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Parto de homem

Posted: March 28, 2018 in Comportamento, Outros
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Se existe um momento mágico em nossa vã existência, um momento que aproxima o terreno do divino, algo que nem o mais profícuo dos poetas consiga relatar precisamente… esse “momento”, esse “algo” para mim é um parto.
O nascer. Essa chegada de um ser e os seus primeiros momentos. A áurea que cerca a família que o recebe é indescritível.

Compartilho um texto repleto do “sentir” de um pai.
Não parimos, ainda ou infelizmente.
Mas muitos de nós compartilhamos dos medos, anseios, dor e agruras do período. Não menor é o número dos que sofrem sem dizer palavra; capricho da natureza, característica ou formação relegada aos “sentimentos”. Coisa difícil de curar…

Que esse machismo bobo, muitas vezes pensado como inerente ou intrínseco do homem, desapareça e dê lugar a experiências como a descrita abaixo.
Nós seres humanos e o mundo certamente ganharíamos.

O texto foi publicado aqui. De onde também usei a imagem…

João Valadares não sabia nada sobre partos. Até a sua mulher, Cecília, engravidar e decidir que queria um parto em casa. Nesse relato de tirar o fôlego, João narra o que viu, o que sentiu e como foi trazer ao mundo o filho Francisco.

“Parto de homem. É sobre isso que quero falar. E é para eles que escrevo. Então vou começar do começo. Ela estava no avião, foi ao banheiro e me telefonou: ‘estou grávida‘. Não teve tempo de falar mais nada. As portas já estavam em automático. Desligou. Fui buscá-la no aeroporto e, no caminho para o laboratório mais perto, completou a frase interrompida pela aeromoça: ‘quero ter o nosso filho em casa‘. A cabeça dura-sertão do macho pernambucano, dos miolos encaretados pelo sol, desinformado e suposto senhor das ações, travou. ‘Em casa? Você é maluca?‘. Ela não falou mais nada. Nem eu. Segui calado, com aquela angústia-catapora, que faz tudo coçar por dentro.

No outro dia, comecei a pesquisar sobre nascer em casa. Em apenas um dia, li muito. Um turbilhão gigantesco de informações. No outro dia, li mais ainda. E assim seguiu. Fui a todos os encontros e consultas. Ouvi depoimentos lindos sobre o nascimento. Escutei também um relato de uma mulher decepcionada, pessimamente atendida num hospital público de Brasília porque apenas queria que o filho nascesse na hora que ele quisesse nascer. Ouvi muito mais. Com três meses de gestação, não tinha absolutamente mais nenhuma dúvida. Meu filho nasceria aqui, no seu quarto, com o cheiro da nossa casa, num ambiente afetuosamente preparado para tentar parecer o escurinho quente da morada onde viveu por nove meses. E assim aconteceu.

Mulher foi feita para parir. Homem não. Mas homem também foi feito para sentir. E o parto em casa me proporcionou isso. Eu pari junto. Eu eu Cecilia viramos um só dentro da água. É sobre isso que quero falar. Sou um homem que senti o corpo da minha mulher tremer a cada contração. Sou um homem que senti os músculos da minha mulher esticar e relaxar numa dança perfeita. Sou um homem que emprestei meu corpo para minha mulher beliscar e aliviar a dor do nascimento. Choramos muito. Ela de dor. Eu de outro tipo de dor. Parimos.

É isso. Eu não estava num baby-lounge, longe do meu filho, olhando tudo por uma televisão. Também não estava separado por um pano verde, impossibilitado de perceber o olhar do meu filho na primeira vez que viu o mundo. Eu estava ali, do lado, sentindo e vendo a natureza no seu estágio mais verdadeiro. Vendo minha mulher virar um bicho, gritando e se contorcendo para proporcionar ao nosso filho uma chegada sem nenhum tipo de intervenção. Uma chegada sem luz forte no rosto, sem mãos estranhas, sem aquela higienização terrorista de manual, sem a impessoalidade de um quarto frio com objetos que não são nossos, que não foram colocados por nós.

Desajeitado que sou, descobri que sei fazer massagem. Ah como foi bom perceber o alívio imediato quando apertava as costas de Cecília e ela mudava de som. Fiz isso por duas horas seguidas. Na verdade, posso dizer que era uma espécie de automassagem. Quando percebia que, de alguma maneira, era ator ativo do parto da minha mulher, do nosso parto, descobri que era mais do que pai. Muito mais.

Não escrevo para encorajar mulheres. Escrevo para encorajar os homens. Se puderem, passem por isso. A experiência mais incrível de toda minha vida. Francisco demorou cinco horas para nascer. Não houve nenhum tipo de intervenção. Ninguém sequer tocou em Cecília. Ele nasceu quando queria nascer. Passou dez minutos com a cabeça dentro da água. Ninguém o puxou. A natureza o empurrou quando achava que deveria empurrar. E ele saiu direto para os nossos braços. Ficamos ali por uns 20 minutos acarinhando o nosso filhote, tentando ainda entender como uma pessoa sai de dentro de outra. E foi lindo. Esperamos a placenta sair, cortamos o cordão umbilical e pronto. Cecilia se levantou, eu me levantei e fomos conversar na cama. Ficamos ali por horas, olhando o nosso filho. O melhor: na nossa casa.”

 

Tive a sorte de poder participar do parto de meus dois filhos.
Para gozar de uma licença maior, no segundo, fiz um curso de paternidade ativa ou “pai presente”. Foi lá que encontrei esse esplêndido depoimento.

Ambos os meus filhos escolheram o dia de nascer. Pude cortar os cordões após “murcharem”. Ficamos com eles o tempo todo em nosso “alojamento compartilhado” no curto período hospitalar.
Não quero criticar outras escolhas ou processos.
Apenas compartilhar… e agradecer…

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui

para os que desejarem fazer o curso, gratuito, o link está aqui

A comida

Posted: October 24, 2017 in Outros
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Comecei tentando negociar.
Chamei até à cozinha, discorri sobre o cardápio, disse que eu também comeria.

Até que era esperado… Sempre que estamos sozinhos os dois, ele apronta comigo.
Sou muito bonzinho? Uma criança de quatro anos já consegue disputar poder? Provocar deliberadamente?
Afasto os pensamentos da cabeça.

Deduzo que ele terá fome e sigo a brincadeira.
Assim que a fome apertar e ele pedir um biscoito, penso logicamente, jantamos.
Mas… quando já se está com fome, fica mais difícil. Esse jogo eu sei que vou perder.

Eis que acho na geladeira um final de macarrão em formato de dinossauro com carne moída. Perfeito!
O “Olha o que achei!” atraiu a atenção e funcionou a princípio. Esquento o macarrão no microondas e faço o meu prato.
Sentamos ambos na mesa da sala, pois, “aqui é muito melhor”, segundo ele.
TV desligada, garfo e faca nas mãos, começa o desafio…

O primeiro round é marcado pela separação dos legumes, que ele docemente intitula “verduras”: pedaços minúsculos de cenoura, cebola e até alguns pedaços de tomate do molho são encontrados e separados. Sob muito protesto.
Auxilio visando acabar com as desculpas. E como, fazendo aquela cara de gostoso, mas sendo observado com incredulidade.

O shoyo que coloco na salada é solicitado por ele, pois afinal, “ele gosta”.
Pingo aqui e ali, dizendo que só fica gostoso com um garfo bem cheio. A resposta é imediata e desanimadora para o pai que segue o seu martírio: “Assim também está gostoso”.

A competição segue; agora com garfo e faca em mãos opostas.
E, naturalmente, a confusão é grande. Comida que cai na mesa, no colo, na cadeira, no chão.
Não aguento e sugiro a troca dos talheres. Sem sucesso.
Um “Eu quero assim!” faz com que eu termine meu prato. Melhor não mostrar impaciência.

O garfo agora percorre o prato sem destino nem sentido, tenta sem sucesso espetar um macarrão bem cozido. E falha.
“Eu não quero tudo isso”
Sabia que essa hora chegaria. Mas não tão cedo. Sequer vi uma boa garfada, toda a comida está aí…
“O prato é pequeno filho. Você tem de comer tudo.”

Para estimular, proponho um acordo: “Se eu dividir o prato ao meio, você come tudo e sozinho?”
O movimento afirmativo da cabeça me dá esperança. Melhor comer metade sem muito stress, a rolar briga e choro, sem sequer conseguir alimentá-lo.
Divido o prato, prontamente. E daí percebo que o fiz em metades desiguais.
O óbvio acontece e ele escolhe a “menor metade”. Negociamos carnes moídas de um lado a outro, apontando qual é a metade “mais gostosa”. Minha metade continua perdendo da metade dele, que escolhe agora girando o prato.
Giro novamente a comida, aproveitando uma desatenção, e ficamos com a “minha” metade. Jogo duro!

Seria mais fácil ligar a TV, sim.
Seria mais fácil colocar a comida em sua boca.
Até se eu trocasse o garfo por uma colher, haveria avanços.
Mas… “não tá morto quem peleia”, diriam os gaúchos. Ele cresce quando se torna mais independente e eu cresço sendo mais paciente.

O garfo balança no ar. E o reprimo.
Me arrependo, pois, mostrando descontrole, posso perder todo o avanço até então.
Explico a importância da comida e informo que ele pode sair dali ao terminar o prato.

O garfo passa a arranhar o prato, num ruído irritante, arranha o suporte, a mesa, a própria blusa.
Decido só observar, fazendo a melhor “cara séria” que conseguir; mesmo louco pra ralhar.
Lembro de um vizinho, que na minha infância ficava horas em frente à comida fria. Íamos chamá-lo pra brincar, brincávamos com seu irmão, voltávamos pra casa, e ele entre lágrimas lutava contra o castigo e a lógica.
“Não quero isso para o meu filho. Mas… e se ele se recusar a comer?”

“Você colocou muita comida. Eu não quero tudo!”
Parece que adivinhou meu pensamento. E minha hesitação.
“Só vai sair daí se comer tudo” – fui firme – “O prato já está pela metade e você gosta desse macarrão.”
All in. Vamos esperar a reação.

O garfo no ar, parado. A boca a contar “1, 2, 3, 4” e depois “1, 2, 3”.
Suponho que ele conta os dentes e o espaço entre eles. Titubeio pensando em exercitar essa percepção espacial. Mas me contenho.
Agora ele observa a lâmpada pelos vãos do garfo, com um olho fechado.
Na sequência começa a balançar o garfo, para a esquerda e para a direita, mantendo o rosto parado.
Não resisto e pergunto o que é aquilo. “Garfo veloz”, ele responde. “Ele está muito veloz”

Tomando novamente ar, apelo dizendo que estou triste.
Que eu só queria que ele terminasse o prato e que fôssemos brincar um pouco.
40 minutos já se passaram desde que começamos nossa “contenda”.

A comida já está mais que fria.
Mas julgo que não possa sair da minha cadeira com o intuito de requentar o prato, sem que ele também saia.
Com as mãos e depois os pés, ele se afasta da mesa. Vai se afastando aos poucos, enquanto me olha…
No limite do seu alcance, passa a tocar nos itens do aparador.

O golpe de misericórdia vem quando ele começa a esticar as pernas, quase tocando o chão.
“Eu disse que você não pode descer enquanto não comer a sua comida”
“Eu não estou descendo…”

50 minutos e contando.
Se eu não tivesse olhando o relógio constantemente, não acreditaria.
Estou feliz por minha paciência chegar até aqui. Mas incerto de quanto tempo ainda posso resistir.

“Eu acho que três garfadas acabam com esse prato”, arrisco, “quer tentar?”
Ele então volta a cadeira para junto da mesa, pega garfo e faca com uma destreza que ainda não tinha visto, enche o garfo sem olhar os pedaços de cebola, coloca na boca um após outro, até finalizar o combinado.

Quase hora de dormir, mas ainda comemos melancia. E sem reclamação.

por Celsão ele mesmo ou Celsão “pai”

figura retirada daqui

P.S.: pra quem não leu, segue outro conto-peripécia (aqui)

Um sopro

Posted: September 26, 2017 in Outros
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Somos um sopro diante da imensidão do universo, pequenos, minúsculos eu diria.
Temos nosso papel e significado, mas no todo somos quase nada.
Mas um quase nada importante para muitos, muitas vezes, familiares, amigos, amores… E como todos, partiremos um dia, como um sopro, pode ser que ninguém veja, somente nós saberemos… quem sabe?
Enquanto isso, difícil dizer, curtir a vida, que não se sabe quão longa será, deixar de lado o consumismo, o apego material, a falta de tempo para nós mesmos e para com aqueles que nos amam. Difícil viver num mundo capitalista e conseguir desapegar daquilo que nos é imposto,
Quero poder ver mais sorrisos das minhas crianças, pois amanhã, não mais serão. Amanhã, já não serei prioridade, meu valor e importância serão reduzidos, gradativamente. Como é difícil saber que nada é para sempre, que num sopro, tudo pode ruir.
(…)

Um Sopro

Apenas um sopro
Fuuuuuuuu…
É o que somos

Um longo sopro
e apagam-se as velas de comemoração
um suspiro…
seguido de outro longo sopro
e tomamos coragem,
para aquela
tão ensaiada declaração

Um forte sopro
para diminuir o sofrimento
daquele filho que se ralou
por andar desatento

Um curto sopro
até um cisco se vai
em um piscar de olhos

Somos um sopro,
oxigênio “puro”
e continuamos pouco,
minúsculos…

Um sopro
pra dizer Eu Te Amo
um sopro
pra deitar e dormir
um sopro
e os filhos crescem
um sopro
pra vê-los seguir

Um sopro
fazemos planos,
entusiasmados
noutro sopro
mudamos o rumo,
drasticamente

Somos um sopro
vivemos aqui por um sopro
partiremos
sabe-se lá quando…
com certeza, num sopro

Flávio Augusto Ramos de Souza

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Os textos são do meu irmão e leitor, Flávio.
Eles se completam, se complementam, se explicam.
Creio que outros comentários sejam dispensáveis…

por 
Flávio Augusto Ramos de Souza

figura retirada daqui

P.S.: outra sugestão de leitura, aqui

Na balada

Posted: May 17, 2017 in Comportamento, Outros
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Olá Princesa.

Oi.

Você vem sempre aqui? Posso te pagar um drinque?

(…) E agora? (disse após algum tempo, fazendo uma interjeição desesperada)

E agora o quê?

Poderia ter sido rápida e responder com o risinho inocente que você estava esperando, ou começar a enrolar o meu cabelo enquanto te olhava de cima a baixo, demonstrando que ainda o avaliava. Ou ainda virar a cabeça, fingindo e sua inexistência. Perdi o tempo dessas reações conhecidas e não sei como lhe tratar nesse momento.

Nossa!

Nossa o quê? Não esperava frases coordenadas? Nem raciocínio rápido? Ou simplesmente não queria?

Fiquei surpreso…

Surpreso pelas minhas palavras, pela reação inesperada ou por encontrar uma mulher inteligente e capaz de usar palavras que você não conhece? (…) Eu bem que disse à Vanessa que queria ter ficado em casa.

É esse o problema?

Problema? Entre nós é você que está com problemas. Decidiu vir pra cá querendo uma diversão fácil, uma traiçãozinha inocente. E não sabe como lidar. Sequer tem coragem de arranjar uma desculpa e sair.

(Silêncio)

Alô? Falei rápido ou complicado demais?

Estou apaixonado…

Ah, entendi. Você é daqueles que “piram” num desafio e encontrou em mim algo inédito.

Onde está a Vanessa?

Deve estar beijando a terceira boca. Por quê?

Ela está se divertindo mais que você. Ela é que é esperta…

Ela simplesmente consegue “desligar” os problemas pelo tempo necessário de se divertir e entrar num Mundo de Alice. Do Facebook. Todos são felizes. Ou só o hoje interessa. Passei dessa fase. E… não posso deixar de comentar o “esperta” na sua colocação; eu não sei se foi preconceito ou rótulo.

Como assim?

Você está rotulando uma pessoa que nem conhece como fútil, fácil, burra. Deve aprender que beijar três bocas numa noite não a faz vagabunda. Você faria isso. Se pudesse e fosse mais que um rosto bonito numa roupa de marca.

Estou impressionado. Você é a mulher dos meus sonhos.

Acorda cara! Você não está preparada para uma mulher. Você quer uma menininha que te obedeça…

(Novo silêncio)

Sua mãe não me suportaria, pois eu leria os dramas artificiais dela para com você e talvez outros detalhes da sua família, imperceptíveis pra você, pro seu pai. Seus amigos fúteis não falariam comigo por medo e eu não conseguiria conversar com as namoradas deles. Você ia achar desculpas para sair sozinho com os amigos, mas não permitiria que eu fizesse o mesmo.

O que eu devo fazer agora pra te agradar?

Criar uma segunda impressão melhor que a péssima primeira, quer seja por citar um livro que eu li, de um autor que gosto, quer por fazer um comentário inteligente retirado de um filme premiado, ou ainda por me fazer rir.

Você sempre trata os homens dessa maneira?

As vezes. Os que “se acham” perfeitos ou acima dos outros, os preconceituosos, os indelicados, os grosseiros, sempre. Me interesso também pela reação dos demais…

Você sabe de tudo?

Não. Mas já sei que você conta na roda de amigos sobre suas conquistas, julga as mulheres pela roupa e pelo tanto que bebem.

Eu não sou machista.

Sob a própria ótica, nenhum homem é. A verdade é que poucos se assumem.

Estamos conversando demais. Poderíamos estar ocupados noutra atividade. Que tal um beijo?

De que planeta você veio? Acha mesmo que vou te beijar?

Acho!

Ao menos autoconfiança você tem…

 

 

por Celsão “contista”

figura retirada daqui. O site apresenta uma das muitas pesquisas sobre machismo.

P.S.: lembrem que o machismo mata muitas mulheres, todos os dias. Assédio, cantadas ofensivas, toques desnecessários dificilmente são bem vindos, sobretudo entre desconhecidos. Homens, por mais piegas que seja, pensem nas mulheres como suas mães, irmãs e filhas. Respeito! 

Compartilho o vídeo acima, por achar (primeiramente) a propaganda criativa.
Conseguiram explorar um sonho de criança/adolescente fugindo do padrão “normativo-social” que temos atualmente. Mostraram a busca pelo sonho, a perseverança em atingir aquele objetivo, o apoio da família…

E me perguntei, assistindo o vídeo, se acreditamos que todo sonho é aceitável?
Se realmente apoiaríamos nossos filhos em qualquer desejo deles, em todas as “maluquices” que pensassem em fazer, em qualquer profissão que escolhessem.
Um “filho de pobre”, expressão que meu pai sempre usava, sofre mais intensamente dessa pressão em “ser alguém” e desistir de um sonho em prol de evolução econômica e social. Se escolher uma carreira artística, como o teatro, por exemplo, será persuadido na melhor das hipóteses a buscar essa realização profissional depois de conseguir uma “profissão”; e aqui uso aspas na palavra profissão, pois ela é específica, “profissão” para pobres se resume a advogado, médico e engenheiro, grosso modo.
Se o tal “filho de pobre” for gay então… o “ser alguém” engloba não só a profissão, mas um comportamento exemplar, desprovido de sexualidade, que esconda sua atração por pessoas do mesmo sexo, suas perguntas e negue, quase sempre, as estórias aventadas pela vizinhança.

Por que tudo isso?
Somos treinados, ou doutrinados socialmente, para o sucesso. Desde muito cedo, o bombardeio televisivo e midiático nos mostra que nosso brinquedo recém adquirido não é tão bom quanto aquele outro, que nossas roupas não ostentam os animais corretos no símbolo, que a TV da loja tem mais botões, que o carro do vizinho é mais confortável, espaçoso e tem motor maior…
Se a pessoa nasce fora deste estereótipo de “sucesso”, não é branco, homem, hétero, por exemplo; o atingimento deste “sucesso social” passa também por essas questões imutáveis de raça, credo e sexualidade. É como se o sucesso fosse preconceituoso.

Voltando ao vídeo, e sugiro que o vejam pela segunda vez, prestando atenção nos detalhes só percebidos após o conhecimento do seu desfecho, a sucessão de fatos entre a decisão de seguir o sonho e a realização do mesmo, sugere uma sociedade perfeita e utópica. Uma academia para o treino específico de “ring girl“, a viagem para Las Vegas, a chance real numa luta de boxe… seriam eventos praticamente impossíveis separadamente.
Qualquer paralelo com a realidade mostra o mesmo. Um menino pobre, se homossexual, terá barreiras ainda maiores para transpor se tiver o sonho de se tornar apresentador de TV. A família o desencorajaria prontamente, mesmo aceitando a sua sexualidade, e estereótipos “comuns” até o levariam para a TV, mas em funções secundárias como maquiador ou cabeleireiro, não desmerecendo-as, o intuito é falar sobre o nosso preconceito.

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post_sonhoNorberto decidiu passar a festa de Réveillon em casa.
Havia muito tempo que não voltava àquele bairro periférico de São Paulo e as razões eram muitas.

A infância e adolescência foram períodos difíceis. Havia a presença constante e inesquecível da família e dos vizinhos. A primeira em sua resistência em aceitar sua sexualidade e o medo constante de agressões verbais e físicas do segundo grupo.

Mas agora, acreditava Norberto, algo estava diferente. A sociedade havia evoluído de certa forma, tanto a TV quanto as redes sociais “aceitavam melhor” os gays e, legalmente, já era permitido até casar (quem diria?) com pessoas do mesmo sexo.
E lá foi Norberto com seu companheiro e sua saudade para o Jardim Santa Cruz.

Tantos sonhos reprimidos. Tantas oportunidades coibidas.
Não gostava de futebol, nem de pipas, nem de carrinhos de rolimã.
E era a capoeira, naquela lista de diversões acessíveis na periferia da sua época que o atraía. Mas não podia praticar capoeira, ou melhor, acreditava que lhe seria vedado, visto que muitos dos que lhe ofendiam verbalmente frequentavam aquele círculo.

Em casa, vieram olhares desconfiados para Alexandre, seu namorado, conforme esperado. Para os mais velhos, mesmo entendendo e aceitando a condição de Norberto, receber um namorado não era realmente uma tarefa fácil. Compreensivo, Norberto fingiu não notar os olhares e nem as discussões e pequenas brigas sem sentido que presenciou. É algo corriqueiro numa família grande e desestruturada, pensou, e sempre aconteceu aqui.
Seu objetivo era também apresentar sua família a Alexandre, que já lhe houvera apresentado a dele. E, rusgas a parte, havia sido uma boa experiência.

Aproveitou a noite quente e sem nuvens para sair. Uma certa coragem lhe aflorava, naquela rua de muitos medos e bullyings, palavra que na época nem existia.
Decidiu ir até àquela casa onde melhor lhe acolhiam, onde a alegria sobrepujava o sofrimento daqueles que ali viviam com poucos recursos.

Só que, lá chegando, percebeu que a nova geração que ali se encontrava, com seus modernos celulares, selfies e publicações instantâneas, comentava ostensivamente a sua presença e a de seu namorado. Chegava até a ridicularizar o anel que ambos usavam.
Eles mal se olhavam, mas sentiam o aperto desconfortável da situação, dos comentários direcionadamente perniciosos.
Não é possível que não haja evolução, pensou pra si, as cabeças são outras… muitos anos passaram!

Quando estavam prestes a sair, em busca de ar, ou refúgio, ou paz, ou carinho… receberam a esperança num copo de caipirinha. Um dos presentes da festa pareceu perceber o preconceito e os ofereceu o que podia naquele momento, numa aproximação tímida.
Após o primeiro gole, veio a dúvida se aquilo havia sido oferecido realmente em busca de integração, ou se era um ato inocente de alguém bem intencionado.
O estranho tentou puxar papo e perguntou se eles desejavam algo mais. O “eles” mostrou certo respeito, e aparente anuência com a presença deles, com o fato de serem um casal, de estarem juntos naquela festa.
“Vocês moram por aqui?”, perguntou ele.
Realmente ele percebeu o quê somos. E pareceu não se importar.

O álcool e a esperança na humanidade aliviaram a noite. E trouxeram, para o começo de 2017, uma confiança e uma fé renovadoras.

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por Celsão correto

vídeo recebido por whatsapp. Mas também disponível no Youtube aqui

figura retirada daqui

P.S.: o conto provém de uma estória real. 

Conto de pai

Posted: January 12, 2017 in Outros
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conto-paiChego na escolinha e sou recebido com um imenso sorriso, seguido daquela corrida desajeitada (porém linda) em minha direção e de um abraço apertado.
“Hoje eu te levo na natação!”
E o “Eba!” é tão espontâneo e intenso que tenho a certeza que terei uma tarde esplêndida, ou melhor, que todo o tempo juntos será de curtição e aprendizado mútuo.

Consigo facilmente ignorar o celular durante a aula e curto “babando” pelo vidro as “manobras” do meu golfinho. Me impressiona a obediência ao professor novo.
No banho, nem a falta de água quente diminui nossa empolgação e nossa festa.
As ladeiras pra casa são de músicas, explicações divertidas sobre uma ou outra observação, planos de brincadeiras com dinossauros ao chegar em casa e… da primeira pirraça, quando peço que ele ande um pouco.
O sol ainda brilha e o calor do verão paulistano me faz suar.

Tudo bem.
Em casa tento retomar a rotina: oferecer fruta e bolacha para recuperar as energias, já avisando do jantar que estava porvir.
A comida é imediatamente recusada, assim como a água, o suco e os demais alimentos oferecidos: “quero pirulito!”, “não”, e o primeiro choro; daqueles sem lágrimas, que mostram apenas insatisfação.
Mudo o foco pegando um dinossauro que está por perto e imitando o seu rugido feroz; partimos pra brincadeira.

Em seu quarto, fecho a janela. A intenção é evitar os pernilongos.
Ele abre, dizendo estar com calor.
Eu ligo o ventilador, pois realmente faz calor.
Ele desliga, alegando numa frase imperfeita que “sinto frio de ventilador”.
Quando insisto e tento explicar os motivos, ele passa a mexer nos botões do eletrodoméstico, fingindo não ouvir o que eu digo.
Num rompante sai do quarto; e volta com uma porção grande de papel higiênico nas mãos. Passa a picar o papel sistematicamente e soltá-lo na frente do ventilador.
Eu até poderia reprimi-lo; mas achei aquilo tão criativo e ímpar, que decido viver o momento. Afinal, depois é só recolher aquele papel…
Ele me olha a cada pequeno pedaço que voa e ri com as reviravoltas que os mesmos dão…

Meu celular toca. É um dos números que insiste em falar com o Claudinei Gomes.
Ao invés de desligar ou explicar que não o conheço, peço, dessa vez, informações do local e empresa, bem como o nome do atendente.
Mais que depressa, recebo o peso do agitado pequenino nos ombros, insistindo no “quem é?” e pedindo para conversar com o moço.
A ligação cai sem que eu entenda resposta alguma do “moço”. Ao tirar o telefone do ouvido, explico calma e racionalmente que aquilo é inconveniente, que atrapalha e que me atrapalhou.
Novo choro. Nova mudança de foco, dessa vez tomando um carrinho nas mãos…

Hora de jantar.
Só consigo a presença na mesa com uma bolinha de tênis. Só que a mesma cai das mãos, invariavelmente, a cada colherada.
Aquilo me irrita, e passo a me perguntar se uma criança de três anos conseguiria ser irônica ou sarcástica, propositalmente. E se o papel no ventilador teve esse propósito de me irritar.
Me contenho e não ralho com as risadas e os repetidos movimentos para descer da cadeira, pois a comida é consumida pouco a pouco, apesar do “não quero o verdinho”.

Seguimos na brincadeira da bolinha até que meu celular toca novamente.
Uma tia, que pede para falar com a criança sapeca, não pôde ver que recebe em resposta uma cabeça afundada na almofada da sala. Nem uma palavra sequer, apesar da insistência e do viva-voz.
Será possível? Há um minuto atrás queria com todas as forças comunicar-se via celular!

E a sequência rotineira final chega: mamadeira, xixi, remédio, escova de dentes…
Tudo negado desde o princípio. Cabeça afundada. Esconderijo na cortina. Corrida para o quarto.
A mamadeira vai, entre brincadeiras com o controle remoto da TV. Repreendo e causo uma birra que não permite os demais passos sem choro.
Remédio cuspido. Xixi sentado à força. Pasta de dentes entre prantos. E, óbvio, depois de tudo, clamor pela presença da mãe.

Impossível não pensar que sou um péssimo pai.
Impossível não filosofar sobre a repreensão durante a mamadeira. Seria cansaço ou birra de minha parte?
Apenas cinco horas depois de começar o período esplêndido pai-e-filho, um deles esperneia na cama chamando pela mãe e o outro cogita pegar o celular para perguntar sobre o horário da volta.

O choro segue ininterrupto enquanto janto, assisto ao jornal e olho meu celular.
“Ninguém morre de chorar” disse o pediatra dele certa vez. Mas mesmo assim mando aquele whatsapp consultando a localização e o horário da volta.
Quando o choro-manha completa meia-hora, me levanto e vou até o quarto.
“Onde dói?”, “O que você tem?” e “O que aconteceu?” são ignoradas. Como o otimista sempre pensa na parte boa, ele não chama pela mãe…
Explico que é hora de dormir e saio.

Mais vinte minutos inteiros…
Ignoro conselhos, o pediatra, meu lado racional e a máxima de vó que “uma hora cansa” e entro novamente no quarto.
Dessa vez pego no colo, apoio no ombro e faço perguntas fechadas: “Quer leite?”, “Está com frio?”, etc. até obter uma resposta e levar um copo de suco de uva e duas bolachas “maizena” para a cama.
O silêncio vem como resposta em dois minutos. O sono em menos de dez.

Pai também erra. E sofre. E ama.

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui. Engraçado estar num texto do Silas Malafaia… 

Vida

Posted: November 9, 2016 in Outros
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postÂngelo sentou-se no sofá.
Afundando em tristeza enquanto a própria deformação do móvel envolvia o seu corpo magro.
Os minutos se passaram daquela forma taciturna e indolente. Mas foram respeitados.
Seu rosto estava ainda mais marcado. Era como se parte dele não estivesse mais ali.
Não havia necessidade de palavra. O silêncio caía bem, dada a situação. Ao mesmo tempo em que muito era dito em pensamentos.
A admiração mútua, as estórias e aventuras compartilhadas em São Paulo, o sonho de regressar à terra natal…

O outro acabava de voltar de uma viagem especial.
Sentia um misto de alívio, pela missão cumprida, e vazio. Mas entendia aquela tristeza.
Os últimos meses passaram pela negação, revolta e demais fases psicológicas descontroladamente. Escancarando a humanidade que a própria humanidade tenta negar.
A fragilidade, a frivolidade… a vida como vivemos!

Anos antes partilharam festas de aniversário com refrigerantes em garrafa de vidro, programas Sílvio Santos em salas apertadas, visitas sem aviso prévio que não acabavam antes daquele café passado na hora e dos biscoitos, bolos, pães. Coisa de baianos, ou de nortistas, como eles próprios se classificavam.

Voltando ainda mais no tempo, partilharam aventuras num São Paulo sem trânsito na Rebouças, com Pelé no Pacaembu e torcidas misturadas nos estádios, fotos em monóculos, excursões para Aparecida, bailes na tal “terra da oportunidade”.
Emigração corajosa, sofrimento, sub-empregos, profissões descobertas, família! Tudo partilhado e compartilhado.

Mas aquele encontro era único. Algo ainda não experimentado.
A perda gerava desconforto.
Aquele típico desconforto aflitivo, provocador, que se tenta sanar dizendo algo inteligente, marcante, útil.
Mas não era possível. O silêncio dizia mais. Declarava o respeito e o amor sentido por eles, para com o que havia partido.

Incontáveis instantes depois, uma frase banal rompeu aquele silêncio, mas irrompeu lágrimas reprimidas e verdadeiras.
As barreiras do machismo e preconceito deram lugar ao extravasar de sentimentos.

A dor foi celebrada e partilhada, naquele momento, para dar lugar, posteriormente e novamente, à vida.

por Celsão filosófico

figura retirada daqui

Outros Setembros

Posted: September 27, 2016 in Outros
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11162237501418Quando alguém do meio do século XXI abrir livros de História os capítulos começarão todos pela data ocorrida nesse mês: 11 de setembro.
Neste dia, em 2001, o mundo civilizado pediu paz e começou uma guerra que já dura 15 anos.

Foi bonito ver líderes mundiais, comovidos, uníssonos, circunspectos, solidários, pedindo, implorando e até mesmo impondo a paz. Mas os pedidos de paz foram encaminhados para o endereço errado. Não é o fanático que nasceu num gueto, nem o miserável guerrilheiro desdentado que resolveu ser terrorista, o grande fomento de violência.

Ou vocês acham que os miseráveis, os excluídos, os sem-terras, os repatriados, os espoliados, os humilhados e os condenados a viverem sem razão, barrados na grande festa da prosperidade que o mundo globalizado e neoliberal promove para 20% da população mundial que desfruta dos bens e serviços que a modernidade propiciou não querem a paz?

Os pedidos de paz deveriam ser direcionados para os banqueiros que não pagam impostos, aos latifundiários que escravizam e matam camponeses, aos laboratórios e aos planos privados de saúde que fazem a regra do jogo, à televisão com sua programação de violência e mentira. Os pedidos de paz deveriam envergonhar os governantes desonestos, o administradores corruptos, os juízes comprometidos; deveria mudar os “bispos” com letras minúsculas que roubam dízimo de operárias e operários, sensibilizar a polícia barbárie que assusta mais do que acalma.

A retaliação poderia atingir também o protecionismo, os embargos econômicos, a remessa de lucros, a mão de obra barata das multinacionais, o descaso com o meio ambiente, a submissão de governantes pouco éticos e a arrogância dos xerifes da terra.

É claro que até esses querem a paz, mas são eles que fabricam a miséria e a violência. Se quisermos realmente a paz deveríamos tentar distribuir a riqueza do mundo, estender a todos os benefícios dos avanços tecnológicos; partilhar as descobertas científicas, sonhar junto a utopia de uma sociedade justa e igualitária com bom senso.

Não existe violência (ou quase não) onde há prosperidade.
Não há prosperidade sem justiça social. Sem justiça social, não há nada, não há nada, não há nada. Só radicalismo, fundamentalismo, lamentações e entulho arrastado.

por Raul Filho

figura retirada daqui

Portas Fechadas

Posted: September 5, 2016 in Sociedade
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Porta-fechadaJosé saiu de casa muito cedo.

Mulher e três filhos ainda dormiam nos dois cômodos que fez nos fundos da casa de sua sogra. Sem tempo e zelo para o café ralo e puro, caminhou apresado rumo ao ponto da única linha de coletivos que serve sua comunidade. O bruto veio atrasado, lotado e mal cuidado, tarifado pela ida e pela volta por meio dia de serviço que José nem tem.

Horas intermináveis com fumaça e buraco, pigarros e bocejos. Parecia uma coreografia mal ensaiada com bailarinos como  ele.

Fim do primeiro trecho, numa Central do Brasil muito longe de ser holywoodiana. José entre centenas, milhares talvez de outros josés, manés e bonés. As portas fechadas por preocupação, o dia começando lá fora e a cidade descobrindo seus sons e sonhos urbanos. Camelôs e prostitutas, menores abandonados, ladrões e trabalhadores, todos em um mesmo fundo de tela. Vários josés, centenas de marias, outros tantos anônimos, disputando uma corrida sem chegada, sem podium, sem nada.

José confere o recorte de jornal: “Temos vagas”. Sonha novamente, pensa na mulher, nos filhos, na cachaça e no farto almoço. Na marmita, nada de novo. Mais lotação, mais condução, mais confusão. De novo lotado, de novo mais caro, José sacudindo rumo ao endereço recortado, mal cortado. No ônibus, um grito, um susto, um assalto, um beijo, um pastor e duas putas. Um motorista rude, um cobrador sem alma, um ponto final longe da calçada. Desce José com o papelzinho na mão e uma esperança na cabeça. Fosse ele um cineasta do cinema novo, faria um daqueles filmes que não são compreendidos.

Desembola o papel e confirma o endereço. “Há Vagas”. José sorri, mas nem percebe.  Tempo não tem, mas lhe deram. Porta fechada. Reabre depois, quando o chefe quiser. José vê a obra, José olha as horas, caminha na calçada pro tempo passar, mas a fome não passa.

Espera na banca, lendo manchetes com outros josés, algumas marias: Palestinos  e atentados,  Congo e campos da morte, Argentina e desespero, preços sobem com o dólar, demissão de metalúrgicos, assassinatos de sem-terra, mandantes absolvidos, hipocrisia e Bolsonaro, Wack e Hulk, corrupção  e impunidade, crime organizado e polícia desorganizada, seca malvada, chuvas ingratas, padres pedófilos e comunistas ungidos, políticos canalhas, descuido e descaso, maracutaias e deputados, besteiras e mulheres peladas.

Os sons da rua, uma rua do Centro, ambulância e pedintes, freadas e discussão, vitrines e ofertas, estudantes e secretárias, gravatas e apertos. José confere a porta fechada, fila de dez, 12 talvez. Mais uma vez, a porta fechada se abre pro aviso – “ficha só depois do almoço! – procurem o dotô!”, que vai ver, nem formou, mas é doutor. José ganhou tempo sem pedir, pensa na mulher, pensa nos meninos, dois na escola sem professor, um com a avó. A mulher na lida, na luta, faxinando o sustento em casas vizinhas. Lembrou-se da promessa: “Só volto empregado!” Perdeu meio dia, mas não a marmita. Almoça sentado, é abordado por um PM fardado, os documentos mostrados, a dúvida, o esculacho, o desrespeito, a vergonha e a porta fechada.

José pensa no bairro, na rua, na vila. Lembra do barro, do mato, dos ratos. Imagina ambulância, hospital, doutor, vacina, saneamento, escola, condução, jornal, prefeito e polícia no seu bairro distante, feudo de traficante. Ri sozinho do dengo, do Mengo e da vida. Vasculha a memória, se lembra  de um sorriso que deu na infância, doce lembrança no sal da avenida cinzenta que mantém  portas fechadas.

Porta aberta, José se assanha, se apressa e se apresenta pro mestre de obras que tem  emprego e afilhado, José chegou tarde. Porta fechada. Mais uma na cara. José desde cedo na rua, procurando trabalho, não quer ser bandido, não quer sem mendigo, não quer ver seus filhos chorando ou no crime, quer trabalho e cidadania, quer respeito e cafuné na nuca. José chora pra dentro, soluça escondido.

Seis da tarde, hora de ir embora, gente com pressa andando ligeiro, esse é o Rio de Janeiro. Na volta pra casa, o pensamento distante, a promessa quebrada, um guarda safado, um bandido estirado, dois ônibus lotados, os últimos trocados,  o santo xingado, sua rua esburacada, sem poste, sem ambulância, sem segurança, um cachorro enjoado lhe morde o calçado, José chuta o bicho pro lado. Nesse instante surge a vizinha: “Não chuta o cachorro, José, violência não!”

José nem responde. Não tem nem por onde.

Em casa, outra porta fechada.

por Raul Filho

figura retirada daqui

Conto da semente

Posted: May 11, 2016 in Outros
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robogamesEstávamos empolgados!
Agora daria certo!

Já havíamos investido bastante tempo em projetos extra-curriculares ou paralelos infrutíferos, como futebol de robôs e brinquedos para a Estrela.
E o insucesso independia da vontade dos que estavam ali, autodenominados Los Cuervos, que manejavam as obrigações estudantis, as festas e a vida fora da faculdade do melhor modo possível; a falta de recursos financeiros pesava muito.

A área utilizada para os trabalhos era a chamada “fabriquinha”. Montada para exercícios práticos de controle de processos e simulações industriais, estava abandonada após um trágico incidente do passado, que de certo modo “marcou” a mecatrônica da USP como um “curso de loucos”.
Não ligamos para eventuais “espíritos zombeteiros” ou vudus dali. A vontade de ter um espaço “nosso” e de aplicar os conhecimentos recebidos, expandindo-os em vários aspectos era maior, muito maior!

Voltando à empolgação, estavamos sendo “convocados” para a primeira equipe de Guerra de Robôs da POLI.
Seguiram-se reuniões de “convocação de bixos”, de brainstorming sobre ideias de robôs, de discussões de regras e categorias para os autômatos, de detalhes das “arenas”, em formato de Octógono, seguidas compras na Santa Ifigênia, infinitas usinagens na precária e burocrática oficina mecânica da faculdade, a compra de um motor de kart usado…
(E como aquele motor fazia barulho!)

Lembro-me também da tarde em que, após soldarmos a estrutura reforçada do robô, proveniente de cálculos realmente realizados, decidimos pesar o “bicho”.
A tristeza foi geral ao notarmos que, dos 35kg máximos, havíamos “consumido” 28kg na estrutura, não sendo possível colocar nem baterias, nem o motor de kart.
E eis que o nobre Filipe Dessen, bixo incansável e eficaz, sujo até os ouvidos de fuligem de solda, tomou o disco de corte e decidiu por todos, retomando o ânimo da equipe: “Basta cortarmos os braços. Vai dar certo!

E deu certo: quinze anos depois (mal dá pra acreditar que faz tanto tempo) e com outro nome, a equipe Los Cuervos, hoje Thunderatz, ganha três medalhas numa competição internacional, o Robogames 2016.
Sem esconder que a PUC RJ (equipe RioBotz) e seu robô Touro obtiveram resultados expressivos muito antes. Bem como os mineiros do Uai!rrior (faculdade UNIFEI), que são campeões seguidamente…
É que, bairrismo a parte, é indescritível a sensação de ver a semente plantada gerar fruto! Pensar nas madrugadas, nos xavecos que tivemos que passar no “seu Alceu” pra liberar as ferramentas e as máquinas após o horário comercial, nas reuniões tensas com o pessoal da EFEI, no 11 de Setembro que adiou (e quase cancelou) a primeira competição, na empolgação pura e também financeira do professor e amigo Marcos Barretto… é impossível não ser bairrista e agradecer a “bixarada” do Thunderatz… Valeu!

Que esse exercício de descobrir a faculdade fora da sala de aula continue movendo muitos. E que o equilíbrio entre vida social, centro acadêmico, conteúdos enriquecedores, matérias sacais e atividades extra-curriculares siga sendo o tom de um lugar endurecido pela teoria.

por Celsão correto

figura retirada da notícia veiculada no portal G1 (aqui). Outra notícia, com vídeo, foi divulgada pelo SBT (aqui)

P.S.: a propósito, a equipe Thunderatz tem página oficial, canal no Youtube e está na Wikipedia. Sinal dos novos tempos!
P.S.2: agradeço também aos companheiros de equipe Rodrigo de Deus, Léo Carnellos, Daniel Olioni, Eduardo Pasianot, Filipe Dessen, Daniel Nestrovsky e Rafael Tanaka. Aprendi horrores com vocês!