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A comida

Posted: October 24, 2017 in Outros
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Comecei tentando negociar.
Chamei até à cozinha, discorri sobre o cardápio, disse que eu também comeria.

Até que era esperado… Sempre que estamos sozinhos os dois, ele apronta comigo.
Sou muito bonzinho? Uma criança de quatro anos já consegue disputar poder? Provocar deliberadamente?
Afasto os pensamentos da cabeça.

Deduzo que ele terá fome e sigo a brincadeira.
Assim que a fome apertar e ele pedir um biscoito, penso logicamente, jantamos.
Mas… quando já se está com fome, fica mais difícil. Esse jogo eu sei que vou perder.

Eis que acho na geladeira um final de macarrão em formato de dinossauro com carne moída. Perfeito!
O “Olha o que achei!” atraiu a atenção e funcionou a princípio. Esquento o macarrão no microondas e faço o meu prato.
Sentamos ambos na mesa da sala, pois, “aqui é muito melhor”, segundo ele.
TV desligada, garfo e faca nas mãos, começa o desafio…

O primeiro round é marcado pela separação dos legumes, que ele docemente intitula “verduras”: pedaços minúsculos de cenoura, cebola e até alguns pedaços de tomate do molho são encontrados e separados. Sob muito protesto.
Auxilio visando acabar com as desculpas. E como, fazendo aquela cara de gostoso, mas sendo observado com incredulidade.

O shoyo que coloco na salada é solicitado por ele, pois afinal, “ele gosta”.
Pingo aqui e ali, dizendo que só fica gostoso com um garfo bem cheio. A resposta é imediata e desanimadora para o pai que segue o seu martírio: “Assim também está gostoso”.

A competição segue; agora com garfo e faca em mãos opostas.
E, naturalmente, a confusão é grande. Comida que cai na mesa, no colo, na cadeira, no chão.
Não aguento e sugiro a troca dos talheres. Sem sucesso.
Um “Eu quero assim!” faz com que eu termine meu prato. Melhor não mostrar impaciência.

O garfo agora percorre o prato sem destino nem sentido, tenta sem sucesso espetar um macarrão bem cozido. E falha.
“Eu não quero tudo isso”
Sabia que essa hora chegaria. Mas não tão cedo. Sequer vi uma boa garfada, toda a comida está aí…
“O prato é pequeno filho. Você tem de comer tudo.”

Para estimular, proponho um acordo: “Se eu dividir o prato ao meio, você come tudo e sozinho?”
O movimento afirmativo da cabeça me dá esperança. Melhor comer metade sem muito stress, a rolar briga e choro, sem sequer conseguir alimentá-lo.
Divido o prato, prontamente. E daí percebo que o fiz em metades desiguais.
O óbvio acontece e ele escolhe a “menor metade”. Negociamos carnes moídas de um lado a outro, apontando qual é a metade “mais gostosa”. Minha metade continua perdendo da metade dele, que escolhe agora girando o prato.
Giro novamente a comida, aproveitando uma desatenção, e ficamos com a “minha” metade. Jogo duro!

Seria mais fácil ligar a TV, sim.
Seria mais fácil colocar a comida em sua boca.
Até se eu trocasse o garfo por uma colher, haveria avanços.
Mas… “não tá morto quem peleia”, diriam os gaúchos. Ele cresce quando se torna mais independente e eu cresço sendo mais paciente.

O garfo balança no ar. E o reprimo.
Me arrependo, pois, mostrando descontrole, posso perder todo o avanço até então.
Explico a importância da comida e informo que ele pode sair dali ao terminar o prato.

O garfo passa a arranhar o prato, num ruído irritante, arranha o suporte, a mesa, a própria blusa.
Decido só observar, fazendo a melhor “cara séria” que conseguir; mesmo louco pra ralhar.
Lembro de um vizinho, que na minha infância ficava horas em frente à comida fria. Íamos chamá-lo pra brincar, brincávamos com seu irmão, voltávamos pra casa, e ele entre lágrimas lutava contra o castigo e a lógica.
“Não quero isso para o meu filho. Mas… e se ele se recusar a comer?”

“Você colocou muita comida. Eu não quero tudo!”
Parece que adivinhou meu pensamento. E minha hesitação.
“Só vai sair daí se comer tudo” – fui firme – “O prato já está pela metade e você gosta desse macarrão.”
All in. Vamos esperar a reação.

O garfo no ar, parado. A boca a contar “1, 2, 3, 4” e depois “1, 2, 3”.
Suponho que ele conta os dentes e o espaço entre eles. Titubeio pensando em exercitar essa percepção espacial. Mas me contenho.
Agora ele observa a lâmpada pelos vãos do garfo, com um olho fechado.
Na sequência começa a balançar o garfo, para a esquerda e para a direita, mantendo o rosto parado.
Não resisto e pergunto o que é aquilo. “Garfo veloz”, ele responde. “Ele está muito veloz”

Tomando novamente ar, apelo dizendo que estou triste.
Que eu só queria que ele terminasse o prato e que fôssemos brincar um pouco.
40 minutos já se passaram desde que começamos nossa “contenda”.

A comida já está mais que fria.
Mas julgo que não possa sair da minha cadeira com o intuito de requentar o prato, sem que ele também saia.
Com as mãos e depois os pés, ele se afasta da mesa. Vai se afastando aos poucos, enquanto me olha…
No limite do seu alcance, passa a tocar nos itens do aparador.

O golpe de misericórdia vem quando ele começa a esticar as pernas, quase tocando o chão.
“Eu disse que você não pode descer enquanto não comer a sua comida”
“Eu não estou descendo…”

50 minutos e contando.
Se eu não tivesse olhando o relógio constantemente, não acreditaria.
Estou feliz por minha paciência chegar até aqui. Mas incerto de quanto tempo ainda posso resistir.

“Eu acho que três garfadas acabam com esse prato”, arrisco, “quer tentar?”
Ele então volta a cadeira para junto da mesa, pega garfo e faca com uma destreza que ainda não tinha visto, enche o garfo sem olhar os pedaços de cebola, coloca na boca um após outro, até finalizar o combinado.

Quase hora de dormir, mas ainda comemos melancia. E sem reclamação.

por Celsão ele mesmo ou Celsão “pai”

figura retirada daqui

P.S.: pra quem não leu, segue outro conto-peripécia (aqui)

Conto de pai

Posted: January 12, 2017 in Outros
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conto-paiChego na escolinha e sou recebido com um imenso sorriso, seguido daquela corrida desajeitada (porém linda) em minha direção e de um abraço apertado.
“Hoje eu te levo na natação!”
E o “Eba!” é tão espontâneo e intenso que tenho a certeza que terei uma tarde esplêndida, ou melhor, que todo o tempo juntos será de curtição e aprendizado mútuo.

Consigo facilmente ignorar o celular durante a aula e curto “babando” pelo vidro as “manobras” do meu golfinho. Me impressiona a obediência ao professor novo.
No banho, nem a falta de água quente diminui nossa empolgação e nossa festa.
As ladeiras pra casa são de músicas, explicações divertidas sobre uma ou outra observação, planos de brincadeiras com dinossauros ao chegar em casa e… da primeira pirraça, quando peço que ele ande um pouco.
O sol ainda brilha e o calor do verão paulistano me faz suar.

Tudo bem.
Em casa tento retomar a rotina: oferecer fruta e bolacha para recuperar as energias, já avisando do jantar que estava porvir.
A comida é imediatamente recusada, assim como a água, o suco e os demais alimentos oferecidos: “quero pirulito!”, “não”, e o primeiro choro; daqueles sem lágrimas, que mostram apenas insatisfação.
Mudo o foco pegando um dinossauro que está por perto e imitando o seu rugido feroz; partimos pra brincadeira.

Em seu quarto, fecho a janela. A intenção é evitar os pernilongos.
Ele abre, dizendo estar com calor.
Eu ligo o ventilador, pois realmente faz calor.
Ele desliga, alegando numa frase imperfeita que “sinto frio de ventilador”.
Quando insisto e tento explicar os motivos, ele passa a mexer nos botões do eletrodoméstico, fingindo não ouvir o que eu digo.
Num rompante sai do quarto; e volta com uma porção grande de papel higiênico nas mãos. Passa a picar o papel sistematicamente e soltá-lo na frente do ventilador.
Eu até poderia reprimi-lo; mas achei aquilo tão criativo e ímpar, que decido viver o momento. Afinal, depois é só recolher aquele papel…
Ele me olha a cada pequeno pedaço que voa e ri com as reviravoltas que os mesmos dão…

Meu celular toca. É um dos números que insiste em falar com o Claudinei Gomes.
Ao invés de desligar ou explicar que não o conheço, peço, dessa vez, informações do local e empresa, bem como o nome do atendente.
Mais que depressa, recebo o peso do agitado pequenino nos ombros, insistindo no “quem é?” e pedindo para conversar com o moço.
A ligação cai sem que eu entenda resposta alguma do “moço”. Ao tirar o telefone do ouvido, explico calma e racionalmente que aquilo é inconveniente, que atrapalha e que me atrapalhou.
Novo choro. Nova mudança de foco, dessa vez tomando um carrinho nas mãos…

Hora de jantar.
Só consigo a presença na mesa com uma bolinha de tênis. Só que a mesma cai das mãos, invariavelmente, a cada colherada.
Aquilo me irrita, e passo a me perguntar se uma criança de três anos conseguiria ser irônica ou sarcástica, propositalmente. E se o papel no ventilador teve esse propósito de me irritar.
Me contenho e não ralho com as risadas e os repetidos movimentos para descer da cadeira, pois a comida é consumida pouco a pouco, apesar do “não quero o verdinho”.

Seguimos na brincadeira da bolinha até que meu celular toca novamente.
Uma tia, que pede para falar com a criança sapeca, não pôde ver que recebe em resposta uma cabeça afundada na almofada da sala. Nem uma palavra sequer, apesar da insistência e do viva-voz.
Será possível? Há um minuto atrás queria com todas as forças comunicar-se via celular!

E a sequência rotineira final chega: mamadeira, xixi, remédio, escova de dentes…
Tudo negado desde o princípio. Cabeça afundada. Esconderijo na cortina. Corrida para o quarto.
A mamadeira vai, entre brincadeiras com o controle remoto da TV. Repreendo e causo uma birra que não permite os demais passos sem choro.
Remédio cuspido. Xixi sentado à força. Pasta de dentes entre prantos. E, óbvio, depois de tudo, clamor pela presença da mãe.

Impossível não pensar que sou um péssimo pai.
Impossível não filosofar sobre a repreensão durante a mamadeira. Seria cansaço ou birra de minha parte?
Apenas cinco horas depois de começar o período esplêndido pai-e-filho, um deles esperneia na cama chamando pela mãe e o outro cogita pegar o celular para perguntar sobre o horário da volta.

O choro segue ininterrupto enquanto janto, assisto ao jornal e olho meu celular.
“Ninguém morre de chorar” disse o pediatra dele certa vez. Mas mesmo assim mando aquele whatsapp consultando a localização e o horário da volta.
Quando o choro-manha completa meia-hora, me levanto e vou até o quarto.
“Onde dói?”, “O que você tem?” e “O que aconteceu?” são ignoradas. Como o otimista sempre pensa na parte boa, ele não chama pela mãe…
Explico que é hora de dormir e saio.

Mais vinte minutos inteiros…
Ignoro conselhos, o pediatra, meu lado racional e a máxima de vó que “uma hora cansa” e entro novamente no quarto.
Dessa vez pego no colo, apoio no ombro e faço perguntas fechadas: “Quer leite?”, “Está com frio?”, etc. até obter uma resposta e levar um copo de suco de uva e duas bolachas “maizena” para a cama.
O silêncio vem como resposta em dois minutos. O sono em menos de dez.

Pai também erra. E sofre. E ama.

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui. Engraçado estar num texto do Silas Malafaia… 

maxresdefaultEu estava com pressa.
Daquela maneira que todos estão com pressa em São Paulo, sobretudo a caminho do trabalho numa manhã de Janeiro, pós-recesso de fim de ano.
Os tradicionais desvios de rota, buscando espaços vazios, me levaram para uma ruela, ladeira, e eu tinha de cruzar para a esquerda. E os carros estavam enfileirados no trânsito da avenida Dr. José Maciel…

E aconteceu.
Um gesto de um motorista amigo, sinalizando “Venha!“, fez com que eu avançasse para cruzar à esquerda. Meu plano era dar aquela “paradinha” no meio fio e perceber se o movimento da outra pista me permitiria seguir sentido centro.
Mas no momento de “embicar” e sem prever o acidente, uma moto pequena que trafegava pela faixa amarela que dividia as duas pistas encontrou o meu “bico” prateado.
O “Fodeu!” saiu instantaneamente. E os momentos posteriores se misturaram entre terminar a conversão com as mãos suadas, buscar um local para estacionar o mais rápido possível, praguejar por ter saído atrasado e com pressa, buscar apoio pra minha culpa com o colega motorista que sinalizou aquele “Venha!“…

Tive calma para ligar o pisca-alerta do meu carro, buscar meu triângulo, isolar a área do acidente e pedir para que o motoqueiro (meu Deus, era um senhor grisalho!) não se levantasse.
Tive paciência com a vítima que não quis sequer falar comigo e com os transeuntes que saíam do bar da esquina e que vinham pela rua censurando todos os motoristas de automóveis. “Você viu?” – me perguntavam alguns. “Vi que o motorista fugiu! Alguém anotou a placa?” – respondiam acusando outros. “Ninguém enxerga as motos” – era o consenso de quem sequer havia acompanhado o ocorrido.
Tive a sapiência de esperar CET (no caso, CIRETRAN), esperar familiares e amigos da vítima, esperar a ambulância.
Tive a educação de oferecer transporte para o hospital e de compartilhar meus contatos com a irmã do Sr. Elói e com quem me pedisse.

Nada mencionei (ao CET ou ao meu seguro) sobre a meia de compressão que o Sr. Elói usava no momento do acidente; nem sobre os comentários de sua própria irmã, Dona Sílvia, que dizia “Ele não poderia estar andando de moto! Eu falo pra ele“.
Tampouco alardeei os detalhes do problema: cirurgia de trombose recente e solicitação para recuperação em repouso. Ao contrário: nas minhas ligações para a Dona Silvia, me oferecia para ajudar, proativamente.
Soube da transferência para o Hospital Geral e da probabilidade de nova cirurgia na perna direita. Soube da ocupação no pequeno comércio, o que explicava todos aqueles sacos de salgadinhos espalhados pela avenida naquela manhã; ocupação que exercia depois de aposentado.

Não entendi quando as notícias pararam de ser transmitidas, as conversas interrompidas, as ligações pararam de ser atendidas.
Não entendi tampouco quando recebi a negativa do registro da ocorrência pela internet. “Quando há vítima é necessário ir até uma Delegacia da Polícia Civil“, dizia a mensagem por email.
Piorou quando fui informado na Delegacia da impossibilidade do registro do boletim sem a vítima. “Você quer que ele pague o amassado do seu carro?“, me perguntava o atônito policial. Eu só queria cumprir as exigências do seguro para um eventual suporte para terceiros.

Eis então que, meses depois, sem aviso anterior, recebo um email do “doutor” Daniel, advogado, representando a vítima, me solicitando guincho e conserto da moto, ressarcimento de gastos hospitalares, indenização pelos lucros não computados no comércio, danos morais…
As conversas me enojaram a tal ponto que passei, tão rápido quanto pude, as tratativas para o departamento responsável da empresa de seguros.
Não sei como acabou, não quis buscar outros detalhes, não investiguei vítima, advogado, detalhes da internação. Preferi acreditar que não haveriam outros “Elóis” e “Daniéis” no decorrer do ano.
Deu certo!

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Essa é uma estória real, com excessão dos nomes, que omiti sem sequer saber o porquê.
Aconteceu no início do ano passado e me afligiu em alguns momentos, por um longo período. Não pelo eventual trabalho de preparar documentos e descrever o acidente, mas pela pequenez e mesquinhez dos seres humanos envolvidos. Por ter me encontrado com alguns dos que só pensam em si, em lucrar sobre qualquer custo, em levar vantagem…

Vejo o fato de não “jogar no ventilador” a doença prévia e a provável proibição de conduzir motos como um ato ético de minha parte (uns usariam trouxa), visando proteger o “frágil” e garantir que ele tivesse um suporte digno, ao invés de responder juridicamente a um processo.
Eticamente também, assumi a responsabilidade que me cabia, sem fazer picuinha ou buscar justificativas que me amparassem. Mesmo ouvindo de diferentes colegas relatos com desfechos horrendos, ocorridos com motoqueiros, não busquei advogados e realmente acreditei que a senioridade da vítima, trazia ética e bom senso.
No frigir dos ovos, a ética pagou o pato!

Desejo a todos os leitores que as páginas do livro de 2016 sejam preenchidas com utopias e agradáveis surpresas. E, mesmo se houverem problemas a transpor, que não venham acompanhados de “Elóis” e “Daniéis”.

por Celsão revoltado.

figura retirada daqui – um entre tantos vídeos do Youtube gravados por motoqueiros com câmera