da bolsa e aumentos de valores de moedas estrangeiras, como o dólar.
Novamente tendencioso e sem muita razão lógica. Coisa típica de golpistas mesmo, de pessoas que querem confundir e “anarquizar”.

Mas não parou por aí…
A Globo seguia com destaque desproporcional àqueles trechos de delações que a interessavam, forçando artificialmente o processo de impeachment.
A manifestação de domingo ocorreu. Foi pacífica e foi um “sucesso” maior aos que pediam impeachment do que aos que clamavam contra a corrupção, de um modo mais amplo.
Interessantes vaias surgiram em São Paulo para os políticos da pseudo-direita que tentaram “pegar carona” na manifestação. Enquanto que no Rio, Bolsonaro foi ovacionado e carregado pelos manifestantes…
Coisas da democracia e do Congresso Dantesco que temos atualmente.

Então, o Congresso começou a aprontar das suas.
A bancada de oposição, aqui já reforçada pelos ratos do PMDB que pulavam do navio do governo, informou que monopolizaria as votações a temas relativos ao impeachment; que fariam “greve” se esse tema não surgisse e que trabalhariam de segunda a sexta (que coisa) até que esse tema avançasse.
Começou um papo de semi-parlamentarismo (!?!) que assustou pela cara de manipulação do próprio poder.

E eis que ocorreu a nomeação do ex-presidente Lula para Ministro da Casa Civil!
Por quê?
Por que compactuar com os desejos íntimos da Globo (que chegou a errar ao vivo, anunciando a nomeação no dia anterior)?
Por que municiar a direita? Por que entregar “tão entregue” esse mar de argumentos?
A nomeação teria mesmo que ser feita nessa semana?
Não há explicação plausível para mim.
Aceito que o Lula seja um excelente articulista e ajudaria bastante ao compor o governo Dilma. Mas não agora!
Aceito também o argumento que as investigações contra ele não serão interrompidas. Mas mudar o foro, passando para a esfera máxima, é “dar munição ao bandido”, é quase assumir a culpa!
É rasgar a coerência, a distinção, a ética e a noção ao mesmo tempo!

O outro lado do embate, representado pelo juiz Sérgio Moro errou novamente de forma grotesca ao divulgar as gravações realizadas em grampos nos telefones de Lula e da presidente Dilma.
Ele o fez por ter a certeza de apoio popular irrestrito. Mas correndo imensos riscos. Mesmo desconsiderando a posição atual de Lula como Ministro da Casa Civil, há conversas vazadas de uma Presidente da República! Ente máximo do Poder Executivo da Nação!

Ah… como eu queria que os políticos tivessem a hombridade de Japoneses, se afastando ao verem vinculados seus nomes a corrupção e outros escândalos…
Será que é pedir muito?
Eduardo Cunha com as contas estrangeiras não declaradas, Fernando Capez e o escândalo da merenda escolar, Aécio Neves… Todos poderiam de espontânea vontade se afastar dos cargos que ocupam enquanto investigações fossem conduzidas contra eles; e regressar caso nada seja provado.

Enfim… Por quê?
As manifestações repentinas de ontem mostram o começo de um fim.
E agora creio que as manifestações serão mais fortes, a pressão será maior. A Grande Mídia e a classe média que perdeu os privilégios de comprar SUVs financiadas a perder de vista e as viagens ostentativas para Miami se fortaleceu com as ações de ontem…

por Celsão revoltado

figura retirada daqui

P.S.: coloco uma análise “pirata” sobre os abusos do juiz Sérgio Moro, extraída do Diário do Centro do Mundo (aqui).

P.S.2: copio também (pós-divulgação) um trecho de um texto do Facebook do advogado Geraldo Prado (texto completo aqui) analisando o vazamento das conversas telefônicas…
Se pensas, jurista, que é o teu sentimento cívico, patriótico, que te faz ignorar os deveres da Constituição, saibas que por trás de todo gesto violador há o prazer. Te encontras com este teu prazer, essa “súbita impressão de incesto”, mas não invoque o Direito e a Justiça. Eles não estão contigo.

AAEAAQAAAAAAAAKEAAAAJGQ5Njk0MzViLTYzZWUtNGNhNC1iNTQyLWNlYTZjMDdmYjA0ZACheguei em casa com vontade de filosofar.
Na realidade, todo o caminho trabalho-casa foi de perguntas a mim mesmo. As principais circundavam o “por que mesmo?”, mas também tinha o “vale a pena?”, o “até quando?”, dentre outras.

Quem trabalha, muitas vezes se faz essas perguntas complicadas.
As tarefas executadas, o ambiente de trabalho, o pagamento aquém do que se julga merecido, são alguns exemplos de insatisfações que surgem diariamente e também suscitam auto-avaliações e “filosofias de final de tarde”.

Não só Karl Marx com o seu “mais valia”, mas também Adam Smith (que representava uma corrente de pensamento oposta), concluíram que o custo das horas empregadas em uma tarefa, um bem, um produto é inferior ao valor em si do bem. A diferença básica é que Marx por ser de esquerda “condena” o burguês, dono dos meios de produção; e Smith explica a discrepância como o lucro necessário, afirmando que este lucro é natural e não impelido pelo empresário, porque vem das leis de mercado (oferta e procura).
O fato trocando em miúdos é que uma empresa para ter lucro precisa ter custos de produção menores que os valores de venda dos produtos, projetos ou serviços. E, espero que isso não surpreenda pessoa alguma, o salário dos funcionários é um dos principais custos otimizáveis (ou minimizáveis nesse caso).

Uma boa empresa, “capitalisticamente” falando, é aquela que paga pouco e tem produtos desejados pelo mercado, que vendem independente da época do ano ou local geográfico, de valores absolutos elevados. Caso essa empresa mantenha os empregados de alguma maneira empolgados, seduzidos pelo que quer que seja, terá lucros por muito tempo. Uma empresa-grife pode atrair bons colaboradores, uma empresa de renome em determinado setor também.
Sob a mesma ótica, um bom chefe é aquele que mantém seus funcionários seduzidos por promessas daquilo que mais desejam (melhores salários, promoções, oportunidades de carreira, cursos), pelo máximo de tempo possível. Se um funcionário não reclama do salário ou não pede aumento, por exemplo, nunca fará parte de uma lista de “verba” para aumentos… E, assim que este reclamar, sua reclamação será avaliada e ele entrará na lista na posição que o chefe julgar inevitável, ou seja, dependendo do quão importante for para a organização e do tamanho da ameaça que a saída deste funcionário representar para o departamento ou para a empresa.
De novo trazendo para o português mais simples, um chefe bem visto pela empresa vai “cozinhar” todos os funcionários com o menor salário possível pelo maior tempo possível. E tentará não perder aqueles que trabalham bem, ou seja, muito e de forma assertiva.

E é essa mágica do capitalismo que as vezes me revolta.
É esse empenho que muitos bons funcionários “abraçam” a corporação onde trabalham, sem receber por isso, que me entristece.
As horas extras não remuneradas poderiam ser aproveitadas com a família, com amigos, um hobby, esporte, leituras, auto-conhecimento…
Quantas vezes reclamamos que “não temos tempo para nada”? Quantas vezes (não) pedimos desculpas àqueles que amamos por dedicar mais tempo do que o necessário ao trabalho? E aquele projeto de voltar a estudar, de praticar um esporte?

Espero que essa análise curta ajude os empregados-escravos a pesar seu tempo a mais na companhia, a pensar suas horas extras.
Parabenizo os que conseguem “burlar um pouco” o mais-valia, trabalhando somente o tempo estipulado no contrato de trabalho.

Eu (ainda) não consigo.

por Celsão correto (ou seria um novo Celsão filosófico?)

figura retirada daqui

Há poucas semanas tive o privilégio de assistir a um show antológico: Caetano Veloso e Gilberto Gil, juntos, dividindo o palco. Isso aconteceu durante a turnê destes na Europa. Fui até Bruxelas para vê-los.

Bom, o que dizer desses dois ícones da música brasileira? Por mais que eu elogie, não passará de pura redundância. São maravilhosos! Suas vozes, um pouco desgastadas após longos 73 anos (ambos), porém com excesso de experiência, maturidade e doçura.
Caetano suave e elegante, Gil maroto e marcante, nada de incomum, muito de fascinante.
Ahhh, e como toca violão o Gil! Quanta ginga, quanta técnica, quanto domínio. Dá aquela “inveja boa” a qualquer mineiro que tem o violão como Hobby. Ali, na sexta fileira, a 10 metros deles, eu já estava no meu terceiro babador.

Levantaram-se, despediram-se, muitos aplausos. Gritos de “mais um”! Eles voltaram, tocaram mais quatro canções. Levantaram-se, despediram-se, aplausos e gritos de “mais um”. Era um pedacinho do Brasil em Bruxelas. O público não ia embora, e continuava gritando “mais um”.

E eles voltaram. Dava para ler os lábios de Caetano, ainda caminhando em direção ao seu banquinho, reclamando com o Gil e dizendo: “vamos tocar o quê? Não ensaiamos mais nada!” E então li Gil dizendo: “toque qualquer coisa sua e pronto!”… Caetano emburrado, Gil rindo à beça. Tocaram cada um mais uma, e aí sim, fim.

Bom, essa foi a parte bonita do show. Mas também teve uma parte feia, para meu desgosto, mas não para minha surpresa: o público.
Ao chegar ao local do evento, percebi um público bem mesclado, mais ou menos metade brasileiro e metade belga ou europeu. Cheguei com 30 minutos de antecedência. O show estava marcado para as 20:00. Às 19:45 sentei-me em meu lugar e esperei.

Já eram 19:55 e notei que muitos lugares estavam vazios. Às 20:00 a maioria dos lugares já estavam preenchidos, mas uns 15% ainda estavam vazios, e muitos deles nas fileiras de frente.

O show atrasou, e assim alguns ainda conseguiram chegar a tempo. Alguns espertões começaram a vir de trás e pegar os lugares mais à frente, que na cabeça deles estariam desocupados. Pensei com meus botões: pronto, isso não vai prestar…..
Quando Caetano e Gil apareceram no palco às 20:35 ainda haviam muitos lugares vazios, o que já começou a me incomodar, pois eu sabia que aquelas pessoas, principalmente as das primeiras fileiras (as mais caras), já já chegariam.

Bingo! Foi o show começar, as luzes se apagarem, e os atrasadinhos começaram a chegar. Uns às 20:45, outros às 21:00, normalmente em grupos maiores que 4 pessoas, o que sempre gerava um alvoroço, pois os seguranças tinham que acompanhá-los até seus lugares, com lanternas que quebravam o clima do show. Chegando aos lugares, precisavam convencer os espertalhões que pularam para a frente a voltarem para seus lugares, para então poderem acomodar os atrasadinhos. Cada grupo que chegava, eram 3 a 8 minutos de barulho, luz de lanterna, e cabeças na frente. Notava-se que o idioma entre eles era, em sua maioria, o português.

Os campeões chegaram às 21:35, 1 hora e 35 minutos após o horário marcado para começar o show!!! Fala a verdade, tem que ser muito cara de pau, não?

Em paralelo, a cada 5 minutos passava alguém agachado, ia lá para debaixo do palco com o pretexto de tirar aquela foto especial, e aí, “como já estava ali mesmo”, sentava-se no chão, pertinho do palco. Aí vinha o segurança com a lanterna, e pedia para a pessoa voltar ao seu lugar. E assim foi durante todo show, até que os seguranças perderam o controle.

Quando Caetano e Gil despediram-se pela primeira vez, o público levantou-se para aplaudi-los. Ali na frente havia dezenas de pessoas agora, em pé, tirando suas fotos e fazendo seus filmes, e tampando a vista de todos os que estavam sentados em suas cadeiras. Os dois voltaram, e essa galera não mais se sentou ao chão, ficaram de pé, na frente do palco, enquanto todas as outras cerca de duas mil pessoas estavam sentadinhas em seus lugares. Então começaram os gritos de “senta aí”, “abaixa”, “senta por favor, não estou vendo nada”…

Caetano_Gil_Civilidade
A senhora ao meu lado, de uns 70 anos, sozinha, belga, estava apavorada com aquele comportamento. Obesa, levantou-se e pediu com toda sutileza que se sentassem. Foi ignorada.
Então foi minha vez, não tão sutil assim, somente mantendo a voz baixa para não atrapalhar o espetáculo. Com muito custo eles se sentaram. E assim, aqueles que pagaram pelo direito de estar mais perto dos artistas puderam assistir as últimas 2 canções sem maiores aborrecimentos.

Isso se chama “civilidade”, ou a falta dela. Mas eu, como incansável sonhador, acredito que nossa sociedade brasileira chegará lá, num futuro próximo.

por Miguelito nervoltado

figura retirada daqui