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O ser humano é realmente curioso, para dizer pouco.
Os mecanismos e “os caminhos” que tomamos para construir o que somos e o que pensamos são infindáveis labirintos intuitivos e irracionais, em certa maneira.

O psicólogo americano Michael Shermer afirma que somos “máquinas de crenças”, que evoluímos de certa forma, atrelados nisso.
As crenças nos fazem viver melhor, nos confortam. São como um refúgio para o nosso cérebro.
É sabido que o ser humano tem dois mecanismos de pensamento (aqui peço perdão aos psicólogos, filósofos e puristas, pois estou usando as palavras que me vêm a mente, independente da melhor definição). Coloquemos então os dois “mecanismos do pensamento” entre aspas: o primeiro rápido e intuitivo, irracional, baseado em experiências e crenças, não reflexivo. O outro reflexivo, onde se racionalizam as crenças, buscando evidências naquilo que, inicialmente, pressupõe-se verdade.

Se juntarmos, simplesmente, os dois mecanismos…
Intuímos, deduzimos, racionalizamos recolhendo alegações e fatos que corroborem para as crenças que temos, e passamos a defender o argumento em si; não estaríamos fazendo ciência, estaríamos exercitando um dos vieses cognitivos conhecidos pela psicologia: o viés de confirmação. (muito usado, aliás, nas redes sociais ultimamente para defender opiniões e políticos)

A psicologia, noutra corrente bem próxima, defende que o ser humano busca acreditar naquilo que lhe faz bem, naquilo que se quer acreditar. E não na verdade ou no que tem respaldo na ciência. E chama isso de auto-engano.

O último conceito da psicologia que eu gostaria de abordar aqui é a dissonância cognitiva.
Que é, na minha interpretação leiga (provavelmente sem as palavras corretas novamente), um “choque” que se toma quando as crenças se mostram imensamente diferentes da realidade. Quando percebemos que aquilo que cremos, que racionalizamos, que buscamos afirmação em pares, na mídia, etc.. é falso ou apresenta-se diferente em aspectos irrefutáveis.
A defesa mais racional seria abandonar a crença. Mas como não somos tão racionais quanto acreditamos que somos, buscamos diminuir a verdade (ou a crença), relativizando a diferença entre elas.

(…)

Já a ciência, não é democrática, como afirmou um colega de faculdade numa discussão de WhatsApp. Não depende de consenso ou de votação.
Cientistas pensam de maneira contra-intuitiva. Buscam testar os seus argumentos (geralmente os argumentos de outros cientistas) à exaustão.
Diz-se que só é ciência, primeiramente, se o argumento for falseável. Ou seja, se ele puder ser testado por outros, de modo a refutá-lo, a desmenti-lo. É assim que a ciência avança!

Citando um exemplo recente… muitos foram os cientistas que se debruçaram sobre o tema de clonagem após a divulgação em 1996 da clonagem bem-sucedida da ovelha Dolly.
A reprodução do processo fez com que outros animais, incluindo uma espécie de bode extinto na Espanha, fossem clonados a seguir.
(sem entrar no tema específico da clonagem, seja de animais ou humana, pois existem muitas outras implicações) 

(…)

Por que uma introdução tão longa?

O que vimos recentemente nos vídeos e declarações de Olavo de Carvalho, gravação antiga que voltou à discussão, questionando se a Terra orbita o Sol, e de Damares Alves, questionando os estudos de Darwin, é uma afronta!
Não a mim ou aos eleitores de Bolsonaro, que sequer é tema desse post, mas ao conhecimento humano e à Ciência.
Ambas teorias (heliocentrismo e evolução das espécies) já foram testadas e os argumentos contra refutados inúmeras vezes, desde Galileu Galilei, no caso de geo versus heliocentrismo. As notícias dos links a seguir, possuem explicações simplificadas para ambos questionamentos: aqui para Olavo e aqui para Damares.

O maior perigo, a meu ver, está no progresso da pseudociência.
Novamente nas minhas palavras: a pseudociência refuta a ciência embasado nas crenças comuns a um grupo. Parte muitas vezes de fatos científicos, mas se aproveita das lacunas de conhecimento da ciência para explicar, distorcidamente, uma ideia ou conceito.

É normal que a ciência tenha lacunas de conhecimento. Não é o caso da Teoria Geral da Evolução das Espécies ou do heliocentrismo.
Mas, uma vez que não seja possível, com a teoria de Darwin, explicar completamente a extinção de um certo animal ou a evolução de determinado vírus, pode ocorrer que, baseados na pseudociência, lunáticos conectem religião ou outras crenças a esses dois fatores naturais.

Para que tenhamos um exemplo mais claro e real, ocorre anualmente na India um congresso científico, que já está em sua edição 106.
Para desespero da comunidade científica mundial, cientistas indianos já declararam que o avião surgiu na India muito antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont, baseado no épico hindu Ramayana e que cirurgias estéticas já existiam na país desde a antiguidade, baseado na lenda do deus Ganesha, que possui cabeça de elefante implantada em corpo humano.
O texto pode ser lido aqui.

Não acho que há erro em crenças e religiões.
Pelo contrário. As crenças, como colocado na introdução, são os mecanismos intuitivos e instintivos de sobrevivência, que usamos há eras.
E a religião, sendo uma delas, conforta e refugia.
Só não vejo como prudente a mescla da ciência com a religião, ou a promoção da pseudociência.

Como os mais incautos já fazem, começa-se a diminuir declarações desse tipo, em clara dissonância cognitiva, em clara luta de reafirmação de crenças.

por Celsão correto.

P.S.: figura retirada daqui. Sobre a curiosa estória do Cruzeiro para a borda do Planeta Terra organizado por defensores da Terra Plana.

P.S.2: O psicólogo americano Michael Shermer é também crítico da pseudociência. (aqui)

CriacionismoReproduzo aqui o artigo do Professor Doutor José de Sousa Miguel Lopes, e publicado no blog Navegações nas Fronteiras do Pensamento. Para acessar o artigo original, clique AQUI.

Também não deixem de clicar no link do Youtube indicado no fim do artigo. Trata-se de um vídeo didático e divertido, feito pelo vlogueiro Pirula.


Criacionismo – Modus Operandi

O objetivo da ciência é moldar as nossas crenças à realidade. Não é um processo infalível nem acabado, mas tende a melhorar gradualmente a sintonia entre aquilo que julgamos ser e aquilo que realmente é. Para esse fim, não se pode, por exemplo, abordar a geologia a partir da crença de que a Terra é plana ou a astronomia a partir da crença de que a Lua é feita de queijo. Seja qual for a crença ou problema, não é científico comprometer-se à partida com uma crença, de forma firme e persistente, porque o que se quer com a ciência é explorar as possibilidades e procurar as crenças que melhor correspondam aos dados que se vão acumulando. Para isso exige-se uma atitude cética no sentido de adotar ou rejeitar crenças sempre conforme o peso das evidências e nunca por vontade pessoal. O que é exatamente o contrário da crença religiosa, carente de fé e apregoada como resultando do exercício da vontade livre do crente.

Esta diferença é evidente em várias posições criacionistas. A idade do universo estimada atualmente está muito além do que um cientista criacionista típico aceitaria. Em resposta, muitas cosmologias criacionistas de universo jovem têm sido propostas para discutir a questão da idade. É consensual na cosmologia que o universo tem quase catorze mil milhões de anos. Este valor já foi revisto várias vezes, porque valores anteriores revelaram-se incompatíveis com a informação que se ia obtendo, mas a ciência progride precisamente por encontrar alternativas que se ajustam melhor aos dados. O “cientista” criacionista faz o contrário. Primeiro decide em que hipóteses acredita “a partir da crença de que o universo foi criado por Deus” e depois limita-se a escolher as evidências que forem mais favoráveis a essas crenças.

Noutro exemplo das posições criacionistas, a “criação biológica é basicamente o estudo dos sistemas biológicos, sob a suposição de que Deus criou vida na Terra. A disciplina é estabelecida sob a ideia de que Deus criou um número finito de espécies”. Quando se usa a ciência para estudar algo não se pode estabelecer disciplinas “sob ideias” pré-concebidas nem fixar qualquer suposição. Afinal, o objetivo é perceber o que se passa e não cultivar preconceitos. Por isso, o tal “criacionismo científico” não é ciência, mas apenas uma de muitas trapaças que abusam da ciência para fazer parecer que a sua doutrina tem fundamento.

Se bem que muitos crentes concordem com este juízo acerca do criacionismo, porque rejeitam a interpretação literal dos escritos religiosos, normalmente recusam-se a reconhecer que este conflito entre religião e ciência não depende dessa interpretação literal nem é evitável enquanto a religião professar a fé em alegações acerca da realidade. Quer leiam a Bíblia à letra, quer a leiam como metáfora, a fé firme na “crença de que o universo foi criado por Deus” torna-os todos criacionistas e põe-nos todos em contradição com a ciência. Nem é só pelos indícios, cada vez mais fortes, de que o universo não foi criado com inteligência nem há ninguém encarregue disto tudo que se preocupe minimamente com o que nos acontece ou com o que fazemos. É, principalmente, porque a ciência exige que se tratem todas as crenças como equivalentes à partida e se faça distinção entre elas apenas pelo que objetivamente revelam corresponder à realidade. Isto é incompatível com qualquer fé, dogmatismo ou crença pré-concebida da qual não se queira abdicar.

Como vimos, estas são algumas tentativas,  entre muitas outras, de dar ao criacionismo a aparência de ser científico. Para aprofundar um pouco mais a problemática do criacionismo veja a forma didática como ele é apresentado, clicando no vídeo aqui

Leia o texto “Por que é quase certo que deus não existe” de Richard Dawkins clicando aqui


por Miguelito Formador