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Na balada

Posted: May 17, 2017 in Comportamento, Outros
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Olá Princesa.

Oi.

Você vem sempre aqui? Posso te pagar um drinque?

(…) E agora? (disse após algum tempo, fazendo uma interjeição desesperada)

E agora o quê?

Poderia ter sido rápida e responder com o risinho inocente que você estava esperando, ou começar a enrolar o meu cabelo enquanto te olhava de cima a baixo, demonstrando que ainda o avaliava. Ou ainda virar a cabeça, fingindo e sua inexistência. Perdi o tempo dessas reações conhecidas e não sei como lhe tratar nesse momento.

Nossa!

Nossa o quê? Não esperava frases coordenadas? Nem raciocínio rápido? Ou simplesmente não queria?

Fiquei surpreso…

Surpreso pelas minhas palavras, pela reação inesperada ou por encontrar uma mulher inteligente e capaz de usar palavras que você não conhece? (…) Eu bem que disse à Vanessa que queria ter ficado em casa.

É esse o problema?

Problema? Entre nós é você que está com problemas. Decidiu vir pra cá querendo uma diversão fácil, uma traiçãozinha inocente. E não sabe como lidar. Sequer tem coragem de arranjar uma desculpa e sair.

(Silêncio)

Alô? Falei rápido ou complicado demais?

Estou apaixonado…

Ah, entendi. Você é daqueles que “piram” num desafio e encontrou em mim algo inédito.

Onde está a Vanessa?

Deve estar beijando a terceira boca. Por quê?

Ela está se divertindo mais que você. Ela é que é esperta…

Ela simplesmente consegue “desligar” os problemas pelo tempo necessário de se divertir e entrar num Mundo de Alice. Do Facebook. Todos são felizes. Ou só o hoje interessa. Passei dessa fase. E… não posso deixar de comentar o “esperta” na sua colocação; eu não sei se foi preconceito ou rótulo.

Como assim?

Você está rotulando uma pessoa que nem conhece como fútil, fácil, burra. Deve aprender que beijar três bocas numa noite não a faz vagabunda. Você faria isso. Se pudesse e fosse mais que um rosto bonito numa roupa de marca.

Estou impressionado. Você é a mulher dos meus sonhos.

Acorda cara! Você não está preparada para uma mulher. Você quer uma menininha que te obedeça…

(Novo silêncio)

Sua mãe não me suportaria, pois eu leria os dramas artificiais dela para com você e talvez outros detalhes da sua família, imperceptíveis pra você, pro seu pai. Seus amigos fúteis não falariam comigo por medo e eu não conseguiria conversar com as namoradas deles. Você ia achar desculpas para sair sozinho com os amigos, mas não permitiria que eu fizesse o mesmo.

O que eu devo fazer agora pra te agradar?

Criar uma segunda impressão melhor que a péssima primeira, quer seja por citar um livro que eu li, de um autor que gosto, quer por fazer um comentário inteligente retirado de um filme premiado, ou ainda por me fazer rir.

Você sempre trata os homens dessa maneira?

As vezes. Os que “se acham” perfeitos ou acima dos outros, os preconceituosos, os indelicados, os grosseiros, sempre. Me interesso também pela reação dos demais…

Você sabe de tudo?

Não. Mas já sei que você conta na roda de amigos sobre suas conquistas, julga as mulheres pela roupa e pelo tanto que bebem.

Eu não sou machista.

Sob a própria ótica, nenhum homem é. A verdade é que poucos se assumem.

Estamos conversando demais. Poderíamos estar ocupados noutra atividade. Que tal um beijo?

De que planeta você veio? Acha mesmo que vou te beijar?

Acho!

Ao menos autoconfiança você tem…

 

 

por Celsão “contista”

figura retirada daqui. O site apresenta uma das muitas pesquisas sobre machismo.

P.S.: lembrem que o machismo mata muitas mulheres, todos os dias. Assédio, cantadas ofensivas, toques desnecessários dificilmente são bem vindos, sobretudo entre desconhecidos. Homens, por mais piegas que seja, pensem nas mulheres como suas mães, irmãs e filhas. Respeito! 

estuproÉ triste e é revoltante.
Talvez devêssemos usar a palavra “inaceitável”…

Estupro é um ato grotesto, desumano. Causa indignação e extrema revolta.
É ultrajante! Aqui coloco não só o ato de estuprar alguém, mas incluo o machismo que “se multiplica” em ações imorais deste quilate.

Falamos bastante sobre o machismo do brasileiro, sobretudo do homem, nestes últimos seis meses (exemplos aqui e aqui).
Mas o novo caso, da jovem carioca de dezesseis anos possivelmente estuprada por mais de trinta homens, me choca novamente (e repetidamente), pela “dualidade” do julgamento dos homens!

Me entristecem uma vez mais o “ela mereceu”, “o que ela estava fazendo lá?”, “ela também não é santa”…
O que nós homens precisamos entender é que, mesmo que uma mulher se apresente nua na porta de seu apartamento, não há salvo-conduto para uma relação sexual; sobretudo sem consentimento! Um não dito por ela em qualquer momento da “aproximação” ou “galanteio”, caracteriza um crime. E um crime grave!

Não há motivos suficientes para afirmar o “merecimento” da vítima.
Mesmo que ela tenha participado de orgias em outras ocasiões. Mesmo que use com frequência entorpecentes. Mesmo que tenha comportamento sexual caracterizado como “de alto risco”… Nada pra mim explica o que fizeram os agressores e muito menos transfere a culpa para a menor! Nada!
Culpar a erotização precoce, a televisão, o ambiente “pernicioso” e violento de comunidades e favelas, uma péssima estrutura familiar, eventuais insinuações da moça, a música funk… é como buscar outro culpado que não o que escolheu, por livre-arbítrio (ou distúrbio mental), agir, tomar a atitude de estuprar.

1 a 1 a a a a pesq causas de estuproUsando palavras de um amigo, durante discussão acalorada sobre o tema: “Uma mulher deveria poder ficar bêbada ou drogada em qualquer lugar, sem correr o risco de ser estuprada”
Utópico?
Talvez nos morros cariocas no dia de hoje. Talvez em todo o território nacional. Talvez em países subdesenvolvidos e machistas (não necessariamente correlacionados).
Mas não é normal. Ou melhor, não é sadio se queremos e pregamos um mundo igualitário e civilizado.

Algumas estatísticas chocantes para finalizar.
– Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil
– Em São Paulo, estado considerado “mais evoluido”, um estupro ocorre a cada 40 minutos. Totalizando lastimáveis e espantosos 35 estupros por dia!
– Estima-se que somente 10% dos casos sejam denunciados. Em números de 2013, do IPEA, o número é de 527 mil tentativas ou casos de estupro. (fonte aqui)

por Celsão revoltado

figuras retiradas daqui e daqui.

P.S.: relutei em citar exemplos lamentáveis e machistas sobre o caso. Mas como é de um “famoso”, segue link dos comentários do cantor Lobão (aqui), que acredita que mulheres devem ficar em casa ao invés de “rebolar a bunda”.

P.S.2: adendo importante, vindo de um comentário no Facebook: “Só tenho uma consideração: o ato sexual só é consensual quando há aceitação explícita de ambas as partes. Não é apenas com um ‘não’ que se caracteriza a recusa, a ausência de consentimento não pode ser considerada um ‘sim’. Pois em ocasiões onde a mulher se encontra muito dopada, ou até mesmo apagada, ela não tem condições de pronunciar seu desejo”

IMG-20160308-WA0035Todos os anos fico “preso” entre a pieguice das mensagens vazias e da lembrança única e a importância histórica da data na luta das mulheres contra o machismo e a desigualdade.
Busquei no histórico dos outros “Marços” desse blog e, como não encontrei menções ou homenagens à data, resolvi fazer essa menção nesse ano de 2016; mesmo que tardiamente.

Mesmo que tenhamos reiteradamente abordado os temas machismo e preconceito contra as mulheres, por exemplo: aqui, aqui e aqui. Nunca é demais lembrar aos homens e à toda a sociedade o quão preconceituosos e machistas eles são.
Por exemplo, durante o dia de ontem, inúmeras foram as mensagens de cunho machista e sexista que circularam nas mídias sociais, como o WhatsApp.
E, infelizmente, não foi com o intuito de refletir sobre a realidade, mas somente para intensificar e perpetuar a discriminação, o status-quo.

O Google, que sempre prepara desenhos e filmes para ocasiões especiais, os chamados doodles, fez um video interessante sobre o desejo das mulheres de hoje (acesso aqui).
Os anseios variam de acordo com o país e poder aquisitivo, naturalmente; mas é impressionante ver que muitas apenas pedem educação ou igualdade!

IMG-20160308-WA0039Como é possível, no século 21, mais de um século após as primeiras celebrações e o grave incêndio na fábrica têxtil americana, seguirmos sem garantir igualdade às mulheres? (mais informações sobre a data no Wikipedia)
Por que vemos mais exemplos de maus tratos no dia-a-dia, que de êxitos de empreendedorismo feminino?
Por que foi necessário criarmos uma delegacia especial para atendimento à mulher e leis como a Maria da Penha, contra a violência doméstica?
E por que nós homens usamos, no dia delas, frases do tipo: “Os outros 364 dias são nossos”?

As mulheres são o motor do Mundo. Só elas são capazes de planejar o todo e atentar aos detalhes. Só elas são realmente “multi-tarefas” e conseguem dar conta de lares e carreiras. Só pra não me alongar demais…

Que sejamos não só piegas em homenagens e romantismo para com as mulheres de nossas vidas…
Que lutemos com elas contra o peso do machismo e do sexismo do dia-a-dia!
Quer um exemplo simples do que fazer? Pare de compartilhar videos e fotos “roubados” ou “vazados”! Sobretudo aqueles que acompanham pedidos desesperados das próprias mulheres, para que não os divulguemos.
IMG-20160308-WA0040Nós devemos isso a elas. E não somente a elas; devemos isso a um mundo mais justo e igualitário!

por Celsão correto

figuras recebidas no WhatsApp no dia de ontem

P.S.: Para quem quiser fazer “mais”, o doodle do Google direcionava ontem para uma página de apoio à causa da igualdade para as mulheres. Além dessa campanha, podem ser encontradas outras reinvidicações e programas de apoio à mulheres de todo o mundo. É possível aderir a campanha e fazer doações, por exemplo. O acesso pode ser feito aqui. (página somente em Inglês)

 

 

Madrugada

Posted: February 14, 2016 in Outros
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frases madrugada luaO relógio marca 0:37h. E a TV mostra uma cena que conheço e remexe fundo na mente, aquele “já vi isso antes”.
O filme do Corujão 1 é antigo, certamente do final da década de 80 ou começo de 90… A programação mostra: “A Casa do Espanto I”, mas me é mais familiar que isso. Descobri pela voz do Egon: “Os Caça Fantasmas”!

Eu deveria escrever algo sobre o Carnaval.
O problema ocorrido nas apurações de São Paulo(?), só se fosse para investigar a massiva participação da Polícia Civil do caso. Nunca vi tanto policial civil junto, nem nas greves recentes… Certamente é alguém buscando promoção própria e encontrando na briga dos dirigentes um prato cheio.
O “suposto” escândalo da passista que tirou a roupa em protesto (!) e foi expulsa do desfile? Vazio! Certamente ela queria mesmo se promover, pois carregava, segundo a notícia, um tapa-sexo com a figura da presidente.
O bom mesmo seria conseguir correlacionar o Carnaval uma vez mais com machismo, buscando aquelas declarações de homens brasileiros que afirmaram categoricamente que blocos de Carnaval não são pra “mulher direita” no mesmo ano que as mulheres pediram um Carnaval sem assédio.
Putz… melhor ainda se desse para citar o vídeo publicado pela jornalista iraniana que sofreu assédio do próprio chefe em seu país. Afinal, machismo não é exclusividade brasileira e está “intrínseco” em muitas culturas e países.
É incrível e lamentável como tem homem que não entende o “não”. E também acreditam que uma roupa curta explica atos primais…

Que bacana rever Bill Murray e Dan Aykroyd com cara de anos 80. Me lembro que assisti esse filme no cinema e que depois comprei o disco (de vinil mesmo) da trilha sonora.
Dispersei de novo com a TV. De volta ao post…

E o lance do Zika vírus e variações das transmissões do mosquito Aedes?
Importante, mas o blog não tem esse apelo de “prestar um serviço à comunidade”.
Faço o primeiro? O que a “galera” pensaria disso?
E a abordagem? Somente informação? Assusto com os casos de transmissão fora do comum, com a infeliz situação geral da saúde brasileira, a mercê de tudo, de laboratórios, a médicos mercenários e, principalmente, políticos corruptos em diferentes esferas?
Não…

Só vou entrar na internet para ver quem é a mulher de rosto conhecido, que faz o papel de Dana: Sigourney Weaver! Show. Aproveitei pra ver o ano do filme: 1984!

Os boatos sobre redução proposital de orçamento do Poder Judiciário e Polícia Federal para atrapalhar as investigações em curso também mereciam um texto!
Afinal, cortar custos é cortar em todos os lugares e é isso que está acontecendo.
Infelizmente os conchavos se mantêm e os cortes poderiam ser mais efetivos… Mas daí vou falar mal do PMDB outra vez…
Falando em boatos, recebi outra vez no whatsapp a notícia que vincula o Lulinha à Friboi. Por que as pessoas espalham antes de buscar no Google? Os celulares também possuem navegador!

Terceira promessa de ficar mais 15 minutos.
Quando peguei o computador as 22h e minha mulher perguntou o que faria, menti que era algo do trabalho para não ser cerceado.
“Por que você tem de dormir tarde todo dia?”
Mas é tanto assunto que merece ser comentado, é tanta necessidade de “botar pra fora”, que a lista de assuntos no arquivo txt cresce tanto quanto as abas não lidas e salvas no Firefox…

Mas os amigos e leitores me enviam tanta coisa legal…
Como um teste de posicionamento político assinado pelo Washington Post e BBC, classificando as pessoas além de direita/esquerda em liberal/comunitarista.
Ou vídeos do youtube com depoimentos interessantíssimos, lições a serem partilhadas, como aquele TED do Marco Piangers…

1:37h!
O filme está acabando e noto como o “Geleia” é diferente daquele que me encantava no desenho animado.

Já sei! Vou escrever um conto.
Talvez dê certo misturar tudo e não falar de nada…

por Celsão irônico

figura recebida via WhatsApp

P.S.: pra não deixar todo mundo “boiando”, os links citados sobre o Carnaval estão aqui e aqui. O assédio da jornalista iraniana aqui. O teste da BBC aqui e o vídeo do youtube aqui. Afinal, vai que não viram textos.

FacebookQuem acompanhou o caso, viveu o absurdo, o achincalhamento da exposição escancarada e desnecessária das redes sociais.
Quem estava na Lua, ou tem a sorte de só participar de grupos de WhatsApp corporativos ou construtivos e também de ter no Facebook somente pessoas que não compartilham piadas de mau gosto (ou de ter bloqueado da linha do tempo estes)… realmente é sortudo.
Resumindo bem o fato, a Fabíola traiu o marido com a desculpa de ir fazer as unhas. O marido pegou-a em flagrante com o amante, um amigo filmou e divulgou o vídeo. A partir daí, fotos, montagens, outros vídeos, piadas, tudo fazia referência aos personagens, muitas vezes deturpando o caso e expondo (principalmente) a mulher.

Minha opinião começa lamentando o machismo do brasileiro.
O amante sai sempre como herói, não importando a condição social ou estado civil.
O marido traído, quando se indigna e/ou penaliza a mulher, também é herói. É ainda mais enaltecido se abusa da violência, principalmente contra a mulher.
A leitura machista não aceita que os direitos iguais propõe-se para todas as situações, traições incluídas.
“Também, né… a mulher mereceu!” ou “Um homem de verdade não pode aceitar uma traição” ou “É feio a mulher trair” me entristecem profundamente. A mulher pode trair sim, pois tem as mesmas vontades e fraquezas dos homens. Se geralmente não as têm na mesma medida (por serem superiores, eu diria), não implica que devam permanecer castas e ingênuas ante a relacionamentos vazios ou a homens sem escrúpulos.
Chega de usar os adjetivos “vagabunda” quando é ela e “garanhão” quando é ele!

Acredito que a vergonha do flagrante seja suficiente para o exercício interno de pensar e repensar nos atos cometidos, que é bem importante. Aliás, todos os envolvidos direta e indiretamente repensam a vida e podem (devem) avaliar as amizades e a exposição que estão submetidos nas redes sociais.

Voltando rapidamente ao tema da desculpa, que diferença faz?
Uma viagem de negócios, uma visita a um parente, uma cerveja com amigos, futebol a noite com o pessoal da empresa… Tudo serve ou serviria como desculpas para uma traição, ou várias.

Agora falando sobre as redes sociais: o que leva uma pessoa a filmar já pensando em compartilhar esse material com desconhecidos?
E o que leva outros a seguir encaminhando, compartilhando uma humilhação, uma revelação, um segredo?
Creio que isso já é e será por muito tempo tema de estudos e teses de acadêmicos de Sociologia e de estudiosos do comportamento humano. Os porquês, a “nova necessidade” de compartilhar e julgar, as especializações relâmpago do Facebook…
Pra mim, numa análise rasa, primeiro vem a necessidade de fazer-se conhecido, vangloriar-se de ter obtido a informação em primeira mão, de ter vídeos eróticos da funcionária do banco X ou da empresa Y.
O que é péssimo!
Sem medo de errar, digo que carreiras foram comprometidas, famílias se desfizeram e problemas psicológicos surgiram graças a esse bullying cibernético e “anônimo” (pois todos pensam que estamos anônimos na internet). Se nós nos esquecemos dos nomes, empresas e rostos, dificilmente os vizinhos e parentes terão a mesma “sorte” e isso levará a mais provocações e mais bullying.

No site onde encontrei a foto, estavam listados alguns dos pontos-chave da Revolução Francesa. Cito dois: O respeito pela dignidade das pessoas, que estamos ignorando com esses atos anormais; Liberdade e igualdade dos cidadãos perante a lei, que esquecemos completamente com o machismo que praticamos e difundimos.

Onde será que isso vai parar? Na suspensão dos softwares de compartilhamento? Na sanção do uso do Facebook a alguns usuários adictos?

Difícil de dizer hoje.
Uma das tristes consequências foi a interrupção, temporária, mas efetiva, das discussões sobre política, sociedade, desenvolvimento da Nação, que poderiam estar ocorrendo nos mesmos meios. (sim, é o Celso utópico falando aqui novamente!)

por Celsão revoltado

figura retirada daqui

P.S.: me nego a divulgar links sobre o caso citado. São acessíveis através de uma rápida busca no google, pra quem não conhece ou não ouviu sobre o assunto.

Hitler_maioria_FascismoOs episódios recentes de racismo, machismo, fascismo, ignorância, falta de educação, ausência completa de bom senso e respeito ao próximo, elevam meu grau de preocupação com o futuro do Brasil. Há uma grande parcela da sociedade brasileira que está doente, mentalmente doente. Histeria, ódio, irracionalidade, causados pela doença da estupidez.
(Quem quiser ler mais sobre a burrice e estupidez como doença, segue um artigo da filosofa Márcia Tiburi: AQUI)

O ódio que a mídia e líderes radicais de direita geram, e que muitos ajudam a disseminar (isso pode incluir você, então reflita) mesmo que de forma modesta e branda, é um trem desgovernado: depois que embalar, não é mais possível parar.

Se o pior acontecer, e este ódio se institucionalizar de vez em forma de Governo (já começou, com Cunha na presidência do Legislativo e com um Congresso extremamente conservador e repleto de radicais de direita), não chorem suas mágoas depois.

Aquele que diz ser contra o ódio, mas está sincronizado ideologicamente com quase tudo aquilo que os fascistas também defendem (contra bolsa família, contra mais médicos, querem o PT fora, acham que Dilma quebrou o país, contra cotas, a favor da redução da maioridade, contra aproximações com Cuba e Venezuela, se calam quando o Congresso mantem as doações privadas a campanhas eleitorais ou fazem uma mesma votação duas vezes em 24 horas para inverter um resultado do dia anterior, etc), é cúmplice da alavancada da insanidade.
A você, um lembrete: você não será poupado por estes fascistas quando eles tiverem o Poder ilimitado. Afinal, fascistas não irão reconhecer que você defende algumas das mesmas causas que ele; pelo contrário, ele irá somente reconhecer que você não defende algumas de suas causas, e então, irá te perseguir.

Quem também faz vista grossa, não se manifesta, tenta se manter numa falsa, e/ou hipócrita, e/ou covarde neutralidade (em cima do muro), não deve se enganar, pois também não será digno de misericórdia.
Além disso, é sempre bom lembrar: o silêncio dos bons deixa com que a voz dos maus prevaleça e cresça. Portanto, você, com pinta de neutro, é conivente e cúmplice, infelizmente.

Aos fatos:

  1. Adesivos de montagem pornográfica com a Presidente Dilma sendo distribuídos para serem colados nos tanques de gasolina dos carros. Nem vou me aprofundar neste assunto, nem vou descrever detalhes do adesivo (pois todo mundo o viu, o que dispensa minha narração), pois é tão, mas tão baixo, que sinto vergonha de falar sobre isso. Quem chegou a colá-lo no carro, precisa ser internado numa clínica psiquiátrica, pois está sofrendo de sérios problemas mentais, e não é só burrice não. E não estou falando isso para ofender, ou para mostrar meu desprezo (apesar de merecido), estou falando sério, a pessoa tem sérios problemas e precisa de tratamento.
  2. Maju Coutinho, jornalista da Globo responsável pela previsão do tempo no Jornal Nacional, recebeu diversos ataques racistas e machistas na internet. Entre os comentários, estavam os seguintes: “só conseguiu emprego no JN por causa das cotas, preta macaca” e “não tenho TV colorida para ficar olhando essa preta, não”, além da palavra “vagabunda”, diversas vezes. Ao que parece, a maioria dos perfis que fizeram os ataques, são perfis falsos/fakes, o que para mim, não muda em nada o ocorrido, pois a única diferença entre um perfil fake e um verdadeiro, é que o fake representa alguém covarde, incapaz de se mostrar e expor o que pensa. Para ler mais sobre os ataques, clique AQUI
  3. Deputados do DEM, PR, PSDB, que decidiram ser contra a posição de seus partidos e votaram “contra” a redução da maioridade penal, sentiram por algumas horas, pela primeira vez em suas vidas, a insanidade do ódio. Até então blindados de tais agressões, provavelmente por pertencerem a partidos conservadores, receberam em seus twiters e Facebooks uma série de ataques maliciosos, machistas e sexistas (para as deputadas mulheres), ofensas, ameaças, e tudo mais. Esses deputados se disseram horrorizados, e manifestaram entender melhor agora o que sofrem políticos progressistas.Mara Gabrilli (PSDB-SP), Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Professora Dorinha (DEM-TO) foram algumas das vítimas, escreveu o deputado Jean Wyllys. Segundo ele, as três se referiram às injúrias sexistas e às acusações de que eram “comunistas” e “vendidas ao PT”.
    Entre os que sofreram os ataques, muitos mudaram seus votos 24 horas depois (como foi o caso do deputado Celso Maldaner do PMDB, clique AQUI). A maioria nega a relação entre os ataques e a mudança do voto. Mas cá entre nós, o medo físico, e/ou o medo de perder eleitorado, certamente influenciaram a mudança de muitos deles. Também o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, longe de ser um progressista de esquerda, se posicionou contra a redução, e sofreu a ira dos fascistas, muitas vezes acompanhada de ataques racistas.
  4. Durante a comitiva da presidente Dilma nos EUA, uma repórter da Globo fez uma pergunta maliciosa, como de costume, para ser respondida por Dilma: “Senhora presidente, como lidar com a contradição de que o Brasil se vê como uma potência global, mas os EUA veem o Brasil somente como uma potência regional?”
    Obama, que percebeu a maldade da pergunta, se antecipou e disse: “Com licença, mas na parte que toca aos EUA eu preciso responder. Os EUA não veem o Brasil como uma potência regional, mas sim global. Eu poderia dar vários exemplos, mas vou lembrar somente que o Brasil é um dos países mais importantes e respeitados entre os G20, e além disso, o combate às mudanças climáticas e a diminuição da destruição do meio ambiente, só é possível tendo o Brasil como nosso líder.”
  5. E por fim, e talvez o melhor exemplo de como esse ódio fascista é completamente insano, doente e irracional. Durante a mesma visita da presidente Dilma a Obama, um jovem brasileiro, fã de Jair Bolsonaro, se infiltrou na comitiva de Dilma, e filmando começou a gritar e xingar a presidente. Vejam a notícia da Folha, onde também é possível acessar o tal vídeo (AQUI). Entre as ofensas, estavam as palavras: ladra, terrorista, assassina, comunista de merda e vagabunda.

 

por Miguelito Nervoltado

figura retirada do facebook, compartilhada por diversos perfis

skyshoe1Estava eu, buscando num desses portais na internet alguma notícia “nova” da Copa e me deparo com a notícia: “Em clima de Copa, pianista toca nua os hinos de Brasil, EUA e França”.
Pra quem não a conhece, a “pianista nua” ou “Suzy pianista” surgiu no ano passado, postando inicialmente vídeos de música clássica tocados sem mostrar o rosto e de lingerie na internet. Houve sucesso e ela “ousou” mais, passando a tocar só de calcinha e nua em algumas ocasiões.

Deu entrevistas, foi tema de documentário na emissora alemã Ruptly TV, participou de programas no Brasil, como o programa Silvio Santos e o Pânico, tocando nua no quadro do “Poderoso Castiga”…

Os argumentos que usava, como: “Protesto em nome das musicistas que sofrem num ambiente puramente masculino” e “Tiro a roupa por uma causa”, se comparando ao grupo Femen, ou mesmo, “Diferente de simplesmente mostrar meu corpo e agregar a isso coisas vulgares, estou mostrando música clássica”, não surtiram muito o efeito desejado e ela própria sucumbiu à música popular.
(no programa Silvio Santos tocou um dos temas do apresentador e no Pânico tocou Gustavo Lima)

E digo mais, num universo masculino e machista e, num país ainda mais machista, o intento deve ter gerado muito mais “dor de cabeça” que “chamadas para audições” como ela desejava. Ela própria, analisando seus progressos, poucos meses após aparecer na mídia, disse que havia interrompido as aulas de piano que dava, principalmente para homens e adolescentes, dado os pedidos para ensinar de lingerie; além disso, recebeu ligações e propostas não-relacionadas com a música…

Bem… E o que pretendo eu com esse título e essa introdução?
Perguntar a essa moça: “Precisa disso?”
Não bastava ter sentido na pele o machismo e a discriminação ao tocar nua, precisava querer aparecer na Copa e rivalizar com as chamadas “musas”? Precisava ter mais uma bunda brasileira à mostra para gringo ver?

Post_Copa_Machismo_01No mesmo tom, outras “candidatas a musa”, também aproveitam o momento e mostram o corpo em qualquer oportunidade que surge. Minha vontade é pegar as moças da foto ao lado (uma delas é a tal da Andressa Urach) e “ensinar bons modos”, como nossas avós fariam. Na base da vara de marmelo, se fosse preciso!

A Copa está acontecendo sem maiores problemas, torcedores estrangeiros vieram e estão elogiando a organização e a hospitalidade (coisa que muito brasileiro duvidava que ocorreria). Estamos fazendo a nossa parte. Mas… não deveríamos perder essa excelente chance de mudar a imagem de turismo sexual e de “república da bunda”? É uma pena que, mais uma vez o machismo seja estimulado pelas mulheres…

Enfim… pode ser que me julguem machista ao tolher uma mulher da oportunidade de mostrar seu corpo.
Pode também ser visto como machismo a frase escrita acima: “ensinar bons modos”, ensinuando uma agressão.
Assumo que não “curto” quando a pianista Rita Tibes (nome verdadeiro de Suzy) expõe o Brasil nua; preferia que fosse vestida. Mas assumo também não saber o quê ela precisava fazer pra aparecer de outra forma…

Minha revolta está no fato dela (e das outras) serem brasileiras e, mesmo não representando todas as outras, passarem a imagem que a muito custo, alguns tentam mudar. Me revolta também o fato dessas coisas acontecerem nesse período, propiciando comentários maldosos e, infelizmente, com base em fatos.

por Celsão revoltado

figuras retiradas daqui e montagem feita daqui.
P.S.: pra quem quer ler uma notícia da Suzy pianista (com alguns vídeos na matéria), clique aqui

figura_SargentErotização, hipersexualismo, machismo, sexismo, racismo. Tudo isso me vêm à cabeça quando ouço o termo “Globeleza”.
Mais que um jargão ou “elogio racista” (me apropriando de um termo cunhado pela blogueira Charô Nunes), ser Globeleza é ser a “negra gostosa” para a Globo, para o deleite da classe média, que comparará os detalhes dos corpos, desta e das anteriores, ignorando tudo o que a mulher representa na sociedade e, além disso, os desafios ainda maiores que uma mulher negra enfrenta dia após dia.
A competição pra se tornar uma Globeleza e ter sucesso (?!?), me lembra o Sargentelli apresentando suas mulatas na década de 80 e 90: sentado como um senhor de escravos a negociar sua mercadoria. (pra quem não lembra, achei um vídeo do programa do Clodovil)

Quando ouço comentários em corredores e ambientes públicos, a lá Michel Teló, sinto vergonha e lamento pela mulher vítima daquela ofensa, evito ser complacente a esta cultura machista enraizada, pois entendo (ao menos tento entender) a fragilidade e impotência femininas frente aos costumes e regras vigentes na sociedade e encarados como “normais” por quase todos.
Já que citei a internacionalmente famosa música “Ai se eu te pego!”; ela, alguns filmes e até mesmo o Carnaval, atrapalham bastante o intuito de desvencilhar o hipersexualismo explorado nas mulheres negras. E é triste constatar que,muitos dos que sofrem tais preconceitos (seja na própria, ou na pele de uma companheira, filha, parente), são também felizes consumidores dessa cultura… Quando é pra eles é bom; quando é contra eles, é ruim. O que mostra uma profunda incoerência, ou até mesmo, hipocrisia.

Sou completamente a favor do “Brasil menos Globeleza” apregoado no blog Soul Negra.
Proponho refletirmos, homens e mulheres, nas pequenas atitudes machistas e racistas que temos no dia-a-dia; em palavras como “denegrir”, expressões como “ovelha negra” e “cor do pecado”, comentários sobre roupas e cabelos.
Falando especificamente aos homens agora, proponho também que nossos comentários não sejam feitos na frente de mulheres, expondo-as ainda mais a este machismo degenerativo; ou que sejam substituídos. Por exemplo, ao invés de:
– Tem coragem, fulano?
– Não tenho é sorte, beltrano!
Que usemos:
– Tem coragem, fulano?
– Ela é bonita, mas porque falar sobre ela na frente dela?

Dessa forma, ofensas e comportamentos impróprios não se propagam.

Que as mulheres sejam cultuadas e homenageadas não só no dia ou no mês dedicado a elas, mas todos os dias e todos os meses, mas sem excessos, sem machismo.

por Celsão correto

figura montagem feita daqui

P.S.: artigo publicado também no blog Soul Negra, que aborda temas relacionados à cultura, moda e beleza Negra. Clique AQUI

Luiz Ruffato em Frankfurt

Luiz Ruffato em Frankfurt

Esse blog reproduz aqui na íntegra o discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro em Frankfurt – Alemanha.

Uma aula sobre o Brasil e sua sociedade. História, Geografia, antropologia, sociologia, política, psicologia, com muito conhecimento, sensatez, observação crítica, imparcialidade e progressismo.

Discurso: 

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

por Miguelito Formador

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