Posts Tagged ‘Conto’

Conto da semente

Posted: May 11, 2016 in Outros
Tags: , , ,

robogamesEstávamos empolgados!
Agora daria certo!

Já havíamos investido bastante tempo em projetos extra-curriculares ou paralelos infrutíferos, como futebol de robôs e brinquedos para a Estrela.
E o insucesso independia da vontade dos que estavam ali, autodenominados Los Cuervos, que manejavam as obrigações estudantis, as festas e a vida fora da faculdade do melhor modo possível; a falta de recursos financeiros pesava muito.

A área utilizada para os trabalhos era a chamada “fabriquinha”. Montada para exercícios práticos de controle de processos e simulações industriais, estava abandonada após um trágico incidente do passado, que de certo modo “marcou” a mecatrônica da USP como um “curso de loucos”.
Não ligamos para eventuais “espíritos zombeteiros” ou vudus dali. A vontade de ter um espaço “nosso” e de aplicar os conhecimentos recebidos, expandindo-os em vários aspectos era maior, muito maior!

Voltando à empolgação, estavamos sendo “convocados” para a primeira equipe de Guerra de Robôs da POLI.
Seguiram-se reuniões de “convocação de bixos”, de brainstorming sobre ideias de robôs, de discussões de regras e categorias para os autômatos, de detalhes das “arenas”, em formato de Octógono, seguidas compras na Santa Ifigênia, infinitas usinagens na precária e burocrática oficina mecânica da faculdade, a compra de um motor de kart usado…
(E como aquele motor fazia barulho!)

Lembro-me também da tarde em que, após soldarmos a estrutura reforçada do robô, proveniente de cálculos realmente realizados, decidimos pesar o “bicho”.
A tristeza foi geral ao notarmos que, dos 35kg máximos, havíamos “consumido” 28kg na estrutura, não sendo possível colocar nem baterias, nem o motor de kart.
E eis que o nobre Filipe Dessen, bixo incansável e eficaz, sujo até os ouvidos de fuligem de solda, tomou o disco de corte e decidiu por todos, retomando o ânimo da equipe: “Basta cortarmos os braços. Vai dar certo!

E deu certo: quinze anos depois (mal dá pra acreditar que faz tanto tempo) e com outro nome, a equipe Los Cuervos, hoje Thunderatz, ganha três medalhas numa competição internacional, o Robogames 2016.
Sem esconder que a PUC RJ (equipe RioBotz) e seu robô Touro obtiveram resultados expressivos muito antes. Bem como os mineiros do Uai!rrior (faculdade UNIFEI), que são campeões seguidamente…
É que, bairrismo a parte, é indescritível a sensação de ver a semente plantada gerar fruto! Pensar nas madrugadas, nos xavecos que tivemos que passar no “seu Alceu” pra liberar as ferramentas e as máquinas após o horário comercial, nas reuniões tensas com o pessoal da EFEI, no 11 de Setembro que adiou (e quase cancelou) a primeira competição, na empolgação pura e também financeira do professor e amigo Marcos Barretto… é impossível não ser bairrista e agradecer a “bixarada” do Thunderatz… Valeu!

Que esse exercício de descobrir a faculdade fora da sala de aula continue movendo muitos. E que o equilíbrio entre vida social, centro acadêmico, conteúdos enriquecedores, matérias sacais e atividades extra-curriculares siga sendo o tom de um lugar endurecido pela teoria.

por Celsão correto

figura retirada da notícia veiculada no portal G1 (aqui). Outra notícia, com vídeo, foi divulgada pelo SBT (aqui)

P.S.: a propósito, a equipe Thunderatz tem página oficial, canal no Youtube e está na Wikipedia. Sinal dos novos tempos!
P.S.2: agradeço também aos companheiros de equipe Rodrigo de Deus, Léo Carnellos, Daniel Olioni, Eduardo Pasianot, Filipe Dessen, Daniel Nestrovsky e Rafael Tanaka. Aprendi horrores com vocês!

 

Madrugada

Posted: February 14, 2016 in Outros
Tags: , , ,

frases madrugada luaO relógio marca 0:37h. E a TV mostra uma cena que conheço e remexe fundo na mente, aquele “já vi isso antes”.
O filme do Corujão 1 é antigo, certamente do final da década de 80 ou começo de 90… A programação mostra: “A Casa do Espanto I”, mas me é mais familiar que isso. Descobri pela voz do Egon: “Os Caça Fantasmas”!

Eu deveria escrever algo sobre o Carnaval.
O problema ocorrido nas apurações de São Paulo(?), só se fosse para investigar a massiva participação da Polícia Civil do caso. Nunca vi tanto policial civil junto, nem nas greves recentes… Certamente é alguém buscando promoção própria e encontrando na briga dos dirigentes um prato cheio.
O “suposto” escândalo da passista que tirou a roupa em protesto (!) e foi expulsa do desfile? Vazio! Certamente ela queria mesmo se promover, pois carregava, segundo a notícia, um tapa-sexo com a figura da presidente.
O bom mesmo seria conseguir correlacionar o Carnaval uma vez mais com machismo, buscando aquelas declarações de homens brasileiros que afirmaram categoricamente que blocos de Carnaval não são pra “mulher direita” no mesmo ano que as mulheres pediram um Carnaval sem assédio.
Putz… melhor ainda se desse para citar o vídeo publicado pela jornalista iraniana que sofreu assédio do próprio chefe em seu país. Afinal, machismo não é exclusividade brasileira e está “intrínseco” em muitas culturas e países.
É incrível e lamentável como tem homem que não entende o “não”. E também acreditam que uma roupa curta explica atos primais…

Que bacana rever Bill Murray e Dan Aykroyd com cara de anos 80. Me lembro que assisti esse filme no cinema e que depois comprei o disco (de vinil mesmo) da trilha sonora.
Dispersei de novo com a TV. De volta ao post…

E o lance do Zika vírus e variações das transmissões do mosquito Aedes?
Importante, mas o blog não tem esse apelo de “prestar um serviço à comunidade”.
Faço o primeiro? O que a “galera” pensaria disso?
E a abordagem? Somente informação? Assusto com os casos de transmissão fora do comum, com a infeliz situação geral da saúde brasileira, a mercê de tudo, de laboratórios, a médicos mercenários e, principalmente, políticos corruptos em diferentes esferas?
Não…

Só vou entrar na internet para ver quem é a mulher de rosto conhecido, que faz o papel de Dana: Sigourney Weaver! Show. Aproveitei pra ver o ano do filme: 1984!

Os boatos sobre redução proposital de orçamento do Poder Judiciário e Polícia Federal para atrapalhar as investigações em curso também mereciam um texto!
Afinal, cortar custos é cortar em todos os lugares e é isso que está acontecendo.
Infelizmente os conchavos se mantêm e os cortes poderiam ser mais efetivos… Mas daí vou falar mal do PMDB outra vez…
Falando em boatos, recebi outra vez no whatsapp a notícia que vincula o Lulinha à Friboi. Por que as pessoas espalham antes de buscar no Google? Os celulares também possuem navegador!

Terceira promessa de ficar mais 15 minutos.
Quando peguei o computador as 22h e minha mulher perguntou o que faria, menti que era algo do trabalho para não ser cerceado.
“Por que você tem de dormir tarde todo dia?”
Mas é tanto assunto que merece ser comentado, é tanta necessidade de “botar pra fora”, que a lista de assuntos no arquivo txt cresce tanto quanto as abas não lidas e salvas no Firefox…

Mas os amigos e leitores me enviam tanta coisa legal…
Como um teste de posicionamento político assinado pelo Washington Post e BBC, classificando as pessoas além de direita/esquerda em liberal/comunitarista.
Ou vídeos do youtube com depoimentos interessantíssimos, lições a serem partilhadas, como aquele TED do Marco Piangers…

1:37h!
O filme está acabando e noto como o “Geleia” é diferente daquele que me encantava no desenho animado.

Já sei! Vou escrever um conto.
Talvez dê certo misturar tudo e não falar de nada…

por Celsão irônico

figura recebida via WhatsApp

P.S.: pra não deixar todo mundo “boiando”, os links citados sobre o Carnaval estão aqui e aqui. O assédio da jornalista iraniana aqui. O teste da BBC aqui e o vídeo do youtube aqui. Afinal, vai que não viram textos.

maxresdefaultEu estava com pressa.
Daquela maneira que todos estão com pressa em São Paulo, sobretudo a caminho do trabalho numa manhã de Janeiro, pós-recesso de fim de ano.
Os tradicionais desvios de rota, buscando espaços vazios, me levaram para uma ruela, ladeira, e eu tinha de cruzar para a esquerda. E os carros estavam enfileirados no trânsito da avenida Dr. José Maciel…

E aconteceu.
Um gesto de um motorista amigo, sinalizando “Venha!“, fez com que eu avançasse para cruzar à esquerda. Meu plano era dar aquela “paradinha” no meio fio e perceber se o movimento da outra pista me permitiria seguir sentido centro.
Mas no momento de “embicar” e sem prever o acidente, uma moto pequena que trafegava pela faixa amarela que dividia as duas pistas encontrou o meu “bico” prateado.
O “Fodeu!” saiu instantaneamente. E os momentos posteriores se misturaram entre terminar a conversão com as mãos suadas, buscar um local para estacionar o mais rápido possível, praguejar por ter saído atrasado e com pressa, buscar apoio pra minha culpa com o colega motorista que sinalizou aquele “Venha!“…

Tive calma para ligar o pisca-alerta do meu carro, buscar meu triângulo, isolar a área do acidente e pedir para que o motoqueiro (meu Deus, era um senhor grisalho!) não se levantasse.
Tive paciência com a vítima que não quis sequer falar comigo e com os transeuntes que saíam do bar da esquina e que vinham pela rua censurando todos os motoristas de automóveis. “Você viu?” – me perguntavam alguns. “Vi que o motorista fugiu! Alguém anotou a placa?” – respondiam acusando outros. “Ninguém enxerga as motos” – era o consenso de quem sequer havia acompanhado o ocorrido.
Tive a sapiência de esperar CET (no caso, CIRETRAN), esperar familiares e amigos da vítima, esperar a ambulância.
Tive a educação de oferecer transporte para o hospital e de compartilhar meus contatos com a irmã do Sr. Elói e com quem me pedisse.

Nada mencionei (ao CET ou ao meu seguro) sobre a meia de compressão que o Sr. Elói usava no momento do acidente; nem sobre os comentários de sua própria irmã, Dona Sílvia, que dizia “Ele não poderia estar andando de moto! Eu falo pra ele“.
Tampouco alardeei os detalhes do problema: cirurgia de trombose recente e solicitação para recuperação em repouso. Ao contrário: nas minhas ligações para a Dona Silvia, me oferecia para ajudar, proativamente.
Soube da transferência para o Hospital Geral e da probabilidade de nova cirurgia na perna direita. Soube da ocupação no pequeno comércio, o que explicava todos aqueles sacos de salgadinhos espalhados pela avenida naquela manhã; ocupação que exercia depois de aposentado.

Não entendi quando as notícias pararam de ser transmitidas, as conversas interrompidas, as ligações pararam de ser atendidas.
Não entendi tampouco quando recebi a negativa do registro da ocorrência pela internet. “Quando há vítima é necessário ir até uma Delegacia da Polícia Civil“, dizia a mensagem por email.
Piorou quando fui informado na Delegacia da impossibilidade do registro do boletim sem a vítima. “Você quer que ele pague o amassado do seu carro?“, me perguntava o atônito policial. Eu só queria cumprir as exigências do seguro para um eventual suporte para terceiros.

Eis então que, meses depois, sem aviso anterior, recebo um email do “doutor” Daniel, advogado, representando a vítima, me solicitando guincho e conserto da moto, ressarcimento de gastos hospitalares, indenização pelos lucros não computados no comércio, danos morais…
As conversas me enojaram a tal ponto que passei, tão rápido quanto pude, as tratativas para o departamento responsável da empresa de seguros.
Não sei como acabou, não quis buscar outros detalhes, não investiguei vítima, advogado, detalhes da internação. Preferi acreditar que não haveriam outros “Elóis” e “Daniéis” no decorrer do ano.
Deu certo!

____________________________________________________________________________

Essa é uma estória real, com excessão dos nomes, que omiti sem sequer saber o porquê.
Aconteceu no início do ano passado e me afligiu em alguns momentos, por um longo período. Não pelo eventual trabalho de preparar documentos e descrever o acidente, mas pela pequenez e mesquinhez dos seres humanos envolvidos. Por ter me encontrado com alguns dos que só pensam em si, em lucrar sobre qualquer custo, em levar vantagem…

Vejo o fato de não “jogar no ventilador” a doença prévia e a provável proibição de conduzir motos como um ato ético de minha parte (uns usariam trouxa), visando proteger o “frágil” e garantir que ele tivesse um suporte digno, ao invés de responder juridicamente a um processo.
Eticamente também, assumi a responsabilidade que me cabia, sem fazer picuinha ou buscar justificativas que me amparassem. Mesmo ouvindo de diferentes colegas relatos com desfechos horrendos, ocorridos com motoqueiros, não busquei advogados e realmente acreditei que a senioridade da vítima, trazia ética e bom senso.
No frigir dos ovos, a ética pagou o pato!

Desejo a todos os leitores que as páginas do livro de 2016 sejam preenchidas com utopias e agradáveis surpresas. E, mesmo se houverem problemas a transpor, que não venham acompanhados de “Elóis” e “Daniéis”.

por Celsão revoltado.

figura retirada daqui – um entre tantos vídeos do Youtube gravados por motoqueiros com câmera

 

Seca_Ubá_02_AUbá fica na Zona da Mata mineira. É minha cidade natal, onde mora a maior parte de minha família e onde tenho a maioria dos meus principais vínculos afetivos.
Ubá sofre atualmente uma grave crise hídrica, ocasionada por um longo intervalo de pouca chuva, maximizado pelo desmatamento e não preservação de suas nascentes. E para piorar, a empresa de tratamento de água da cidade, a Copasa, assim como as últimas décadas de gestões da Prefeitura e da Câmara dos Vereadores, pouco, ou nada investiram na rede de captação e distribuição de água na cidade nos últimos 30 anos, e não se precaveram com backups e planos B para eventuais momentos emergenciais, como agora.
Também nada foi feito para o tratamento do esgoto que cai no rio que corta a cidade, ferindo as narinas, os olhos e alma de quem passa na principal avenida de Ubá.

Esse texto foi inspirado por esta situação lamentável pela qual passa nossa Cidade Carinho!


– Vô, cadê a mamãe?

– Luquinha, acho que ela foi ao shopping. Por quê? O que você está precisando?

– É que hoje na aula o professor estava falando sobre clima e relevo. Depois no fim ele sugeriu alguns temas para trabalho, separou a gente em equipes, e cada equipe escolheu um trabalho. Eu convenci minha equipe a escolher o tema “deserto”, pois a mamãe já contou algumas histórias sobre deserto para mim.

– Clima e relevo, com 8 anos de idade? É… os tempos são outros mesmo! O que sua mãe te falou sobre deserto?

– Ah, sempre quando ela lembra da infância dela, ela fica triste, e fala: “Se não fosse a maldita seca, e nossa cidade carinho não tivesse virado um deserto, a gente estaria lá até hoje, e a sua avó ainda estaria aqui entre nós.”

– Luquinha, sua mãe tinha 6 anos quando eu precisei sair de Ubá. Ela tem boas recordações, pois era menina, já as minhas recordações são bem diferentes. Se você quiser, eu te conto.

– Sim, eu quero.

– Na época que papai, o seu bisavô, era criança, o Rio Ubá, que cortava a cidade, era limpo e as crianças brincavam dentro da água. A cidade era arborizada, e tinha muitas fazendas ao redor. Numa dessas fazendas moravam papai e mãezinha, seus bisavós, e eu com meus irmãos.

– Quando você era criança ainda dava para nadar no rio?

– “Risos”… não, meu filho, não… já naquela época quase ninguém tinha coragem de entrar no rio, que já era cheio de esgoto.

– Quando foi isso, vô?

– Vixi, isso que estou contando foi lá por volta de 1985. Quando seu bisavô nadava no rio ainda era década de 50. A gente tinha sorte, pois nossa fazenda era perto da nascente do Miragaia, a principal nascente que compunha o Rio Ubá. A gente andava meia hora e já dava pra nadar!

– E o que aconteceu depois?

– Bom, eu acabei ficando com a fazenda. Casei com sua avó, e juntos tivemos sua mãe e sua tia Marta. Sua mãe nasceu há 45 anos, em 2014, ano de festa, pois foi Copa do Mundo no Brasil. Mas a situação de Ubá já estava ruim naquele ano, e parece que a partir dali foi uma bola de neve!

– Como assim bola de neve?

– Veja bem, Luquinha. O Rio Ubá, desde antes de eu nascer, foi sendo cada vez mais judiado. A cada ano era mais esgoto sem tratamento que era jogado lá dentro. Além disso, a atividade industrial e a agropecuária foram crescendo na cidade. As indústrias e os fazendeiros começaram a desmatar tudo quanto é floresta, para abrir indústria, ou para criar gado, ou plantar as coisas.
Esse povo começou a desmatar também perto das nascentes, e sem vegetação a terra absorve pouca água, e as nascentes começam a secar. Veja: cidade crescendo significa mais esgoto; gente desmatando significa menos água. O resultado foi um rio cada vez mais seco, e mais porco.

– Credo vô, mas ninguém fez nada para salvar o rio não?

– Muito pouco meu filho, muito pouco. E o pouco que foi feito, foi feito tarde demais.

– Mas é por causa disso que vocês tiveram que sair de Ubá?
Seca_Ubá_01_A

– Não. Saímos, por causa da seca. Ubá ficava numa região, onde, de vez em quando, o inverno era muito seco. Porém, enquanto a natureza estava equilibrada, a região conseguia se recuperar desses picos, as plantas voltavam a nascer, as nascentes enchiam novamente. Porém, a falta de consciência do povo, junto com a falta de providências e planejamento do Poder Público e da empresa que era responsável pela água, tirou o equilíbrio da região. Bastou acontecer um ano ruim de chuva, e tudo desandou!

– Como assim?

– Não choveu por meses… o pouco que chovia, a terra não absorvia, a água caía e ia embora. A pouca vegetação que restava começou a morrer de sede. As nascentes secaram de vez! O Rio Ubá era só esgoto, mais nada! Sem água nos rios e nascentes, pouca evaporação, o que gera menos nuvens e ainda menos chuva. É um ciclo vicioso! Seca gera mais seca! Sem nuvem, e sem água, o Sol ardia na nossa cabeça.
Os dias com 40 graus ou mais passaram a ser cada vez mais constantes.

Pra piorar a situação, a empresa de tratamento de água passou décadas sem investir direito na cidade. A cidade se tornou quatro vezes maior, mas a empresa nada fez para aumentar sua capacidade de armazenamento e distribuição. Ali tinha uma confusão de contrato com a prefeitura, contrato feito na época que eu era criança eu acho, e era um negócio complicado, cheio de detalhes sacanas e acordos políticos. E enquanto os políticos e empresários se perdiam em burocracia, o povo morria de sede.

– E o povo, vô?

– Tudo foi virando um caos. Gente reclamando, casas há mais de um mês sem água. Aí, a pouca água que chegava nas casas, começou a chegar contaminada, hospitais sem a devida higienização, escolas sem água nos banheiros, e assim começaram as epidemias. Numa dessas, sua avó nos deixou. Era setembro de 2020, começo de primavera e temperaturas na casa dos 42 graus. Eu buscava água na cidade, pois todas as 15 nascentes do nosso sítio estavam secas. A água daquela vez estava contaminada, e sua avó pegou uma bactéria. Dois dias depois ela se desidratou, por causa do calor e da bactéria, e acabou falecendo.

– Que triste, vô!

– Poucos dias depois todas nossas coisas estavam empacotadas, peguei o nosso carro, e um amigo ajudou com a Kombi dele, e nós viemos para Caxambu. Diziam que era a Cidade das Águas! Prometi para mim mesmo que não sofreria mais por falta d’água! “risos”

– Então foi assim que a gente veio parar aqui, legal! Mas e o que aconteceu com Ubá?

– Luquinha, menos de 10 anos depois Ubá virou uma cidade fantasma. As famílias se foram, e a história da cidade se diluiu. O pouco que sobrou, está na cabeça das pessoas que viveram lá, e em alguns acervos de livros de alguns que se dispuseram a conservar a história. Hoje em Ubá, e num raio de 20 km ao redor da cidade, chove no máximo 30 vezes ao ano. Normalmente são pancadas de chuva, e a terra não absorve nada.
O Rio Ubá virou um longo buraco vazio. A cidade parece um caldeirão, com destroços de casas abandonadas, caindo aos pedaços, e temperaturas acima dos 40 graus no verão. A antiga Mata Atlântica deu lugar a uma vegetação semiárida, tipo a Caatinga. Sabia Luquinha, que a maior parte dos desertos do mundo já foram florestas um dia?

– Uai, não sabia não.

– Pois é. Esse é um processo natural, que acontece às vezes mesmo sem a interferência do homem. Porém, com a interferência do ser humano, esse processo passou a ser cada vez mais comum. Nós aceleramos mudanças que aconteceriam em séculos, milênios, ou talvez nunca, e fazemos com que elas aconteçam em poucas décadas. Ubá é um exemplo disso!

por Miguelito Formador

Para quem ficou interessado sobre os assuntos seca, desertos, e o resultado da interferência do homem na natureza, segue um sequência de links-referência:

  1. Um fenômeno provocado pelo homem que ameaça todo o Planeta: AQUI 
  2. Descubra como se formam os desertos: AQUI
  3. Como surge um deserto: AQUI
  4. Formação e Transformação do Relevo: AQUI
  5. Transformação das paisagens naturais pelo homem: AQUI
  6. Desertificação: AQUI

* Este mesmo texto, com pequenas variações, foi publicado no jornal Gazeta Regjornal, de Ubá-MG. As fotos foram fornecidas pelos editores do jornal. 

bar-celularChego em casa ruidosamente.
Entro pela cozinha, uma vez que trago itens de mercado que precisam ser guardados na geladeira, e vinhos que vão para a despensa.
Noto pela fresta da porta que todos estão em casa; cada um em seu mundo. Me esforço para não gritar nesse momento, ordeno pacientemente tudo o que comprei e aproveito para guardar na geladeira o leite, os frios e outras guloseimas abertas e desprotegidas que mãos “ocupadas demais” largaram na cozinha.

Tento inutilmente beijos de recepção. Reflito comigo mesmo, buscando na memória o início de tudo isso… desse isolamento eletrônico-internético.
Dou risada ao lembrar da música de Gil: “O mundo agora é pequeno por conta da antena parabolicamará.” Misturo essa com a outra, chamada “Pela internet”, ao assobiar. Todos ainda em seus ambientes virtuais, não percebem meu sorriso, meus movimentos de pegar um CD e de colocá-lo para tocar no antigo 3 em 1.

Finalmente vejo movimentos, meu filho sai do sofá da sala e se dirige a seu quarto, enquanto batuco algumas das músicas do Chico Science, Afrociberdelia. Rio sozinho novamente, depois de relembrar onde o meu neologismo eletrônico-internético me levou…
Sou assim, solto. Viajo em pensamentos que se concatenam automaticamente e fogem ao meu controle. Minha mente viaja ao comparar os diferentes verdes de uma simples folha de planta rasteira, ao perceber um riso inocente de criança e o consequente riso de satisfação e orgulho do adulto que a acompanha… Solto a imaginação em livros e até em comenrciais de revista de compania aérea. Mas não me vejo “preso” à internet todas as parcas horas livres do meu dia. Como se o Netflix e o Youtube me dominassem, arrastando-me para as suas indicações.

A esposa, outrora companheira dessas viagens, dos shows, dos planejamentos e ambições, agora acompanha hipnotizada um seriado qualquer no Netflix. A menina mais nova, talvez jogue, talvez publique no Facebook, difícil saber quando o fone branco parece colado no ouvido e os dedos ágeis escrevem ininterruptamente.

Ocupo o espaço entre as duas propositalmente, no afã de receber agrados gratuitos ou, ao menos, atenção. Ambas se mostram incomodadas e se viram simultaneamente, dando-me as costas e se prostrando a 180 graus uma da outra; como uma equipe de nado sincronizado.
Termino o sanduíche matutando sobre o que fazer: entregar-me também aos vídeos do whatsapp? Sair para respirar o ar “puro” de São Paulo? Abrir um livro?

O ócio eletrônico-internético é tentador. O esforço é mínimo quando quase tudo na casa já está conectado às inúmeras possibilidades da rede mundial: TV, computadores, impressoras e até o relógio-despertador, que lê pen-drives, cartões SD e acessa rádios pela internet, ao invés do confuso método de sintonia em ondas curtas.

Vou ao quarto do meu filho e sou sumariamente expulso com um “Cai fora, pai!“. Meu planejamento há 17 anos era conversar abertamente sobre as baixarias e pornografias abundantes das mais variadas formas; correlacionando a comicidade das minhas revistas de difícil obtenção e de intensa circulação entre os “parças” da época.
Como fazer isso agora?

xon-the-phone_jpg_pagespeed_ic_8ZOTFQpD42E se eu criasse um grupo da minha família? Penso, rindo novamente comigo mesmo.
Decerto esse grupo já existe, minha filha deve tê-lo criado… só esqueceu de adicionar o pai caretão.

Vou pra cama ainda curtindo minha caretice; pois começo a imaginar uma estória de pessoas que vivem o mesmo problema.
Será que elas usariam o Facebook para se conectarem umas com as outras e compartilhar este sofrimento?
E o que seria isso, hipocrisia ou inevitável ironia?

Acho que vou escrever um livro.
Talvez o Amazon faça uma versão e-book dele…

por Celsão Irônico

figuras retiradas daqui e daqui (que recomendo também a leitura do relato de vício do Leandro)

P.S.: recomendo também o excelente video dos barbichas, que pode ser acessado aqui .

P.S.2: outro conto nosso relacionado com o tema (aqui)

Minha amiga e nossa leitora, Jéssica Pereira, escreveu um texto brilhante. Apesar de muito crítico, o texto consegue ser suave e capaz de nos tocar no cerne dos sentimentos: a alma.

Reproduzimos então o texto aqui na íntegra:

por Miguelito Filosófico

figura daqui


por Jéssica Pereira

Meritocracia_CriancaVocê nasceu, cresceu, seus pais trabalharam, você estudou, e hoje tem um emprego.

Espero que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, você possa pagar um jantar pra sua namorada.

Espero que sua namorada tenha um emprego.
E que vocês juntos decidam se casar.

Espero que vocês se casem. E com o suor que cai em vossos rostos, consigam se livrar do aluguel.

Espero que ao comprar uma casa, vocês tenham filhos. E que juntando os salários que você e sua esposa ganham, vocês sejam capazes de incluir seus filhos no plano de saúde. O inverno chegou e as crianças ficam doentes com mais facilidade. E nós sabemos que o SUS não presta.

Espero que seus filhos cresçam com saúde e entrem na escola. Mas que seus salários sejam suficientes para pagar uma escola e dar educação de qualidade, porque o ensino público não presta.

Espero que seu filho se forme e ingresse na universidade. Mas numa universidade privada, porque o ensino básico público não presta e não sei o que lhe faz pensar que a faculdade pública é diferente.

Espero que seu filho deixe a vaga da faculdade pública pra mim, porque meu pai é pedreiro no interior, e ganharia só um salário se não me deixasse sozinha o dia inteiro pra colocar comida na mesa da nossa casa. Eu sou uma criança e não posso trabalhar, é crime.

Espero encontrar alguém que me dê amor em qualquer esquina, porque discurso de ódio eu escuto sair da televisão. Tô crescendo “abandonada”. Meus pais me deixam sozinha, porque precisam me sustentar. Mas sou criança, e choro quando vejo mães com seus filhos de mãos dadas, enquanto a minha corta o cabelo da madame do bairro nobre.

Passei o inverno com pneumonia, o ensino da minha escola é ruim, e o meio que vivo não colabora. Eu sou pobre.

Enxugaram meus recursos básicos e vão torcer pra que eu não mate o teu filho. Na verdade, vão torcer pra que eu mate. É pra isso que alguém vai na mídia e te convence que prisão é a solução. Você tem grana pra pagar por saúde e por educação pro seu filho, o meu pai não. É pra isso que ele trabalha, porque ele sabe que eu, criança, tenho um futuro pela frente. O meu pai acredita em mim.

Lhe fazem – de mim – sentir medo, enquanto lhe arrancam todo dinheiro.

Mas espero que seu filho tenha um emprego, e que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, ele possa pagar um jantar pra namorada.

* Jéssica possui um blog filosófico-poético, que também não deixa de ter seu conteúdo intimista e crítico. Para interessados, segue o link AQUI

Conto corporativo

Posted: April 25, 2015 in Comportamento, Outros
Tags: ,

dilbert-meetingChegada com risos, manobristas atarefados, apertos de mão afetuosos e frases capciosas como “Você engordou” ou “Tá careca, meu velho!”
Apressadas recepcionistas tentar rebanhar o grande grupo à sala principal sob ameaças de “Já vai começar e depois do início, ninguém entra…”
“Equipamento no mercado é um filho” sentencia o primeiro palestrante, enquanto aposto que muitas cabeças se voltaram aos verdadeiros filhos, distantes ao menos no decorrer dos dias daquela reunião geral. Que modo de começar!
Figuras mudam sem apresentação ou detalhamento, somente assuntos macro são comentados. Talvez para entreter, talvez para hipnotizar.
Duas mãos se levantam no centro e sinalizam que faltam seis minutos. Ou seriam quinze, nesta simbologia de palma aberta e indicador estendido? Prefiro pensar positivamente. Não que o assunto seja de menor importância ou o apresentador enfadonho, mas são tantos rostos para rever e assuntos a tratar…
Em seguida vem profit, management, infrastructure, life cycle, smart grid, service, assets, uptime, supply chain, headquarters, stakeholders, timing; no melhor estilo bingo que jogávamos na faculdade quando um professor se valia de estrangeirismos. Pra mim só falta synergy, bradava um. Estou por co-working, sussurrava outro. Sei que as vezes é inevitável, principalmente para empresas multinacionais e seus programas globais; mas muitos pensam que abrilhanta a apresentação. Creio o contrário. Principalmente se o termo é confuso na língua local… Aposto que muitos na sala entendem por exemplo, profit, como lucro, alguns como margem e outros como resultado.
Na fileira da frente percebo a primeira piada com texto longo circulando via WhatsApp. Os risos denunciam o grupo.
“O mercado dos EUA é sempre um mercado regulado”
“O que eu faço na frente do cliente?”
“Tudo o que puder explicar em termos de retorno de investimento ou retorno de caixa pro cara…”
As apresentações são curtas, mas se acotovelam.
“Você vai monitorar o processo dele”
“Tem que visitar os market places
“Quem tem pressão alta é só quem mede” – me lembra um chefe arrependido por ter feito check-up.
Analogias com futebol despertam e divertem: “bola dividida” e “deixar o campo cedo demais” couberam perfeitamente e soaram melhor que o Inglês anterior.
Obviamente alguns tropeços técnicos também divertem. Não menos que os celulares e o WhatsApp.

A pausa para o almoço é rápida demais para os papos e ligações pendentes. Comer? O que tinha pra comer mesmo?
Agora é esperar o próximo intervalo.
“Amparado por uma política comercial séria”
“Reconhecimento da marca tem peso”
“Nosso desafio não é empurrar produtos para as prateleiras dos clientes, mas ajudá-lo a esvaziar estas prateleiras”
Certas frases e conceitos são realmente bons e ficam.
O complicado é lutar contra o sono neste momento, uns tomam nota, independente do assunto, outros buscam algo no teto e se ajeitam nas cadeiras, os mais despojados tiram foto dos que estão dormindo…

Paradigma, propósito, complexidade, desafio, vanguarda, difusão de conhecimento e luta contra o sono pós-almoço.
Organização Monolítica e Bill the Trust (ou seria Build the Trust?) são as próximas temáticas. Se sai melhor quem consegue entender o futuro do futuro, fonte primária de relacionamento, fazer bons financiamentos.
Acho que se sai melhor aquele que não me tem como chefe e segue pendurado no celular. Haja falta de respeito!
“Otimização é curto prazo. Temos de olhar a longo prazo”. Não dá pra concordar com tudo mesmo.
Parceria assimétrica, critérios, business plan, player, advisory, coaching. Os termos são intermináveis. A poesia também.

por Celsão irônico

figura retirada daqui, somente pela semelhança dos “Mundo Dilbert” com o mundo corporativo

O elevador

Posted: February 23, 2015 in Comportamento
Tags: , ,

como_agirA porta abre. Três pessoas em seus mundos estão lá dentro.
Recebo de volta um bom dia, um resmungo intelegível e um muxoxo. Cumprimentar as pessoas, pra mim, é um ato de mostrar que o dia pode começar melhor se as pessoas quiserem; a resposta ou a ausência dela não faz muita diferença no meu dia.

Os intermináveis segundos até fechar a porta são suficientes para olhar os dois suportes de circulares, imutáveis há dias. Não é que eu fuja dos olhares. Mas acho que estes papéis ficam no elevador exatamente para isso.
Porta fechada, percebo um movimento de sobrancelha do senhor, que é baiano de Alagoinhas, segundo me contou noutra ocasião; o mais jovem balança a garrafa d’água e decide “fugir” para o celular, tomando-o na mão direita. Fiquei de costas para o do muxoxo e, embora não tenha sido proposital, deduzo que ele não me olharia nos olhos.

Nova parada. Duas vizinhas entram conversando. Novo muxoxo do que acordou de mau humor (ou não gosta de interações sociais reais). Tento disfarçar a risada enquanto olho novamente um dos papéis pendurados. O plástico está quebrado, mas o aviso sobre a próxima visita de correção dos interfones é lido sem problemas. Meu olhar é acompanhado por outros, enquanto o celular é guardado no outro bolso.
Olhares para os pés e para cima são seguidos do fechamento das portas. Certamente muitos queixaram secretamente… “É incrível como essa porta demora a fechar!”

Na próxima abertura da porta, uma jovem com roupas coloridas e alternativas, pergunta sobre o funcionamento do elevador de serviço enquanto (aparentemente) avalia aborrecida se compartilha a descida com seus vizinhos. Entra e compartilha ao menos o muxoxo do mau humorado, repetindo-o.
Já não há muito espaço e alguém pergunta sobre o trânsito. Decerto também para ganhar instantes preciosos. Dois longos segundos depois, respondo que não olhei, para não deixá-la “no vácuo”. A pobre, no mínimo, sempre morou em casa térrea e tinha amizades dentre os vizinhos.

Minha imaginação vai à uma cena de queda de energia ou quebra repentina do elevador…
Busco nos rostos os desesperados, os corajosos e os engenhosos; sem encontrar os dois últimos personagens.
A criatividade sai da prisão não programada para uma improvável festa de amigo secreto do prédio. Como seriam os papeizinhos? Sou a Raquel do 118, gosto de música. Pedro do 215, paixão por automóveis. Suzana, plantas… Já pensou se a síndica convoca uma reunião só para apresentar as pessoas?

Nova parada. “Será possível?!?”
Entra sem titubear um sujeito com uma mochila grande bem cheia e uma mala de puxar.
Pronto! Sorrindo, penso com meus botões que teremos ao menos comida se houver a quebra. Não é possível numa mochila daquele tamanho não ter algo para beliscar…
Novos olhares para as circulares, lâmpadas do teto, câmera interna, piso e celulares.

O suor já brota em algumas faces quando a primeira parada no estacionamento acontece. As vizinhas se despedem combinando o próximo encontro. A jovem também desce. Será que tem mesmo um carro no térreo ou irá de escada aos subsolos?

Inexplicavelmente a próxima (e minha) parada ocorre num intervalo muito breve.
Despeço-me desejando um bom dia a todos, com a certeza que nos fecharemos várias vezes no trânsito nos próximos vinte minutos.

O que mais dizer, a não ser… “Viva a vida social de São Paulo!”

por Celsão irônico

figura: corte feito daqui

CSFDesde que se mudou para aquele país, Falco Xinhaldo já ficara cativado. Eram três meses de experiências magníficas, e uma vida tranqüila, sem grandes preocupações. Impressionou-se com o transporte público, quase sempre pontual e cobrindo quase todo o perímetro de todas as cidades, era raro precisar andar mais de 300 metros para pegar um ônibus ou um metrô. A limpeza das ruas lhe dava apetite 24h por dia. Achava incrível como tanto os carros, quanto os pedestres, respeitavam sinais e faixas de trânsito. Caminhar em uma avenida movimentada era quase como uma massagem Ayurveda para os ouvidos, afinal, ali era proibido buzinar, e os carros eram, em sua maioria, modernos, silenciosos. Depois de suas baladas e barzinhos, se sentia dentro de um condomínio de luxo ao voltar para casa, às 3h da manhã, sabendo que não haveria qualquer perigo.
Ele pensava: meu Deus, porque fui nascer naquele país maldito?

Como se já não bastasse, aquele mês de dezembro o surpreendera ainda mais. Desde o fim de novembro, até o final de dezembro, o país inteiro parecia um picadeiro com um mágico, a cada dia, uma nova surpresa. Eram tradições diversas que antecediam e preparavam o Natal. As crianças recebiam de seus pais um calendário onde, cada dia era aberta uma portinha, que continha um chocolate pequeninho. Só podiam abrir a porta do dia, e degustar aquele chocolate, até que chegasse o dia tão esperado, o dia 25. As cidades se enfeitavam, num capricho e carinho comoventes, com luzes e adornos em formato dos mais diversos símbolos natalinos. Quando o clima ajudava, a neve caía, e ele se sentia num filme de Natal da Disney. A felicidade lhe preenchia.

Mas uma de suas maiores diversões eram as feirinhas de Natal, chamadas de Weihnachtsmarkt ou Chriskindlesmarkt. Cada cidade e vilarejo da Alemanha tinha a sua. Sempre montadas com muito charme, essas feiras proporcionavam a oportunidade de degustar comidas e bebidas típicas daquela época, entre elas, seu preferido, o vinho quente, conhecido como Glühwein. Em diversos quiosques de madeira, lembrando estilo medieval, era possível também comprar artesanatos e produtos orgânicos. Em quase todas essas feirinhas havia um palco, onde tanto artistas profissionais, quanto pequenas orquestras de crianças carentes, ou corais de asilo, se apresentavam, divulgando seu trabalho e entretendo o público. Para Falco, aquilo tudo era fascinante.

Num certo dia, Falco estava em seu estágio, na maior empresa daquele país, quando ouviu um colega dizendo que a empresa havia falhado em seu intento de disponibilizar uma mansão para refugiados da Síria e do Afeganistão. Não se interessou muito, afinal, aquele não é seu país, e os refugiados vinham de cantões que pouco lhe interessavam. Mas, como as outras pessoas se interessaram, o colega prosseguiu:
– Pois é, já há mais de uma década a nossa empresa possui uma mansão no bairro da Montanha. A mansão era um dos benefícios de um ex-diretor, que foi demitido por corrupção. Desde então a mansão se encontra fechada. A empresa então teve a ideia de fornecer, gratuitamente, essa casa para famílias de refugiados que não têm onde morar. O problema é que os moradores do bairro da Montanha, bairro mais caro da cidade, não gostaram nada da ideia. Entraram com um processo judicial contra a tentativa, e, como possuem muito dinheiro, acabaram ganhando. Aproximadamente seis famílias sírias e quatro afegãs, totalizando 52 pessoas, já estavam preparadas para se mudarem para a casa. Agora elas precisam permanecer espalhadas em sete abrigos diferentes, alguns sequer possuem aquecimento, e dependem de doações de roupas da sociedade.

O debate continuou na mesa, mas Falco estava incomodado, afinal, era um papo desagradável, lhe tirava o sossego cotidiano que costumava desfrutar por ali.
Alguns diziam que era compreensível as pessoas não quererem refugiados ali, afinal, um bairro tão lindo, rico, charmoso, de pessoas finas, abrigar um monte de estrangeiro pobre, com seus costumes rudes, sem educação e sem noção de civilidade. E ainda, poderia significar um aumento de criminalidade.
Aquilo até fez sentido para Falco.

Outros discordavam, dizendo que os refugiados vivem com vários limites legais, não podem sair todo o tempo à rua, não podem trabalhar, recebem alimentos e auxílios do Estado e da sociedade dentro dos abrigos e casas, são monitorados constantemente, e caso desrespeitem qualquer regra ou lei, são deportados imediatamente.
Um dos que estava na mesa dizia trabalhar em projetos sociais com refugiados, e contou que estes se sentem acuados, sentem vergonha por precisar depender da ajuda das pessoas, e fazem de tudo para que as pessoas não os temam. Agradecem diversas vezes por dia àqueles que os ajudam, quase sempre aos prantos. E dizem entender que precisam ficar reclusos dentro das casas, salientando ser isso já magnífico, em comparação a viver em Guerra.
Esse discurso incomodava Falco, mas ele não se dava ao trabalho de refletir o porquê do incômodo. Continuava ali, de corpo presente, mas com a cabeça pensando: que horas eles vão acabar com esse papo e voltar a falar de futebol ou sobre nossa festa de fim de ano?

Mas para sua surpresa, Half, o rapaz que trabalha em projetos sociais, se direcionou a Falco e perguntou:
Sr. Xinhaldo, o senhor sabia que a Alemanha é o terceiro maior exportador de armas do Mundo? E que os maiores compradores são países africanos e asiáticos em guerra?
Falco responde que não sabia, e dá de ombros.

Half insiste:
– Imagine Sr. Xinhaldo, a venda de armas é um dos pilares de nossa economia, se há tantos ricos vivendo no bairro da Montanha, isso também se deve ao dinheiro das armas, que gira nossa economia e traz recursos de impostos para a sociedade. Além disso, as empresas que produzem armas, querem continuar vendendo, e cada vez mais, isso é óbvio. E para vender armas, é preciso haver guerras, certo? Então, é claro que para essas empresas, não é interessante que a guerra nestes países acabe, e por isso, eles investem na mídia, igrejas, governos, milícias daqueles países, para que os problemas e o ódio da sociedade nunca acabem, e assim, a guerra seja eterna.

Falco só consegue emitir um grunhido:
– “uhum…”

Half olha para os colegas e diz:
– Portanto, parte de nossa estabilidade, vem da desgraça destes países. O mínimo que deveríamos fazer é darmos abrigo ao povo sofrido de lá.

Half, assim como quase todo estudante alemão, não ganhava mais de 400 euros dos pais por mês. O dinheiro era suficiente para viver uma vida simples de estudante, como todos. Mas para sustentar seu hobby, a música, Half começou a fazer estágio para tirar um dinheiro a mais.

Falco ganhava 800 euros mensais da bolsa do Governo brasileiro. A empresa não tinha mais vagas para estágios remunerados de 20 horas. Como já ganhava um bom dinheiro (apesar de sempre reclamar que faltava para fazer todas as viagens que queria), Falco aceitou fazer o estágio de 10 horas sem remuneração, para incrementar seu curriculum.
Half e outros estudantes alemães tinham uma pontada de inveja da bolsa de Falco, e se espantavam com o fato de essa bolsa vir de um país “pobre”, segundo eles.

Após o almoço, Falco vai para casa. No caminho lembra-se que tem que enviar um cartão de natal para seus pais. Passa no correio, preenche o endereço do condomínio dos pais em Criciúma, e envia o cartão, onde já deseja feliz natal e se explica, com antecedência, que não poderá falar com eles no dia 25, o motivo: “como não tenho aula nem estágio, viajarei do dia 19 de dezembro ao dia 3 de janeiro, para Budapeste, Praga, Istambul, Viena, Füssen. Passarei o Reveillon em Paris, e voltarei para cá. Como de costume, ficarei sem telefone, pois é muito caro pagar o roaming no exterior. Mas podemos nos escrever pelo Whatsapp quando eu estiver em algum lugar que tenha Wireless.”
Cartão enviado. Dever cumprido.

No dia 22 de dezembro, os pais, voltando de um protesto pelo impeachment da presidente, abrem a caixa de correio, e se alegram ao ver o cartão do filho, há quase quatro meses na Alemanha, pelo programa Ciência sem Fronteiras. O Natal deles não será completo, mas o cartão lhes alivia, por saber que o filho querido, apesar de estar triste por não poder estar com os pais, fará viagens lindas, o que também lhe fará feliz.

por Miguelito Nervoltado

DISCUR~1Entrevistador – Boa noite candidato. Antes de mais nada gostaria de agradecer a sua presença.
Candidato – Eu que agradeço. Mas espero a compreensão do meu partido e dos meus eleitores sobre as respostas que darei.

Entrevistador – Como assim candidato?
Candidato – Serei sincero e verdadeiro nessa entrevista. Quero expor exatamente o que penso, sem rodeios ou respostas evasivas…

(E) – Ótimo. Começo então perguntando sobre a Previdência. O que o senhor acha do fator previdenciário e da desaposentação?
(C) – Boa pergunta! Infelizmente o nosso modelo previdenciário está condenado à falência e ao fracasso. Não temos como suprir salários dignos àqueles que trabalharam e contribuiram por tanto tempo. A medicina avançou, e com ela, a expectativa de vida da população. E agora, mesmo se aumentássemos a data mínima de aposentadoria para 75 anos, não conseguiremos pagar sequer um salário mínimo aos profissionais da iniciativa privada.

(E) – E qual seria a alternativa?
(C) – Não acho que a desaposentação seja. O único que me vem a cabeça é acabar com as aposentadorias integrais dos setores públicos. O teto deve valer pra todos, de pedreiros a juízes.

(E) – Seguindo na mesma linha, que reformas o senhor acredita serem necessárias?
(C) – Mais que necessárias, acho que as reformas tributária e política sejam essenciais nesse ponto. Chegamos no ápice da curva dos impostos e daqui pra frente, a maioria só buscará meios de burlar e sonegar. Vou taxar de verdade as fortunas e fazer uma “sociedade” com aquele 1% mais rico da população, se o Brasil crescer, eles também ganham, se não crescer muito, o dinheiro deles servirá para algo mais útil que iates e viagens caras. Acho que este é um bom momento para cobrarmos uma boa contribuiçào de quem tem muito a contribuir. Você sabia que 1% das pessoas em São Paulo tem 20% da renda da cidade (aqui)?

(E) – E a reforma política candidato, o senhor nada disse sobre ela.
(C) – Sou contra o financiamento de empresas, uma vez que já temos o fundo partidário e pessoas físicas podem doar e abater do imposto de renda. Sou contra as dezenas de partidos que temos e que se aninham para conseguir mais tempo, mais cargos e mais prestígios. É hora de cada um assumir suas ideologias e lutar por elas. Além disso, defendo o voto distrital misto, como forma de erradicar os “Tiriricas” e fazer com que cada “comunidade” seja representada e observe o seu próprio candidato. O problema é convencer os encostados dos parlamentares do meu partido, que teriam de mudar o modo como fazem política.

(E) – O que o senhor acha do crescimento do agronegócio em contrapartida com nossas florestas?
(C) – São questões imcompatíveis! Contraditórios! Ou bem temos floresta e somos o “pulmão do mundo”, ou bem produzimos safras recordes e suprimos todos os bifes comidos na China, sendo o “alimentador do mundo”. Se eu prometer expansão sustentável do agronegócio estarei mentindo! Acho que os Estados poderiam decidir se querem floresta ou soja, natureza ou pecuária. Ainda melhor seria que limitássemos ambos, estabelecendo um mínimo aceitável para floresta (incrementado ano a ano) e um máximo para produção de alimentos e pecuária (que, idealmente, diminuiria ano a ano, aumentando a produção com novas tecnologias). Mas, para isso, teremos de brigar com forças e famílias poderosas…

(E) – E o senhor lutaria pela reforma agrária?
(C) – Claro! Desde que as pessoas interessadas se comprometam a manter-se no campo e não emigrar para as complicadas áreas urbanas. Eu incentivaria a migração pro campo, mas manteria a posse da terra ao Estado, para proibir a venda afastando o latifundiário.

(E) – Plano de governo para a segurança pública, o senhor tem?
(C) – Essa é difícil. Achava que o aumento da renda diminuiria a violência diretamente… Creio que possamos contratar chefes do crime organizado para uma secretaria anti-crime. Da mesma forma como teremos hackers trabalhando na segurança digital, no meu governo.

(E) – E a educação, será prioridade em seu governo?
(C) – Com certeza! Tudo começa com a educação e deve ser pautado nela. Quero escolas públicas fortes, com processos de antigamente, provas, notas, repetência e até alguma evasão, inerente ao processo. Para os evadidos, escolas em tempo integral combinadas a esporte, música ou outro atrativo que os faça render, funcionando como recompensa. De nada adiantam porcentagens e números de alunos matriculados se formamos analfabetos funcionais e péssimos profissionais. Não podemos desistir da formação de profissionais e cidadãos. Embora seja preciso deixar claro pras famílias que escola sozinha não forma caráter!

(E) – Mas isso não é popular…
(C) – Não adianta manter vagabundo batendo na professora e passando de ano sem esforço. Cidadãos e profissionais, este é o objetivo da minha escola.

(E) – O que pretende fazer em infraestrutura?
(C) – Pretendo financiar as obras em estradas com o lucro das montadoras e demais obras com o lucro das construtoras e dos bancos.

(E) – Como? As montadoras reclamam dos impostos, dizendo que eles travam o desenvolvimento.
(C) – São um bando de chorões. Os bancos e construtoras lucram tanto que são os que mais doam para os partidos políticos.

(E) – Finalizando candidato, você acha que conseguirá aprovar alguma dessas leis no Congresso?
(C) – Minha vontade, prezado entrevistador, é dissolver esse Congresso, eleger um colegiado dez vezes menor, que seguiriam em seus empregos e votariam pela internet ou telefone. De quebra, economizaria uma bela quantia…

por Celsão irônico

figura retirada daqui