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Ciro-Gomes-de-anel-560x250Compartilho uma entrevista recente do provável pré-candidato à presidência (adorei o termo!) Ciro Gomes.
Na entrevista concedida ao InfoMoney, Ciro fala de inverdades difundidas pela mídia, que é cúmplice de um “pacto de estupidez”, na tentativa de proteger o atual presidente e a esperada retomada do crescimento econômico. Cito como exemplo a reforma da previdência: o ex-ministro e ex-governador nega que haja déficit e propõe mudanças numa direção distinta da atual. Critica a disparidade de valores para juízes e políticos, e a punição ridícula aplicada a juízes, da aposentadoria compulsória integral. (pontos já criticados nesse blog aqui)
Há algum tempo Ciro fala da reforma da previdência, focando no modelo de poupança própria (ou capitalização) em oposição ao regime atual de repartição (achei duas referências de 2001: aqui, onde Ciro falou em Harvard sobre o seu plano de Governo e aqui, onde usaria as reformas tributária e previdenciária para elevar o valor do salário mínimo)

Ciro critica Temer, como vem fazendo desde que o mesmo assumiu a presidência e nomeou o seu primeiro escalão.
Está pessimista em relação a 2017. Tomando uma das frases dele, dita logo antes do impeachment: “vocês estão completamente equivocados em querer colher maracujá em pé de laranja. Dessa coalizão de corruptos, incompetentes e entreguistas, não sai nada senão corrupção, incompetência e entreguismo

Ciro também cita uma das ideais “pirata” defendida aqui nesse post: redução da taxa de juros. Mesmo não sendo brusca, a redução, segundo ele, faz todo o sentido. Inclusive daria para aproveitar que as economias do mundo estão praticando taxas negativas de juros, e transformar nossa dívida interna em externa (totalmente “fora da caixa”).

Enfim… no mínimo, vale a leitura e a reflexão.
Segue abaixo, na íntegra.


InfoMoney: O senhor defende que não há rombo na Previdência. As estimativas de que o déficit do INSS vai superar os R$ 180 bilhões em 2017 estão erradas?

Ciro Gomes: Todas as vezes em que se reflete sobre um problema complexo no Brasil, os oportunistas a serviço dos interesses prevalecentes acabam reduzindo opiniões que deveriam ser complexas. A grande questão hoje é que, se você tem as receitas destinadas pela lei versus as despesas para a Previdência, não há déficit. Se somarmos CSLL, PIS, Cofins, as contribuições patronais do setor privado e público e as contribuições dos trabalhadores, contra as despesas do presente exercício, temos ainda um pequeno superávit. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de decência e não esteja a serviço da manipulação de informações vê isso. Eles têm a audácia de falar em déficit, porque propõem uma DRU [Desvinculação de Receitas da União], que capta 30% de todas essas receitas e aloca para pagar os serviços da dívida, com a maior taxa de juros do mundo, no momento da pior depressão da história do Brasil.

Dito isso, a Previdência Social tem dois problemas. Um é estrutural, derivado de uma mudança da demografia. Tínhamos seis pessoas ocupadas para cada aposentado quando o sistema foi montado, com expectativa de vida de 60 anos. Hoje, temos 1,7 trabalhador ocupado por aposentado, para expectativa de vida superior a 73 anos. Para resolver estrategicamente a equação de poupança e formação bruta de capital do Brasil, precisamos avançar com prioridade em uma reforma, mas nunca na direção que estão propondo. E aí vem o segundo problema: o futuro ou potencial déficit da previdência brasileira se dá pelas maiores pensões, dos maiores rendimentos, que levam mais da metade das despesas. Juízes, políticos, procuradores precocemente aposentados e com pensões acima de qualquer padrão de controle do país. Isso é uma aberração. A maior punição a um juiz ladrão que vende uma sentença no Brasil é a aposentadoria compulsória com 100% de seus proventos.

IM – E o que fazer para resolver o problema?

CG – O superávit vai sumir em dois ou três anos. Temos que evoluir do regime de repartição [em que as contribuições dos trabalhadores em atividade pagam os benefícios dos aposentados] para o de capitalização [em que cada trabalhador poupa para sua aposentadoria], que é o que todos os países do mundo fazem. E fazer uma espécie de transição, que é o mais complexo mas há como fazer também, de maneira que, ao fim do processo, tenhamos uma previdência básica para 100% da população da transição, e a previdência complementar pública, porém sob controle de coletivos de trabalhadores e com regramentos de governança corporativa, com prêmios para um grupo de executivos recrutados por concurso e com coletivos de apuração dos riscos dos investimentos.

IM – Qual é sua avaliação sobre a fixação de uma idade mínima para aposentadoria?

CG – Sou a favor, desde que se compreenda as diferenças do país. Considero uma aberração estabelecer uma idade mínima igual para um trabalhador engravatado, como eu, e um professor, que, no modo como Temer vê as coisas, precisaria trabalhar ao menos 49 anos para ter aposentadoria integral. A expectativa de vida no semiárido do Nordeste, por exemplo, não chega a 62 anos. Um carvoeiro do interior do Pará também não. É preciso evoluir para um padrão que conheça o País. Há de se estabelecer uma idade mínima, mas não pode ser por um modo autoritário e elitista, ditado pelos setores privilegiados da sociedade.

IM – Há economistas que, assim como o senhor tem feito nessa discussão da reforma da Previdência, questionam os atuais termos do debate. Qual deveria ser a agenda econômica atual na sua avaliação, levando-se em consideração a força do governo e do mercado em conduzir as discussões?

CG – O setor financeiro está produzindo uma crise para si próprio, com a proporção dívida/PIB indo de 75% para 90% no ano que começou. É tão estúpido o modelo feito com [Henrique] Meirelles que agora estão produzindo o próximo ciclo de crise. É uma crise do setor bancário, cujas sementes estão dadas. Já são a maior inadimplência e o maior volume de reserva de crédito para recuperação duvidosa da história, e eles estão querendo compensar os prejuízos com a taxa de juros real, que simplesmente está fazendo despencar a receita pública. Nos estados, já é caricata a situação de Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e mais 14 estados por conta desse receituário absolutamente estúpido do ponto de vista técnico.

Temos que inverter essa ideia boba de ganhos de confiança, que vai se deteriorar todo dia muito mais. Confiança depende de números práticos, e o mais relevante deles é proporção dívida/PIB para o setor financeiro, mas para o setor produtivo é emprego, renda. Tudo isso está se deteriorando. O que tem que ser feito é o oposto do que essa gente está fazendo. Em todo momento de depressão econômica, até os mais conservadores sabem, é preciso que o governo aja de forma anticíclica para liberar uma dinâmica de retomada de desenvolvimento. E não é com farra fiscal, porque quem está produzindo desequilíbrio é a queda substantiva da receita. Basta ver que as despesas que estão aumentando são todas de iniciativa do senhor Michel Temer. A saber: reajuste das maiores corporações, a forma descuidada com que negociou a dívida dos estados e municípios.

Enquanto isso, há uma porção de iniciativas semiprontas que eles estão descontinuando. Desencomendaram 17 navios da recém-retomada indústria naval brasileira e desempregaram 50 mil pessoas; descontinuaram as obras da Transnordestina, que tinha 7 mil homens trabalhando; descontinuaram as obras do Rio São Francisco, enquanto o Nordeste brasileiro amarga seu quinto ano de seca. Tem áreas importantes colapsando o abastecimento de água humano. Essa é a realidade do governo.

IM – Qual seria a taxa de juros ideal para a retomada do crescimento, na sua avaliação como crítico à atual política monetária?

CG – Todos os grandes mercados do mundo estão com juros negativos neste momento. Qual é a razão de o Brasil ter os maiores juros reais do planeta? Teoricamente, defende-se juro alto para desconjurar inflação, que é o princípio mobilizante desses enganadores há duas ou três décadas no Brasil. Qual é a inflação de demanda que temos no país? Qual setor de produção brasileiro está com hiato de produto (demanda maior que oferta)? Estamos com a maior capacidade instalada ociosa da história moderna do Brasil.

Quando a taxa de juros foi estabelecida pela Dilma em 14,25%, a inflação estimada era de 11,5%. Portanto, se aceitássemos para argumentar — o que é uma aberração, porque a inflação que se apresentou derivou-se de preços administrados pelo governo e das consequências da desvalorização do câmbio, ambos fenômenos sobre os quais os juros não têm efeito — que 14,25% é uma taxa correta para enfrentar inflação anualizada a futuro de 11,5%, hoje a inflação projetada para 12 meses está inferior a 5%. Qual é a explicação para o atual patamar a não ser a boçalidade com que o Banco Central serve o setor financeiro?

IM – Mas seria possível reduzir essa taxa tão rapidamente?

CG – Evidentemente que está interditada a ideia, mas nada justifica que o Brasil não traga a taxa de juros tão rapidamente o quanto possível, para não quebrar expectativas e nem causar prejuízos mais graves a ninguém, e de forma profunda.

IM – O senhor mesmo tem o diagnóstico de que haveria um confronto entre as coalizões, sobretudo no mercado financeiro, no caso de uma queda abrupta na taxa. Como sair disso?

CG – Não estou falando em ser abrupto. Mas acho que o Banco Central tem que acabar com a história de reunir o Copom a 45 dias. Tem que se reunir, reduzir em um ponto [percentual a Selic] agora e anunciar um viés de baixa, que o mercado inteiro entenda. Os bancos mais sóbrios sabem que tenho razão. O Bradesco, por exemplo, sabe que a taxa de juros está causando prejuízo aos bancos. Em São Paulo, ninguém está pagando ninguém. Hoje, o Brasil está proibido de crescer também, porque o passivo das 300 maiores empresas estrangulou. No último trimestre, nenhuma das grandes empresas de capital aberto do Brasil gerou caixa para pagar o trimestre de dívida.

Os bancos privados estão todos saindo da praça e os créditos de recuperação duvidosa estão todos de novo se concentrando no Banco do Brasil e na Caixa Econômica. Enquanto isso, ninguém abre a boca. Só no calote da Oi, foram R$ 65 bilhões espetados no Banco do Brasil e na Caixa Econômica — ouça-se: nas costas do povo brasileiro.

IM – Alguns especialistas chamam atenção para a situação de endividamento das empresas e seus efeitos sobre o sistema financeiro. Existe a percepção de um processo de deslavancagem em curso, que pode culminar em transferências de controle de companhias brasileiras a grupos estrangeiros. Qual é o seu entendimento sobre esse processo?

CG – É o passivo externo líquido explodindo. O desequilíbrio das contas externas brasileiras é outro fator que nos proíbe de crescer. Então, tem-se a depressão imposta, com o governo fazendo um processo restritivo, cíclico, as empresas com passivo estrangulado e o passivo externo líquido do país explodindo, inclusive com o governo fazendo desinvestimentos na Petrobras. É um crime, e o jornalismo brasileiro é cúmplice, por regra.

IM – O senhor se diz contrário às privatizações, ao passo que existem aqueles que veem nessa iniciativa a melhor saída, tendo em vista os recentes escândalos de corrupção revelados por operações como a Lava Jato…

CG – A Odebrecht é estatal?

IM – Não.

CG – Então está aí minha resposta.

IM – O senhor é um dos poucos candidatos que se define ideologicamente de esquerda e se dedica a um debate macroeconômico…

CG – O que eu advogo é uma grande aliança de centro-esquerda, que produza um projeto explícito, fora dos adjetivos desmoralizados gravemente pelo próprio PT, que malversou o conceito ‘esquerda’ e virou uma agremiação que cooptou setores organizados da sociedade para praticar uma agenda mista de alguma atenção ao consumismo popular, mas de absoluto conservadorismo nas estratégias de desenvolvimento do país. O que advogo é a coisa prática, que dê condição de novo da sociedade brasileira voltar a produzir e trabalhar.

IM – Quais são os riscos de sua candidatura não acabar vista como representante do eleitorado progressista e tampouco conquistar alguma adesão em um debate de maior controle da direita?

CG – No Brasil, infelizmente estamos olhando de forma rasa sobre problemas complexos. Não vou mudar minha posição, continuarei tentando pedagógica e pacientemente conscientizar o brasileiro sobre essas necessidades estratégicas do país.

IM – As esquerdas no mundo estão tendo um diagnóstico errado sobre o que representa a eleição de Donald Trump (e outros fenômenos globais), ao atribuí-la exclusivamente a um discurso reacionário e xenófobo? O pré-candidato Bernie Sanders, por exemplo, teve chances consideráveis de vencer o pleito e não poderia oferecer leitura mais antagônica.

CG – Acho que esse é um olhar superficial. Evidentemente, estamos com um debate em efervescência no mundo, com o colapso da Europa, a saída do Reino Unido [da União Europeia], vis-à-vis a tensão que a China está produzindo nas novas relações mundiais. Não sei o que Trump vai afirmar, mas ele foi eleito pela negação da perversão neoliberal e do rentismo prevalecendo sobre a produção. É o trabalhador branco, desempregado, do setor industrial americano a substância da base da eleição. Bernie Sanders sistematizou um pouco mais claramente esses valores, mas de forma dialeticamente difícil de ser engolida pelo grande sistema americano.

Mas o debate está fervendo na Europa, e todo mundo percebendo que a solução para o problema é recuperar os mecanismos de coordenação estratégica do governo e por interação com a iniciativa privada. Não é estatismo ao modo velho, muito menos esse liberalismo estúpido que produziu a maior agonia do capitalismo mundial com a crise de 2008, cujos escombros estamos vivendo ainda hoje.

IM – Muitos nomes favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, pensando em uma retomada da economia, começaram a se ajustar a projeções mais negativas. O país ainda pode evoluir em 2017?

CG – Não vamos evoluir. É claro que você vai assistir o Banco Central correndo um pouco mais rapidamente na direção correta, mas ainda muito mais lentamente do que o necessário, de forma insuficiente para reverter expectativa. O ano de 2017 também já está comprometido.

Em uma palestra em um think tank em Washington, logo na iminência do impeachment, com todos muito animados, eu disse: “vocês estão completamente equivocados em querer colher maracujá em pé de laranja. Dessa coalizão de corruptos, incompetentes e entreguistas, não sai nada senão corrupção, incompetência e entreguismo”.

IM – O ajuste fiscal não seria uma saída?

CG – A única forma de o Brasil sair da profunda crise fiscal em que se encontra é aumentar a receita. Nessas circunstâncias, há duas condições — o que não quer dizer que não se tenha que impor a eficiência da despesa. Uma delas é, de forma segregada, imediatamente aumentar alguns tributos, como Cide e CPMF. Mas estrategicamente só há um jeito de fazer a receita voltar a crescer: o país assumir a decisão de crescer.

Para isso, é preciso fazer grandes movimentos de conjuntura, como consolidar o passivo do setor privado, descendo a taxa de juros aceleradamente. Mas também proponho que se possibilite a consolidação de passivo com US$ 50 a 70 bilhões extraídos das reservas e alocados em um fundo soberano, que pode ser feito nos BRICS ou em um fundo soberano que o Brasil crie. Seria trocada dívida interna no juro brasileiro por uma dívida externa, com câmbio razoavelmente estabilizado, correndo a taxa de juros negativa no exterior. Você pagaria o hedge e ainda compensaria dramaticamente, também sendo um grande coadjuvante para a retomada do investimento privado e da queda da taxa de juros pela consolidação dos passivos de grandes empresas brasileiras, que tinham plano de investimento quando esses estúpidos começaram a destruir a economia.

IM – Nesse cenário de dificuldades na economia, o senhor vê Michel Temer encerrando o mandato em 2018?

CG – Não consigo ver. A elite brasileira sabe que não dá para esperar tanto tempo e vai cavar o buraco para ele também.

IM – Levando-se em consideração sua experiência parlamentar e como ministro e governador, qual é a avaliação que tem da atual situação de governabilidade de Temer? Um forte apoio congressual, mesmo em meio às fraturas na base, e a contradição com o elevado nível de reprovação popular.

CG – Ele não tem forte apoio no Congresso. A elite brasileira, a plutocracia, o baronato que manda no país e que baseou o impeachment é quem controla, de fora para dentro, esses congressistas. Eles deram a Michel Temer, que é uma pinguela ou um trambolho, tarefas para serem cumpridas. Para elas, há apoio no Congresso. Mas basta rivalizar com qualquer outro tipo de assunto [que se observa a fragilidade do governo]. Por exemplo: a reforma trabalhista não vai acontecer. Pergunte a opinião de Paulinho da Força (SD-SP), que estava junto com ele no impeachment, sobre esse assunto. Outro exemplo é a negociação dos governadores sobre a dívida. Pergunte ao filho do César Maia [Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados] a qual senhor ele serviu quando agiu lá. Então, vivemos de ilusões. Também é tarefa minha pedir ao jornalismo brasileiro que saia desse pacto de estupidez.

IM – O senhor compartilha do entendimento de que houve um golpe contra Dilma Rousseff e que ele não se restringe ao nível doméstico. Qual é o seu desenho da geopolítica do processo?

CG – Basicamente, o impeachment foi provocado ancestralmente pela descontinuação do governo Dilma, em função da distância entre a marketagem de campanha e a prática no início do segundo governo. Isso criou um ambiente que desconstruiu muito precocemente seu laço com o povo brasileiro. Ela fez uma opção de, ao não politizar os problemas estratégicos na campanha, enganar o povo e achar que teria tempo para corrigir. Essa é a causa remota.

A causa que se organizou – fissura, inclusive, pronta nessa contradição de Michel Temer — tem três interesses bastante práticos:

1) Gerar excedentes fiscais, em ambiente de agonia fiscal, a qualquer preço para proteger a inflexão da proporção dívida/PIB, para o rentismo. Essa é a primeira grande razão e a tarefa de Temer, que tem que cumpri-la e não o está fazendo. O déficit primário vai se aproximar de R$ 200 bilhões, enquanto o nominal, R$ 450 bilhões.

2) O alinhamento internacional do Brasil completamente desmontado. [Apesar de] Contraditória e despolitizada, a presença do país em uma ordem internacional difusamente multipolar teve aproximações sensíveis com Rússia em uma hora de Crimeia, com a China, em uma hora em que a estratégia americana era o Tratado do Transpacífico (que Trump prometeu revogar). Em um momento estratégico como esse, os primeiros centrais princípios da política do império são não permitir uma ordem multipolar que não se renda ao monopólio do poder que ganhou na bala, na Segunda Guerra Mundial, e se sustenta na base do termo de troca (dólar) e na sofisticação tecnológica.

3) A entrega do petróleo. Observe a pressa com que [José] Serra apresentou um projeto para eliminar as restrições de acesso da Petrobras a reservas [do pré-sal], de eliminar o conteúdo nacional e a pressa como estão vendendo subfaturados vários dos investimentos da companhia. Na cara da imprensa brasileira, venderam o campo de Carcará por US% 1,35 o barril de petróleo para uma estatal norueguesa e agora venderam, por US$ 2 bilhões coisa que custou recentemente US$ 9 bilhões, para a empresa francesa Total. Tudo com muita pressa.

As três grandes demandas Temer está tentando entregar. Não vai conseguir a mais grave, e, por isso, vai cair.

IM – Se o senhor se candidatar à Presidência em 2018, como pretende governar com um Congresso tão conservador, fragmentado e empoderado como o atual?

CG – Digo de novo: vou pensar mil vezes em me candidatar. Meu partido vai definir e cumprirei minha obrigação. Mas, se for, irei para fazer história.

O presidencialismo tem mil desvantagens e a mais grave delas é essa lógica de impasses, em que o presidente tem as responsabilidades pela saúde dos negócios de Estado e um Congresso, que não tem, no sentido jurídico do tema, responsabilidade nenhuma, pode diminuir ou aumentar despesas, sem pagar qualquer consequência, enquanto, no Parlamentarismo, isso não acontece.

Mas o presidencialismo também tem sua vantagem, que é a capacidade que o presidente da República tem tido, na tradição brasileira, de se escorar na opinião pública e fazer a construção de uma maioria de forma qualitativa. Fui ministro da Fazenda no governo Itamar Franco. Ele não tinha partido, não tinha maioria orgânica — o que não é meu caso, que tenho experiência política e tenho um partido, onde as alianças políticas são perfeitamente praticáveis –, mas, ainda assim, conseguiu governar com força política imensa e, cada vez que precisou, apostou no povo, na mobilização da opinião pública, para que os grupos de pressão clandestinos não o esmagassem.

IM – Um entendimento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e uma lei recentemente aprovada pelo Congresso, à revelia do que determina a Constituição Federal, apontam para chances de eleições diretas em caso de queda do governo Michel Temer. O senhor se vê apto a se candidatar se o processo eleitoral se iniciasse amanhã?

CG – Meu partido que vai resolver isso e cumprirei minha responsabilidade. Mas, se for, farei o que deve ser feito pelo País, para voltar para casa com a consciência tranquila. Tenho muita esperança e confiança de que é possível resolver o problema do país, não que seja simples ou fácil, mas é perfeitamente praticável fazer o Brasil retomar seu destino, que não é essa mediocridade corrupta que tomou conta.

Mas estou muito incomodado com esse estado de anarquia que as coisas têm acontecido. A Constituição diz que, se o presidente da República for cassado, o vice assume. Se o vice, por alguma razão, sair antes de dois anos de mandato, há eleições diretas. E, se ele sair depois de dois anos, a eleição é feita indireta pelo Congresso. Eu tenho nojo e pavor da ideia de que isso vá acontecer. Mais nojo e pavor tenho da ideia de se ficar manipulando a Constituição, desses juízes que fazem discursos políticos, porque isso é um estado de baderna e é muito pior do que qualquer outra coisa.

IM – A Operação Lava Jato é um tabu para a esquerda. Enquanto parte apoia, outra foge do debate, e uma terceira parcela critica abusos cometidos e os efeitos gerados para a economia do país e as empresas. Como promover um combate à corrupção sem provocar grandes fissuras na economia? O que o senhor proporia de diferente?

CG: Temos que olhar as coisas complexas com olhares complexos. A Lava Jato é uma coisa essencialmente importante para o Brasil, porque parece dar fim ao histórico de impunidades do baronato da política e do mundo empresarial. Por isso, ela merece todo o apoio e estímulo.

Isto dito, temos também alguns problemas, como o excesso de aplausos e exibicionismos de juízes e procuradores. Isso não é bom, mesmo para a Lava Jato, porque à medida que você extrapola, o risco de suspeições está dado. Várias sentenças que alçaram a segunda instância da Justiça foram anuladas, é só se lembrar da Operação Satiagraha. É isso que está fadado a acontecer se não forçarmos a mão com essa garotada de Curitiba. Eles têm que se lembrar que Justiça é severidade, modéstia e não ficar se exibindo.

Outra coisa gravíssima é que quem comete crime é a pessoa física. No ordenamento jurídico brasileiro, pessoa jurídica não comete crime. Então, as punições têm que ser severas, mas destinadas exclusivamente à pessoa física, que praticou o ato ilícito. O mundo inteiro salva a cara das empresas. A Construção Civil é um dos raros setores em que temos algum protagonismo global, mas eles estão destruindo as empresas. Isso, no entanto, não é culpa dos juízes, mas dos políticos, que não têm coragem de fazer acordo de leniência e não deixam que os juízes cumpram suas tarefas de dar a pena que for necessária para as pessoas. Mas salvar as empresas para que elas atuem é um imperativo de ordem pública no Brasil.


por Celsão correto

figura retirada de outro post nosso (aqui). A entrevista também pode ser lida aqui e aqui.

Começo o post compartilhando um pensamento do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Ainda vivo, o filósofo construiu com Karl Otto-Appel a ética do discurso.

Uma discussão deve tender ao infinito. Todos os argumentos de ambos os lados devem ser esgotados, debatidos até o fim. E, em algum momento no infinito, alguém terá que rever “mais” seus posicionamentos que o outro, pois normalmente não existem duas verdades absolutas num mesmo assunto. E, aquele que está mais próximo da verdade, irá mostrar racionalmente isso para o outro.
Porém, para que isso ocorra, ambos os debatedores devem, obrigatoriamente, ser o tempo todo 100% honestos, e não guardar “cartas na manga”, não omitir nada, não se encobrir de hipocrisia. Caso um dos dois faça isso em qualquer momento, o debate está automaticamente viciado e jamais terá solução.

O trecho é do Miguel, colega de blog, interpretando a ética do discurso que pode ser encontrado aqui e parcialmente na página da Wikipedia do Habermas – aqui.
E me levou a pensar sobre radicalismo.

Seriam os radicais aqueles que defendem os seus argumentos honestamente e analisam os mesmos de “coração aberto” ao se depararem com impasses numa discussão?
Ou os radicais são os que defendem-nos de forma hipócrita e enviesada sua posição?

Minha opinião pirata é que no Brasil estamos muito mais próximos do segundo exemplo. E, não somente, pela falta de cultura geral, que impede análises pautadas em argumentos; mas também por aqueles que detém o poder, a tal “força invisível” que se beneficia da pobreza intelectual da população.

Mas as vezes ser radical, faz falta. Nota-se que a Sociedade, a Mídia e a Política, no sentido maiúsculo e macro, ganhariam com alguns radicais.

622_b14ba104-20b0-3d74-a76c-b3fda8e4cc02Meu exemplo (ou mau exemplo) é o técnico Tite, recém escolhido como técnico da seleção brasileira de futebol.
Em forma de protesto contra a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ditatorial e corrupta, assinou em conjunto com outros treinadores, atletas, ex-atletas, jornalistas e entidades como o Bom Senso FC um protesto contra a CBF e a FIFA.
Tal assinatura ocorreu em Dezembro do ano passado, pouco depois do escândalo internacional que envolveu inúmeros dirigentes das entidades que controlam o futebol no Mundo. (o documento pode ser lido aqui na íntegra)
O documento cita que “a sucessão é determinada por um estatuto viciado, (…) arquitetado e aperfeiçoado para a manutenção do poder nas mãos da mesma linhagem” e também “A crise de corrupção é (…) um profundo problema estrutural, que travou o desenvolvimento do futebol brasileiro

Como uma pessoa dessa, que se diz ética e assina de livre e espontânea vontade um manifesto contra CBF, FIFA, a corrupção dentro desses órgãos e contra seus mandatários, permanece por horas em reunião com esses mesmos “cartolas” e aceita os termos destes, quaisquer que sejam? Aceita o trabalho que os corruptos lhe propõem?
Como eu gostaria que houvesse uma exigência por parte de Tite para que Marco Polo del Nero deixasse a presidência da CBF. E, seguindo o modelo radical, como seria gratificante se o mesmo Tite apresentasse esse argumento para a imprensa caso o presidente da CBF não quisesse renunciar.
Será que a pressão popular não se multiplicaria ao ponto de recriar uma nova Confederação?

Creio que como o futebol é paixão, e é acompanhado por muitos brasileiros, a “onda positiva” (e radical) teria mais efeito que os poucos deputados e senadores radicais que compõe o legislativo atual.

Entrando na política, como seria bom se tivéssemos radicais que se propusessem a governar sem negociar apoio e cargos…
Como seria enriquecedor se a discussão proposta por Habermas fosse adotada nas casas do legislativo. Se os políticos votassem no que acreditam e não seguindo ordens e pautas de seus partidos e, lamentavelmente, de suas bancadas…

Sou a favor da reforma política, principalmente a favor da mudança do voto distrital e da diminuição do número de partidos (que seja via cláusula de barreira) e integralmente contra o financiamento privado a eleições e partidos políticos.
Esses assuntos já foram tratados aqui e aqui, entre outros posts.

E sou a favor do radicalismo, da discussão sem hipocrisia e sem defesas prévias, sem verdades pré-consebidas ou pré-conhecidas. E a favor da busca incessante por “heróis éticos”, brasileiros preferencialmente.
Afinal, como melhorar a Sociedade sem isso? Sem que a corrupção torne-se vil a todos os olhos.

por Celsão correto

figura retirada daqui

Post_MAMAssisti, ou melhor, fui brindado com a presença do Ministro Marco Aurélio Mello no programa Roda Viva.
E já quero começar dizendo que ele é contra a denominação “Ministro” para os ocupantes da cadeira mais importante do Judiciário Brasileiro. Se fosse escolha própria, ele se intitularia (simplesmente) juiz.
Gosto de posturas que simplificam as coisas, principalmente vindo da classe dos que se dizem “doutores”, sem possuir o tal título acadêmico ou exercerem a medicina

Calmo, conciso e com um português invejável, Marco Aurélio não se intimidou com a “pressão” dos entrevistadores e dos ataques a Dilma, Eduardo Cunha e ao próprio Judiciário. É até engraçado como se pode perceber ligeiros sorrisos quando as perguntas são ataques claros. A bancada, formada integralmente pela corrente oposicionista da imprensa, segue exagerando no tempo das perguntas (talvez o principal motivo de muitos terem desistido do programa), expondo a própria opinião e “conduzindo” ou “induzindo” o entrevistado a concordar com as afirmações feitas. O juiz respondeu à todas as perguntas com objetividade e imparcialidade. Algo que me assombrou, já que esperava um posicionamento dele após as recentes declarações, que tratarei mais adiante.

Quando questionado sobre a provável parcialidade do Supremo, visto que atualmente a grande maioria dos ocupantes da casa foram nomeados no governo do PT, o Ministro foi direto: “não é com a capa que se agradece”. A nomeação deve ser agradecida antes da posse, pois após ela, a envergadura da posição deve ser respeitada, deve-se trabalhar com desassombro (adorei o termo) e buscar seguir o que ele chamou de “Lei Maior do Brasil”, se referindo à Constituição.
Eu achei louvável a defesa da instituição STF em meio a afrontas gratuitas dos que querem desmoralizar todo o aparato, do Executivo à Polícia Federal. E, como também sou romântico, me emocionei com a ingenuidade e romantismo de Marco Aurélio nas afirmações de apartidarismo dele e dos colegas.

Exemplos de imparcialidade foram citados nesse momento: como a recente derrota de Dilma pelo TCU em relação às contas de 2014 (aqui pra quem não leu sobre o caso) e também a derrota de Cunha (ou da oposição) com liminares de Rosa Weber e Teori Zavascki, que suspenderam o rito de impeachment da presidente  (aqui e aqui – colando notícias de lados políticos opostos).
Com clareza e argumentos, Marco Aurélio deixou claro que muitas vezes o STF tem de julgar e decidir contramajoritariamente. Sempre que a convicção dos juízes estiver consonante com a opinião pública ou corrente política, ótimo, haverão aplausos; caso a decisão dos juízes seja diferente dos anseios e das pressões populares, a imagem do Judiciário e sua imparcialidade serão questionados.
Novamente, meu lado utópico foi agraciado com a (suposta) independência do Poder Judiciário.

Afinal, se tomarmos pela função, cada juiz do Supremo é consciente do poder que tem e o faz independente de inclinações político-partidárias. Durante o programa, polida e politicamente, o Ministro não acusou nenhum colega. Não julgou Gilmar Mendes por fazer vista a um processo por um ano e meio (quando o prazo esperado é de duas semanas), nem o colega Lewandowski que supostamente encontrou políticos secretamente.
Parêntese para assumir que o lado utópico ficou triste ao constatar que o processo que o Ministro Gilmar Mendes “bloqueou” por 17 meses diz respeito ao financiamento privado a campanhas e partidos politicos (aqui e aqui). Mas entendo o porquê da defesa aos colegas que seguem a lei ipsis litteris: não jogar o próprio trabalho aos leões.
Infelizmente, o processo de vista a ações tem o prazo indicativo de duas semanas, mas não há sanção ou punição. Ou seja, Gilmar Mendes não infringiu lei alguma; mesmo que se possa afirmar que a usou em seu favor.

Voltando ao início do programa e às declarações recentes do Ministro que citei anteriormente, o magistrado recomendou em entrevista uma renúncia tripla: presidente Dilma, vice Michel Temer e presidente da Câmara Eduardo Cunha. Como consequência teríamos o senador Renan Calheiros no posto de presidente interino por 90 dias, enquanto se convocam, ou se deveriam convocar, novas eleições (notícia aqui).
Particularmente sou contra, mas aceito a opinião dele quando expõe que as renúncias seriam melhores que processos de impeachment e que seriam uma “solução menos traumática” para sair da crise política. Aceito também a afirmação de “utópica” para a ação dos políticos citados. É notável que os poderes Executivo e Legislativo estão digladiando e “se atrapalhando” quanto a aprovação de medidas contra-crise (quaisquer que sejam elas).
Para o Ministro, se Dilma, Temer e Cunha fossem Estadistas, e pensassem na Nação, certamente renunciariam.

Marco Aurélio também comentou sobre a Lava Jato. E para a minha tristeza, afirmou categoricamente ser contra o excessivo número de prisões preventivas e de delações premiadas.
Ele acredita que as prisões só devessem ocorrer após o processo judicial “normal”, ou seja, após acusação, recolhimento de provas e julgamento justo. Criticou assim a atuação de Sérgio Moro e a não observãncia das prerrogativas para se prender previamente; ressaltando o perigo à imagem da Justiça, por exemplo, caso os réus sejam liberados antes do término das investigações.
Aqui afirmo que vibrei com as prisões, mas que ouvindo o discurso dele, percebi que podem representar “tiros n’água” caso os bons advogados de defesa encontrem meios de impugnar ou desqualificar os feitos do juiz Moro.

O Ministro ainda reconhece que os processos do Judiciário são morosos e possuem (exagerados) três níveis de apelação possíveis. Disse que recebe semanalmente de 100 a 150 novos casos, incluindo Habeas Corpus que são escalados até o STF; e comparou esse número ao de processos julgados pela Suprema Corte americana: 90 no total, com nove juízes na corte.
Só que, encima de tudo isso, declarou claramente que só uma mudança na Constituição pode alterar a situação atual. É contra os processos de “tapetão”, onde se inicia o cumprimento de pena previamente, falou de embargos infringentes, que foram aquela parte “chata” da lei aplicada no Mensalão (corretamente, queiramos nós ou não)… Enfim, deu uma aula! De postura no cumprimento da lei e de perseverança nessa tarefa.

Alias, por entrar no assunto Mensalão, abro outro parêntese para fazer um mea culpa.
Eu torcia na época por uma condenação dos envolvidos, esperando um novo horizonte para o país. Acreditava que “cortando na carne” do Governo, teríamos um exemplo irrefutável para novas condenações e para o novo rumo de “justiça para todos”, de “julgar as pessoas e não os cargos”.
Mesmo tendo minha inclinação de esquerda, exigia punições exemplares querendo ver políticos na cadeia.
Não foi o que vi. Não houve Mensalão tucano, manobras continuam acontecendo aos montes (o que dizer do sigilo imposto pelo Governador de São Paulo aos contratos do metrô? – aqui) e nada (ainda) mudou!
Sequer temos a lei da Ficha Limpa plenamente empregada!

Enfim, para finalizar com uma frase do próprio Marco Aurélio após receber um elogio: “suas palavras são um estímulo para o proceder e o bem proceder”; essa entrevista foi um belo estímulo para não julgar previamente, aceitar que as mudanças têm processos e procedimentos, e para repensar alguns pré-conceitos sobre os meandros dos três poderes.

por Celsão correto

P.S.: figura retirada do vídeo do youtube – link aqui pra quem quiser assistir

coerencia-e-coesaoO texto a seguir foi escrito pelo amigo e leitor Ênio Mendes, perfil de Facebook AQUI.

Projeto para se tornar coerente:

1- Em qualquer assunto científico, aceitar sem falsa rebeldia a obviedade do fato à partir de comprovação segura e credibilizada, tornando-a impreterivelmente verossímil.

2- Diante dos fatos, aceitar “o não saber” sem invejar, sem sentir-se menosprezado por “quem sabe”… Quem sabe “sofreu” a dor do descobrimento e desfruta merecidamente a estabilidade da verdade possível. Quem não sabe “sofre” a constante dor da negação deste “sofrer libertador”, o que é muito pior.

3- Mesmo que os fatos esfreguem na cara alguma “porção-sombra de si”, que antes não se imaginava existir, não permitir que o choque faça manter-se endurecido, pelo susto do vazio de saber que “não se alcança!” Aceitar que apesar dos fatos ainda “não se alcança” evita manipulações doentias do ego. Iluminar a sombra.

4- Ter coragem de não estar em cima do muro. Quem não tem lado não se responsabiliza pelo fracasso, mas não toma parte também do acerto que glorifica! Imparcialidade e neutralidade é na maioria das vezes sinônimo de covardia e fraqueza!

5- Quando alguém argumentar algo baseando-se em religião, lembrar que Jesus repugnava qualquer tipo de neutralidade, se posicionando sempre, colocando-se sempre de um lado. Isto custou historicamente sua morte, mas deu-o o sentido da vida!

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Aproveitando o excelente texto do amigo Ênio Mendes, creio que valha a pena adicionar algumas palavras sobre o método e postura deste blog.

Desde o início deste projeto, nosso intuito primitivo e essencial é o de difundir conhecimento/informação, e às vezes expor nossa opinião, que nem de longe é a mais “enquadrada” em padrões.

Esta “opinião” porém, surge geralmente à partir de estudos, busca de dados, leituras de fontes selecionadas rigorosamente, lógica, racionalidade, senso crítico e humildade para revisão e reflexão, visando sempre dar preferência a informações que tenham sido geradas usando métodos científicos de pesquisa, aumentando assim a confiabilidade das mesmas.
Outros desdobramentos que advém do intuito inicial e também são importantes passam pelo crescimento próprio com as leituras e textos e a geração de uma “entropia positiva do pensar”, baseada no compartilhamento desses textos.

Claro que, vez ou outra, nós dois sócios deste blog discordamos um do outro em nuances. No entanto, temos um lado político bem definido, onde nosso lado direito é canhoto.

Porém, mesmo tendo como princípio a coerência, ética, embasamento e honestidade intelectual durante a formulação de nossos escritos, sabemos que não teremos sempre o mesmo comportamento de todos nossos caros leitores. Mesmo assim,  não pretendemos fazer moderação ideológica nos comentários, abrindo espaço para discussões e opiniões diferentes, e sempre carregando a esperança de que apareçam comentários ricos e/ou críticas construtivas embasadas cientificamente, gerando engrandecimento através da troca de ideias.

Pra quem não conhece ou não lembra mais, segue link para a “ideia do blog

por Celsão correto e Miguelito Formador.

figura retirada daqui

opiniãoUm dos princípios dos estudos que tangem a economia é a chamada Lei da Oferta e da Procura, ou Oferta x Demanda. Esse princípio nos diz que, se há oferta demasiada de um produto X no mercado, o preço deste produto tende a cair. Inversamente proporcional, se há procura demasiada, o preço de X tende a subir.
Dando um exemplo prático: se a maioria dos agricultores de uma cidade começam a plantar milho verde, em um certo momento, não haverá consumidores suficientes para todo o milho produzido e assim este produto começa a “sobrar”. Tentando “eliminar” o excedente, os agricultores começam a reduzir seus preços, visando estimular a venda. Assim, a oferta muito alta, causou a redução do preço.

Pois bem, hoje, felizmente, vivemos em “relativas democracias” na maior parte do planeta, o que garante, à boa parte dos cidadãos, liberdade de expressão. Além disso, a globalização somada ao boom da internet com seus blogs e redes sociais, deu ao indivíduo ainda maiores possibilidades de expressar-se. Temos blogs, vlogs, revistas informais e formais online, youtube, e-mail, redes sociais e muito mais, onde várias milhões de pessoas se expressam diariamente.

Assim configuramos um cenário onde muitas pessoas se expressam simultaneamente, emitindo suas mais diversas opiniões para todos os cantos, gerando uma oferta muito grande deste “produto”. Intelectuais, alienados, tolos, ignorantes, humildes, manipulados, esclarecidos, direitistas, esquerdistas, reacionários, progressistas, conservadores, liberais, todos emitindo informações, uma parte delas metodológicas e científicas, e a maioria que não passam de meras opiniões.

Essa é a “Era das opiniões“. Segundo o filósofo grego Parmênides (530 a.C. – 460a.C.) a opinião (dóxa), é aquilo onde não há nenhuma certeza, mas sim só dúvidas. Assim, as análises baseadas em opiniões são bem distintas das ideias baseadas na observação metódica dos fatos.

A maior parte da sociedade, em muitas circunstâncias, não é capaz de identificar o que é ciência e estudos metódicos, e acabam os colocando na mesma caixinha das “opiniões”. Como na Lei da Oferta e Procura, o produto “opinião”, por ser muito ofertado, acaba perdendo seu valor. Assim, informações de qualidade, números oficiais, estatísticas sérias, estudos acadêmicos, comentários de jornalistas embasados e éticos, são dispersados no meio de um montante de baboseiras, e perdem seu valor. Intelectuais, sábios, cientistas, especialistas e esclarecidos, acabam sendo ignorados pela “massa” de consumo (demanda/procura).

Opiniao_Rachel_SheherazadeIsso é obviamente colaborado pelo fato de termos na maior parte do mundo sistemas educacionais precários, que pouco ou nada estimulam o indivíduo a questionar com senso crítico e objetividade a informação que lhe é oferecida. Assim, ao se deparar com tanta oferta de conteúdo, este indivíduo se perde, não sabendo mais separar o que é bom do que é ruim.
Aliás, falando de “bom e ruim”, penso ser interessante lembrar de uma passagem do documentário Why Beauty Matters do filósofo Roger Scruton:
Em nossa cultura democrática, as pessoas frequentemente pensam ser desrespeitoso julgar o gosto ou a opinião de outros. Alguns se sentem até ofendidos com a sugestão de que existe “gosto bom” e “gosto ruim”… (Leia nosso artigo baseado neste documentário clicando AQUI)

Pois bem, eu concordo com Scruton, há sim muitas questões na vida onde é possível distinguir o ruim, do bom. Assim como há verdades e mentiras, certo e errado, feio e bonito.
É claro que nem sempre existe certo e errado, ou feio e bonito, e há muitas questões que são subjetivas, ou até mesmo tão complexas que é possível haver diversos caminhos plausíveis. Mas temos que analisar cada situação, cada tema, individualmente, para sabermos onde é possível definir verdades e certezas, e onde não é.
Usar o argumento clichê de que “não existem verdades, tudo na vida é relativo”, é um sinal de pobreza intelectual e argumentativa, onde busca-se generalizar tudo, negando a ciência e valores ético-morais. Isso é ruim para o debate, atrasando o avanço intelectual das sociedades. Com essas generalizações vem a negação à ciência. (AQUI uma sugestão de um excelente artigo sobre opiniões e sobre valores de ética-social)

Nesta mesma linha, sabendo-se da desvalorização que as opiniões sofreram nos dias de hoje, estando inclusas aqui informações de cunho metodológico e com propriedade; e sabendo-se que existe um senso comum que afirma não existir “certo ou errado”, chegamos a uma máxima dos tempos modernos: “Respeite minha opinião, pois não existe opinião certa ou errada”. Ou, “todo mundo tem direito de emitir opinião”.
Quem nunca ouviu alguma dessas frases numa discussão no facebook, ou num debate caloroso na mesa do boteco, ou nos comentários de leitores de revistas, ou nos comentários abaixo de algum vídeo no youtube? Aposto que todos, e diversas vezes.
TeletubbiesConheça o método Teletubbies de emitir opinião, clicando AQUI

A questão aqui não é ter o direito ou não de emitir opinião. Todos temos o direito de emitir opinião sim, por mais preconceituosa, alienada, manipulada, desinformada que ela seja.
“Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo“…

A questão é alertar a sociedade, desenvolver um pensamento coletivo crítico no sentido de que, liberdade vem atrelada a responsabilidades. Se a sociedade, o governo, as leis lhe dão liberdade para agir ou falar como bem entender, isso significa que você, à partir deste momento, tem que conhecer os seus limites, os limites do próximo, e ter noção de cidadania e coletividade. Senão alguém vai precisar intervir, contra você, para garantir a liberdade e os direitos dos outros. Afinal, você tem liberdade sim, mas o que acontece quando ela invade a liberdade de outra pessoa? Quem tem mais direito à liberdade?

Portanto, você pode emitir frases racistas, mas tem que ter consciência do dano que você pode estar causando a outrem ao agir assim, e tem que ter conhecimento de suas responsabilidades civis. Você pode sim inventar mentiras sobre alguma pessoa, mas tem que ter consciência que poderá ter que arcar com danos causados a ela. Isso se aplica também aos “curtir e compartilhar” de qualquer tipo de informação que lhe salta aos olhos no facebook. Ao compartilhar um boato ou mentira, difamando e denegrindo a imagem de alguém, além de ser anti-ético, ainda pode lhe gerar processo judicial. Clique AQUI para ler sobre isso.

E aí tem gente que sem nunca ter estudado ou lido nada a respeito de algum assunto, e sem ter qualquer base de conhecimento, se acha no direito de refutar estudos científicos, baseados pura e simplesmente em suas “opiniões”. Muitas vezes, numa inversão de valores, afirmam que a ciência é manipulável e por isso não deve ser acreditada. Regridem séculos na história da evolução do conhecimento humano e afirmam confiar pura e simplesmente em suas observações individuais/sensoriais (empirismo). Desmerecer ou denegrir o método científico (AQUI), baseado em pura opinião, ou mesmo que utilizando-se vagamente de métodos empíricos, é algo extremamente raso, ultrapassado e de prepotência soberba, beirando o abismo do absurdo e da insanidade.
Quem emite opiniões dessa forma, pode e deve exigir sim o direito de fazê-lo, mas pedir respeito às mesmas já é demais.

por Miguelito Formador
figura daqui e daqui