Posts Tagged ‘família’

Compartilho o vídeo acima, por achar (primeiramente) a propaganda criativa.
Conseguiram explorar um sonho de criança/adolescente fugindo do padrão “normativo-social” que temos atualmente. Mostraram a busca pelo sonho, a perseverança em atingir aquele objetivo, o apoio da família…

E me perguntei, assistindo o vídeo, se acreditamos que todo sonho é aceitável?
Se realmente apoiaríamos nossos filhos em qualquer desejo deles, em todas as “maluquices” que pensassem em fazer, em qualquer profissão que escolhessem.
Um “filho de pobre”, expressão que meu pai sempre usava, sofre mais intensamente dessa pressão em “ser alguém” e desistir de um sonho em prol de evolução econômica e social. Se escolher uma carreira artística, como o teatro, por exemplo, será persuadido na melhor das hipóteses a buscar essa realização profissional depois de conseguir uma “profissão”; e aqui uso aspas na palavra profissão, pois ela é específica, “profissão” para pobres se resume a advogado, médico e engenheiro, grosso modo.
Se o tal “filho de pobre” for gay então… o “ser alguém” engloba não só a profissão, mas um comportamento exemplar, desprovido de sexualidade, que esconda sua atração por pessoas do mesmo sexo, suas perguntas e negue, quase sempre, as estórias aventadas pela vizinhança.

Por que tudo isso?
Somos treinados, ou doutrinados socialmente, para o sucesso. Desde muito cedo, o bombardeio televisivo e midiático nos mostra que nosso brinquedo recém adquirido não é tão bom quanto aquele outro, que nossas roupas não ostentam os animais corretos no símbolo, que a TV da loja tem mais botões, que o carro do vizinho é mais confortável, espaçoso e tem motor maior…
Se a pessoa nasce fora deste estereótipo de “sucesso”, não é branco, homem, hétero, por exemplo; o atingimento deste “sucesso social” passa também por essas questões imutáveis de raça, credo e sexualidade. É como se o sucesso fosse preconceituoso.

Voltando ao vídeo, e sugiro que o vejam pela segunda vez, prestando atenção nos detalhes só percebidos após o conhecimento do seu desfecho, a sucessão de fatos entre a decisão de seguir o sonho e a realização do mesmo, sugere uma sociedade perfeita e utópica. Uma academia para o treino específico de “ring girl“, a viagem para Las Vegas, a chance real numa luta de boxe… seriam eventos praticamente impossíveis separadamente.
Qualquer paralelo com a realidade mostra o mesmo. Um menino pobre, se homossexual, terá barreiras ainda maiores para transpor se tiver o sonho de se tornar apresentador de TV. A família o desencorajaria prontamente, mesmo aceitando a sua sexualidade, e estereótipos “comuns” até o levariam para a TV, mas em funções secundárias como maquiador ou cabeleireiro, não desmerecendo-as, o intuito é falar sobre o nosso preconceito.

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post_sonhoNorberto decidiu passar a festa de Réveillon em casa.
Havia muito tempo que não voltava àquele bairro periférico de São Paulo e as razões eram muitas.

A infância e adolescência foram períodos difíceis. Havia a presença constante e inesquecível da família e dos vizinhos. A primeira em sua resistência em aceitar sua sexualidade e o medo constante de agressões verbais e físicas do segundo grupo.

Mas agora, acreditava Norberto, algo estava diferente. A sociedade havia evoluído de certa forma, tanto a TV quanto as redes sociais “aceitavam melhor” os gays e, legalmente, já era permitido até casar (quem diria?) com pessoas do mesmo sexo.
E lá foi Norberto com seu companheiro e sua saudade para o Jardim Santa Cruz.

Tantos sonhos reprimidos. Tantas oportunidades coibidas.
Não gostava de futebol, nem de pipas, nem de carrinhos de rolimã.
E era a capoeira, naquela lista de diversões acessíveis na periferia da sua época que o atraía. Mas não podia praticar capoeira, ou melhor, acreditava que lhe seria vedado, visto que muitos dos que lhe ofendiam verbalmente frequentavam aquele círculo.

Em casa, vieram olhares desconfiados para Alexandre, seu namorado, conforme esperado. Para os mais velhos, mesmo entendendo e aceitando a condição de Norberto, receber um namorado não era realmente uma tarefa fácil. Compreensivo, Norberto fingiu não notar os olhares e nem as discussões e pequenas brigas sem sentido que presenciou. É algo corriqueiro numa família grande e desestruturada, pensou, e sempre aconteceu aqui.
Seu objetivo era também apresentar sua família a Alexandre, que já lhe houvera apresentado a dele. E, rusgas a parte, havia sido uma boa experiência.

Aproveitou a noite quente e sem nuvens para sair. Uma certa coragem lhe aflorava, naquela rua de muitos medos e bullyings, palavra que na época nem existia.
Decidiu ir até àquela casa onde melhor lhe acolhiam, onde a alegria sobrepujava o sofrimento daqueles que ali viviam com poucos recursos.

Só que, lá chegando, percebeu que a nova geração que ali se encontrava, com seus modernos celulares, selfies e publicações instantâneas, comentava ostensivamente a sua presença e a de seu namorado. Chegava até a ridicularizar o anel que ambos usavam.
Eles mal se olhavam, mas sentiam o aperto desconfortável da situação, dos comentários direcionadamente perniciosos.
Não é possível que não haja evolução, pensou pra si, as cabeças são outras… muitos anos passaram!

Quando estavam prestes a sair, em busca de ar, ou refúgio, ou paz, ou carinho… receberam a esperança num copo de caipirinha. Um dos presentes da festa pareceu perceber o preconceito e os ofereceu o que podia naquele momento, numa aproximação tímida.
Após o primeiro gole, veio a dúvida se aquilo havia sido oferecido realmente em busca de integração, ou se era um ato inocente de alguém bem intencionado.
O estranho tentou puxar papo e perguntou se eles desejavam algo mais. O “eles” mostrou certo respeito, e aparente anuência com a presença deles, com o fato de serem um casal, de estarem juntos naquela festa.
“Vocês moram por aqui?”, perguntou ele.
Realmente ele percebeu o quê somos. E pareceu não se importar.

O álcool e a esperança na humanidade aliviaram a noite. E trouxeram, para o começo de 2017, uma confiança e uma fé renovadoras.

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por Celsão correto

vídeo recebido por whatsapp. Mas também disponível no Youtube aqui

figura retirada daqui

P.S.: o conto provém de uma estória real. 

Pai-Herói

Posted: January 24, 2017 in Outros
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dia_dos_pais_0171No último dia cinco, um primo do meu pai, personagem do conto publicado recentemente (aqui), faleceu.
Dizem que qualquer homem pode ser filho, mas somente os homens especiais, podem ser pais.

Na época que escrevi o conto, meu tio (é assim que sempre o tratei), estava internado na UTI.
Mas o momento difícil me fez lembrar de estórias vividas por ele com meu pai, de estórias que vivemos juntos; eles dois, nós e meus primos pequenos. Época de “viajar de ônibus” dentro de São Paulo…

Ambos os pais detinham o magnetismo do “exemplo”.
Tínhamos medo de sermos apanhados em algo que eles não fariam. E, logo, não aprovariam.
Maior que o medo era a vergonha… Como explicar um deslize, algo “feio”, para alguém que era recebido aos gritos e correrias, mesmo com roupas sujas e mãos vazias?

Pequenos humanos, meninos e meninas, tornam-se grandes pessoas através da influência de grandes mentes que se preocuparam com eles, quando pequenos e no decorrer de toda a caminhada.

A perda fez com que minha prima, filha desse verdadeiro pai-herói, se expressasse com um poema-homenagem.
Eis-lo aqui.
Obrigado Lu!

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PAI, QUERO LEMBRAR…

Do seu sorriso, da sua gargalhada, daqueles óculos, do enorme bigode, do seu perfume.

Das festinhas de aniversário, dos almoços e comemorações em família.

Do seu trabalho suado para ver a alegria brilhar em nossas faces.

Dos banhos de mangueira, do balanço e escorregador improvisados.

Do seu jeito tímido de dizer “Eu te amo” com gestos.

Da bagunça que eu e meu irmão fazíamos na oficina.

De quando brincávamos de marceneiro e construtor com os pedacinhos de madeira que sobravam. Afinal, queríamos aprender o seu ofício, pois o senhor era (e sempre será) o nosso exemplo.

Da euforia que sentíamos na espera pela sua chegada ao fim do seu dia de serviço.

Da gente prometendo para a mamãe que não íamos mais fazer bagunça e que não era pra contar nada para o papai.

Da nossa mãe de avental correndo atrás da gente pelo quintal, dizendo: “O pai de vocês já já chega e vocês vão ter de se explicar com ele!”. Bastava um olhar que Lucinha e Juninho logo se aprumavam! Não era medo, era respeito.

Do senhor brincando de vovô com os netinhos. Demorou, mas a cegonha logo se apressou em mandar dois bem próximos um do outro!

Pai, quero lembrar sempre da sua presença.

Descanse em paz, o senhor cumpriu a sua missão aqui na Terra. Um dia nos encontraremos.

Que Deus o receba de braços abertos no Reino da Glória.

Te amo, meu pai-herói!

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por Celsão ele mesmo e Luciana Almeida da Silveira

figura de arquivo pessoal

Conto de pai

Posted: January 12, 2017 in Outros
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conto-paiChego na escolinha e sou recebido com um imenso sorriso, seguido daquela corrida desajeitada (porém linda) em minha direção e de um abraço apertado.
“Hoje eu te levo na natação!”
E o “Eba!” é tão espontâneo e intenso que tenho a certeza que terei uma tarde esplêndida, ou melhor, que todo o tempo juntos será de curtição e aprendizado mútuo.

Consigo facilmente ignorar o celular durante a aula e curto “babando” pelo vidro as “manobras” do meu golfinho. Me impressiona a obediência ao professor novo.
No banho, nem a falta de água quente diminui nossa empolgação e nossa festa.
As ladeiras pra casa são de músicas, explicações divertidas sobre uma ou outra observação, planos de brincadeiras com dinossauros ao chegar em casa e… da primeira pirraça, quando peço que ele ande um pouco.
O sol ainda brilha e o calor do verão paulistano me faz suar.

Tudo bem.
Em casa tento retomar a rotina: oferecer fruta e bolacha para recuperar as energias, já avisando do jantar que estava porvir.
A comida é imediatamente recusada, assim como a água, o suco e os demais alimentos oferecidos: “quero pirulito!”, “não”, e o primeiro choro; daqueles sem lágrimas, que mostram apenas insatisfação.
Mudo o foco pegando um dinossauro que está por perto e imitando o seu rugido feroz; partimos pra brincadeira.

Em seu quarto, fecho a janela. A intenção é evitar os pernilongos.
Ele abre, dizendo estar com calor.
Eu ligo o ventilador, pois realmente faz calor.
Ele desliga, alegando numa frase imperfeita que “sinto frio de ventilador”.
Quando insisto e tento explicar os motivos, ele passa a mexer nos botões do eletrodoméstico, fingindo não ouvir o que eu digo.
Num rompante sai do quarto; e volta com uma porção grande de papel higiênico nas mãos. Passa a picar o papel sistematicamente e soltá-lo na frente do ventilador.
Eu até poderia reprimi-lo; mas achei aquilo tão criativo e ímpar, que decido viver o momento. Afinal, depois é só recolher aquele papel…
Ele me olha a cada pequeno pedaço que voa e ri com as reviravoltas que os mesmos dão…

Meu celular toca. É um dos números que insiste em falar com o Claudinei Gomes.
Ao invés de desligar ou explicar que não o conheço, peço, dessa vez, informações do local e empresa, bem como o nome do atendente.
Mais que depressa, recebo o peso do agitado pequenino nos ombros, insistindo no “quem é?” e pedindo para conversar com o moço.
A ligação cai sem que eu entenda resposta alguma do “moço”. Ao tirar o telefone do ouvido, explico calma e racionalmente que aquilo é inconveniente, que atrapalha e que me atrapalhou.
Novo choro. Nova mudança de foco, dessa vez tomando um carrinho nas mãos…

Hora de jantar.
Só consigo a presença na mesa com uma bolinha de tênis. Só que a mesma cai das mãos, invariavelmente, a cada colherada.
Aquilo me irrita, e passo a me perguntar se uma criança de três anos conseguiria ser irônica ou sarcástica, propositalmente. E se o papel no ventilador teve esse propósito de me irritar.
Me contenho e não ralho com as risadas e os repetidos movimentos para descer da cadeira, pois a comida é consumida pouco a pouco, apesar do “não quero o verdinho”.

Seguimos na brincadeira da bolinha até que meu celular toca novamente.
Uma tia, que pede para falar com a criança sapeca, não pôde ver que recebe em resposta uma cabeça afundada na almofada da sala. Nem uma palavra sequer, apesar da insistência e do viva-voz.
Será possível? Há um minuto atrás queria com todas as forças comunicar-se via celular!

E a sequência rotineira final chega: mamadeira, xixi, remédio, escova de dentes…
Tudo negado desde o princípio. Cabeça afundada. Esconderijo na cortina. Corrida para o quarto.
A mamadeira vai, entre brincadeiras com o controle remoto da TV. Repreendo e causo uma birra que não permite os demais passos sem choro.
Remédio cuspido. Xixi sentado à força. Pasta de dentes entre prantos. E, óbvio, depois de tudo, clamor pela presença da mãe.

Impossível não pensar que sou um péssimo pai.
Impossível não filosofar sobre a repreensão durante a mamadeira. Seria cansaço ou birra de minha parte?
Apenas cinco horas depois de começar o período esplêndido pai-e-filho, um deles esperneia na cama chamando pela mãe e o outro cogita pegar o celular para perguntar sobre o horário da volta.

O choro segue ininterrupto enquanto janto, assisto ao jornal e olho meu celular.
“Ninguém morre de chorar” disse o pediatra dele certa vez. Mas mesmo assim mando aquele whatsapp consultando a localização e o horário da volta.
Quando o choro-manha completa meia-hora, me levanto e vou até o quarto.
“Onde dói?”, “O que você tem?” e “O que aconteceu?” são ignoradas. Como o otimista sempre pensa na parte boa, ele não chama pela mãe…
Explico que é hora de dormir e saio.

Mais vinte minutos inteiros…
Ignoro conselhos, o pediatra, meu lado racional e a máxima de vó que “uma hora cansa” e entro novamente no quarto.
Dessa vez pego no colo, apoio no ombro e faço perguntas fechadas: “Quer leite?”, “Está com frio?”, etc. até obter uma resposta e levar um copo de suco de uva e duas bolachas “maizena” para a cama.
O silêncio vem como resposta em dois minutos. O sono em menos de dez.

Pai também erra. E sofre. E ama.

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui. Engraçado estar num texto do Silas Malafaia… 

Post_Cuidar_Filhos_02Sem dúvida é inglória, complicada e extremamente imprevisível a tarefa.
Livros são escritos, exemplos bons e maus são compartilhados, e ainda assim sobra o tal sentimento de culpa, de que daria pra fazer diferente, e melhor!

Minha intenção aqui não é mandar uma receita de bolo. Até por ter um “teto de vidro” nesse caso, representado num pimpolho cheio de energia de dois anos.
A intenção também é mostrar exemplos: um bom e um mau. Opinando de forma pirata, só pra variar um pouco…

Começando de forma otimista, destaco o exemplo do vídeo do youtube mencionado no meu post-conto anterior (post aqui e vídeo aqui).
O escritor e radialista Marcos Piangers conta experiências de pai numa palestra do canal TED, relacionando o carinho impagável enquanto mostra a culpa sempre presente, mesmo quando as preocupações infinitas (com alimentação saudável, por exemplo) são focadas incessantemente. Destaco o trecho final, que é o título da palestra dele: do que as filhas precisam. As filhas (e filhos) não precisam de dinheiro, não precisam de coisas, de presentes, de bens materiais. Elas precisam de harmonia, de um mundo melhor, de menor desigualdade social, da extinção do machismo e do racismo, de uma igualdade plena entre cidadãos, entre homens e mulheres…
Precisam também de pais presentes (e mães, obviamente). De pais que queiram ser pais, que escolham ser pais; de momentos juntos, de qualidade de relacionamento. Me dói ver babás de branco em escolas e shoppings. Dói pelas babás, que trocam muitas vezes o carinho dos seus próprios filhos, para cuidar e educar outros, quase sempre por necessidade. E também dói pelos pais e mães que não estão vivendo o momento mágico da infância dos seus filhos, não estão acompanhando sorrisos e abraços.

Post_Como educar um filhoE, para exemplificar esse lado “ausente” dos pais, compartilho um comunicado fotografado em meu condomínio há um ano. Comunicado da pequena S. que perdeu brincando um IPhone 5S ganho no aniversário de 10 anos…
Destaquei a palavra brincando, pois é exatamente o que penso que crianças de dez anos devam fazer: brincar. Um celular de última geração é algo falso e forçado na inocência juvenil; traz a tônica do “ter algo para ser melhor” a uma idade que nem deveria se preocupar com isso. Se a marca do tênis, o estojo e as viagens de férias já mostram as diferenças sociais entre os alunos de uma escola, um IPhone aos dez anos inicia a competição gananciosa e escancara a desigualdade muito cedo!

Se eu pudesse falar com a menina, avisaria logo que a ameaça do pai é infundada.
Aquele IPhone é mais dele do que dela. É a ostentação do pai que planejou o presente (talvez numa viagem internacional), para dizer aos amigos do trabalho, do futebol, do clube que comprou um “IPhone último modelo” para dar de presente para a filha pré-adolescente.
É já que representa um sonho de consumo dele aos dez anos, transferido para a filha… ele seguirá realizando este sonho sempre que puder, já que conseguiu realizar tal sonho uma vez, independente das travessuras e do valor que a filha der aos presentes caros. Será assim com a viagem aos treze, a festa cara aos quinze e com o carro aos dezoito anos dela!

É um efeito compensatório, que troca o tempo com os filhos por mimos e IPhones caros. E essa busca da compensação não tem fim, uma vez que as crianças se acostumarão ao mecanismo e os adultos acreditarão ser a única maneira de curar as falhas como adultos cuidadores e responsáveis.
Se extrapolarmos o exemplo da jovem S. para outros adolescentes de classe média, há um enorme risco de toda a geração atingir a vida adulta sem conhecer a palavra “não”, sem ter passado por restrições, punições, castigos.

Mas, como disse no início, é um assunto “sem receita”, não há uma lista do “o quê fazer”.
Agradeço em nome dos filhos aos que deram o seu melhor; e desejo sorte aos que estão ou pretendem iniciar esse árduo intento.

por Celsão correto

P.S.: primeira figura retirada do vídeo do youtube citado acima (aqui). segunda figura de arquivo pessoal

bar-celularChego em casa ruidosamente.
Entro pela cozinha, uma vez que trago itens de mercado que precisam ser guardados na geladeira, e vinhos que vão para a despensa.
Noto pela fresta da porta que todos estão em casa; cada um em seu mundo. Me esforço para não gritar nesse momento, ordeno pacientemente tudo o que comprei e aproveito para guardar na geladeira o leite, os frios e outras guloseimas abertas e desprotegidas que mãos “ocupadas demais” largaram na cozinha.

Tento inutilmente beijos de recepção. Reflito comigo mesmo, buscando na memória o início de tudo isso… desse isolamento eletrônico-internético.
Dou risada ao lembrar da música de Gil: “O mundo agora é pequeno por conta da antena parabolicamará.” Misturo essa com a outra, chamada “Pela internet”, ao assobiar. Todos ainda em seus ambientes virtuais, não percebem meu sorriso, meus movimentos de pegar um CD e de colocá-lo para tocar no antigo 3 em 1.

Finalmente vejo movimentos, meu filho sai do sofá da sala e se dirige a seu quarto, enquanto batuco algumas das músicas do Chico Science, Afrociberdelia. Rio sozinho novamente, depois de relembrar onde o meu neologismo eletrônico-internético me levou…
Sou assim, solto. Viajo em pensamentos que se concatenam automaticamente e fogem ao meu controle. Minha mente viaja ao comparar os diferentes verdes de uma simples folha de planta rasteira, ao perceber um riso inocente de criança e o consequente riso de satisfação e orgulho do adulto que a acompanha… Solto a imaginação em livros e até em comenrciais de revista de compania aérea. Mas não me vejo “preso” à internet todas as parcas horas livres do meu dia. Como se o Netflix e o Youtube me dominassem, arrastando-me para as suas indicações.

A esposa, outrora companheira dessas viagens, dos shows, dos planejamentos e ambições, agora acompanha hipnotizada um seriado qualquer no Netflix. A menina mais nova, talvez jogue, talvez publique no Facebook, difícil saber quando o fone branco parece colado no ouvido e os dedos ágeis escrevem ininterruptamente.

Ocupo o espaço entre as duas propositalmente, no afã de receber agrados gratuitos ou, ao menos, atenção. Ambas se mostram incomodadas e se viram simultaneamente, dando-me as costas e se prostrando a 180 graus uma da outra; como uma equipe de nado sincronizado.
Termino o sanduíche matutando sobre o que fazer: entregar-me também aos vídeos do whatsapp? Sair para respirar o ar “puro” de São Paulo? Abrir um livro?

O ócio eletrônico-internético é tentador. O esforço é mínimo quando quase tudo na casa já está conectado às inúmeras possibilidades da rede mundial: TV, computadores, impressoras e até o relógio-despertador, que lê pen-drives, cartões SD e acessa rádios pela internet, ao invés do confuso método de sintonia em ondas curtas.

Vou ao quarto do meu filho e sou sumariamente expulso com um “Cai fora, pai!“. Meu planejamento há 17 anos era conversar abertamente sobre as baixarias e pornografias abundantes das mais variadas formas; correlacionando a comicidade das minhas revistas de difícil obtenção e de intensa circulação entre os “parças” da época.
Como fazer isso agora?

xon-the-phone_jpg_pagespeed_ic_8ZOTFQpD42E se eu criasse um grupo da minha família? Penso, rindo novamente comigo mesmo.
Decerto esse grupo já existe, minha filha deve tê-lo criado… só esqueceu de adicionar o pai caretão.

Vou pra cama ainda curtindo minha caretice; pois começo a imaginar uma estória de pessoas que vivem o mesmo problema.
Será que elas usariam o Facebook para se conectarem umas com as outras e compartilhar este sofrimento?
E o que seria isso, hipocrisia ou inevitável ironia?

Acho que vou escrever um livro.
Talvez o Amazon faça uma versão e-book dele…

por Celsão Irônico

figuras retiradas daqui e daqui (que recomendo também a leitura do relato de vício do Leandro)

P.S.: recomendo também o excelente video dos barbichas, que pode ser acessado aqui .

P.S.2: outro conto nosso relacionado com o tema (aqui)