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Há poucas semanas tive o privilégio de assistir a um show antológico: Caetano Veloso e Gilberto Gil, juntos, dividindo o palco. Isso aconteceu durante a turnê destes na Europa. Fui até Bruxelas para vê-los.

Bom, o que dizer desses dois ícones da música brasileira? Por mais que eu elogie, não passará de pura redundância. São maravilhosos! Suas vozes, um pouco desgastadas após longos 73 anos (ambos), porém com excesso de experiência, maturidade e doçura.
Caetano suave e elegante, Gil maroto e marcante, nada de incomum, muito de fascinante.
Ahhh, e como toca violão o Gil! Quanta ginga, quanta técnica, quanto domínio. Dá aquela “inveja boa” a qualquer mineiro que tem o violão como Hobby. Ali, na sexta fileira, a 10 metros deles, eu já estava no meu terceiro babador.

Levantaram-se, despediram-se, muitos aplausos. Gritos de “mais um”! Eles voltaram, tocaram mais quatro canções. Levantaram-se, despediram-se, aplausos e gritos de “mais um”. Era um pedacinho do Brasil em Bruxelas. O público não ia embora, e continuava gritando “mais um”.

E eles voltaram. Dava para ler os lábios de Caetano, ainda caminhando em direção ao seu banquinho, reclamando com o Gil e dizendo: “vamos tocar o quê? Não ensaiamos mais nada!” E então li Gil dizendo: “toque qualquer coisa sua e pronto!”… Caetano emburrado, Gil rindo à beça. Tocaram cada um mais uma, e aí sim, fim.

Bom, essa foi a parte bonita do show. Mas também teve uma parte feia, para meu desgosto, mas não para minha surpresa: o público.
Ao chegar ao local do evento, percebi um público bem mesclado, mais ou menos metade brasileiro e metade belga ou europeu. Cheguei com 30 minutos de antecedência. O show estava marcado para as 20:00. Às 19:45 sentei-me em meu lugar e esperei.

Já eram 19:55 e notei que muitos lugares estavam vazios. Às 20:00 a maioria dos lugares já estavam preenchidos, mas uns 15% ainda estavam vazios, e muitos deles nas fileiras de frente.

O show atrasou, e assim alguns ainda conseguiram chegar a tempo. Alguns espertões começaram a vir de trás e pegar os lugares mais à frente, que na cabeça deles estariam desocupados. Pensei com meus botões: pronto, isso não vai prestar…..
Quando Caetano e Gil apareceram no palco às 20:35 ainda haviam muitos lugares vazios, o que já começou a me incomodar, pois eu sabia que aquelas pessoas, principalmente as das primeiras fileiras (as mais caras), já já chegariam.

Bingo! Foi o show começar, as luzes se apagarem, e os atrasadinhos começaram a chegar. Uns às 20:45, outros às 21:00, normalmente em grupos maiores que 4 pessoas, o que sempre gerava um alvoroço, pois os seguranças tinham que acompanhá-los até seus lugares, com lanternas que quebravam o clima do show. Chegando aos lugares, precisavam convencer os espertalhões que pularam para a frente a voltarem para seus lugares, para então poderem acomodar os atrasadinhos. Cada grupo que chegava, eram 3 a 8 minutos de barulho, luz de lanterna, e cabeças na frente. Notava-se que o idioma entre eles era, em sua maioria, o português.

Os campeões chegaram às 21:35, 1 hora e 35 minutos após o horário marcado para começar o show!!! Fala a verdade, tem que ser muito cara de pau, não?

Em paralelo, a cada 5 minutos passava alguém agachado, ia lá para debaixo do palco com o pretexto de tirar aquela foto especial, e aí, “como já estava ali mesmo”, sentava-se no chão, pertinho do palco. Aí vinha o segurança com a lanterna, e pedia para a pessoa voltar ao seu lugar. E assim foi durante todo show, até que os seguranças perderam o controle.

Quando Caetano e Gil despediram-se pela primeira vez, o público levantou-se para aplaudi-los. Ali na frente havia dezenas de pessoas agora, em pé, tirando suas fotos e fazendo seus filmes, e tampando a vista de todos os que estavam sentados em suas cadeiras. Os dois voltaram, e essa galera não mais se sentou ao chão, ficaram de pé, na frente do palco, enquanto todas as outras cerca de duas mil pessoas estavam sentadinhas em seus lugares. Então começaram os gritos de “senta aí”, “abaixa”, “senta por favor, não estou vendo nada”…

Caetano_Gil_Civilidade
A senhora ao meu lado, de uns 70 anos, sozinha, belga, estava apavorada com aquele comportamento. Obesa, levantou-se e pediu com toda sutileza que se sentassem. Foi ignorada.
Então foi minha vez, não tão sutil assim, somente mantendo a voz baixa para não atrapalhar o espetáculo. Com muito custo eles se sentaram. E assim, aqueles que pagaram pelo direito de estar mais perto dos artistas puderam assistir as últimas 2 canções sem maiores aborrecimentos.

Isso se chama “civilidade”, ou a falta dela. Mas eu, como incansável sonhador, acredito que nossa sociedade brasileira chegará lá, num futuro próximo.

por Miguelito nervoltado

figura retirada daqui

Hitler_maioria_FascismoOs episódios recentes de racismo, machismo, fascismo, ignorância, falta de educação, ausência completa de bom senso e respeito ao próximo, elevam meu grau de preocupação com o futuro do Brasil. Há uma grande parcela da sociedade brasileira que está doente, mentalmente doente. Histeria, ódio, irracionalidade, causados pela doença da estupidez.
(Quem quiser ler mais sobre a burrice e estupidez como doença, segue um artigo da filosofa Márcia Tiburi: AQUI)

O ódio que a mídia e líderes radicais de direita geram, e que muitos ajudam a disseminar (isso pode incluir você, então reflita) mesmo que de forma modesta e branda, é um trem desgovernado: depois que embalar, não é mais possível parar.

Se o pior acontecer, e este ódio se institucionalizar de vez em forma de Governo (já começou, com Cunha na presidência do Legislativo e com um Congresso extremamente conservador e repleto de radicais de direita), não chorem suas mágoas depois.

Aquele que diz ser contra o ódio, mas está sincronizado ideologicamente com quase tudo aquilo que os fascistas também defendem (contra bolsa família, contra mais médicos, querem o PT fora, acham que Dilma quebrou o país, contra cotas, a favor da redução da maioridade, contra aproximações com Cuba e Venezuela, se calam quando o Congresso mantem as doações privadas a campanhas eleitorais ou fazem uma mesma votação duas vezes em 24 horas para inverter um resultado do dia anterior, etc), é cúmplice da alavancada da insanidade.
A você, um lembrete: você não será poupado por estes fascistas quando eles tiverem o Poder ilimitado. Afinal, fascistas não irão reconhecer que você defende algumas das mesmas causas que ele; pelo contrário, ele irá somente reconhecer que você não defende algumas de suas causas, e então, irá te perseguir.

Quem também faz vista grossa, não se manifesta, tenta se manter numa falsa, e/ou hipócrita, e/ou covarde neutralidade (em cima do muro), não deve se enganar, pois também não será digno de misericórdia.
Além disso, é sempre bom lembrar: o silêncio dos bons deixa com que a voz dos maus prevaleça e cresça. Portanto, você, com pinta de neutro, é conivente e cúmplice, infelizmente.

Aos fatos:

  1. Adesivos de montagem pornográfica com a Presidente Dilma sendo distribuídos para serem colados nos tanques de gasolina dos carros. Nem vou me aprofundar neste assunto, nem vou descrever detalhes do adesivo (pois todo mundo o viu, o que dispensa minha narração), pois é tão, mas tão baixo, que sinto vergonha de falar sobre isso. Quem chegou a colá-lo no carro, precisa ser internado numa clínica psiquiátrica, pois está sofrendo de sérios problemas mentais, e não é só burrice não. E não estou falando isso para ofender, ou para mostrar meu desprezo (apesar de merecido), estou falando sério, a pessoa tem sérios problemas e precisa de tratamento.
  2. Maju Coutinho, jornalista da Globo responsável pela previsão do tempo no Jornal Nacional, recebeu diversos ataques racistas e machistas na internet. Entre os comentários, estavam os seguintes: “só conseguiu emprego no JN por causa das cotas, preta macaca” e “não tenho TV colorida para ficar olhando essa preta, não”, além da palavra “vagabunda”, diversas vezes. Ao que parece, a maioria dos perfis que fizeram os ataques, são perfis falsos/fakes, o que para mim, não muda em nada o ocorrido, pois a única diferença entre um perfil fake e um verdadeiro, é que o fake representa alguém covarde, incapaz de se mostrar e expor o que pensa. Para ler mais sobre os ataques, clique AQUI
  3. Deputados do DEM, PR, PSDB, que decidiram ser contra a posição de seus partidos e votaram “contra” a redução da maioridade penal, sentiram por algumas horas, pela primeira vez em suas vidas, a insanidade do ódio. Até então blindados de tais agressões, provavelmente por pertencerem a partidos conservadores, receberam em seus twiters e Facebooks uma série de ataques maliciosos, machistas e sexistas (para as deputadas mulheres), ofensas, ameaças, e tudo mais. Esses deputados se disseram horrorizados, e manifestaram entender melhor agora o que sofrem políticos progressistas.Mara Gabrilli (PSDB-SP), Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Professora Dorinha (DEM-TO) foram algumas das vítimas, escreveu o deputado Jean Wyllys. Segundo ele, as três se referiram às injúrias sexistas e às acusações de que eram “comunistas” e “vendidas ao PT”.
    Entre os que sofreram os ataques, muitos mudaram seus votos 24 horas depois (como foi o caso do deputado Celso Maldaner do PMDB, clique AQUI). A maioria nega a relação entre os ataques e a mudança do voto. Mas cá entre nós, o medo físico, e/ou o medo de perder eleitorado, certamente influenciaram a mudança de muitos deles. Também o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, longe de ser um progressista de esquerda, se posicionou contra a redução, e sofreu a ira dos fascistas, muitas vezes acompanhada de ataques racistas.
  4. Durante a comitiva da presidente Dilma nos EUA, uma repórter da Globo fez uma pergunta maliciosa, como de costume, para ser respondida por Dilma: “Senhora presidente, como lidar com a contradição de que o Brasil se vê como uma potência global, mas os EUA veem o Brasil somente como uma potência regional?”
    Obama, que percebeu a maldade da pergunta, se antecipou e disse: “Com licença, mas na parte que toca aos EUA eu preciso responder. Os EUA não veem o Brasil como uma potência regional, mas sim global. Eu poderia dar vários exemplos, mas vou lembrar somente que o Brasil é um dos países mais importantes e respeitados entre os G20, e além disso, o combate às mudanças climáticas e a diminuição da destruição do meio ambiente, só é possível tendo o Brasil como nosso líder.”
  5. E por fim, e talvez o melhor exemplo de como esse ódio fascista é completamente insano, doente e irracional. Durante a mesma visita da presidente Dilma a Obama, um jovem brasileiro, fã de Jair Bolsonaro, se infiltrou na comitiva de Dilma, e filmando começou a gritar e xingar a presidente. Vejam a notícia da Folha, onde também é possível acessar o tal vídeo (AQUI). Entre as ofensas, estavam as palavras: ladra, terrorista, assassina, comunista de merda e vagabunda.

 

por Miguelito Nervoltado

figura retirada do facebook, compartilhada por diversos perfis

15155110E não é que depois dos rolezinhos com as “invasões” das classes baixas desejosas por aparecer em centros de compras da elite, como a rua Oscar Freire e o Shopping JK; e depois dos funkeiros “ostentação” e seus carrões, cordões e mídia, eis que surje mais um problema para a elite?

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad está revendo o zoneamento da cidade. E, com isso, bairros definidos na década de 70 como “estritamente residenciais” podem ganhar comércios, consultórios e até, pasmem, moradias populares!
“Meu Deus, como vamos fazer nossa caminhada, levar nosso Yorkshire Terrier para passear!” – dizem alguns.
“Estacionar minha Cayenne na padaria ao lado de um Chevette, de um carro mil! E se ele bater em mim? Vai querer me roubar! Nunca pensei que isto aconteceria aqui…” – provável frase de outro.

Não posso dizer que gosto de tudo o que foi feito até aqui pelo político.
A meta colocada (talvez a si mesmo) de 400km de faixas exclusivas para bicicletas (as ciclofaixas) criou bizarrices inimagináveis, como ciclofaixas interrompidas em pontos de ônibus e postes no meio das mesmas.
Sou a favor da priorização adotada em prol do transporte público e das bicicletas; mas é notório que não houve muito planejamento na escolha das vias e caminhos dos ciclistas.
Diferentemente do ocorrido com o zoneamento, já que várias chamadas públicas para discussão do Plano Diretor Municipal foram feitas, por exemplo, na TV. Nas subprefeituras, certamente o assunto zoneamento foi citado. E, se um minimercado é prioridade para os assalariados que trabalham para a elite, e não teriam tempo de comprar itens de necessidade ao chegarem duas horas depois em Guaianazes ou Interlagos, só seria visto com bons olhos pelos moradores se for um “Marché” ou “Pão de Açucar”;

Argumentar que aumentará a violência, ou trará drogas é pura piada de mau gosto.
Outros bairros nobres têm favelas na vizinhança e elas não são a razão da violência. Igualmente com as drogas: quem consome continuará consumindo, mas terá como provável vantagem o menor deslocamento até a “boca”.
O que a elite não deseja é ver os seus imóveis de vários milhões de reais, ou R$20mil o metro quadrado, da badalada Vila Leopoldina, desvalorizados com a construção de moradias populares.
E isso realmente acontecerá se os novos zoneamentos da cidade forem levados a cabo. A zona predominantemente residencial (ZPR) da Leopoldina passará a conter uma Zonas Especiais de Interesse Social (ou ZEIS).

Gostaria que a cidade convergisse para menores deslocamentos e maior qualidade de vida para a população. Se o zoneamento é a solução, ou se o é a tentativa de diminuição do número de veículos com as ciclofaixas, ou ainda a criação de parques e áreas públicas de lazer… não sei.
Mas… convenhamos no “cá entre nós”… as três medidas, são passos no caminho certo.

Sem querer tocar no tema do post anterior, mas já tocando. Nós paulistas, temos muito a evoluir socialmente. (post aqui)
Só não proponho, como o título propunha, a invasão de Alphaville (bairro “ilha” da elite paulistana), por ser de impossível locomoção com transporte público. Talvez este seja a única barreira que “salva” esta parcela elite da perigosa miscigenação de classes.
Se bem que para o MST, seria uma boa…

por
Celsão Irônico

figura e ideia do post retiradas daqui (valeu Caldo!)

P.S.: para quem quiser se informar mais, leia este post. A blogueira Raquel Rolnik, que o escreveu originalmente na Folha, explica o zoneamento. Aproveitando, aqui há um resumo sobre o assunto “Plano Diretor da cidade”, em posts excelentemente explicados pela Raquel em seu blog. 

P.S.2: outra notícia interessante da “revolta” da elite (aqui). 

P.S.3: Não menos importante, o plano diretor de São Paulo está disponível para download neste link.

bandeiraVocê mora em São Paulo?
Acha que estamos no melhor do Brasil, na nata da nata (ou crème dela crème, como diriam os mais “chic“), que temos os melhores restaurantes, melhores serviços, melhor vida noturna e, sobretudo, melhor “extrato” da população brasileira?

Eu não concordo!

Vivo em São Paulo desde que nasci e gosto da cidade (aqui uns podem dizer que sou estranho, pois gosto do Brasil); mas não acho que somos assim tão bons e tão moralmente inexpugnáveis ou perfeitos se comparados a outros brasileiros.
Motor do Brasil? Talvez. Mas as condições dado o ápice da exploração do café, conseguinte força política no cenário nacional e domínio regional (sobre Minas Gerais), trouxeram o dinheiro pra cá. Com ele vieram as indústrias, os bancos, os trabalhadores em busca de oportunidade…

O fato é que somos egoístas, hipócritas e críticos em demasia.
– Não damos lugar a aposentados e grávidas em coletivos. E mais, brigamos se alguém nos cobra isso. Existem inúmeros vídeos amadores com cenas lamentáveis;
– Somos os mais “espertos” no trânsito e também no transporte público: furamos fila, andamos na contramão, estacionamos em vagas demarcadas à prioridades;
– Moramos em ótimos empreendimentos, com opções ilimitadas de lazer; e temos os mais belos carrões, pela simples necessidade de “ostentar”;
– Criticamos com veemência se algum “desclassificado” tenta frequentar o mesmo espaço, mesmo este sendo público. Tal como parques e shoppings, para citar somente dois exemplos;
– Há preconceito aqui contra negros, mulheres, nordestinos, gays, pobres… Mesmo com massivas campanhas na mídia e movimentos e leis contra todos estes preconceitos;
– O carioca é folgado, o mineiro é caipira, inculto, o baiano é preguiçoso, aliás, todos os nordestinos são baianos (o que mais há por lá?), o sul também é uma “mega-região” que tem praias, mulheres bonitas e vinhos. Rótulos…
Mas, se alguém perguntar sobre o nosso rótulo… seremos trabalhadores, esforçados, perfeccionistas, incansáveis.

O que vejo é que poderíamos:
– Tornar o transporte público, melhor ainda, a vida mais humana. Quem teve a oportunidade de dirigir por cidades como Brasília, Blumenau ou Florianópolis, passou pela experiência de ser chamado de “Paulista!” ao cruzar uma faixa de pedestres sem frear para que os pedestres atravessassem. Nestas e em outras cidades brasileiras, é comum termos faixas sem semáforo, onde o motorista dá a preferência para o pedestre (por incrível que possa parecer);
– Passar a conhecer nossos vizinhos, colegas de trabalho e pessoas “invisíveis” do entorno. Não quero aqui pregar a bondade eterna, mas quem sabe o nome da faxineira da empresa ou do prédio? A mesma que passa pela sua mesa todo dia?
– Entender que uma pessoa que te serviu sem um sorriso ou derrubou seu café pode estar com problemas em casa, ou pode ter enfrentado um dia difícil. Como você, ela é humana! E também entender que as frases: “por que trabalha com público se está com essa cara?” e “foi ela que escolheu esse emprego”, podem não servir;
– Aceitar o trânsito, ou buscar alternativas para minimizar seus efeitos sobre nós, como música, tarefas próximas ao trabalho que modem o deslocamento para um horário alternativo, como aulas de Inglês, academia, prática de esportes. No trânsito, lembrar da maxima do “dia ruim” da outra pessoa;
– E, principalmente, reconhecer que somos imperfeitos, que muito do que foi listado é verdade, que o Carioca e o Baiano têm o mar e preferem, corretamente, balancear a vida privada com o trabalho, não se cobrar tanto. Enxergar que, atualmente, boa parte da “nova” indústria automotiva se instalou no Nordeste e Centro-Oeste. Ou seja, lá também haverá mão-de-obra especializada, lá também serão tomadas decisões, lá também há (e haverá mais) desenvolvimento.

Talvez o título seja exagerado, principalmente por comparar São Paulo e sua sociedade à pequenas cidades, de vida pacata e certo “atraso” cultural. Muitas delas seriam a meu ver, perfeitas para se viver.
Obviamente faço um mea culpa, por errar incontáveis vezes e “seguir a cartilha” que pichei.
E, sem dúvida, muitos outros cidadãos de outras cidades brasileiras (grandes e pequenas) ver-se-ão representados como “paulistas”. Não é um problema de onde se nasce, mas sim da maneira de encarar a vida.

por Celsão irônico

figura – montagem com base em figuras daqui e daqui

P.S.: esse post surgiu de uma agradável e construtiva conversa de bar
P.S.2: A Folha publicou uma pesquisa sobre o assunto: São Paulo x resto do Brasil. Para quem quiser ler sobre uma análise não-convencional feita no site Tijolaço (aqui)

discurso“Ainda há muito espaço para criar gado no Brazil”
A frase foi dita numa conversa corriqueira, sobre preços, crise e situação do Brasil. Antes da afirmação do colega, eu havia dito que o gado já se tornara uma “praga”, que requeria muito espaço e que era contra a expansão da criação em prol de duas ou três empresas que lucram atualmente com a pecuária.
“Viajei para Chapecó esses dias, e daqui até lá há um sem-fim de terras inexploradas” (estávamos em Criciúma)
“Mas será que vale mesmo a pena usar essa terra toda para criar boi ou plantar soja? Queremos ser puramente exportadores de alimentos?” – perguntei.
Antes disso já havíamos falado sobre a difícil situação de mercado de empresas de autopeças e dos fornecedores de máquinas para estes; concluímos juntos, para minha surpresa, que fosse qual fosse o partido no governo, a situação não seria outra.

Eis que fomos interrompidos, por um dos participantes daquele almoço, interpelando uma mulher que passava entre as mesas, perguntando-a sobre a verba da obra do CAEP (foi uma sigla que não entendi, significando um centro de detenção provisória para menores).
Por não conhecer o assunto e estarmos numa mesa com outras seis pessoas, não me foquei aos detalhes, mas me atentei à frase seguinte.
“Devia é matar os delinquentes ao invés de prender!”
E outras como; “Viram que há menores aqui que já mataram oito, dez pessoas?” ou “Os vagabundos gostam da cadeia, pois são bem tratados, tem comida, local para dormir…”
A mulher alegou que não acreditava na melhora do cenário através da diminuição da maioridade penal, fazendo visível cara de descontentamento às afirmações de violência e descaso.
“Mas é muito dinheiro empregado nosso numa causa perdida. Não há recuperação!” – afirmava com veemência o mais “problemático” dos companheiros de mesa.
“E se os menores trabalhassem?” Tal frase criou um frenesi entre os presentes, que concordaram em ocupar presos adultos e juvenis. Lavoura, estradas e até as minas locais foram citados como exemplo.
Eu não sou contra, embora acredite que os menores possam ser treinados ou preparados profissionalmente. Sequer consegui colocar meu argumento. A senhora pagou e saiu, enquanto nosso interlocutor efusivo, falava sobre os prodígios dos EUA.

“Viram como a Colômbia está crescendo? É graças à intervenção americana lá. Eles estão acabando com as FARC, com a violência e há crescimento.”
Meu lado mais esquerdo coçou e, enquanto começava a montar na cabeça alguns argumentos, ele seguia.
“A Venezuela está uma bagunça. O Maduro e o PT acabaram com o país!”
Achei divertido a correlação, mas ainda tinha dúvidas se a pessoa tinha conhecimento ou só raiva.
“Por exemplo, os EUA poderiam ter invadido Cuba e acabado com a ditadura e o comunismo de lá se quisessem. Se eles entrassem na Venezuela, resolveriam o problema. E a Venezuela tem algo que os Estados Unidos querem: petróleo!”
Hein?!? Resolveriam o problema ou derrubariam o governo tomariam o petróleo que não é deles?
“Na Síria e Líbia, a situação está bem ruim, depois que o Kadafi caiu…”
“Mas quem colocou o Kadafi e outros ditadores africanos no poder?” atravessei perguntando, para tentar entender onde os argumentos nos levariam.
“Os Estados Unidos!”
“Ufa!”, pensei comigo mesmo aliviado e sorri restaurando a calma. “Não preciso mais levar o cara a sério…”
E, enquanto ele seguia explicando aos demais os excessos do ditador, que montou uma tenda numa conferência da ONU e só colocou mulheres como guardas, apareceu fardado e armado (segundo ele) na reunião principal, montei na mente uma série de perguntas cujas respostas não seriam tão diretas e não trariam sorrisos tão fáceis.

– O que faz a ditadura do Kadafi melhor que a ditadura cubana?
– Você tem ideia dos números sociais dos países do norte da África? Como IDH, educação, liberdades como cidadãos.
– Acha mesmo que os EUA intervêm num país ou governo em prol da liberdade, ou da população?

Respeito as pessoas de direita, que acreditam no capitalismo “romântico”, onde o desenvolvimento traz automaticamente uma “melhora geral”, pois coloca o dinheiro nas esferas superiores e estas “necessitam” das outras esferas para prestar serviços, quer sejam diretos (empregados, segurança) ou indiretos (o consumo emprega em lojas, restaurantes, shoppings)
Mas não consigo respeitar os que criticam a corrupção, mas assumem que fariam o mesmo se tivessem o poder; argumentam contra a distribuição de renda simplesmente porque os pobres agora têm smartphones ou carro zero e acessam os mesmos espaços antes restritos, como Cabo Frio ou Shopping JK.
Não dá pra analisar um assunto sob duas óticas distintas, usando sempre os argumentos mais interessantes naquele momento.

O almoço terminou e cada um seguiu o seu caminho. Por não sermos próximos, fiquei satisfeito por ter “segurado minha onda”, mas não resisti em “plantar” minha opinião no papo seguinte, durante a carona pro aeroporto, com um dos presentes.
Só recebi afirmativas concordando comigo…

por Celsão irônico

figura retirada daqui

maioridade-penalNeste artigo irei apontar alguns dados e estatísticas sobre a violência no Brasil e sobre a Maioridade Penal mundo afora.

Não pretendo aqui fazer grandes debates morais ou éticos sobre a possível redução da Maioridade Penal; tampouco quero especular sobre os mais diversos efeitos colaterais da mesma. Esse aqui não é um artigo filosófico, nem humanista, muito menos moralista. Esse é um artigo de exposição de dados e estatísticas.
Se quiserem saber um pouco sobre a forma como os integrantes deste blog (Celsão e Miguelito) pensam sobre a Maioridade Penal e sobre os diversos efeitos de uma possível redução da mesma, clique AQUI para ler o artigo do Celsão.

  • Como anda este tema pelo Mundo?

Para começar, eu gostaria de compartilhar o resultado de um estudo feito pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), órgão da ONU. A UNICEF levantou os dados de 54 países de grande relevância, e construiu uma tabela com a “Idade para responsabilidade penal juvenil”, e “responsabilidade penal adulta (maioridade penal)”, respectivamente, em vários países. Vejam alguns exemplos que eu selecionei, onde adicionei por contra própria a Nova Zelândia, que não está inclusa no estudo original:

Brasil: 12 & 18
Alemanha: 14 & 18
Argentina: 16 & 18
Áustria: 13 & 19
Chile: 14/16 & 18
China: 14/16 & 18
Espanha: 12 & 18/21
Eslováquia: 15 & 18
Eslovênia: 14 & 18
Finlândia: 15 & 18
Franca: 13 & 18
Grécia: 13 & 18/21
Holanda: 12 & 18
Hungria: 14 & 18
Irlanda: 12 & 18
Itália: 14 & 18/21
Japao: 14 & 21
México: 11 & 18
Noruega: 15 & 18
Uruguai: 13 & 18
Austrália: 10 & 19
Hong Kong: 14/16 & 18

Nova Zelândia: 10/14 & 17
Portugal: 12 & 16/21
Suécia: 15 & 15/18
Suíca: 7/15 & 15/18
Escócia: 8/16 & 16/21
Dinamarca: 15 & 15/18
Bélgica: 16/18 & 16/18
Rússia: 14/16 & 14/16
Canadá: 12 & 14/18
EUA: 10 & 12/16

O que percebemos nesta lista?
Selecionada a grande maioria dos países mais “civilizados” e “evoluídos socialmente” no planeta, temos 21 com Maioridade Penal de no mínimo 18 anos, e em alguns casos chegando a 21 anos.
Há 6 países com critérios mistos (variando de 14 aos 21 anos), onde a criança será julgada como adulto somente em casos bem específicos, por exemplo, quando da ocorrência de crimes gravíssimos. Normalmente o processo é acompanhado de uma avaliação criteriosa da maturidade da criança/adolescente.
Há 1 país que fixou em 17 anos.
E temos 2 países (EUA e Rússia) que possuem Maioridade Penal fixada abaixo de 18 anos.

O que isso significa?
Se aprovado o projeto de lei no Brasil, estaremos nos distanciando, mais um pouquinho, dos padrões de cidadania, de evolução social, de direitos humanos, e do utópico sonho de sermos mais parecidos com os países “desenvolvidos”.

Dos 54 países estudados pela UNICEF, 74% aplicam Maioridade Penal de 18 anos. Algo em torno de 20% aplicam Maioridade Penal flexível/mista, e somente 6% aplicam Maioridade Penal fixa menor que 18 anos.
Clique AQUI e veja o estudo completo da UNICEF.

Há dados mundiais que nos alertam para um grande retrocesso, uma caminhada na contramão da evolução do ser humano enquanto sociedade. E que se a maioria dos países “desenvolvidos” tem maioridade penal de 18 anos, é por que há um motivo bem concreto para isso. Suas legislações chegaram a essas soluções devido há séculos de estudos, progresso, aprendizado, experiências e evolução. E nós, no Brasil, por pura subjetividade e impulsos instintivos, queremos impor aquilo que “achamos”, em detrimento da ciência, da intelectualidade, e da natural evolução das sociedades.

  • Quem é a favor, e quem é contra?

Do lado dos que apoiam estão:
O Congresso Nacional, tido pela maioria dos brasileiros como uma instituição falida, corrupta, apodrecida. Em especial este atual Congresso, que é o mais conservador desde o golpe de 1964 que implantou a “querida” ditadura no Brasil. Hoje, liderados pelos “admiráveis” Renan Calheiros e Eduardo Cunha.
A Grande Mídia, composta por Rede Globo, Revista Veja, Jornal O Globo, Folha de São Paulo, entre outros, cada vez mais dignos de críticas e repulsa da sociedade brasileira, devido a sua parcialidade e falta de profissionalismo e ética. 

Já do outro lado,  são contra a Redução da Maioridade Penal os seguintes órgãos:
ONU, UNICEF, OEA (Organização dos Estados Americanos), CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), CFP (Conselho Federal de Psicologia), CNAS (Conselho Nacional de Assistência Social), CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), e a OAB (ordem dos advogados do Brasil).

E você, está sincronizado com quais grupos? Já parou para pensar no porquê de cada um destes grupos se posicionarem como se posicionam? Já parou para pensar na história, na integridade, nas intenções de cada um desses grupos e como isso reflete na forma deles se posicionarem?

Eu, assim como você, chego a conclusões “próprias”, sem precisar seguir ninguém ou qualquer órgão. Mas, me alivia bastante saber que estou do mesmo lado que a ONU, AMB, OAB, CNBB, UNICEF, OEA, CFP, etc.
Se não te incomoda o fato de estarem ao seu lado a Globo e Congresso Nacional, bom, cada um com sua consciência.

  •  Qual a parcela de culpa dos adolescentes na violência do Brasil?

Segundo os dados da SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública), os jovens entre 16 e 18 anos são responsáveis por 0,9% do total de crimes praticados no Brasil. No caso de homicídios, somente 0,5% são de responsabilidade deste grupo.
Clique AQUI e leia mais.

Segundo o Anuário de Segurança Pública, entre todos os crimes cometidos por menores, cerca de 10% são crimes graves, como homicídio. Mais de 70% dos crimes são crimes contra o patrimônio: furto e roubo (quase 43,7%) e envolvimento com o tráfico de drogas (26,6%). Clique AQUI.

O que concluímos com isso?
Ora, o argumento de que a redução da Maioridade Penal será eficiente para combater a criminalidade no Brasil, é um argumento furado, fruto de desinformação. Supondo uma eficiência de 100% da justiça e da polícia caso a redução seja aprovada, teríamos uma redução de 0,9% na criminalidade do país, e uma redução de 0,5% das taxas de homicídio. Isso significa que, ao invés de termos 200 assassinatos, teríamos 199. Nossa, que melhoria!!!

Reduziremos o número de assassinatos de 200 para 199, mas em contrapartida, estaremos colocando milhares de adolescentes na cadeia, por terem furtado ou por serem foguetinho do tráfico, e quando saírem da cadeia, terão se tornado reais criminosos, traficantes, assassinos, estupradores, com os mais diversos distúrbios mentais. Ou seja, ganha-se 0,9% aqui, perde-se 30% em alguns anos.

Agora, convido vocês a refletirem sobre estes dados. Pense em quanta informação falsa e manipulada você acreditou e que foi desmentida aqui. Reflita, e reposicione-se.
Vai ficar com as mentiras e achismos subjetivos, ou ficará com a realidade e a ciência?

por Miguelito Formador

Leia 18 motivos para dizer não á redução da Maioridade Penal. Clique AQUI (figura do link)

imagesCA7OKUSNMeu principal ponto é que este é um caminho sem volta.
Creio sinceramente que, após aprovada a redução da maioridade penal para 16 anos, alguns falarão sobre 15 ou 14. E o que nos garante que aprovada essa outra redução não se começaria a falar em 13 ou 12 anos?
Afinal, com tanta informação disponível na internet e desenvolvimento social apoiado pela escola, toda criança de 12 anos é capaz de discernir sobre certo e errado e, consequentemente, ser culpada judicialmente por isso. Não é mesmo?

Espero ter passado o “choque” que tive de modo mais exato possível.
É triste imaginar que existam pessoas que defendam prisões indiscriminadas, especialmente de jovens. Hoje, um menor no Brasil só pode ficar três anos detido. Mas não há distinção de tipo de crime. Um furto de pão pode levar a três anos de Febem (ou Fundação Casa) e um assassinato ou latrocínio também.
Uma alternativa a discutir seria a tipificação dos crimes de menores, talvez até aumentando o tempo de detenção.

Mas, meu principal motivo de revolta e choque é o movimento no sentido único de punição!
A sociedade e os políticos que a representam, movem-se em sentido contrário ao resto do mundo dito “civilizado”. Busca-se punições cada vez mais severas aos “invisíveis”, como se eles realmente fossem desaparecer do convívio com os “homens de bem” da elite.

O primeiro passo deveria ser a educação. De acesso universal, gratuito e com a melhor qualidade possível. Visando formar indivíduos com senso crítico, que compreendessem também suas possibilidades, dificuldades e a importância das escolhas na vida, principalmente mostrando àqueles menos favorecidos o abismo social do país.
Uma segunda abordagem seria a prevenção. Trabalhar esportes e profissões técnicas nas periferias. Incentivar ONGs como o Afro Reggae. Trabalhar a leitura e a autoestima, mostrar exemplos de pessoas e carreiras bem-sucedidas que nasceram e se criaram na periferia, fugir dos exemplos socialmente “aceitos” de música e futebol, sem discriminá-los.
Daí sim, num terceiro momento a punição, mas não a repressão. Trabalhar (também) a autoestima e mostrar que há volta no caminho da criminalidade. Fazer os menores trabalharem em asilos e em casas como a AACD. Trabalhar a reinserção com cursos profissionalizantes e/ou esporte.

Como diriam os mais antigos, muita água ainda passará por debaixo da ponte. A primeira “aprovação” na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) será “testada”, pois passará por uma Comissão Especial, pelo Congresso Nacional, Senado, parecer presidencial…
Espero que não “vingue”. Pois erraremos pecando por excesso. Os processos judiciais continuarão morosos e as classes mais abastadas e seus bem relacionados advogados seguirão recorrendo indefinidamente. Duvido que os ricos adolescentes incendiários de índios, os atropeladores de trabalhadores em pontos de ônibus, os que brigam nas ruas, ou os que estupram coletivamente sejam julgados e punidos como o jovem que mora nas ruas e rouba para comer ou cheirar cola; ou mesmo aquele que trafica na periferia por ter observado maus-exemplos de “sucesso” e “conquistas”.
Há uma música do Racionais que fala dessa realidade: “Dizem que quem quer segue o caminho certo. Ele [o menino da periferia] se espelha em quem está mais perto”.

Enfim, quem sou eu para apontar a solução prima e única. Tampouco especulo que a redução da maioridade penal não deva ser discutida.
Mas, discutida abertamente, sem pré-condições e pré-conceitos da elite para com os mais pobres; da mídia para com os invisíveis.
Afinal, não é prendendo toda a população “perigosa” e mantendo-a por toda a vida encarcerada, que acabaremos com a pobreza e a violência no país.

por Celsão revoltado

figuras retiradas daqui e daqui

5ad1f989-1515-4d1c-ac3a-536a6191e526Era mais do que sabido.
Seca prolongada, ausência de planejamento, de reformas e de novos investimentos, base de geração hídrica, pressão para aumento de consumo interno…

Deu no que deu. Apagão em onze estados, ocorrido através de corte de fornecimento feito pelas geradoras por ordem do operador nacional do sistema (chamado ONS).
Pouco interessa agora se as falhas ocorreram na geração, devido aos baixos níveis das represas; na transmissão para as residências, graças a falhas técnicas; ou se foi uma ação “para evitar o pior”, como foi divulgado pela diretoria do ONS (aqui)
Negar o apagão, chamar de corte seletivo de carga no fornecimento, tampouco me parecem estratégias interessantes; já que teremos um ano de baixo crescimento econômico. Se não investimos para fazer ajustes ou reformas necessárias e nos prepararmos para estiagens prolongadas, por exemplo, não acho aceitável culpar São Pedro, o verão ou estagiários pelas falhas que tendem a se multiplicar.

O que falta é cultura, é o “clic” num povo acostumado a ter água e energia elétrica baratas e em abundância.
Em nosso país, a energia elétrica é algo “mágico”. Basta haver uma nova requisição, por exemplo, através do acionamento de um interruptor e, pronto! A luz acende instantaneamente; não importando se aqueles 16 ou 20W a mais vêm da Usina de Paulo Afonso na Bahia, de Angra dos Reis ou de Jirau em Rondônia.
Para a água é a mesma coisa. Nos acostumamos a banhos demorados em casa e a lavar carros, calçadas ou regar plantas com a mangueira ligada o tempo todo. É trágico e comum, mesmo hoje, encontrar pessoas na região metropolitana de São Paulo, com a mangueira a desperdiçar água dentro da própria garagem, enquanto atende ao telefone, busca uma vassoura…
E já que o tal “clic” não acontece quando alguém reprime o desperdício avisando da escassez atual, vai ocorrer, infelizmente, quando essa pessoa não tiver mais água limpa para o banho ou tiver de usar água dessalinizada para lavar roupas.

É um quadro real e está mais próximo do que imaginamos, lamentavelmente.

Para exemplificar parte dos problemas, recomendo a leitura de um excelente artigo, que recebi pela primeira vez em abril passado e tive a feliz sorte de reencontrar (aqui). É uma aula sobre a crise da água, sobretudo se tomarmos os links indicados pelo Leandro.
O autor/repórter enumera diversos problemas, além da estiagem atacada por todos. Para mim, o principal e crucial é a falta de planejamento das nossas cidades.
Defendo que as cidades precisam ter um limite, crescer até determinado ponto para não esgotar os recursos naturais do entorno e não complicar toda a estrutura logística de manutenção da própria cidade. Logicamente é muito mais factível coordenar transporte, segurança, iluminação, saúde pública, educação numa cidade de 500 mil habitantes do que numa cidade de dois milhões. São Paulo e sua ainda crescente e desordenada expansão é inviável para o poder público em todos os aspectos listados acima.

Outro ponto interessante levantado na leitura do site Cosmopista (aqui e aqui) é a mudança de gestão da Sabesp, empresa de águas do estado de São Paulo, que passou a ter ações na Bolsa e focar no lucro puro e simples, priorizando seus acionistas, ao invés de cumprir o papel a que foi criada (tratamento e distribuição de água).
Maximizar lucros sem investimentos de expansão, manutenção ou redução do desperdício é adiar um problema, ou acender uma bomba com um pavio bem longo. O problema pode até “pular” algumas gestões, mas indubitavelmente, vai aparecer. Apesar de não concordar com todos os argumentos ou “mitos” levantados pelo site, tornar uma empresa essencial privada, é de extremo mau gosto (pra dizer o mínimo).

Mas não sou do tipo “matuto” que culpa o desenvolvimento social e a “nova classe média com seus aparelhos de ar condicionado” pelo pico de consumo.
Creio ser natural e inevitável no ser humano o desejo “por mais” ou o desejo de conforto, após sanadas as necessidades básicas como alimentação e moradia. Privar uma mulher de comprar um secador de cabelos, uma família de ter uma nova TV ou toda a sorte de aparelhos na cozinha, é impedir paralelamente o desenvolvimento do próprio mercado interno.
O que poderíamos fazer é avançar nos programas de eficiência energética, tornando o consumo mais inteligente e eficiente ao invés de limitá-lo.
Usando um exemplo, toda geladeira hoje possui o selo “A” do Procel. Por que não “rebaixar” todas para “D” e passar a exigir uma melhor eficiência por kilowatt consumido?
Outro exemplo, este mais utópico, por que não separarmos a água utilizada no banho ou pia para a descarga, ou mesmo para lavagens externas em prédios? Estudos de dez anos atrás já mostravam a viabilidade de caixas d’água intermediárias para este fim.
Sem falar no potencial das energias alternativas, que, apesar do alto valor inicial a investir, tem menor impacto ambiental e menor custo de megawatt gerado que as termelétricas emergenciais a óleo que temos utilizado.

Bem… ao menos o governador Alckmin admitiu que a situação atual é de racionamento (ou de restrição de fornecimento, usando palavras dele), primeiro passo para evitar o pior desabastecimento da história.
Agora é trabalhar na viabilização das energias alternativas, nas novas usinas, novos contratos de transmissão, na redução dos desperdícios e na conscientização ou “clic” na população para voltarmos ao patamar de fornecimento anterior, sem os riscos de privação.

Só isso?!?
Não. Isso é só o começo.

por Celsão correto

figura retirada daqui

De volta ao trabalho

Posted: December 18, 2014 in Outros
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powrót-do-pracy1Bem… As eleições ocorreram há quase dois meses e, após elas, dadas as problemáticas discussões da reta final, amizades se romperam, disfarces foram descobertos e máscaras caíram. Mesmo com muita informação e desinformação, ficou aquele sentimento de que faltou muito a ser dito. E o pior, de ambos os “lados” atuais da política brasileira.

Embora eu já previra que o modus operandi das campanhas seria dos mais torpes e sujos possíveis (ver post aqui), me surpreendi com acusações infundadas, declarações confusas e por programas de negação ao Brasil; onde famosos passaram a fazer alusão a outros países, dizendo que fugiriam caso este ou aquele resultado se concretizasse.
Não discutirei minha escolha, nem farei apologia política nesse momento, mas preciso pedir desculpas pela “ressaca” inevitável que o stress eleitoral me causou.Tal ressaca, aliada à problemas pessoais e a falta de tempo, fez com que sumisse (ou sumíssemos) deste espaço que nos é tão importante e necessário.

Pra tentar encurtar todas as estórias “pendentes” do período, me revoltei com o trânsito, que piora a cada dia em São Paulo para os automóveis particulares, sem melhorar significativamente para os que utilizam transporte público, pois não existe uma política de médio prazo focada e estruturada. Sem citar as ciclo-faixas que surgem aleatoriamente.
Me revoltei também com a falta de educação das pessoas e a inatividade de outras, que insistem em dizer que “não adianta” ao invés de buscar alternativas, como a participação no plano diretor da própria cidade.

Me empolguei com as prisões de empresários do “lava jato” e com todos os 33 indiciamentos do escândalo de trens em São Paulo; mesmo sabendo que tudo aconteceu em primeira instância e que mesmo condenados, levará tempo para que algo mude; pois infelizmente toda a nossa “estrutura” judicial é pesada e lenta e, além disso, existem advogados muito competentes em desconstruir processos com base em pequenas falhas.
Quanto à Petrobrás, que merece post a parte, é estranho como tentam desestabilizar o governo através da reputação de uma empresa problemática sim, mas longe de ser descartável.

Me surpreendi com os trâmites da aprovação da LDO pelo governo; e mais ainda com a reação da oposição (aqui, especificando claramente, o senhor Aécio Neves), que se absteve da votação e não compareceu na manifestação que convocou. Mas não me surpreendi com o Bolsonaro, ícone da direita burra, que insiste em pregar o mais tolo conservadorismo retrógrado.

Acompanhei a crise russa, iniciada pela crise na Crimeia e agora intensificada com as manobras do petróleo; manobras capitaneadas pelos Estados Unidos, que viram que o boicote inicial não surtiria o efeito desejado. Como polícia e protetores do mundo, os gringos seguem “passando pano” para expansões do território israelense, através de invasões ilegais a territórios palestinos.

Enfim… caríssimos leitores… esse pequeno post é mais um pedido de desculpas de um ser preocupado com o entorno, que passou por um período complicado, mas que está empolgado e pronto para “voltar ao trabalho”.
Que venham mais revoltas, empolgações e surpresas boas e ruins. Só assim seguiremos nos informando e crescendo!

por Celsão correto

figura retirada daqui

2014-742976986-2014081799866.jpg_20140817Os posts não são antigos, mas tomados os fatos absurdos que presenciamos nos últimos dias, me senti obrigado a fazer esse adendo, essa atualização.

Parece que, inspirados pelos “puxões de orelha” do post sobre alienação digital (aqui) e da crítica feita à sociedade consumista (aqui) o povo resolveu me provocar.

Meu primeiro destaque negativo vai para o aumento de compartimentos de fotos e vídeos de acidentes e em hospitais.
E, infelizmente, não foram somente selfies feitos pelos próprios enfermos que “vazaram” expondo a fragilidade dos pacientes (famosos ou não) a outros seres humanos. Muitos médicos e plantonistas têm agido da mesma forma. (uma das notícias veiculadas na mídia pode ser lida aqui)

Nessa mesma toada, achei inacreditável como fazer um vídeo do tigre atacando o menino no zoológico ficou mais importante que salvar a vida do menino, quer seja alertando o pai sem noção, quer seja avisando a segurança. Vários dias após o acidente, ainda surgem outros ângulos do mesmo, tomados certamente por pessoas que julgavam ser mais bacana “registrar o momento” que agir!
E não é só isso, brigas de rua, Neymar sendo internado durante a Copa, vídeos caseiros pós acidente aéreo e outras fotos e vídeos absurdos, tornaram-se mais interessantes que cuidar da própria vida, da própria segurança!

Mas o pior mesmo foi ver selfies na internet de acéfalos, que passavam para dar o último adeus, ou prestar a última homenagem a Eduardo Campos (ao menos supunha-se que essa era a intenção).
Como pode uma pessoa entrar numa fila kilométrica para guardar um selfie como recordação? Será que uma foto dessas compartilhada nas redes sociais vale mais que humanidade e humildade?  Esse tipo de comportamento, pra mim, não é SER humano.

por Celsão revoltado

figura retirada do UOL