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Brasil-e-Alemanha-bandeirasPor saberem que vivo na Alemanha, quase todos meus conhecidos já me fizeram a seguinte pergunta: Você sofre muito preconceito na Alemanha?

Essa é uma pergunta que parece simples de se responder: Sim ou não! Quem dera fosse assim…..

A verdade é que o assunto é complexo, e depende de várias variáveis.

Todo mundo cria estereótipos em suas próprias cabeças. Estes estereótipos são auxiliados pelas mídias tendenciosas, pelos materiais didáticos muitas vezes falhos, pelos preconceitos transmitidos através do DNA intelectual familiar, entre outros. Por exemplo: A maioria das pessoas do mundo, quando pensam no Brasil, pensam em futebol, praia, floresta, samba e em mulata pelada e de bunda grande, ahhh e agora lembram também do Michel Teló. Esses são os principais estereótipos sobre o Brasil (será que são só estereótipos? Enfim…).

Da mesma forma, o brasileiro cria estereótipos sobre outros povos. Sobre os alemães, eu destacaria alguns: bebem muita cerveja e estão sempre vestidos com calcas de couro com suspensório (Lederhose), comem linguiça o dia inteiro, falam “hemorroidas ardem, aftas idem”, são frios e fechados, são ignorantes, e….. são nazistas preconceituosos.

Muitos destes estereótipos se refletem na realidade. O alemão come sim muita linguiça, e toma muita cerveja. Muitos deles são frios e fechados, mais que os brasileiros, numa média, mas isso também faz com que sejam mais sinceros e mais confiáveis.
Mas o alemão não anda de calca de couro com suspensório, não fala “hemorroidas ardem”, não são nazistas.

O fato é que o povo alemão tem um trauma com seu passado. Imagine que seu avô deu calote em metade da cidade na década de 1960 e isso deixa o nome da sua família sujo até hoje. Você terá vergonha de falar de seu avô, certo? Muito provavelmente. A história e estudos comportamentais das gerações dizem que você terá uma tendência forte de fazer o contrário de seu avô, por ter vergonha deste tipo de comportamento.
A idéia aqui é tipo essa. O povo alemão tem vergonha do passado, não gosta de falar sobre a segunda guerra mundial, e tenta diariamente limpar sua imagem. Não tenho dados, mas já ouvi diversos alemães dizendo que o povo alemão é o povo que mais faz doações para o mundo. Consigo imaginar que isso seja verdade.

Li uma artigo fantástico outro dia, o qual indico fortemente para leitura, onde uma professora negra de Salvador conta sobre sua experiência na Alemanha. O título é “Como lidar com o Racismo?”, e pode ser encontrado no blog “Pragmatismo Político”.
Ela relata várias observações feitas por ela. Um relato achei especialmente interessante: Ela estava num trem, e percebeu que um passageiro estava incomodado com a presença dela. Até que o passageiro fez um comentário racista. Ela se levantou para dizer algo, mas não deu tempo, pois todos os outros passageiros se levantaram em sua defesa, brigaram com o cara, exigiram que ele se desculpasse, e como ele não o fez, chamaram a polícia para ele. E daí ela diz que os alemães têm muito senso de justiça e a certeza de que um problema social é um problema de cada um deles.
Ela também diz que o racismo existe na Alemanha, mas é muito debatido, e fortemente atacado na mídia, nas escolas. Além disso, a Alemanha normalmente é um dos pioneiros a aprovar leis de progresso social, igualdade de direitos, e eliminação de preconceitos.

Eu costumo dizer que é difícil saber se há mais racismo na Alemanha que no Brasil. Mas uma coisa é fato: Aqui, o racismo/preconceito/xenofobia quando ocorre, é claramente exposto, e vem de uma parcela pequena da população. A maior parte da população não é preconceituosa, e essas pessoas se policiam diariamente buscando não pensar e muito menos falar ou agir de forma preconceituosa.
Já no Brasil, há uma hipocrisia que funciona como chantilly por cima do lixo. Os estudos científicos são fartos nesse ponto. É comprovado que o brasileiro é preconceituoso, machista, racista, homofóbico, mas nunca assume. Todo mundo no Brasil conhece um amigo que é preconceituoso, mas ninguém se auto-declara preconceituoso. Ou seja, em algum dos dois lados existe alguém mentindo, e eu suponho que seja no lado de quem defende a si mesmo.

Desta forma, eu me arrisco a dizer que no Brasil há mais racismo e preconceito que aqui, mas aí estão escondidos no meio da hipocrisia, estão escondidos nas sutis ações cotidianas, nos gestos, nas falas, nas piadas (e aqui o assunto é grave), no meio profissional, no atendimento nos estabelecimentos públicos, estão disfarçados em ditados, no folclore, na literatura, no cinema, no material didático, e dessa forma, para os menos sintonizados e menos críticos, isso passa despercebido, dando a impressão que no Brasil é tudo mil maravilhas.

Mas tem neonazista na Alemanha não é? Claro que tem! Mas é difícil ver um. Posso passar alguns meses sem ver alguém que tenho certeza ser um neonazista. Em certas regiões há mais, em outras menos, mas em geral são uma parcela mínima da sociedade. E sim, existem muitos casos de ataques de neonazistas contra negros, indianos, asiáticos, homossexuais, muçulmanos, etc. Mas peguemos quantas pessoas morrem por ataques nazistas na Alemanha, e quantas mulheres morrem por machismo no Brasil. Analisando estes números, eu diria que deve ser umas 1000 vezes pior ser mulher no Brasil, que ser estrangeiro na Alemanha.

Mas a discriminação não existe só pelos neonazistas. Existem aqueles que discriminam por discriminar. Essa xenofobia existe em quase todos os lugares. O brasileiro gosta de dizer que no Brasil não há. Não há, pois o brasileiro adora gringo, somos muito hospitaleiros e adoramos aumentar nosso círculo de amizades, além de possuirmos um forte complexo de vira-lata que sempre acha o Brasil uma b@st@, e por isso acha que tudo de fora é melhor, e por isso babam ovo para estrangeiro. Mas pensemos internamente no Brasil. Nas regiões Sul e Sudeste, ao verem alguém fazendo algo errado, dizem que é serviço de baiano. Em São Paulo, qualquer nordestino, ou é baiano, ou é Paraíba (quando é para insultar de forma pesada). Em toda a turma de amigos em São Paulo, é impossível não encontrar uma meia dúzia que dizem que a criminalidade de São Paulo existe por culpa dos Paraíbas que imigraram sem qualificação e agora ganham pouco, ou são desempregados e acabam marginalizando o estado lindo deles. O Paulista entende que o fato de terem uma economia muito forte e por isso pagarem muito imposto absoluto, o Brasil inteiro mama nas tetas deles. Imigre para São Paulo e reclame do trânsito, rapidinho encontrará um paulistano nasalado que mora num apartamennnnto da Bela Cinnnntra para te dizer: mêuuuu, não tá satisfeito, volta para Minas Gerais e vai comer pão de queijo e tomar pinga.
Acho que a discriminação que sofre o nordestino no Sudeste e/ou no Sul, ou a discriminação que sofre um mineiro ou um capixaba, em São Paulo, é maior que a discriminação que um brasileiro sofre na Alemanha.

Então, minha resposta para você que me pergunta se aqui há preconceito, eu diria: Sim, mas bem menos que no Brasil, em quase todos os sentidos.

por Miguelito Formador