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maxresdefaultEu estava com pressa.
Daquela maneira que todos estão com pressa em São Paulo, sobretudo a caminho do trabalho numa manhã de Janeiro, pós-recesso de fim de ano.
Os tradicionais desvios de rota, buscando espaços vazios, me levaram para uma ruela, ladeira, e eu tinha de cruzar para a esquerda. E os carros estavam enfileirados no trânsito da avenida Dr. José Maciel…

E aconteceu.
Um gesto de um motorista amigo, sinalizando “Venha!“, fez com que eu avançasse para cruzar à esquerda. Meu plano era dar aquela “paradinha” no meio fio e perceber se o movimento da outra pista me permitiria seguir sentido centro.
Mas no momento de “embicar” e sem prever o acidente, uma moto pequena que trafegava pela faixa amarela que dividia as duas pistas encontrou o meu “bico” prateado.
O “Fodeu!” saiu instantaneamente. E os momentos posteriores se misturaram entre terminar a conversão com as mãos suadas, buscar um local para estacionar o mais rápido possível, praguejar por ter saído atrasado e com pressa, buscar apoio pra minha culpa com o colega motorista que sinalizou aquele “Venha!“…

Tive calma para ligar o pisca-alerta do meu carro, buscar meu triângulo, isolar a área do acidente e pedir para que o motoqueiro (meu Deus, era um senhor grisalho!) não se levantasse.
Tive paciência com a vítima que não quis sequer falar comigo e com os transeuntes que saíam do bar da esquina e que vinham pela rua censurando todos os motoristas de automóveis. “Você viu?” – me perguntavam alguns. “Vi que o motorista fugiu! Alguém anotou a placa?” – respondiam acusando outros. “Ninguém enxerga as motos” – era o consenso de quem sequer havia acompanhado o ocorrido.
Tive a sapiência de esperar CET (no caso, CIRETRAN), esperar familiares e amigos da vítima, esperar a ambulância.
Tive a educação de oferecer transporte para o hospital e de compartilhar meus contatos com a irmã do Sr. Elói e com quem me pedisse.

Nada mencionei (ao CET ou ao meu seguro) sobre a meia de compressão que o Sr. Elói usava no momento do acidente; nem sobre os comentários de sua própria irmã, Dona Sílvia, que dizia “Ele não poderia estar andando de moto! Eu falo pra ele“.
Tampouco alardeei os detalhes do problema: cirurgia de trombose recente e solicitação para recuperação em repouso. Ao contrário: nas minhas ligações para a Dona Silvia, me oferecia para ajudar, proativamente.
Soube da transferência para o Hospital Geral e da probabilidade de nova cirurgia na perna direita. Soube da ocupação no pequeno comércio, o que explicava todos aqueles sacos de salgadinhos espalhados pela avenida naquela manhã; ocupação que exercia depois de aposentado.

Não entendi quando as notícias pararam de ser transmitidas, as conversas interrompidas, as ligações pararam de ser atendidas.
Não entendi tampouco quando recebi a negativa do registro da ocorrência pela internet. “Quando há vítima é necessário ir até uma Delegacia da Polícia Civil“, dizia a mensagem por email.
Piorou quando fui informado na Delegacia da impossibilidade do registro do boletim sem a vítima. “Você quer que ele pague o amassado do seu carro?“, me perguntava o atônito policial. Eu só queria cumprir as exigências do seguro para um eventual suporte para terceiros.

Eis então que, meses depois, sem aviso anterior, recebo um email do “doutor” Daniel, advogado, representando a vítima, me solicitando guincho e conserto da moto, ressarcimento de gastos hospitalares, indenização pelos lucros não computados no comércio, danos morais…
As conversas me enojaram a tal ponto que passei, tão rápido quanto pude, as tratativas para o departamento responsável da empresa de seguros.
Não sei como acabou, não quis buscar outros detalhes, não investiguei vítima, advogado, detalhes da internação. Preferi acreditar que não haveriam outros “Elóis” e “Daniéis” no decorrer do ano.
Deu certo!

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Essa é uma estória real, com excessão dos nomes, que omiti sem sequer saber o porquê.
Aconteceu no início do ano passado e me afligiu em alguns momentos, por um longo período. Não pelo eventual trabalho de preparar documentos e descrever o acidente, mas pela pequenez e mesquinhez dos seres humanos envolvidos. Por ter me encontrado com alguns dos que só pensam em si, em lucrar sobre qualquer custo, em levar vantagem…

Vejo o fato de não “jogar no ventilador” a doença prévia e a provável proibição de conduzir motos como um ato ético de minha parte (uns usariam trouxa), visando proteger o “frágil” e garantir que ele tivesse um suporte digno, ao invés de responder juridicamente a um processo.
Eticamente também, assumi a responsabilidade que me cabia, sem fazer picuinha ou buscar justificativas que me amparassem. Mesmo ouvindo de diferentes colegas relatos com desfechos horrendos, ocorridos com motoqueiros, não busquei advogados e realmente acreditei que a senioridade da vítima, trazia ética e bom senso.
No frigir dos ovos, a ética pagou o pato!

Desejo a todos os leitores que as páginas do livro de 2016 sejam preenchidas com utopias e agradáveis surpresas. E, mesmo se houverem problemas a transpor, que não venham acompanhados de “Elóis” e “Daniéis”.

por Celsão revoltado.

figura retirada daqui – um entre tantos vídeos do Youtube gravados por motoqueiros com câmera

 

bandeiraVocê mora em São Paulo?
Acha que estamos no melhor do Brasil, na nata da nata (ou crème dela crème, como diriam os mais “chic“), que temos os melhores restaurantes, melhores serviços, melhor vida noturna e, sobretudo, melhor “extrato” da população brasileira?

Eu não concordo!

Vivo em São Paulo desde que nasci e gosto da cidade (aqui uns podem dizer que sou estranho, pois gosto do Brasil); mas não acho que somos assim tão bons e tão moralmente inexpugnáveis ou perfeitos se comparados a outros brasileiros.
Motor do Brasil? Talvez. Mas as condições dado o ápice da exploração do café, conseguinte força política no cenário nacional e domínio regional (sobre Minas Gerais), trouxeram o dinheiro pra cá. Com ele vieram as indústrias, os bancos, os trabalhadores em busca de oportunidade…

O fato é que somos egoístas, hipócritas e críticos em demasia.
– Não damos lugar a aposentados e grávidas em coletivos. E mais, brigamos se alguém nos cobra isso. Existem inúmeros vídeos amadores com cenas lamentáveis;
– Somos os mais “espertos” no trânsito e também no transporte público: furamos fila, andamos na contramão, estacionamos em vagas demarcadas à prioridades;
– Moramos em ótimos empreendimentos, com opções ilimitadas de lazer; e temos os mais belos carrões, pela simples necessidade de “ostentar”;
– Criticamos com veemência se algum “desclassificado” tenta frequentar o mesmo espaço, mesmo este sendo público. Tal como parques e shoppings, para citar somente dois exemplos;
– Há preconceito aqui contra negros, mulheres, nordestinos, gays, pobres… Mesmo com massivas campanhas na mídia e movimentos e leis contra todos estes preconceitos;
– O carioca é folgado, o mineiro é caipira, inculto, o baiano é preguiçoso, aliás, todos os nordestinos são baianos (o que mais há por lá?), o sul também é uma “mega-região” que tem praias, mulheres bonitas e vinhos. Rótulos…
Mas, se alguém perguntar sobre o nosso rótulo… seremos trabalhadores, esforçados, perfeccionistas, incansáveis.

O que vejo é que poderíamos:
– Tornar o transporte público, melhor ainda, a vida mais humana. Quem teve a oportunidade de dirigir por cidades como Brasília, Blumenau ou Florianópolis, passou pela experiência de ser chamado de “Paulista!” ao cruzar uma faixa de pedestres sem frear para que os pedestres atravessassem. Nestas e em outras cidades brasileiras, é comum termos faixas sem semáforo, onde o motorista dá a preferência para o pedestre (por incrível que possa parecer);
– Passar a conhecer nossos vizinhos, colegas de trabalho e pessoas “invisíveis” do entorno. Não quero aqui pregar a bondade eterna, mas quem sabe o nome da faxineira da empresa ou do prédio? A mesma que passa pela sua mesa todo dia?
– Entender que uma pessoa que te serviu sem um sorriso ou derrubou seu café pode estar com problemas em casa, ou pode ter enfrentado um dia difícil. Como você, ela é humana! E também entender que as frases: “por que trabalha com público se está com essa cara?” e “foi ela que escolheu esse emprego”, podem não servir;
– Aceitar o trânsito, ou buscar alternativas para minimizar seus efeitos sobre nós, como música, tarefas próximas ao trabalho que modem o deslocamento para um horário alternativo, como aulas de Inglês, academia, prática de esportes. No trânsito, lembrar da maxima do “dia ruim” da outra pessoa;
– E, principalmente, reconhecer que somos imperfeitos, que muito do que foi listado é verdade, que o Carioca e o Baiano têm o mar e preferem, corretamente, balancear a vida privada com o trabalho, não se cobrar tanto. Enxergar que, atualmente, boa parte da “nova” indústria automotiva se instalou no Nordeste e Centro-Oeste. Ou seja, lá também haverá mão-de-obra especializada, lá também serão tomadas decisões, lá também há (e haverá mais) desenvolvimento.

Talvez o título seja exagerado, principalmente por comparar São Paulo e sua sociedade à pequenas cidades, de vida pacata e certo “atraso” cultural. Muitas delas seriam a meu ver, perfeitas para se viver.
Obviamente faço um mea culpa, por errar incontáveis vezes e “seguir a cartilha” que pichei.
E, sem dúvida, muitos outros cidadãos de outras cidades brasileiras (grandes e pequenas) ver-se-ão representados como “paulistas”. Não é um problema de onde se nasce, mas sim da maneira de encarar a vida.

por Celsão irônico

figura – montagem com base em figuras daqui e daqui

P.S.: esse post surgiu de uma agradável e construtiva conversa de bar
P.S.2: A Folha publicou uma pesquisa sobre o assunto: São Paulo x resto do Brasil. Para quem quiser ler sobre uma análise não-convencional feita no site Tijolaço (aqui)

O que quero para 2015

Posted: December 30, 2014 in Comportamento, Outros
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ano novo e natalDiferente do que fiz um ano atrás, sobre os desejos para 2014 (post aqui), não usarei o futuro do pretérito. Ficarei no presente mesmo, quiçá consigo “forçar mais” o futuro a se transformar no que desejo.

Quero um país cada dia mais transparente, com menos impunidade, em todas as esferas, quero que todos percebam por si só que agir conforme a lei não só é natural, como é sadio para o bom relacionamento com outros indivíduos, e com a própria lei.

Quero que sigamos por aqui, com essa gana de escrever, partilhar nossas “opiniões piratas” por onde quer que elas sejam ouvidas; e que continuem nos lendo, que nosso eco se espalhe e que isso impulsione notícias em jornais, revistas e outros blogs por aí!

Quero um São Paulo mais humano, com paulistas mais pacientes e cidadãos. Como vivo na cidade, me preocupam os problemas e as mazelas da mesma, mas me preocupa mais o ser que vive nela, principalemente por viver em função do SI próprio e do TER.

Quero uma oposição política mais atuante. Pois, após toda a disputa das eleições presidenciais, pareceu-me que a oposição “queria mais não queria” ganhar. Será excelente para a Nação e para a própria democracia se toda a energia do pleito se deslocar para críticas construtivas, discussões importantes e diálogos fomentadores de ações, envolvendo as bases da sociedade; afinal, os políticos nos representam e é justo que trabalhem em nosso favor, dos pequenos problemas do bairro/cidade através das câmaras municipais ao Senado federal.
Aqui faço uma ressalva quanto aos protestos. Que eles sigam existindo, mas que gerem quórum alinhado e uníssono a ideias que possam ser discutidas, ou “levadas adiante”. Protestar a favor da legalização da maconha ou sem roupa pedindo por emprego, respeito ou ciclovias rotula os praticantes muito mais que atinge os objetivos iniciais.

Quero que a presidente e seu grupo de apoio entendam que reformas são mais que necessárias, são imprescindíveis para o bom andamento do país. Se no primeiro mandato, o governo pecou por não ouvir o que o mercado e os especialistas diziam (nesse aspecto), nesse segundo mandato pode pecar de forma pior se ouvir somente os mesmos (que agora querem mudanças mínimas, para que o impacto do governo na economia “instável” não seja percebido).
Aliás, continuo achando a reforma midiática mais urgente e importante que a política; mas começando pela segunda, “cortando na própria carne” dos que estão no poder, ganha-se a força necessária para aprovar a primeira, independente do que a imprensa dirá.

Quero que as pessoas com dinheiro percebam que ele não é o mais importante. Que reflitam sobre o como o conseguem, nesse nosso mundo capitalista, e que consigam dispor de parte dele em prol da caridade e do próximo.
Quero que cada profissional exerça sua função da melhor forma possível, não só pelo “mais valia” que recebem no final do dia ou mês, mas por fazer parte de toda uma “rede” intrinsecamente conectada, onde o mal se propaga com facilidade e rapidez. E, se acaso não for possível fazer o melhor, que haja coragem para buscar outras funções na empresa, outro emprego, outra profissão! Afinal, já que passamos mais horas no trabalho que com nossos amigos e família, deve haver prazer e satisfação para que o círculo virtuoso se feche.
E aos professores, mártires da formação dos futuros brasileiros (uma vez que há muito a tarefa lhes foi delegada), que sigam com a iluminação diária e a paciência para formar, educar e preparar.

por Celsão correto.

P.S.: Creio que deu pra perceber que os “queros” não se alteraram muito quanto aos “querias” pra 2014. O mais importante é seguir lutando, nem que seja no próprio “micro-cosmo” da família, escola, departamento, amizades. Se para uma pessoa, você fizer a diferença, missão cumprida!

P.S.2: Sim, um ano se passou e estou mais romântico e utópico que nunca, ou melhor, que sempre…

figura retirada daqui

Não há como negar.
A maioria dos brasileiros critica políticos e juízes corruptos, mas assume que roubaria também, ou, sendo mais polido, “jogaria o jogo” se estivesse no poder ou tivesse a chance.

Usar vagas para deficientes, sonegar imposto de renda ou buscar meios ilícitos de aumentar a restituição, dirigir após dois chopps ou uma taça de vinho, são apenas alguns exemplos de maus comportamentos aceitáveis socialmente.

Abaixo, compartilhamos um excelente texto do leitor e amigo Erick Nogueira.
Boa leitura!


cidadania_éticaSempre foi hora de acabar com a hipocrisia e a corrupção neste país, e de tempos em tempos aparece um herói prometendo este milagre.

As práticas condenáveis no setor público, dentre elas a corrupção, são exatamente, ou em sua grande maioria, réplicas de práticas antigas e atuais do setor privado e, para existir, precisam atuar em conjunto com o setor privado.

Apadrinhamento, bola, sonegação, desvios, caixa 2, lavagem de dinheiro, suborno, assédios, puxada de tapete, panelinhas, corporativismo e camaradagens nas relações comerciais tais como carteis, acabam sendo práticas comuns, ora no setor público, ora no privado, ou até em ambos.

Temos atualmente TODAS as maiores e médias empreiteiras do país envolvidas com propina e caixa 2 eleitoral, temos Siemens, Alston, Petrobras, temos toda a mídia corporativa que loteia a informação a serviço do anunciante ou políticos, temos as históricas trocas e disputas entre a Globo e governos de ocasião, temos CBF, os crimes da Veja, envolvida com o bicheiro Carlinhos Cachoeira num esquema político e de corrupção com Demóstenes, senador cassado e procurador do MP, temos os julgamentos de Gilmar Dantas…

Tudo isso nos mostra o quanto a coisa é abrangente e encrustada na sociedade, e essas práticas também são nossas, na carteirinha falsa da UNE ou ao trafegar pelo acostamento quando a estrada está engarrafada, o gato de TV. A nossa sociedade é assim, temos em nós o gene da flexibilidade moral, não é apenas o governo, ou justiça, ou polícia, são todas as instituições brasileiras em algum grau.

Está em mim, e em vc. O desafio hoje é aceitar que o brasileiro, principalmente aquele que detém o poder, o dinheiro, do topo para baixo na pirâmide, carrega um perfil moral que precisa ser corrigido.

Isso seria um bom começo.


por Celsão Correto e Miguelito Formador

voto-nulo1Eleições se avizinhando… E, mesmo com a Copa “no meio”, aquele discurso de voto nulo que tanto me incomoda, volta à tona.
Porém, infelizmente, noto esta manifestação pior agora que antes… Seres esclarecidos e instruídos pregam não haver diferença entre políticos e partidos; e assumem a posição de não participar da democracia.

Não serei demagogo em pregar a importância do ato relembrando ditaduras, crimes hediondos e contagens confusas mundo afora. Mas gostaria de lembrar um texto que paira em minha mente desde a infância. É a descrição do analfabeto político de Bertold Brecht.

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
(Brecht foi um pensador e dramaturgo alemão da primeira metade do século passado – wikipedia).

Ou seja, é simples…
Se as pessoas que são capazes (ou se julgam capazes) de operar mudanças não votam, os outros votam e o círculo vicioso se perpetua.
Como escreveu um amigo numa discussão solitária com outros tantos que pregavam a ineficiência do voto no Brasil: “dizer que não há diferença entre as pessoas que elegemos é a forma mais simples de sair pela tangente e deixar que os outros decidam por você”.

Outro ponto a discutir e refletir, o chamado “voto de protesto” em artistas e celebridades…
É triste, mas o sistema brasileiro privilegia o partido que consegue um grande número de votos e transforma o quociente eleitoral recebido pelo partido em inúmeras vagas nas Câmaras e Congresso. Ou seja, um deputado eleito com votação recorde, certamente levará consigo outros que sequer receberam votos dos familiares.

Aconteceu com o Enéas Carneiro (lembram-se dele?); fundador do PRONA, que depois de concorrer a algumas eleições para presidente, lançou-se candidato à Câmara dos Deputados. Votação gigantesca. Com mais de 1,5 milhão de votos, Enéas “carregou” outros sete deputados do PRONA consigo. Que, logo após, mudaram de partido e abnegaram o próprio tutor e as próprias convicções do partido que os elegeu…

Assumo que “caí neste golpe”. Porém não como forma de protesto. Julguei que o Dr. Enéas se cercaria de pessoas com os mesmos ideais e objetivos, e que a mini-bancada seria uma opção barulhenta e incorruptível no mar das falcatruas e conchavos.
Me enganei! Creio inclusive que o próprio Enéas também foi ludibriado pelos que o cercavam; mas havia ali uma boa intenção.

Minha proposta aos leitores instruídos e capazes é simples: votem!
Analisem, critiquem, citem nomes aos amigos; perguntem aos políticos sobre temas que vos interessa, ou simplesmente sobre temas complicados a eles, como fidelização partidária, política de coalizão entre o governo e partidos de maioria no Congresso, gasto inapropriado de verbas públicas ou de gabinete, redução destas verbas.

Uma pergunta que fiz certa vez, foi: “o senhor aceitaria o cargo de deputado caso seguisse com o mesmo salário que recebe hoje?”

Só essa pergunta pode render frutos interessantes…

por Celsão correto

figura retirada daqui, onde há um post bem parecido com esse, de 2012

P.S.: em tempo, recebi um texto de um blog, criticando a posição do cantor Ney Matogrosso sobre o tema. A posição foi tomada numa entrevista à Folha (aqui), participaram também Zélia Duncan e João Bosco. Pra quem quiser ler a crítica do blog, segue.

P.S.2: além de defender o voto, e o voto útil, defendo também, como muitos, uma reforma política de base e o chamado voto distrital, que impediria um candidato da região “x” de ser eleito com votos de outras regiões. Mas não acho que estamos preparados para voto não-obrigatório, por mais que soe bem pregar isso ultimamente.

Gentileza_Gera_GentilezaPassados 8 meses após minha última estadia na minha pátria amada Brasil, cá estou eu novamente.
Alguns amigos perguntaram-me quais eram minhas impressões sobre o Brasil e nossa sociedade. Ora, são as mesmas de sempre, pois afinal não estamos a falar de 20 anos corridos, onde gerações inteiras se cruzam, mas sim de singelos 8 meses. Mas mesmo assim, penso que estes questionamentos acabaram me despertando uma curiosidade ainda maior que a aquela já existente em mim, e peguei-me por diversas vezes observando e refletindo sobre as coisas que eu via, ouvia e sentia.

Já na minha primeira tarde na cidade de São Paulo, sentado no segundo andar de um restaurante da Rua Augusta, fiquei observando um cruzamento, durante 2 horas. Neste período, centenas de pedestres e de veículos passaram por ali.
Os automóveis, até que oscilavam entre aqueles que paravam para os pedestres na faixa, e os que passariam por cima dos mesmos, casos estes não corressem.
Já os pedestres, estes se sentiam “Highlanders”, imortais! Não vi sequer um pedestre esperando o sinal verde de pedestre para poder cruzar a rua. Quando muito, cruzavam sobre a faixa.
Brigas foram aos montes. Pedestre cruzando no vermelho, fora da faixa, percebendo claramente que vários carros virariam no cruzamento, e mesmo assim, desfilavam pela rua, vagarosamente. E quando neste momento um motorista ou motociclista “lascava” a mão na buzina, o pedestre virava um galo, enchia o peito, usava todas as palavras chulas presentes em seu vocabulário, além de todos os gestos mais obscenos que ele deveria conhecer.

Sei também que na minha terra natal, Ubá – MG, respeitando o peso das devidas proporções populacionais, a situação não é nada melhor. Ao que dizem, e também já pude observar, os pedestres se sentem no direito de cruzar as ruas em quaisquer lugares, ignorando a existência de uma faixa de pedestre a meros 3 metros dele.
Uma vez questionei a um primo meu o porquê dele ter cruzado a rua fora da faixa de pedestre, a qual estava a alguns passos do mesmo, fato que fez com que o carro que seguia tivesse que frear bruscamente, pois não estava esperando que o pedestre fosse cruzar repentinamente fora da faixa. A resposta do meu primo: “Ahh Miguel, ninguém respeita, por que eu respeitaria?”
Isso se chama “total falta de senso de cidadania”. Danem-se as responsabilidades individuais, vou repetir o que a sociedade faz.   

Ao passar 3 semanas dirigindo diariamente em São Paulo, lembrei-me que quando resolvi sair “corrido” daquela cidade há 3 anos, o trânsito havia sido um dos principais motivos. Os engarrafamentos estressam, isso é fato. Perder de 2 a 4 horas por dia no trânsito é algo extremamente lamentável. Você passa 1/8 da sua vida sem fazer nada de produtivo, sentado dentro do carro, ou no ônibus e metrô.
Mas o que mais revolta é a falta de educação dos motoristas. Tem os espertões, que ao avistarem qualquer lacuna tratam logo de preenchê-la, costurando o trânsito do início ao fim. Tem os espaçosos, que não percebem que estão dirigindo no meio de duas pistas constantemente, não dão seta, andam muito abaixo da velocidade permitida, e coisas do tipo. E tem os ignorantes, que qualquer situação é motivo para esquentar a buzina, ou fazer um gesto obsceno com palavras do mesmo calibre, ou até mesmo perseguir seu automóvel com faróis altos e dirigindo colado em você como uma forma de medida intimidadora.

Nos bares e restaurantes a história é parecida. Cada um fala mais alto que o outro, e ao invés de diálogos, parece que estamos no meio de uma fanfarra. Mas o que ainda mais me incomoda é a falta de gentileza com os garçons. Raramente percebi alguém dizendo um “muito obrigado” ao garçom quando era atendido pelo mesmo. Olhar nos olhos deste então ao agradecer…. isso penso nunca ter visto. A impessoalidade e individualismo fazem com que o atendido não tenha qualquer interesse em olhar nos olhos do garçom, como se ele não fosse uma pessoa, mas sim uma máquina que está ali para servi-lo a todo custo.

Um dia fui ao cinema assistir ao Thor em 3D. Nem ao menos 1 minuto havia se passado do início do filme, e uma mulher a duas fileiras na minha frente ligou o celular e começou a olhar algo no facebook, mesmo com os avisos extremamente nítidos do cinema “Favor Desligar seu celular durante toda esta sessão!”.
Aquela atividade durou mais de 1 minuto. Foi quando uma moça que estava logo a minha frente pediu educadamente para que a outra desligasse o celular, pois a claridade do mesmo estava atrapalhando a enxergar as imagens 3D.
Pronto, começou a algazarra. Uma troca de “belas palavras” durou por uns 10 minutos. A turma que estava com a mal-educada também ligou o celular em forma de provocação. Mesmo com as ameaças da moça de chamar o segurança a turma não desligou os celulares. Muito bem, o segurança foi chamado, e para meu ainda maior espanto, houve bate-boca com o mesmo. Os “vândalos” diziam: Quero ver quem vai tirar a gente daqui!!!
E assim se seguiu, até que resolveram desligar o celular, aos murmúrios de revolta.

Ainda na mesma sessão de cinema, o casal atrás de mim inicia um diálogo em voz alta. “Porque nossa geladeira não tá fechando…. o gato fez xixi hoje no tapete…. ouvi no jornal que amanhã vai chover… posso comprar a viagem para Atibaia mês que vem?”…..
E eu me pergunto: Será que não poderiam conversar sobre isso no caminho de volta para casa, ou em qualquer outro momento? Tinha que ser no cinema? Se não gostam de filme de ação, ou qualquer outro tipo de filme, para que ir ao cinema?

Nas minhas experiências pessoais, bom, nestas espanta-me o fato de eu ainda me espantar. Com somente 3 a 4 semanas de estadia no Brasil, sendo que 3 semanas seriam em São Paulo e 1 semana seria de férias em Ubá, fiz o possível para já deixar compromissos pré-agendados com a maioria das pessoas com as quais eu gostaria de me encontrar.
De todas aquelas com as quais combinei algo, encontrei com talvez 60% delas, estatística até razoável. Mas tenho que considerar o fato de que eu tinha que insistir, remarcar, adaptar minha agenda, mesmo toda corrida e fora de rotina, à da pessoa. Os “bolos” foram diversos e diários. Em inúmeras oportunidades, eu reservava uma noite ou um sábado à tarde para encontrar uma pessoa, ou uma turma de amigos em comum, e justamente por isso, não marcava mais nada para aquele momento, e lá chegando, estes chegavam extremamente atrasados, ou simplesmente, não compareciam, sem nem mesmo avisar, ou dando uma desculpa esfarrapada.
Com muito otimismo, posso dizer que cumpri de forma eficiente e conforme programado, aproximadamente 30 a 40% de meus compromissos pessoais.
A falta de compromisso, responsabilidade e compreensão são de chocar, e até, traumatizar.

Chegando a Ubá, tive a sorte de estar ocorrendo o Festival Ary Barroso. Eram diversos artistas, com belas composições, belas interpretações, e muita qualidade musical. Além dos artistas pouco conhecidos, também houve dois grandes shows: Ed Motta e Milton Nascimento.
Ao adentrar no Horto Florestal, local do evento, percebi que ali não havia mais que algumas mil pessoas, talvez duas mil? Para piorar a situação, o ingresso era adquirido doando 1 quilo de alimento. Ou seja, comprava-se um pacote de feijão, fazia-se uma caridade, e assistia ao show do Milton Nascimento ou do Ed Motta, além de todas as outras belas músicas em disputa. Mas ali estavam singelas 2 mil pessoas. Isso não me indigna, nem me deixa raivoso. A única coisa que sinto é uma profunda tristeza que rompe os nervos da minha alma.
Como me disse um amigo de causas ontem à noite: Miguel, e essas músicas nunca tocarão nas rádios, pois lá só toca música de cultura de massas, como sertanejo universitário e coisas do gênero. Realmente, lamentável!

Claro que o Brasil é um país de maravilhas e nosso povo tem diversas qualidades. Estar no meu país é fantástico, e não dá vontade de ir embora novamente. Mas por trás da beleza disso tudo, realizar o exercício de lançar olhares críticos sobre as entrelinhas de nossos costumes, cultura e comportamentos, é um exercício doloroso e o resultado não é nada estimulante.

por Miguelito Nervoltado