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Parto de homem

Posted: March 28, 2018 in Comportamento, Outros
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Se existe um momento mágico em nossa vã existência, um momento que aproxima o terreno do divino, algo que nem o mais profícuo dos poetas consiga relatar precisamente… esse “momento”, esse “algo” para mim é um parto.
O nascer. Essa chegada de um ser e os seus primeiros momentos. A áurea que cerca a família que o recebe é indescritível.

Compartilho um texto repleto do “sentir” de um pai.
Não parimos, ainda ou infelizmente.
Mas muitos de nós compartilhamos dos medos, anseios, dor e agruras do período. Não menor é o número dos que sofrem sem dizer palavra; capricho da natureza, característica ou formação relegada aos “sentimentos”. Coisa difícil de curar…

Que esse machismo bobo, muitas vezes pensado como inerente ou intrínseco do homem, desapareça e dê lugar a experiências como a descrita abaixo.
Nós seres humanos e o mundo certamente ganharíamos.

O texto foi publicado aqui. De onde também usei a imagem…

João Valadares não sabia nada sobre partos. Até a sua mulher, Cecília, engravidar e decidir que queria um parto em casa. Nesse relato de tirar o fôlego, João narra o que viu, o que sentiu e como foi trazer ao mundo o filho Francisco.

“Parto de homem. É sobre isso que quero falar. E é para eles que escrevo. Então vou começar do começo. Ela estava no avião, foi ao banheiro e me telefonou: ‘estou grávida‘. Não teve tempo de falar mais nada. As portas já estavam em automático. Desligou. Fui buscá-la no aeroporto e, no caminho para o laboratório mais perto, completou a frase interrompida pela aeromoça: ‘quero ter o nosso filho em casa‘. A cabeça dura-sertão do macho pernambucano, dos miolos encaretados pelo sol, desinformado e suposto senhor das ações, travou. ‘Em casa? Você é maluca?‘. Ela não falou mais nada. Nem eu. Segui calado, com aquela angústia-catapora, que faz tudo coçar por dentro.

No outro dia, comecei a pesquisar sobre nascer em casa. Em apenas um dia, li muito. Um turbilhão gigantesco de informações. No outro dia, li mais ainda. E assim seguiu. Fui a todos os encontros e consultas. Ouvi depoimentos lindos sobre o nascimento. Escutei também um relato de uma mulher decepcionada, pessimamente atendida num hospital público de Brasília porque apenas queria que o filho nascesse na hora que ele quisesse nascer. Ouvi muito mais. Com três meses de gestação, não tinha absolutamente mais nenhuma dúvida. Meu filho nasceria aqui, no seu quarto, com o cheiro da nossa casa, num ambiente afetuosamente preparado para tentar parecer o escurinho quente da morada onde viveu por nove meses. E assim aconteceu.

Mulher foi feita para parir. Homem não. Mas homem também foi feito para sentir. E o parto em casa me proporcionou isso. Eu pari junto. Eu eu Cecilia viramos um só dentro da água. É sobre isso que quero falar. Sou um homem que senti o corpo da minha mulher tremer a cada contração. Sou um homem que senti os músculos da minha mulher esticar e relaxar numa dança perfeita. Sou um homem que emprestei meu corpo para minha mulher beliscar e aliviar a dor do nascimento. Choramos muito. Ela de dor. Eu de outro tipo de dor. Parimos.

É isso. Eu não estava num baby-lounge, longe do meu filho, olhando tudo por uma televisão. Também não estava separado por um pano verde, impossibilitado de perceber o olhar do meu filho na primeira vez que viu o mundo. Eu estava ali, do lado, sentindo e vendo a natureza no seu estágio mais verdadeiro. Vendo minha mulher virar um bicho, gritando e se contorcendo para proporcionar ao nosso filho uma chegada sem nenhum tipo de intervenção. Uma chegada sem luz forte no rosto, sem mãos estranhas, sem aquela higienização terrorista de manual, sem a impessoalidade de um quarto frio com objetos que não são nossos, que não foram colocados por nós.

Desajeitado que sou, descobri que sei fazer massagem. Ah como foi bom perceber o alívio imediato quando apertava as costas de Cecília e ela mudava de som. Fiz isso por duas horas seguidas. Na verdade, posso dizer que era uma espécie de automassagem. Quando percebia que, de alguma maneira, era ator ativo do parto da minha mulher, do nosso parto, descobri que era mais do que pai. Muito mais.

Não escrevo para encorajar mulheres. Escrevo para encorajar os homens. Se puderem, passem por isso. A experiência mais incrível de toda minha vida. Francisco demorou cinco horas para nascer. Não houve nenhum tipo de intervenção. Ninguém sequer tocou em Cecília. Ele nasceu quando queria nascer. Passou dez minutos com a cabeça dentro da água. Ninguém o puxou. A natureza o empurrou quando achava que deveria empurrar. E ele saiu direto para os nossos braços. Ficamos ali por uns 20 minutos acarinhando o nosso filhote, tentando ainda entender como uma pessoa sai de dentro de outra. E foi lindo. Esperamos a placenta sair, cortamos o cordão umbilical e pronto. Cecilia se levantou, eu me levantei e fomos conversar na cama. Ficamos ali por horas, olhando o nosso filho. O melhor: na nossa casa.”

 

Tive a sorte de poder participar do parto de meus dois filhos.
Para gozar de uma licença maior, no segundo, fiz um curso de paternidade ativa ou “pai presente”. Foi lá que encontrei esse esplêndido depoimento.

Ambos os meus filhos escolheram o dia de nascer. Pude cortar os cordões após “murcharem”. Ficamos com eles o tempo todo em nosso “alojamento compartilhado” no curto período hospitalar.
Não quero criticar outras escolhas ou processos.
Apenas compartilhar… e agradecer…

por Celsão ele mesmo

figura retirada daqui

para os que desejarem fazer o curso, gratuito, o link está aqui

Esse post pretende fazer dois adendos a posts recém publicados.

post_adendos_1O primeiro se refere ao post sobre a indústria das cesarianas no Brasil (aqui), onde explicamos a triste realidade dos nascimentos do Brasil. Os partos chegam a 90% em determinados hospitais privados dos grandes centros, porcentagem muito superior aos 15% máximos sugeridos pela Organização Mundial de Saúde (OMS)

Achei uma notícia sobre o lançamento do documentário “O Renascimento do Parto”, no dia 09 de Agosto, coincidentemente uma semana depois da nossa publicação. O filme trata do mesmo assunto e tem a mesma abordagem; especialistas chamam de crime as inúmeras intervenções cirúrgicas que têm sido realizadas por aqui. Uma frase me chamou a atenção: “Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”.

Confira o trailer oficial do filme aqui (é bem curto) e a reportagem sobre o lançamento aqui.

post_adendo_2O outro adendo cabe ao post sobre o nosso TAV (Trem de Alta Velocidade) – aqui.

O governo, pressionado e temendo mais um fracasso, adiou a apresentação de propostas do projeto e, consequentemente, o leilão que estava marcado para o dia 19 de Setembro. Sem data ainda para acontecer, presume-se que serão gastos R$267 milhões somente no projeto executivo, visando esclarecer melhor o projeto. (aqui). Ridículo! Gastar todo esse dinheiro sem ter a garantia que haverá projeto, ou que haverão empresas qualificadas e interessadas no projeto.

E, em meio a dúvidas sobre qualificação dos fornecedores (no caso, os espanhóis da Renfe), escândalos em São Paulo e Brasília envolvendo outros (no caso, Siemens e Alstom), foram redesenhados outros “pacotes” de 11 mil kilômetros de ferrovias pelo Brasil. (notícia aqui)

por Celsão correto

figura 1 (youtube) / figura 2 retirada (daqui)

parto_normal_cartaz_03O título pode parecer exagerado ou sensacionalista, mas não creio que haja termo melhor para exemplificar a situação atual dos partos no Brasil.

É uma constatação. A UNICEF fez esse alerta há algum tempo. A taxa já era a mais alta do mundo em 2011: 44% (três vezes mais alta que a indicação da OMS, que varia entre 10 e 15%). Alguns estudos (como esse), apontam uma assustadora maioria de partos cesária no país, mesmo no SUS.

Não enumerarei todas as vantagens de um parto normal ou natural em relação a cirurgia que é um parto cesárea. Mas o próprio estudo apontado acima mostra maiores taxas de mortalidade de mães e bebês quando a cirurgia é escolhida; além de maiores incidências de problemas pós-parto, dada a precocidade com que o feto muitas vezes é retirado.

O que acontece na prática são cesáreas de segunda-feira (para que o pai emende a semana em casa) e nas vésperas de feriados (afinal, a equipe médica tem direito a viajar!), independente da condição do bebê. A gravidez humana normal dura entre 38 e 42 semanas, mas a contagem do tempo não é da mais precisa, pois considera a data da última menstruação.

Ou seja, marcar uma cirurgia cesariana com 38 semanas ou mesmo 39 é ao meu ver arriscar a saúde da criança, já que a idade gestacional pode ser menor.

Por que então existem tantos partos cesáreas no país?

Ponto 1: os planos de saúde pagam muito pouco por parto para os médicos, não importando se normal ou cesariana. Diz-se R$300. Oras, é muito mais cômodo pro médico e pra equipe uma cirurgia (ou várias) de duas horas ao invés de permanecer no hospital por doze horas (em média) acompanhando o trabalho de parto, pelos poucos trezentos reais.

Ponto 2: Os médicos criam desculpas para “forçar” uma cesárea, quando a mãe tem a opção clara do parto normal. Bebê grande, sofrimento do feto, placenta velha, falta de dilatação são apenas alguns dos argumentos usados por eles.

Ponto 3: Os hospitais tampouco querem ter partos normais, pois isso representa salas de parto ocupadas por mais tempo e tempo mais curto de acomodação de mãe e bebê.

O resultado? Quem realmente quer um parto normal precisa pagar pelo serviço; são poucos os profissionais e os hospitais ou casas de parto que permitem o “absurdo” de um nascimento natural. Mas nem tudo está perdido, pois ONGs como a GAMA e a GAPP tentam reverter esse quadro através de informação, palestras e cursos.

por Celsão revoltado

P.S.: Respeito aquelas mães que optam conscientemente pela cirurgia, por razões das mais diversas. Mas não acho correto que médicos e equipe mintam e escolham datas convenientes para que os bebês venham ao mundo.

figura retirada daqui