Posts Tagged ‘capitalismo’

CapturarSou um crítico convicto.
Do tipo de pessoa que critica inclusive aquilo que acredita e defende.
Ou seja, posso reescrever a frase acima para: sou um crítico da esquerda.

Quando me deparo com textos radicais, de ambos os lados, tendo a discordar mais que concordar com os argumentos lançados. Tomar os meios de produção, estatizar companhias estratégicas, coibir e reprimir oposições soam tão nocivas para mim quanto o conservadorismo, ou permitir que as “forças de mercado” livremente moldem a sociedade, ou privatizar a polícia e ainda a máxima do “garantir direitos individuais acima de coletivos”.

Obviamente, para quem me conhece ou acompanha este singelo blog, sabe que o vértice político-social (ou simplesmente, nosso lado “esquerda”) é muito mais forte.
E, como quem defende um lado mais fraco numa partida de futebol ou briga injusta, evitamos seguir criticando as mazelas da esquerda; não só porque cremos serem menores, mas também por conhecer o poderio “social destrutivo” do outro lado.
O que quero dizer é que: se por um lado sabemos pela história que o comunismo criou outras classes sociais e outras injustiças com seu totalitarismo, que o Estado não evoluiu como imaginado, passando de “transitório” a inexistente… por outro é certo que a injustiça social cada vez mais acentuada do capitalismo priva um número imenso de pessoas de acessos: de oportunidades de bons empregos à cultura, privando também o indivíduo da possibilidade de reação, por desconhecimento simples daquilo que o oprime.

Mas aqui, tomo o título emprestado de um dos capítulos da autobiografia de Martin Luther King para criticar o capitalismo e frisar o avanço do monstro “social destrutivo” representado por ele!
Em novembro de 2013, fizemos um post analisando um vídeo que mostrava, usando dados da ONU, que 2% da população mundial detinha mais dinheiro que os 98% restantes, ou ainda que 300 pessoas possuiam a riqueza de 3 bilhões, equivalente à metade da população mundial (link do post aqui).
Pouco mais de dois anos depois, um novo relatório da organização britânica Oxfam, ligada à ONU, mostra que a situação global se deteriorou ainda mais: agora, pela primeira vez, atingimos 1% da população do mundo possuindo o equivalente aos 99% restante. O estudo, com dados do Credit Suisse, mostra ainda que as 62 pessoas mais ricas tem o mesmo que os 50% mais pobres em riqueza. (link aqui para a notícia no site da bbc e aqui para visualizar o avanço assombroso do número nos últimos anos em gráfico – notícia em Inglês – o gráfico chama-se The wealthy few)

Pensar individualmente e priorizar ganhar a vida a construir uma vida, é fácil e factível para os que já se encontram confortavelmente instalados nas classes “AA” ou faixa dos 10% mais ricos de um país. Para aqueles que anseiam chegar lá, o coletivo é importante, muitas vezes imprescindível, quer seja via oportunidades para ingressar em cursos superiores, bolsas de estudos, programas de incentivo para o primeiro emprego ou auxílios diversos.

14014502Minha “opinião pirata” para os que criticam essa luta contra a desigualdade social, apontando vagabundos profissionais que literalmente “já estão com a vida ganha” com os incentivos governamentais, é simples e direta: inveja! É pura inveja e medo de perder o status de pequeno burguês, medo de dividir uma mesa do Fasano com um porteiro.
Aproveito para deixar outro recado a estes medrosos: fiquem tranquilos, pois isso está muito longe de acontecer! E a figura do post foi colocada propositalmente para o demonstrar; mesmo minimizando as diferenças entre as classes sociais, mesmo com crises, mesmo em períodos de estagnação econômica, haverá aqueles que seguirão tranquilos no topo da pirâmide. E, infelizmente, acumulando ainda mais riqueza, como mostra a evolução dos relatórios da ONU!

O economista Carlos Góes explica em entrevista que existem desigualdades boas e outras ruins, e que nosso modo de taxar o consumo castiga as classes menos favorecidas, transferindo na realidade dinheiro do pobre para o rico. Ele próprio defende os programas de transferência de recursos aos pobres como uma das soluções (aqui está a entrevista, depois de argumentos unilaterais contra o relatório da Oxfam. Sugiro que pulem para a parte de perguntas e respostas, notando que mesmo ao ser conduzido a concordar, o economista retoma a linha de raciocínio criticando o capitalismo e o enriquecimento desenfreado).
Se Venezuela, Brasil e Argentina foram “mães” para os pobres nos últimos anos, foram esses os programas responsáveis por alguma dignidade para as famílias e foram esses os governos que tentaram, de forma incompleta e muitas vezes equivocada, reduzir as desigualdades sociais dos países em desenvolvimento.

Para finalizar, deixo uma pergunta para reflexão: se pudesse escolher, você estaria nos 10% mais ricos de um país pobre ou nos 10% mais pobres de um país rico?
Quando eu paro para pensar, chego a conclusão que os pobres no país rico usufruem de uma “estrutura” talvez inexistente até para os 10% mais ricos do país pobre, como educação, segurança, saúde. Por outro lado, pertencer aos 10% mais ricos de um país pobre permite luxos impensáveis até aos ricos de países ricos, Pode-se possuir diversos carros importados, apartamentos em diferentes cidades, usufruir de serviços de mordomos, motoristas, empregadas domésticas, etc… Isso leva para outra análise: da riqueza absoluta versus a riqueza relativa.

por Celsão correto

Primeira figura retirada do site das publicações do Credit Suisse aqui. O site tem muitos documentos disponíveis para download. Usei o relatório de 2014.
A segunda figura veio daqui. A fonte no rodapé mostra “Datafolha, Novembro de 2013”. Época da nosso primeiro post sobre o tema.

 

AAEAAQAAAAAAAAKEAAAAJGQ5Njk0MzViLTYzZWUtNGNhNC1iNTQyLWNlYTZjMDdmYjA0ZACheguei em casa com vontade de filosofar.
Na realidade, todo o caminho trabalho-casa foi de perguntas a mim mesmo. As principais circundavam o “por que mesmo?”, mas também tinha o “vale a pena?”, o “até quando?”, dentre outras.

Quem trabalha, muitas vezes se faz essas perguntas complicadas.
As tarefas executadas, o ambiente de trabalho, o pagamento aquém do que se julga merecido, são alguns exemplos de insatisfações que surgem diariamente e também suscitam auto-avaliações e “filosofias de final de tarde”.

Não só Karl Marx com o seu “mais valia”, mas também Adam Smith (que representava uma corrente de pensamento oposta), concluíram que o custo das horas empregadas em uma tarefa, um bem, um produto é inferior ao valor em si do bem. A diferença básica é que Marx por ser de esquerda “condena” o burguês, dono dos meios de produção; e Smith explica a discrepância como o lucro necessário, afirmando que este lucro é natural e não impelido pelo empresário, porque vem das leis de mercado (oferta e procura).
O fato trocando em miúdos é que uma empresa para ter lucro precisa ter custos de produção menores que os valores de venda dos produtos, projetos ou serviços. E, espero que isso não surpreenda pessoa alguma, o salário dos funcionários é um dos principais custos otimizáveis (ou minimizáveis nesse caso).

Uma boa empresa, “capitalisticamente” falando, é aquela que paga pouco e tem produtos desejados pelo mercado, que vendem independente da época do ano ou local geográfico, de valores absolutos elevados. Caso essa empresa mantenha os empregados de alguma maneira empolgados, seduzidos pelo que quer que seja, terá lucros por muito tempo. Uma empresa-grife pode atrair bons colaboradores, uma empresa de renome em determinado setor também.
Sob a mesma ótica, um bom chefe é aquele que mantém seus funcionários seduzidos por promessas daquilo que mais desejam (melhores salários, promoções, oportunidades de carreira, cursos), pelo máximo de tempo possível. Se um funcionário não reclama do salário ou não pede aumento, por exemplo, nunca fará parte de uma lista de “verba” para aumentos… E, assim que este reclamar, sua reclamação será avaliada e ele entrará na lista na posição que o chefe julgar inevitável, ou seja, dependendo do quão importante for para a organização e do tamanho da ameaça que a saída deste funcionário representar para o departamento ou para a empresa.
De novo trazendo para o português mais simples, um chefe bem visto pela empresa vai “cozinhar” todos os funcionários com o menor salário possível pelo maior tempo possível. E tentará não perder aqueles que trabalham bem, ou seja, muito e de forma assertiva.

E é essa mágica do capitalismo que as vezes me revolta.
É esse empenho que muitos bons funcionários “abraçam” a corporação onde trabalham, sem receber por isso, que me entristece.
As horas extras não remuneradas poderiam ser aproveitadas com a família, com amigos, um hobby, esporte, leituras, auto-conhecimento…
Quantas vezes reclamamos que “não temos tempo para nada”? Quantas vezes (não) pedimos desculpas àqueles que amamos por dedicar mais tempo do que o necessário ao trabalho? E aquele projeto de voltar a estudar, de praticar um esporte?

Espero que essa análise curta ajude os empregados-escravos a pesar seu tempo a mais na companhia, a pensar suas horas extras.
Parabenizo os que conseguem “burlar um pouco” o mais-valia, trabalhando somente o tempo estipulado no contrato de trabalho.

Eu (ainda) não consigo.

por Celsão correto (ou seria um novo Celsão filosófico?)

figura retirada daqui

DanPrice_2Surreal? Acho que não. Eu utilizaria a palavra inusitado.

Desde Abril deste ano, sociólogos, economistas e o empresariado americano discutem a “loucura” feita por Dan Price, fundador e CEO de uma empresa de processamento de compras com cartão de crédito.
Baseado em uma pesquisa sobre felicidade, o empresário decidiu aumentar e igualar os salários de todos os 120 funcionários de sua empresa em 70 mil dólares anuais.
O que daria aproximadamente 18.600 reais mensais, no câmbio de hoje, é mais que o triplo do salário mínimo da terra do Tio Sam ou “terra da prosperidade”; que paga 1600 dólares por mês para seus assalariados (pouco mais que R$5500).

O plano parte da premissa de que ele próprio reduzirá o seu salário a este patamar e que funcionários felizes produzirão mais. Mas obviamente, não agradou a todos: alguns dos funcionários mais experientes (e, provavelmente, com salários mais próximos do valor estabelecido) pediram demissão.

Três pontos a discutir aqui.

O primeiro é a desigualdade. Os Estados Unidos são conhecidos mundialmente pela disparidade entre os salários de funcionários iniciantes e diretores ou CEOs. O valor chega a 300 vezes e não é sequer tomado como normal pela maioria dos que estão no topo.
Não há necessidade de haverem pagamentos tão diferentes entre colegas de empresa ou entre funcionarios e seus chefes diretos. Isso seguramente causa mais problemas de relacionamento e cooperação no trabalho que traz beneces a empresa e ao ambiente capitalista competitivo.
A desigualdade pode haver mesmo sem existir miséria ou pobreza extrema!

O segundo é a imperfeição do modelo capitalista (e do próprio ser humano).
Por mais que a ideia seja original, criativa e bem-intencionada. O Sr. Price tem, a meu ver, uma bomba-relógio nas mãos; já que a empresa está no âmago do capitalismo, e considerando que o ser humano está longe da perfeição.
Para os empregados, o que trouxe alegria para muitos gerará revolta futura, quando um empregado se comparar ao colega “preguiçoso” que ganha o mesmo que ele. E concluirá que “não é justo”.
Ao mesmo tempo, na lógica capitalista, um salário alto permite altos gastos. E haverão certamente viagens, carros e jóias comprados sem planejamento, gerando dívidas e insatisfação. A insatisfação “ligará” a necessidade de ganhar mais, ou ativará a comparação com o colega de trabalho…

O terceiro é a meritocracia. Aquilo que nós, elite brasileira juramos que existe para encobrir nossos privilégios.
O Capitalismo tem na meritocracia a “arte de se enganar”. É nela que explica os porquês: o porquê você não recebeu aquela promoção, o porquê o seu carro é mais novo e potente que o do vizinho, o porquê as férias foram no Caribe.
Mas isso não existe. Sobretudo no capitalismo.
Conseguem imaginar um filho de lixeiro virar diretor de empresa? (“Ok! Lógico que é possível”) E um filho de diretor de empresa, nascido no mesmo dia, tornar-se lixeiro?
A ausência de evolução com mérito próprio no capitalismo faz com que as cenas acima sejam quase impossíveis. (assumo que a primeira é possível naqueles 0,0001%). A desigualdade é carregada de uma geração para as próximas, pois as condições iniciais de competição (capitalista) são diferentíssimas. Um filho de diretor, mesmo sendo um boçal, terá estudado em bons colégios e frequentado bons ‘círculos sociais”, terá um salário aceitável e terá acesso aos mesmos bens e às mesmas férias no Caribe. Um filho de lixeiro poderá fazer universidade, se lutar pra isso. E só!
(como leitura, indico um conto nosso – aqui)

De positivo, e essa medida tem muitos aspectos positivos, o CEO “socialista americano” conseguiu que muitos colegas e compatriotas ponderassem sobre a atual crise mundial, também presente em seu país, e o reaquecimento do mercado. De modo unânime, os capitalistas “de essência”, previram que a economia sofreria muito menos se os salários por lá fossem menos desiguais! Ou seja, se o modelo fosse o socialista…

por Celsão Correto

P.S.: texto “original” do New York Times aqui. E duas discussões: uma apontando as repercussões aqui e o que ele deveria ter feito antes aqui. (perdão, todas as três notícias acima estão em Inglês)

P.S.2: Um escritor/blogueiro que admiro e esreveu brilhantemente sobre meritocracia (ou a ausência de), Alex Castro, infelizmente não tem mais os textos de seu blog disponíveis na rede. Para ler um trecho de seu pensamento sobre o tema, clique aqui. O texto faz parte de uma análise mais profunda – aqui

figura: montagem com figura retirada daqui

Reem_refugiada_PalestinaNa semana passada, um vídeo onde a chanceler alemã, Angela Merkel, dá uma resposta a uma menina, refugiada da Palestina, em um programa de debate com diversos jovens e adolescentes, ficou famoso no mundo inteiro.
clique AQUI

Eu escrevi sobre isso, algumas horas depois do ocorrido, em meu Facebook. Horas mais tarde, o fato já era notícia na maioria dos meios de comunicação do Brasil e do mundo.

A menina, de 13 anos, refugiada palestina na Alemanha, já carregando no rosto um ar de maturidade, mas com um brilho puro nos olhos, cheia de esperança e fé exteriorizadas na expressão facial cativante, diz, em alemão fluente, que sonha com um futuro menos amargo para sua vida, que quer frequentar a universidade e completa dizendo que é muito duro ver tantas pessoas “curtindo” a vida, e não poder curtir junto.

Angela Merkel, num estilo bem estereotipado do alemão, desprovida de sentimentos e de forma incrivelmente racional e direta diz: você é muito simpática, e nós queremos ajudar, mas a Alemanha não suporta milhares de refugiados palestinos e da África. Alguns terão que voltar!

A reação da garota?
Começa a chorar…

O choro dela, não é pela resposta dura. Não é por ela ter sido contrariada. Não é nada disso. O choro dela é por ver todos seus sonhos de futuro desmoronando. Chora por ver as únicas utopias que lhe fazem ainda ter algum tipo de fé na vida, sendo-lhe roubadas. Chora por ser confrontada com o fato de que o mundo dos adultos é muito mais severo e cruel que o mundo das crianças. Chora, por pensar no seu passado, de onde veio, no seu povo, e pensar na ideia de ter, tanto ela quanto outros, que voltar para o inferno de onde saíram.

Refugiada_Angela_01A Sra. Merkel ainda faz um carinho “bem doce” na menina. E diz: sua pergunta foi muito boa, não precisa chorar. WHAAAAT??????

Ainda bem que o moderador no fundo diz: Ela não está chorando por isso, mas pela resposta dura que recebeu e pelo confronto com a realidade.

No que Merkel responde: eu sei disso, mas mesmo assim eu quero fazer um carinho nela.

O que eu penso?
É claro que nem Alemanha, nem França, nem Brasil, nem EUA suportam dezenas de milhares de imigrantes e refugiados chegando em um pequeno intervalo de tempo. Nenhuma economia, nem território, nem infraestrutura, nem sistema de saúde e de educação, sustentam isso. É claro que é preciso ser racional e realista, e tentar delimitar até que ponto o país sustenta abrigar refugiados sem começar a entrar ele mesmo em um caos.

Mas, porém, contudo, todavia, há um caminho muito mais honesto, justo, ético e eficiente. É o caminho do prevenir, para não precisar remediar.

Um bom começo seria se esses países desenvolvidos, como Alemanha, Inglaterra, França, EUA, reparassem danos causados a países mais pobres e em desenvolvimento, devido a cartéis e pagamento de propina a empresários e políticos, feitos por suas grandes empresas e estimulados pelos seus Governos. Tais práticas fizeram/fazem parte de um conjunto de estratégias de desenvolvimento econômico em muitos países desenvolvidos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e que foi fortemente utilizada até um passado recente, mas ainda é recorrente nos dias de hoje. Essas ações causam rombos nos cofres públicos de países já pobres, e geram mais dinheiro para a economia de países já ricos.

Outro bom começo seria tentar reduzir a política de venda de armas para países em guerra. A Alemanha está entre os 5 maiores exportadores de armas do mundo, numa lista que é liderada por EUA em 1°, Rússia em 2°, seguidos por Alemanha, França, Inglaterra e China, que se alteram, ano a ano, entre a 3° e a 6° posições. Os maiores mercados de armas da Alemanha são África e Ásia, Sra Merkel! Continentes de onde veem a maior parte dos refugiados na Alemanha. Que coincidência, não? (Clique AQUI e AQUI para ler mais)
Além disso, dados oficiais apontam que cerca de 2/3 das exportações de armas da Alemanha vão para países fora da OTAN, muitas vezes governados por ditadores em regimes bárbaros, como Argélia, Catar e Arábia Saudita. (Leia mais AQUI)

Resumindo, o que ocorre é o seguinte: para a indústria bélica, não é interessante que as guerras acabem. Assim sendo, estas empresas criam estratégias para que a guerra continue, patrocinando políticas e ideologias, muitas vezes através das mídias e igrejas locais, que gerem mais desavenças e mais ódio, e que evitem movimentos e soluções que visem a paz.

Os Governos destes países ricos, que abrigam as empresas armamentistas, ajudam-nas, ou no mínimo, fazem vista grossa, afinal, quanto mais essas empresas lucrarem, mais impostos o Governo arrecada, mais dinheiro nos cofres do país, ajudando a garantir a boa qualidade de vida.

Enquanto isso, os povos de lá (dos países em guerra), desesperados, fogem e tentam se refugiar em países com a tal “boa qualidade de vida”. Mas estes países, que adquiriram parte desta qualidade de vida com a venda de armas, dizem: nós não podemos lhes abrigar, voltem para a guerra e para seus campos de refugiados.

Que amarga ironia, esta tal de ação e reação, não!?!

por Miguelito Formador

discurso“Ainda há muito espaço para criar gado no Brazil”
A frase foi dita numa conversa corriqueira, sobre preços, crise e situação do Brasil. Antes da afirmação do colega, eu havia dito que o gado já se tornara uma “praga”, que requeria muito espaço e que era contra a expansão da criação em prol de duas ou três empresas que lucram atualmente com a pecuária.
“Viajei para Chapecó esses dias, e daqui até lá há um sem-fim de terras inexploradas” (estávamos em Criciúma)
“Mas será que vale mesmo a pena usar essa terra toda para criar boi ou plantar soja? Queremos ser puramente exportadores de alimentos?” – perguntei.
Antes disso já havíamos falado sobre a difícil situação de mercado de empresas de autopeças e dos fornecedores de máquinas para estes; concluímos juntos, para minha surpresa, que fosse qual fosse o partido no governo, a situação não seria outra.

Eis que fomos interrompidos, por um dos participantes daquele almoço, interpelando uma mulher que passava entre as mesas, perguntando-a sobre a verba da obra do CAEP (foi uma sigla que não entendi, significando um centro de detenção provisória para menores).
Por não conhecer o assunto e estarmos numa mesa com outras seis pessoas, não me foquei aos detalhes, mas me atentei à frase seguinte.
“Devia é matar os delinquentes ao invés de prender!”
E outras como; “Viram que há menores aqui que já mataram oito, dez pessoas?” ou “Os vagabundos gostam da cadeia, pois são bem tratados, tem comida, local para dormir…”
A mulher alegou que não acreditava na melhora do cenário através da diminuição da maioridade penal, fazendo visível cara de descontentamento às afirmações de violência e descaso.
“Mas é muito dinheiro empregado nosso numa causa perdida. Não há recuperação!” – afirmava com veemência o mais “problemático” dos companheiros de mesa.
“E se os menores trabalhassem?” Tal frase criou um frenesi entre os presentes, que concordaram em ocupar presos adultos e juvenis. Lavoura, estradas e até as minas locais foram citados como exemplo.
Eu não sou contra, embora acredite que os menores possam ser treinados ou preparados profissionalmente. Sequer consegui colocar meu argumento. A senhora pagou e saiu, enquanto nosso interlocutor efusivo, falava sobre os prodígios dos EUA.

“Viram como a Colômbia está crescendo? É graças à intervenção americana lá. Eles estão acabando com as FARC, com a violência e há crescimento.”
Meu lado mais esquerdo coçou e, enquanto começava a montar na cabeça alguns argumentos, ele seguia.
“A Venezuela está uma bagunça. O Maduro e o PT acabaram com o país!”
Achei divertido a correlação, mas ainda tinha dúvidas se a pessoa tinha conhecimento ou só raiva.
“Por exemplo, os EUA poderiam ter invadido Cuba e acabado com a ditadura e o comunismo de lá se quisessem. Se eles entrassem na Venezuela, resolveriam o problema. E a Venezuela tem algo que os Estados Unidos querem: petróleo!”
Hein?!? Resolveriam o problema ou derrubariam o governo tomariam o petróleo que não é deles?
“Na Síria e Líbia, a situação está bem ruim, depois que o Kadafi caiu…”
“Mas quem colocou o Kadafi e outros ditadores africanos no poder?” atravessei perguntando, para tentar entender onde os argumentos nos levariam.
“Os Estados Unidos!”
“Ufa!”, pensei comigo mesmo aliviado e sorri restaurando a calma. “Não preciso mais levar o cara a sério…”
E, enquanto ele seguia explicando aos demais os excessos do ditador, que montou uma tenda numa conferência da ONU e só colocou mulheres como guardas, apareceu fardado e armado (segundo ele) na reunião principal, montei na mente uma série de perguntas cujas respostas não seriam tão diretas e não trariam sorrisos tão fáceis.

– O que faz a ditadura do Kadafi melhor que a ditadura cubana?
– Você tem ideia dos números sociais dos países do norte da África? Como IDH, educação, liberdades como cidadãos.
– Acha mesmo que os EUA intervêm num país ou governo em prol da liberdade, ou da população?

Respeito as pessoas de direita, que acreditam no capitalismo “romântico”, onde o desenvolvimento traz automaticamente uma “melhora geral”, pois coloca o dinheiro nas esferas superiores e estas “necessitam” das outras esferas para prestar serviços, quer sejam diretos (empregados, segurança) ou indiretos (o consumo emprega em lojas, restaurantes, shoppings)
Mas não consigo respeitar os que criticam a corrupção, mas assumem que fariam o mesmo se tivessem o poder; argumentam contra a distribuição de renda simplesmente porque os pobres agora têm smartphones ou carro zero e acessam os mesmos espaços antes restritos, como Cabo Frio ou Shopping JK.
Não dá pra analisar um assunto sob duas óticas distintas, usando sempre os argumentos mais interessantes naquele momento.

O almoço terminou e cada um seguiu o seu caminho. Por não sermos próximos, fiquei satisfeito por ter “segurado minha onda”, mas não resisti em “plantar” minha opinião no papo seguinte, durante a carona pro aeroporto, com um dos presentes.
Só recebi afirmativas concordando comigo…

por Celsão irônico

figura retirada daqui

 

post_dilemasComo clamar por desenvolvimento e crescimento, sabendo que ele não é sustentável?
Todos pedem isso atualmente. Dizem que a saída da crise é a retomada do crescimento, é um novo ciclo de industrialização, de ganho de produtividade; que só diminuindo o desemprego e a informalidade, atingiremos verdadeiramente os índices buscados.
Ora, sabemos que o mundo é finito (aliás, bem finito). E que já o estamos degradando muito mais do que ele próprio consegue se recompor/refazer. Há muito tempo, relatórios da ONU alertam para o excesso de desmatamento, aumento de temperaturas globais, diminuição das reservas de água potável, entre outros problemas; trazendo todas as consequências, como diminuição de geleiras, aumento de tornados, desertificações, extinção de espécies…
Como seguir produzindo, por exemplo, automóveis em São Paulo?
Mesmo sabendo que ainda há demanda, que mais e mais pessoas alcançam este “benefício”, sei também que a cidade não está preparada, que não há zoneamento urbano eficiente, que os deslocamentos são cada vez maiores. Tudo leva a crer que a cidade vai “travar” em congestionamentos e saturar-se em monóxido de carbono!
É extremamente difícil pra mim querer o crescimento capitalista, sabendo que ele destruirá o planeta.

No outro lado, como fazer para me alegrar com a diminuição da igualdade e direto aumento de consumo, por exemplo, de carne vermelha nas famílias brasileiras?
Mais carne consumida no mundo, significa mais gado engordando, que precisam de bastante pasto e que geram desmatamento e gases de efeito estufa. (isso mesmo! O gado é o maior vilão das emissões brasileiras de efeito estufa!)
Como querer a evolução das empresas nacionais de carne bovina e de outras carnes processadas e o aumento das exportações se isso pode levar ao aumento do desmatamento?
Mas, com o Congresso atual e sua grande bancada “ruralista”, certamente seguiremos firmes na expansão dos números do setor de alimentos e bebidas, um dos poucos que seguem crescendo neste ano de “crise”.
Mas… meu dilema está em buscar o melhor pra população e para o planeta ao mesmo tempo… Sempre relembrando Malthus que, além de sua teoria demográfica de aumento de população descolada do aumento necessário de produção alimentícia, pregava que: “qualquer melhoria no padrão de vida de grande massa é temporária, pois ela ocasiona um inevitável aumento da população, que acaba impedindo qualquer possibilidade de melhoria“.

Pra finalizar, queria falar sobre a geração e o consumo de energia elétrica.
Somos o país desenvolvido com a maior porcentagem de energia “limpa” e renovável. Se não me engano, cerca de 80% da energia que geramos vem de fontes hídricas. Nossa Itaipu foi durante muito tempo a maior usina do mundo.
Mas agora, prestes a inaugurarmos Belo Monte, percebe-se que não há meio mais economicamente viável que seguir com as hidrelétricas, que, infelizmente, devem ser construídas na Amazônia, última “fronteira” inexplorada deste tipo de energia.
Oras, como negar aos usuários recém integrados ao grid, à rede de energia elétrica brasileira, o direito a uma TV? A um chuveiro elétrico, ou secador de cabelos? A ascenção social trouxe essas possibilidades, “abriu” o mundo antes inimaginável a brasileiros invisíveis. Mas… qual o preço que pagaremos por isso?
Será que queremos mesmo seguir o caminho da industrialização ininterrupta? De produzir bens de consumo para que as pessoas sigam desejando consumir? E, consequentemente, precisarmos de mais energia elétrica e mais devastação sem compensação?

É claro que os temas como: eficiência energética, reflorestamento, fazendas verdes, produção controlada e fontes de energia renováveis podem ser argumentos contra os dilemas discorridos aqui.
Mas são assuntos que tornam ou a produção mais custosa, ou mais trabalhosa/burocrática, e não interessam à grande maioria das empresas; ou seja, só funcionariam com muita pressão governamental.

Como sugestão, mais de reflexão que de solução para os problemas, deixo duas perguntar para concluir este post já repleto de interrogações:

– E se para comprar um carro novo as pessoas tivessem de levar o dobro do peso em materiais reciclados à montadora? (um Uno zero poderia custar R$15.000,00 e mais 300kg de alumínio, 200kg de plástico e 100kg de papel ou tecido)

– E se o governo investisse em energia eólica e solar no Brasil como investiu no pró-álcool na década de 70? Bancando mesmo o programa do próprio bolso e financiando uma parcela da diferença de tarifa? Será que a população toparia gastar mais em energia “verde”? Será que entenderia um endividamento do Estado em prol de algo tão nobre? Certamente não hoje em dia. O fato é que em alguns anos (talvez) não precisaríamos mais das usinas termelétricas a óleo e nem das futuras usinas no Rio Tapajós…

por Celsão correto

figura retirada do vídeo Story of Stuff ou História das Coisas onde a ambientalista Annie Leonard explica como funciona o sistema linear do capitalismo e os efeitos no planeta. Link para uma versão do youtube legendada em Português aqui

FestaXPobrezaO Brasil parece estar chocado com a informação de que a escola de samba do Rio de Janeiro, Beija-Flor de Nilópolis, foi patrocinada pelo ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, com a quantia de R$10 milhões.

O que eu não entendo é o seguinte: por que tanto espanto?

Nós, adultos, já passamos da fase de nos eximirmos de culpa com a desculpa de falsa inocência ou desconhecimento dos fatos.

Olhem para aqueles carros alegóricos do Carnaval da Sapucaí. Quanto vocês imaginam que custa o projeto e construção de um carro destes? E as fantasias? (sei que muita gente “compra” a própria fantasia, mas isso não é regra, pois muitas fantasias a própria escola “banca”).

Óbvio que, para construir um desfile com chances de vitória, necessita-se de fortunas. E por mais que os participantes, integrantes, organizadores, façam suas próprias doações, isso está longe de cobrir as despesas. Ou seja, de onde vem o dinheiro? Do céu?

Não gente. O dinheiro vem de patrocínios, muitas vezes, de grandes empresas. E qual a grande diferença de ser patrocinado por um ditador da Guiné, ou pela Coca-Cola, ou McDonalds, ou Nike, ou Apple, ou Samsung, ou Alstom, ou Itaú, ou Burger King, ou Shell, ou Volkswagen, ou Kalashnikov?

A diferença é que, se o dinheiro vem diretamente do ditador, então fica clara a conexão deste dinheiro com a barbárie. Agora, se o dinheiro vem de uma grande empresa de petróleo, armas, indústria alimentícia, vestuário, tecnologia, bancos, é primeiro necessário pesquisarmos (mas a minoria se interessa por pesquisar, ler, se informar) para então percebermos como essas empresas fazem negócios sujos pelo mundo, desde um simples cartel com pagamento de propina a políticos e empresários, até a exploração de trabalho escravo, assassinatos, contaminação química em países de legislações degeneradas ou pouco desenvolvidas.

Mas no fim, é a mesma coisa.

E é ainda mais inocente pensarmos somente no desfile das Escolas de Samba, e esquecermos do resto das alegorias existentes no mundo, que servem para satisfazer nossas ostentações.
No futebol não é diferente, ou então, como é possível comprar jogadores por algumas dezenas de milhões de dólares? Como é possível sustentar um time que paga, em média, 200 mil dólares de salário por jogador por mês!? Já pensaram o que significa ganhar 200 mil dólares por  mês? Existe alguém no mundo que precisa ganhar isso para ser feliz? Qual a parcela de influência disso na desigualdade social e na fome do mundo?
Ou seja, é gente ganhando dinheiro demais, desnecessariamente, e muitas vezes, dinheiro sujo.

Escolas de Samba, futebol, BBB, prêmio do Oscar, prêmio Grammy, basquete na NBA, festa de réveillon da Globo, propagandas distribuídas em novelas globais e em filmes, e “circus” como os programas do Luciano H. e da Regina C.. Até que ponto tais eventos, esportes, programas, ultrapassam o limite de proporcionar diversão e alegria, e invadem a esfera da busca ilimitada por dinheiro, gerando barbáries mundo afora?

Fala-se muito de “Pão e Circo” quando o assunto é política. Mas o verdadeira tática de “dominação” pão e circo, aparece no nosso dia a dia, e ela só existe, pois há demanda/consumo, ou seja, VOCÊ, EU, NÓS, aceitamos, consumimos, e assim, corroboramos.

Se passarmos a ser mais exigentes e seletivos com nossos lazeres, a oferta também começa a melhorar em qualidade.
Novamente, parece que o segredo e solução está somente em um lugar: VOCÊ!

por Miguelito Nervoltado

P.S.: Complementando o texto, segue um excelente video e análise dos fatos pelo Bob Fernandes (aqui) e a declaração do sambista mais famoso da escola sobre o financiamento (aqui)

figura retirada daqui

circulo vicioso_modificadoSaiu na semana passada uma nova previsão do crescimento do PIB no Brasil.
Agora, segundo economistas, teremos um crescimento pequeno, semelhante ao de 2012, de pouco menos de 1%. Atrelado a esse crescimento, está a previsão de “aumento” da inflação, que deve ficar no topo da meta do governo, em 6,5%.
(pra quem não sabe, o governo federal tem uma meta de inflação a cumprir, de 4,5%. Essa meta admite uma flutuação de 2%, ou seja, pode ficar entre 2,5 e 6,5% – informações da Wikipedia)

É a nona “queda” seguida desta previsão nesse ano. Mas como voltar a subir, se entramos num ciclo vicioso de desconfiança na economia?

Quero colocar uma estorinha com minha impressão sobre tais previsões e estimativas…
– Um escritório conceituado de estudos econômicos ouve que duas fábricas estão fechando no país
– Sem saber dos detalhes da ação, deduzem que haverá decréscimo de produção naquele setor da indústria
– Uma redução na indústrias faz com que empresas da cadeia (fornecedoras ou consumidoras) desistam de expandir, de investir
– Os empresários que “aplicariam” em capital produtivo, geração de emprego, etc., aplicam nos bancos, capital especulativo
– Sem produção não há oferta e o preço sobe
– Aumento de preço faz com que o público pare de comprar (pensando em mercado interno)
– Sobras de produção, pressão no governo para reduzir impostos e taxas e estimular o consumo
– Os que podem consumir não pararam, mas a redução de taxas não causa um aumento significativo do consumo e há demissões
– As demissões geram mais encolhimento em setores industriais e os índices voltam a cair…

Muito pode ser melhorado nesta análise simplista, obviamente. E muitos erros podem ser apontados em pontos específicos da minha análise.
Por exemplo, deduzir redução de produção industrial com o fechamento de fábricas, antes que a redução em si ocorra, é ignorar as leis de mercado. Muito provavelmente haverá mais oportunidades em outra empresa com o aumento da demanda deixada pelas empresas que sairam.
E, para determinados setores, como o automotivo, pouco importa se as vendas caem. A margem de lucro não pode cair! E é responsabilidade do governo (leitura deles) re-estabilizar a balança e assegurar os empregos e, consequentemente, os mercados consumidores.

Por outro lado, se tomarmos alguns dos nossos pontos mais frágeis não há solução no curto prazo… Sem educação não há facilidade pra recolocação de pessoas demitidas; sem incentivos para o empreendedorismo não surgem novas empresas; com a desindustrialização, insumos necessários passam a ser importados, quebrando toda a cadeia; há concorrência desleal sem proteção de mercado contra bens produzidos na China; sem construtivismo na política não se discutem ideias e alternativas, há apenas crítica.

É curioso, mas o jornal Valor Econômico divulgou há um mês que 46% das empresas brasileiras planejam ampliar investimentos em máquinas e equipamentos nos próximos meses (aqui). E expansões, construções de novas unidades estão nos planos de um quarto das empresas, segundo a mesma notícia; números muito maiores que os observados em países desenvolvidos, ou mesmo nos BRICs. Como pode? Será que o empresariado está na contra-mão do que pensam os especialistas? Ou será que há um certo “exagero” no pessimismo/conservadorismo gerando esse ciclo-vicioso?

Mas o que mais me aborrece com essa estória são as pessoas, muitas delas instruídas, que alimentam a especulação, que compram dólares “antes das eleições, pois… vai saber né?”, que preferem e optam por produtos importados quando há similiar nacional, gerando emprego e renda aqui, que criticam o país e reforçam a máxima de “Made in USA” (embora pouco não venha da China atualmente). Ouço de pessoas próximas que “ano de eleição não é ano para gastos. É ano para se preparar, pois algo pior pode vir” ou mesmo “vou gastar tudo o que tenho agora, comprando via internet em dólar, pois com inflação não mais farei isso”.

Não estou dizendo que a política monetária e econômica do país é perfeita. Quisera eu poder avaliar com propriedade e de forma contundente a taxa Selic, a nossa burocracia, as reservas em dólar, os empréstimos do BNDES; ou ter total transparência e ingerência sobre os gastos públicos.
O que quis expor aqui é o fato que, muitas vezes, nós mesmos retro-alimentamos a “máquina” da desconfiança, o ciclo vicioso do medo da inflação, terror da economia Brasileira…

por Celsão correto

figura: montagem a partir daqui

Leonardo_BoffUm dos mais conhecidos teólogos do Brasil, Leonardo Boff é um nome atualmente aclamado em todo o mundo. Aos 75 anos, Boff é um intelectual, escritor e professor premiado e respeitado no país, cuja opinião é ouvida por personalidades com o Papa Francisco e os presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Já o acompanho e leio suas ideias há um bom tempo. Dificilmente tenho algo a criticar sobre o que ele diz, normalmente é impecável aos meus olhos. Pensador que possui muita sanidade, honestidade intelectual, sabedoria, bondade, vasto conhecimento, e muito, mas muito senso de justiça.

Nesta entrevista, porém, Boff se supera. Ele consegue, em poucas linhas, tratar laconicamente, mas nem por isso sem eficiência e/ou sem didática, de diversas questões que parecem, aos olhos de muitos, não estarem conectadas, mas na verdade muitas delas se encontram e se influenciam, direta- ou indiretamente, muitas vezes num jogo de “causa e efeito”.

Entre os assuntos tratados por ele estão: pobreza e riqueza, ética social, sistema capitalista selvagem baseado na especulação financeira, política no Brasil, PT e Dilma, candidatos e partidos de oposição, avanços sociais obtidos nos últimos anos e o que ainda falta para o povo. Fala ainda da igreja católica e cristã, passando por Jesus Cristo e chegando ao momento atual da Igreja Católica com o Papa Francisco. Fala do protestantismo e Lutero, critica os religiosos que fazem da religião um grande “negócio”, usando o evangelho para justificar ideias retrógradas, tirar dinheiro dos fiéis e manipular mentes. Tece comentários sobre a situação no Oriente Médio (Israel & Palestina), aborto, violência, crise econômica e social na Zona do Euro, América Latina como esperança para o futuro, e sobre a crise ecológica e econômica mundial.

Sobre essas últimas duas, Boff diz estarem profundamente conectadas, estando o capitalismo fundado na exploração dos povos e da natureza. Ele fala: “Esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e à alimentação”.

Para ler a entrevista, clique AQUI.

por Miguelito Filosófico

* figura retirada do perfil de facebook de Leonardo Boff

Why Beauty MattersO filósofo Roger Scruton, autor do documentário Why Beauty matters, dissePenso que nós estejamos perdendo a beleza, e tenho medo que com ela, percamos o sentido da vida.

A beleza tem sido central para nossa civilização há 2000 anos. Na Grécia antiga, a filosofia refletiu sobre a arte, a música, a arquitetura e sobre o dia a dia, enchendo as vidas de beleza. Filósofos argumentavam que através da percepção da beleza, moldamos o mundo como um lar, e também passamos a compreender melhor a própria natureza e essência da vida. Os artistas usavam a beleza da arte como escape para a dor e o caos inerentes ao mundo.
A beleza era um valor tão importante quanto a verdade e bondade.

A partir do século XX, a beleza foi deixando gradativamente de ser importante, e seu espaço passou a ser ocupado pelo culto à “utilidade”. A criatividade passou a ser substituída pela “originalidade”, e assim a arte (em muito encabeçado por Marcel Duchamp) passou a ser uma ferramenta de quebra de tabus e de destituição da moral vigente, perdendo a sua essência bela e criativa; deixou de se colocar como um escape para as dores da alma e como agente gerador de alegria, e se tornou ferramenta legitimadora da concepção de que a vida humana é suja, triste e caótica, buscando constantemente representar fidedignamente estas características.

Mictório de Duchamp - Arte do século XX

Mictório de Duchamp – Arte do século XX

Esse impasse não se resume à arte, mas também está presente na arquitetura, que ficou sem alma e estéril. Vemos que a beleza das edificações passou a ser irrelevante, e a utilidade e praticidade das mesmas passaram a ser prioridade. Porém, essas edificações, com o passar do tempo, passam a ser antiquadas, fora de moda, e assim o que antes era útil torna-se inútil.

Essa degeneração vai ainda muito além. Nossa linguagem, costumes, maneiras, comportamentos estão cada vez mais rudes, autocentrados e ofensivos; nossos valores estão dando nó em inversões e distorções abismais.
A beleza, o bom gosto, a educação, as boas maneiras, a cordialidade, perderam seus valores e não tem mais lugar nas sociedades de hoje, e podem gerar até mesmo preconceitos e bullying para com aqueles que ainda buscam orientar suas vidas baseado nestes preceitos.

A percepção da beleza do coletivo e de tudo que está ao nosso redor, é substituída pelo individualismo, lucros, desejos, inveja, cobiça, prazeres momentâneos e irresponsáveis; e a beleza dos sentimentos, gestos e ações escorrem pelos nossos dedos. Isso colabora na geração de um sistema selvagem, um capitalismo predador onde quanto maior o poder financeiro de um indivíduo, empresa ou Nação, maior o seu valor e prestígio.

Vejamos, por exemplo, a representação da beleza do ser humano. Antigamente, muitos artistas e filósofos buscavam, através da contemplação, retratar e descrever o ser humano de forma pura e bela, em toda sua essência e perfeição (de acordo com Platão, a beleza é uma visitante de outro mundo. Não podemos fazer nada com ela, a não ser contemplá-la. Se tentarmos tocá-la acabaremos por profaná-la, destruí-la).
Hoje em dia a representação da beleza do ser humano, principalmente da mulher, está corrompida, degenerada. Uma sociedade machista e pervertida estimulada por todos os possíveis estímulos do marketing e dos costumes patriarcais, não é mais capaz de encantar-se com a leveza dos traços e movimentos femininos, pelo contrário, esta beleza foi assaltada pela pornografia e simbolização da mulher como objeto sexual de consumo masculino.
Esta representação se vê no cinema, na música, na televisão, nos cartazes e outdoors, nos programas de entretenimento de hotéis, bares, baladas, nos anúncios de internet, nos livros e até mesmo em pinturas e esculturas.

E qual a perspectiva pro futuro? Bom, não é nada boa.
Os sistemas educacionais estão cada vez mais degenerados, a Grande Mídia mundial cada vez mais zela pelo interesse dos grandes senhores da elite em detrimento dos interesses da maior parte da sociedade. Assim, uma sociedade paranoica, caótica, egoísta, rasa e amedrontada, ou como diria Zygmunt Bauman, uma sociedade de valores líquidos, é criada, e um buraco vazio é deixado no lugar onde antes habitavam naturalmente valores de ética, de moral, de espiritualidade, de coletividade e de beleza. Para ocupar esse espaço, entra em ação o Marketing, responsável por gerar necessidades sintéticas, guiando as pessoas a preencherem este espaço com a nova ordem: Consumo!

Em nome da manutenção deste Status Quo, toma-se de assalto a palavra “democracia” para acusar de ameaçador e desrespeitoso o fato de alguém julgar os gostos e opiniões de outros. Alguns até consideram ofensiva a sugestão de que possa haver “bom gosto” e “mau gosto” quanto ao que se lê, assiste ou escuta.
Assim, beleza e fealdade são colocadas em mesmo patamar de igualdade, e qualquer opinião, por mais preconceituosa, bárbara, retrógrada, desprovida de lógica racional ou fora de contexto com a realidade, deve ser “respeitada”.

Quando ignoramos a beleza, nos encontramos em um deserto espiritual, nossas vidas perdem o sentido, e a insatisfação sempre estará presente por melhores que nossas vidas possam parecer! Viveremos constantemente em estado de ansiedade e nervosismo, mas não saberemos a origem de tais sentimentos; teremos medo, mas não saberemos do quê.

Porém ao adotarmos a beleza como base cultural, a harmonia e paz nos invadem.

Contemplação

Imaginemos, por exemplo, um momento de contemplação, olhando fixamente para a natureza bela. A brisa leve nos sequestra da realidade dos apetites materiais e transporta nosso pensamento para um espaço-tempo sublime adormecido no fundo de nossa alma, e aí os raios de Sol tocam nosso rosto, e nos lembramos de uma melodia perdida em nosso subconsciente, que nos remete a uma recordação nostalgicamente alegre de algum momento mágico do passado, ou aos traços do rosto de uma pessoa amada, e de repente, como que num toque de mágica, somos preenchidos por uma alegria que transborda, e naquele exato momento percebemos indubitavelmente que nossa vida vale à pena.

por Miguelito Filosófico

Para assistir ao documentários Why Beauty Matters, clique AQUI

Este mesmo artigo foi publicado no blog Soul Negra, que aborda temas de todos os tipos relacionados à cultura, moda e beleza Negra. Clique AQUI