Posts Tagged ‘ciência sem fronteiras’

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Com 17 anos, após concluído o Ensino Médio, mudei-me para a Alemanha com o intuito de aprender o idioma, ter novas experiências, abrir a cabeça, e quem sabe, cursar a universidade naquele país. Após 7 meses, resolvi voltar ao Brasil, por sentir falta de muita coisa deixada na minha terra natal. Mas uma ideia ficou em minha mente: “durante a universidade quero fazer um intercâmbio na Alemanha, voltando mais maduro àquele país, e tentar ver a vida de lá com outra perspectiva, além de poder ter a oportunidade de absorver conhecimento do ensino superior brasileiro e alemão mutuamente.”

Já no Brasil, fiz 6 meses de cursinho preparatório para o vestibular. Fui aprovado, em 2002, optando pelo curso de Engenharia de Controle e Automação na UNIFEI, em Itajubá-MG.
Já no primeiro mês de aulas dirigi-me ao coordenador do meu curso e perguntei sobre a possibilidade de fazer um intercâmbio na Alemanha.
Sua resposta ficou gravada a ferrete na minha memória. Sorrindo, sarcasticamente, ele disse: “você e a torcida do Maracanã querem um intercâmbio na Europa, rapaz. Você passou aqui, e vai estudar aqui. Nós não temos convênios com qualquer universidade da Europa, isso é luxo.

São muitas as barreiras e dificuldades envolvidas na realização de um intercâmbio. Pontuando algumas delas:

  • Aceitação da Universidade no Brasil, para que o aluno possa ficar 1 ano ou até períodos mais longos fora da Universidade, e ao voltar, continue tendo sua vaga garantida.
  • Não só a garantia da vaga, mais sim o reconhecimento das disciplinas cursadas em outra instituição de ensino superior, aproveitando as mesmas em sua grade curricular, evitando demasiados atrasos para a conclusão do curso.
  • Conseguir uma vaga como intercambista numa Universidade no exterior, principalmente em países desenvolvidos. Há aqui pouca disponibilidade, uma enormidade de exigências e burocracias que tornam este processo quase impossível.
  • Solução das diversas burocracias envolvidas neste processo, como por exemplo: aquisição de visto de moradia e estudo no país de destino, busca de moradia, registro formal em órgão público da cidade onde se vai viver (como prefeitura, polícia), informações sobre transporte público, abertura de conta bancária, registro de água, luz, telefone, celular, etc.
  • Organização da viagem, assim como o pagamento das despesas envolvidas: passagens áreas, passagens de trem e ônibus, seguros, transporte de bagagens extras.

E não irei pontuar outras, para não me alongar ainda mais.
Por isso, apesar de insensível e inflexível, meu coordenador de curso tinha razão ao ironizar meu sonho, e chamar um intercâmbio na Europa de “luxo”.

Passados quase 9 anos após o episódio, mudei-me para Alemanha por motivos profissionais e aqui vivo até hoje.
Vivendo na Europa há 5 anos, tive a oportunidade de acompanhar o processo do programa Ciência sem Fronteiras, e conhecer diversos de seus beneficiados. Muitos dos que conheci viviam na mesma cidade que eu ou nos arredores, mas também conheci tantos outros jovens que residiam e cursavam universidades em outras regiões da Alemanha, e mesmo em outros países, como Bélgica, Portugal, França, etc.

Considerando as dificuldades, já pontuadas acima, para a realização de intercâmbios, o programa Ciência sem Fronteiras é um projeto sensacional! Afinal, o Governo se responsabiliza por resolver todas as burocracias envolvidas neste processo e ainda financia o aluno.

O valor da bolsa para Europa oscila de aproximadamente 1.000 Euros para bacharelandos, até aproximadamente 2.500 Euros para pós-doutorandos, valores que causam inveja e espanto em qualquer estudante alemão (imagine então um estudante português!?!). Eles ainda recebem diversos auxílios como: material didático (1.000  euros), compra de um computador (4.000 reais), auxílio instalação, seguro de saúde, despesas de viagem, curso de idioma durante o período de 6 meses antes do ingresso na universidade, entre outros, além do mais difícil: que é a burocracia para serem aceitos na universidade e no país por 1, 2 ou 3 anos, burocracia essa facilitada pelo governo brasileiro.
Leia Aqui os detalhes do programa no próprio site do Ciência sem Fronteiras. 

Muitos utilizam o excedente da bolsa, que em muitos casos não é pouco, para frequentarem festas e bares, além das viagens, quase em todos os finais de semana, para algum país diferente. Claro que diversão e passeios são necessários e importantes para otimização do processo de vivência, mas quando isso se torna a prioridade/intuito, e o mundo acadêmico é levado em segundo plano, então penso que há uma inversão de valores.
Literalmente, são férias pagas por um ano, ou mais, com a contrapartida de um pouquinho de estudo e conhecimento adquirido, e um idioma arranhado.

Em sua maioria, pertencentes à classe média tradicional/alta, esses jovens carregam os clichês e bordões de sua classe no Brasil. Ao notarem algo que funciona bem, ou que é interessante na cultura do outro país, preferem criticar, com o devido asco, o “atraso” do Brasil, ao invés de buscar entender porque e como o outro país chegou àquele resultado positivo, trazendo assim esse aprendizado para o Brasil.
Criticam, sem o menor pudor e desprovidos de conhecimento político, o Governo Brasileiro. Falar em Dilma e PT é garantia de muitas risadas, deboches e verborragias. Porém, se questionados sobre Dilma e o PT serem os responsáveis por eles estarem no exterior torrando o dinheiro do contribuinte brasileiro, eles respondem com mais ódio e deboche, usando algum argumento sem o menor nexo, como por exemplo: “o dinheiro é dos impostos, não é a Dilma que é responsável por estarmos aqui”, ou “CsF sempre existiu, não foi criação da Dilma/PT!”, ou “já que roubam tanto, o mínimo que têm que fazer é patrocinar nossos estudos aqui fora”, ou “se pagam bolsa família para vagabundo, então não é mais que obrigação pagar bolsa para nós estudantes”….


Recentemente, a presidente Dilma enviou ao Congresso uma proposta de redução do orçamento do programa Ciência sem Fronteiras para 2016, com o objetivo de contenção de gastos neste momento de fragilidade econômica. A redução, que ainda pode ser revista pelo Congresso, reduz em aproximadamente 40% o valor do orçamento em comparação com 2015. Desta forma, o novo valor seria assim suficiente para cobrir os contratos já em vigor, ou seja, os gastos dos estudantes que já estão no exterior em processo de bolsa. Novos contratos/bolsas estarão, por enquanto, suspensos.
Clique Aqui para ler notícia da Folha 

Enfim, espero que, passado esse momento de fragilidade financeira do Brasil, que o Governo volte a liberar verba para este programa, mas que aproveitem a oportunidade para rever algumas regras:
Atrevo-me até a palpitar sugestões:

  1. Para o ingresso no programa, além da prova de aptidão, onde o nível de idioma e o desempenho acadêmico são levados em consideração, também deveriam ser observados e avaliados os objetivos, expectativas e perspectivas do aluno para com o intercâmbio.
  2. Para definir o valor do auxílio/bolsa deveria levar-se em consideração o custo de vida real do país onde o aluno se hospedará. Hoje em dia há uma bolsa fixa para Europa, por exemplo, mesmo sendo o custo de vida de alguns países da Europa três vezes maior que o de outros.
    Sei que é muito trabalhoso definir valor específico para cada país separadamente. Então talvez uma solução justa e menos trabalhosa seria separar os países em grupos de custo de vida parecidos, e assim, definir um valor de bolsa fixo para cada um desses grupos. Não será 100% proporcional para todos os países, mas será bastante justo.
  3. Controle de faltas na universidade – atualmente não há controle de presença desses alunos, este só existe para o curso de idioma que eles fazem antes do ingresso na universidade.
  4. Limite de média curricular (nota) para aprovação, por exemplo 70%; e obrigatoriedade de aprovação nas matérias cursadas.
  5. Os alunos devem passar por uma avaliação séria ao regressarem ao Brasil. Essa avaliação não deveria somente verificar o aprendizado acadêmico do mesmo no exterior, mas sim medir também a sua absorção da cultura daquele país, avaliar seu aprendizado geral, seu amadurecimento, a expansão de sua forma de pensar e ver o mundo. Se o desempenho do aluno for ruim, ele poderá ser penalizado, por exemplo, com a perda do reconhecimento daquele ano em sua grade curricular, o que atrasará a sua graduação. Outra forma de penalização poderia ser o reembolso ao Governo, dos investimentos deste para com o aluno.
  6. O valor da bolsa deve ter um teto e um piso para um mesmo país. Para definir qual valor o aluno deve receber entre o teto e o piso, deve ser levado em consideração, no mínimo, as condições financeiras do mesmo e de sua família. Desta forma, um estudante pobre receberia o teto ou algo próximo do mesmo. Já um estudante pertencente a uma classe média receberia um valor entre o piso e o teto, enquanto alguém da classe média alta ou rico receberia o piso ou algo próximo do piso.
    O piso, inclusive, poderia ser 0,00 R$, ou seja, nada. Alguém de condição financeira elevada não precisa do dinheiro público para se sustentar no exterior. Porém, mesmo ele seria e muito beneficiado pela bolsa, uma vez que a dissolução das burocracias envolvidas num processo de intercâmbio são no mínimo tão problemáticas quanto a questão financeira (como explicado mais acima).
    Outra vantagem deste ponto é que, eventuais “filhinhos de papai” que queiram somente curtir seu período no exterior, sem se empenhar ou se preocupar com seu aprendizado, teriam então, muitas vezes, seu desempenho cobrado não só pelo Governo, mas também por seus pais, afinal estes também estariam pagando uma boa parte de sua estadia e iriam, normalmente, exigir resultados.

* Para ler outros 2 artigos nossos sobre o CsF, clique AQUI (Natal do Ciência sem Fronteiras) e AQUI (Tudo na Mesma)

por Miguelito Nervoltado

figura retirada daqui

alienacao-futebolDevido a forças maiores, estou há aproximadamente dois meses afastado da internet. Tenho lido pouco, e escrito muito menos.
Mesmo assim, a Terra continua a rodar, e desconsiderando alguns casos pontuais, muda-se alguns atores coadjuvantes, mas o filme é o mesmo, se repetindo numa história mal contada.

Recentemente, na casa de um amigo meu, ele, eu e seus convidados começamos a conversar sobre o escândalo da Volkswagen. Eu mais que depressa já coloquei meu posicionamento não convencional: “não entendo todo o espanto, só porque é empresa alemã o pessoal acha que não tem corrupção, pilantragens e abusos. É uma gigante do capitalismo, eles visam lucro, por mais que existam programas esporádicos de ‘boa-conduta’, a grosso modo, a maior parte do jogo é sujo”.

Rapidamente alguém já tirou da gaveta dos clichês a palavra “Brasil”, com a frase: mas não queiramos comparar a Alemanha com o Brasil!
A partir daí foram duas horas de “mais do mesmo”, eu citando episódios, história, histórico de nossa mídia, colonização, cartéis de empresas e governos desenvolvidos em países em desenvolvimento, vassalagem de nossa política aos interesses internacionais, as inúmeras farsas e constante desconstrução ao governo e seus integrantes, etc.

Enquanto eu falava era possível ouvir os murmúrios: “faz sentido”, “é verdade”, “claro, isso todos sabem”, “sim sim, isso ninguém pode negar”, “ah, a reputação da Globo realmente é uma piada”…
Mas, mesmo com todas essas concordâncias, o resultado final era: “mas nada vai me convencer do contrário, o Brasil piorou muito com o PT”, ou “ah, mas vai me dizer que você acha que Lula é Santo”, ou “tudo bem que é mentira que o filho do Lula é dono da Friboi, mas como que ele ficou tão rico de repente, hein, hein?”, ou “mas já viu os discursos da Dilma? Ela fala tudo errado!”, ou “mas aquele Maduro da Venezuela é um louco, num discurso ele disse querer expulsar uma empresa da Venezuela, pois ela estava roubando mais que ele…”.

Intervi: “pessoal, é exatamente essa a ideia dos donos da informação; muitas das mentiras deles serão desvendadas e expostas, muitas informações não farão sentido para a população, muitas informações serão contraditórias, mas isso não importa, pois os detalhes serão esquecidos. O que importa é que no fim, fica uma concepção formada na cabeça do cidadão; ele ouviu e leu tantas coisas que visam criar uma verdade, que aquilo realmente se torna uma verdade incontestável, mesmo que uma grande parte das informações sejam posteriormente confirmadas como mentiras, ou mesmo que a idoneidade e ética daqueles que nos deram a informação (no caso a mídia) seja indubitavelmente inexistente”.
Eu ainda citei, uma vez que estamos na Alemanha, uma frase atribuída a Goebbels, ministro de Propaganda de Hitler: “uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade”.

A noite acabou sem consenso. Mas fica a esperança de que alguma semente tenha sido plantada para o futuro.

Antes de ir embora, o meu amigo ainda me disse: parece que agora há risco real de impeachment da Dilma, devido às pedaladas fiscais.
Eu pensei com meus botões: há risco real de impeachment desde quando ela assumiu. A cada tentativa falha, surge uma nova justificativa, teoricamente ainda mais plausível e concreta, que também acaba sendo tida, por fim, como infundada. Lembrei-me ainda que antes de me retirar da internet, o mês de agosto era o mês decisivo, e que se Dilma não caísse em agosto, não cairia mais. Já estamos no meio de outubro e a história se repete, e o povo vai esquecendo o que aconteceu na semana passada, numa repetição lamentavelmente débil dos mesmos erros. Se diversos argumentos e tentativas de impeachment eram vagos ou sem provas, isso indica com quase certeza absoluta que não há motivos para impeachment, e tudo que há é uma tentativa desesperada de cavucar até o fundo do poço buscando qualquer tipo de argumento que soe vagamente moral, e certamente hipócrita e redundante, para conseguirem aplicar o tão desejado golpe.

Num outro episódio, há poucos dias, num restaurante brasileiro em Erlangen, na mesa ao meu lado, tentei evitar, mas os ouvidos não obedeceram, e acabei ouvindo a conversa de seis jovens Cientistas sem Fronteira com um jovem alemão que falava português.

Entre deboches e críticas ao Governo, outros maldizendo a desvalorização do Real; alguém pergunta como funciona nosso câmbio, e uns três dizem “não sei” enquanto os outros se calam. Outros mencionam a avassaladora crise que enfrentamos e afirmam ser culpa do PT, e na sequência uma menina lança o assunto do Habeas Corpus para que Lula não fosse preso.
O alemão pergunta, o que é um Habeas Corpus. Todos se calam. A moça que trouxe o tema diz: “ah, não sei direito, mas é um negócio que você entrega pra justiça para evitar ser preso”; e termina com o pênalti sem goleiro: “não tenho certeza, mas ‘minha opinião’ é que eles iriam prender Lula por corrupção, e ele foi lá e entregou um Habeas Corpus para continuar livre”.

O papo continuou, com os mesmos clichês de sempre. Sobravam achismos, faltavam certezas. Sobravam notícias picadas, faltava conhecimento e crítica. Sobrava superficialidade, faltava estudo. Sobrava preconceito, faltava reflexão. Sobrava ego e vontade de aparecer, faltava interesse em aprender.

Depois a comida deles chegou (graças a Deus) e eles não falaram mais nada: comeram calados seus pratos fartos e caros, pagos pela bolsa do programa Ciências sem Fronteira da Dilma-PT.

por Miguelito Formador

figura retirada daqui

CSFDesde que se mudou para aquele país, Falco Xinhaldo já ficara cativado. Eram três meses de experiências magníficas, e uma vida tranqüila, sem grandes preocupações. Impressionou-se com o transporte público, quase sempre pontual e cobrindo quase todo o perímetro de todas as cidades, era raro precisar andar mais de 300 metros para pegar um ônibus ou um metrô. A limpeza das ruas lhe dava apetite 24h por dia. Achava incrível como tanto os carros, quanto os pedestres, respeitavam sinais e faixas de trânsito. Caminhar em uma avenida movimentada era quase como uma massagem Ayurveda para os ouvidos, afinal, ali era proibido buzinar, e os carros eram, em sua maioria, modernos, silenciosos. Depois de suas baladas e barzinhos, se sentia dentro de um condomínio de luxo ao voltar para casa, às 3h da manhã, sabendo que não haveria qualquer perigo.
Ele pensava: meu Deus, porque fui nascer naquele país maldito?

Como se já não bastasse, aquele mês de dezembro o surpreendera ainda mais. Desde o fim de novembro, até o final de dezembro, o país inteiro parecia um picadeiro com um mágico, a cada dia, uma nova surpresa. Eram tradições diversas que antecediam e preparavam o Natal. As crianças recebiam de seus pais um calendário onde, cada dia era aberta uma portinha, que continha um chocolate pequeninho. Só podiam abrir a porta do dia, e degustar aquele chocolate, até que chegasse o dia tão esperado, o dia 25. As cidades se enfeitavam, num capricho e carinho comoventes, com luzes e adornos em formato dos mais diversos símbolos natalinos. Quando o clima ajudava, a neve caía, e ele se sentia num filme de Natal da Disney. A felicidade lhe preenchia.

Mas uma de suas maiores diversões eram as feirinhas de Natal, chamadas de Weihnachtsmarkt ou Chriskindlesmarkt. Cada cidade e vilarejo da Alemanha tinha a sua. Sempre montadas com muito charme, essas feiras proporcionavam a oportunidade de degustar comidas e bebidas típicas daquela época, entre elas, seu preferido, o vinho quente, conhecido como Glühwein. Em diversos quiosques de madeira, lembrando estilo medieval, era possível também comprar artesanatos e produtos orgânicos. Em quase todas essas feirinhas havia um palco, onde tanto artistas profissionais, quanto pequenas orquestras de crianças carentes, ou corais de asilo, se apresentavam, divulgando seu trabalho e entretendo o público. Para Falco, aquilo tudo era fascinante.

Num certo dia, Falco estava em seu estágio, na maior empresa daquele país, quando ouviu um colega dizendo que a empresa havia falhado em seu intento de disponibilizar uma mansão para refugiados da Síria e do Afeganistão. Não se interessou muito, afinal, aquele não é seu país, e os refugiados vinham de cantões que pouco lhe interessavam. Mas, como as outras pessoas se interessaram, o colega prosseguiu:
– Pois é, já há mais de uma década a nossa empresa possui uma mansão no bairro da Montanha. A mansão era um dos benefícios de um ex-diretor, que foi demitido por corrupção. Desde então a mansão se encontra fechada. A empresa então teve a ideia de fornecer, gratuitamente, essa casa para famílias de refugiados que não têm onde morar. O problema é que os moradores do bairro da Montanha, bairro mais caro da cidade, não gostaram nada da ideia. Entraram com um processo judicial contra a tentativa, e, como possuem muito dinheiro, acabaram ganhando. Aproximadamente seis famílias sírias e quatro afegãs, totalizando 52 pessoas, já estavam preparadas para se mudarem para a casa. Agora elas precisam permanecer espalhadas em sete abrigos diferentes, alguns sequer possuem aquecimento, e dependem de doações de roupas da sociedade.

O debate continuou na mesa, mas Falco estava incomodado, afinal, era um papo desagradável, lhe tirava o sossego cotidiano que costumava desfrutar por ali.
Alguns diziam que era compreensível as pessoas não quererem refugiados ali, afinal, um bairro tão lindo, rico, charmoso, de pessoas finas, abrigar um monte de estrangeiro pobre, com seus costumes rudes, sem educação e sem noção de civilidade. E ainda, poderia significar um aumento de criminalidade.
Aquilo até fez sentido para Falco.

Outros discordavam, dizendo que os refugiados vivem com vários limites legais, não podem sair todo o tempo à rua, não podem trabalhar, recebem alimentos e auxílios do Estado e da sociedade dentro dos abrigos e casas, são monitorados constantemente, e caso desrespeitem qualquer regra ou lei, são deportados imediatamente.
Um dos que estava na mesa dizia trabalhar em projetos sociais com refugiados, e contou que estes se sentem acuados, sentem vergonha por precisar depender da ajuda das pessoas, e fazem de tudo para que as pessoas não os temam. Agradecem diversas vezes por dia àqueles que os ajudam, quase sempre aos prantos. E dizem entender que precisam ficar reclusos dentro das casas, salientando ser isso já magnífico, em comparação a viver em Guerra.
Esse discurso incomodava Falco, mas ele não se dava ao trabalho de refletir o porquê do incômodo. Continuava ali, de corpo presente, mas com a cabeça pensando: que horas eles vão acabar com esse papo e voltar a falar de futebol ou sobre nossa festa de fim de ano?

Mas para sua surpresa, Half, o rapaz que trabalha em projetos sociais, se direcionou a Falco e perguntou:
Sr. Xinhaldo, o senhor sabia que a Alemanha é o terceiro maior exportador de armas do Mundo? E que os maiores compradores são países africanos e asiáticos em guerra?
Falco responde que não sabia, e dá de ombros.

Half insiste:
– Imagine Sr. Xinhaldo, a venda de armas é um dos pilares de nossa economia, se há tantos ricos vivendo no bairro da Montanha, isso também se deve ao dinheiro das armas, que gira nossa economia e traz recursos de impostos para a sociedade. Além disso, as empresas que produzem armas, querem continuar vendendo, e cada vez mais, isso é óbvio. E para vender armas, é preciso haver guerras, certo? Então, é claro que para essas empresas, não é interessante que a guerra nestes países acabe, e por isso, eles investem na mídia, igrejas, governos, milícias daqueles países, para que os problemas e o ódio da sociedade nunca acabem, e assim, a guerra seja eterna.

Falco só consegue emitir um grunhido:
– “uhum…”

Half olha para os colegas e diz:
– Portanto, parte de nossa estabilidade, vem da desgraça destes países. O mínimo que deveríamos fazer é darmos abrigo ao povo sofrido de lá.

Half, assim como quase todo estudante alemão, não ganhava mais de 400 euros dos pais por mês. O dinheiro era suficiente para viver uma vida simples de estudante, como todos. Mas para sustentar seu hobby, a música, Half começou a fazer estágio para tirar um dinheiro a mais.

Falco ganhava 800 euros mensais da bolsa do Governo brasileiro. A empresa não tinha mais vagas para estágios remunerados de 20 horas. Como já ganhava um bom dinheiro (apesar de sempre reclamar que faltava para fazer todas as viagens que queria), Falco aceitou fazer o estágio de 10 horas sem remuneração, para incrementar seu curriculum.
Half e outros estudantes alemães tinham uma pontada de inveja da bolsa de Falco, e se espantavam com o fato de essa bolsa vir de um país “pobre”, segundo eles.

Após o almoço, Falco vai para casa. No caminho lembra-se que tem que enviar um cartão de natal para seus pais. Passa no correio, preenche o endereço do condomínio dos pais em Criciúma, e envia o cartão, onde já deseja feliz natal e se explica, com antecedência, que não poderá falar com eles no dia 25, o motivo: “como não tenho aula nem estágio, viajarei do dia 19 de dezembro ao dia 3 de janeiro, para Budapeste, Praga, Istambul, Viena, Füssen. Passarei o Reveillon em Paris, e voltarei para cá. Como de costume, ficarei sem telefone, pois é muito caro pagar o roaming no exterior. Mas podemos nos escrever pelo Whatsapp quando eu estiver em algum lugar que tenha Wireless.”
Cartão enviado. Dever cumprido.

No dia 22 de dezembro, os pais, voltando de um protesto pelo impeachment da presidente, abrem a caixa de correio, e se alegram ao ver o cartão do filho, há quase quatro meses na Alemanha, pelo programa Ciência sem Fronteiras. O Natal deles não será completo, mas o cartão lhes alivia, por saber que o filho querido, apesar de estar triste por não poder estar com os pais, fará viagens lindas, o que também lhe fará feliz.

por Miguelito Nervoltado