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Não bate em Francisco no Brasil. Infelizmente.

Aqui me refiro às leis e às punições que elas geram/criam. E num paralelo entre pobres e ricos, entre os que possuem recurso financeiro e os que não possuem e sequer conhecem os próprios direitos.

Começando pela lei recém aprovada no Congresso sobre a terceirização.
Já fui temporário, terceiro, funcionário “residente”, prestando serviço em outra empresa. Também já contratei empresas prestadoras para serviços dos mais diversos e digo com certa propriedade: é diferente.
O terceiro é um semi-escravo que pode ser trocado a qualquer momento, a qualquer deslize; como um carro alugado que apresenta ruído, ou sobremesa imperfeita num hotel all inclusive.
Um terceiro tem de fazer mais e melhor, tem de ir além, a todo momento.
E a empresa prestadora, mesmo quando possui boas intenções e é comandada por pessoas de caráter, sofre a cada renovação de contrato e pode ser trocada pelo simples argumento preço. Resultado: a esmagadora maioria dos terceiros recebem o piso da categoria, o mínimo da lei. E quando há a troca, uns poucos funcionários da empregadora terceirizada anterior são aproveitados, num período de adaptação.

Para quem não sabe, atualmente, o serviço terceirizado não pode ser usado para a atividade-fim, somente para atividades “intermediárias”. Ou seja, uma empresa de transporte coletivo não pode ter motoristas terceirizados, uma fábrica de cerveja não pode ter operadores de máquina terceirizados e por aí vai.
Mas ambas podem ter segurança, limpeza e manutenção feitas por funcionários contratados via terceirização. O perigo da mudança é passarmos a ter semi-escravos em todos os níveis…

Concordo que a legislação trabalhista brasileira está estagnada por décadas e “pesa” na conta de pequenos e microempresários. Mas o razoável aqui seria fazer uma transição, preparar empregados e empresas para uma nova realidade.
Sem educação básica é impensável que os novos profissionais tenham preparo para a nova realidade de mercado e as novas profissões. Tenham, por exemplo, controle dos próprios gastos e saibam se preparar para eventuais férias, emergências médicas e aposentadoria…

A aposentadoria, ou a reforma da previdência é mais um ponto discordante, quando tomamos ricos e pobres.
Os primeiros têm melhores empregos, possuem assistência médica, planos privados de aposentadoria e ainda conseguem adquirir bens durante a idade produtiva, gerando renda extra. Sem contar políticos, militares, juízes e outros funcionários públicos que não obedecem o teto da iniciativa privada e só oneram a folha e o rombo da previdência nacional.
Os outros, além de não alcançarem a comodidade dos ricos, possuem trabalhos mais pesados e desgastantes, menor expectativa de vida, piores condições sociais…

Sem considerar esse fator de diferenciação, estabelecendo 65 anos como idade mínima para advogados e estivadores, médicos e cortadores de cana, fazendeiros e pequenos agricultores… teremos o segundo grupo sem possibilidade de exercer o próprio trabalho após os 50 e sem emprego nos últimos quinze anos de trabalho obrigatório!
E é esse grupo que começa a trabalhar (e contribuir) mais cedo. E é esse grupo também que precisa de suporte público para atendimento medico-hospitalar. E coincidentemente é o grupo que mais precisa do valor da aposentadoria, saído dos cofres públicos.

Outro “pau” que não agride Francisco é a Justiça.
É incrível ver os processos intermináveis e recursos contestáveis que “gente rica” consegue.
Basicamente, todo rico tem direito ao STF. Enquanto o pobre sequer sabe que pode ter um defensor público. E muitas vezes é coagido para aceitar uma culpa que não é dele.

Um exemplo é o goleiro Bruno, ex-Flamengo, cujo recurso foi deferido pelo juiz do Supremo Marco Aurélio Mello, após pouco mais de seis anos de reclusão…
Será que um pedreiro ou operador de máquina teria as mesmas condições?
Certamente não teria dinheiro suficiente para arquitetar sua defesa e programar seus recursos até o STF. Mas a pergunta certa seria: ele teria emprego assim que saísse da penitenciária?

Não é que eu condene o Clube Boa Esporte pelo que fez.
Mas eu gostaria de ver a mesma atitude em relação a presos “comuns”.
Uma vez que o discurso é de reintegração social, que tal contratar roupeiros, gandulas, cozinheiras, enfim, outros funcionários com ficha criminal, vindos de reclusão ou Febem/CASA?
Isso não calaria a minha boca e outras,  mas traria um exemplo a ser seguido.

Mas…
Enquanto tivermos políticos aumentando o próprio salário e usando jatos da FAB para viagens particulares, no fim de semana, levando família e amigos (aqui).
Enquanto houver conchavos e nepotismo para cargos de confiança, ministérios, cargos no STF.
E enquanto a oposição no Legislativo se resumir a PSOL e Rede… fica difícil acreditar na ética e mais difícil ainda acreditar no fim dessas diferenças.
Lamentavelmente.

por Celsão correto

P.S.: figura retirada de um excelente quadrinho do Laerte, que achei aqui

O palco é a Alemanha. Uma cidade de médio porte, com pouco mais de cem mil habitantes.

Deitado num ponto de ônibus, estava um senhor grisalho, gritando por ajuda. Pessoas passavam e o ignoravam, algumas iam além e riam dele, insultando-o e descarregando algumas de suas frustrações.

Chegando perto pude perceber que o senhor pedia por uma ambulância, na realidade por um médico de emergência (Notarzt), ele gritava.
Foi chegando perto que percebi que ele exalava álcool, havia urinado nas próprias calças e que a pequena cadeira-andador que ele utilizava continha várias garrafas de cerveja terminadas.
Ele explicou, bastante consciente: “Sei que estou bêbado, mas preciso de uma ambulância. Não consigo tirar meu braço do banco”

Outros jovens passaram por mim e me disseram para que não me importasse. Que o bêbado era um velho conhecido daquele ponto, onde sempre dormia.
Quase fui embora, mas algo me fez voltar. Ele continuava gritando por socorro! E não falando palavras desconexas nem xingando ou praguejando, como muitos fazem nessa condição.
Perguntei para alguns taxistas parados nas imediações, que assistiam à cena, o número da ambulância. Se recusaram a informar: “Pra ele? Ele não precisa!”

Voltei ao ponto e pedi ao homem paciência.
Fui até outro ponto de ônibus e expliquei para um homem que eu era estrangeiro e não conhecia o número de emergência, mas que queria auxiliar o bêbado que pedia por auxílio.
O desconhecido me acompanhou, tentamos ambos levantar o senhor e tirar o seu braço preso entre o bando e o vidro do ponto de ônibus, chamamos a emergência, que fez as perguntas de praxe e insistiu para que tentássemos por nós mesmos tirar o homem daquela posição.
Depois de alguma insistência, conseguimos!

E daí foi incrível a sensação!
A expressão de agradecimento em meio a dor, enquanto mexia o braço que provavelmente formigava.
A alegria do companheiro de empreitada, ao desligar o telefone informando que não precisaríamos de ambulância.
E as lágrimas daquele senhor bêbado, que juntou as mãos em agradecimento, enquanto insistíamos que não era necessário…

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humanos_inumanosPor que não tratamos seres humanos como tal?
Por que a aparência conta tanto aos nossos olhos e a nosso julgamento?

Ter preconceito contra bêbados é algo plausível. Cada um tem uma ou mais histórias que podem levar a odiar bebidas alcoólicas e, de tabela, aos que fazem uso abusivo delas.
Mas discriminação é algo que podemos controlar. E… ignorar o modo como interpretamos os seres humanos por serem bêbados inveterados, nordestinos, negros, gordos, mulheres, deficientes, asilados… é algo prejudicial a toda a sociedade!

Existem inúmeros vídeos no Youtube com o título “O que você faria?”. O próprio Fantástico da TV Globo investiu nesse formato algum tempo atrás.
Os vídeos tratam de temas como violência contra idosos, preconceito, bullying…
O vídeo que quero chamar a atenção foi publicado pela UNICEF. E correlaciona a complicada relação entre aparência, roupas e penteado, por exemplo, com a qualidade ou “classificação” da pessoa. E, no caso, da criança.
O vídeo está abaixo.


Por que o exterior faz tanta diferença?
Acredito ser impossível numa primeira olhadela ou primeiro julgamento não correlacionar aspecto geral de trajes e limpeza com perigo iminente de assalto, por exemplo. (não sejamos hipócritas)
Mas daí a ignorar pedidos de socorro ou empurrar uma criança que se parecia estar perdida e assustada… há uma grande diferença.

Cito o diretor geral da UNICEF, Anthony Lake, no prefácio de um relatório que aponta que 70 milhões de crianças morrerão antes dos cinco anos até 2030…

Quando olhamos para o mundo de hoje, somos confrontados com uma verdade desconfortável, mas inegável: as vidas de milhões de crianças são arruinadas pelo simples fato de terem nascido num determinado país, comunidade, gênero ou circunstância

É a velha e interminável discussão do TER e SER.
Verbos independentes que insistimos em manter juntos. Ao menos para muitos, lamentavelmente, só se É, quando se TEM.

por Celsão correto.

figura retirada daqui, retirada certamente do próprio vídeo. Direto no Youtube, caso o vídeo aqui inserido não funcione, assista aqui

P.S.: detalhes dobre o relatório da UNICEF citado podem ser lidos aqui. O relatório em si também pode ser baixado.

20160104_091753Vivemos a história todos os dias.
E na Argentina, que elegeu recentemente o direitista Mauricio Macri, podemos e poderemos observá-la bem de perto.

Nos primeiros meses de governo, Macri demitiu 12 mil empregados públicos e colocou em revisão outros 60 mil contratos.
Há acusações de perseguição política por parte dos demitidos e de “Kirchnerismo” por parte da vice-presidente Gabriela Michetti.
O fato é que, mesmo que todos os despedidos sejam militantes de esquerda, demissões em massa certamente não ajudarão o político a ser popular entre os mais carentes; e tampouco auxiliarão na importante soma dos “prometidos” um milhão e meio de novos postos de trabalho. Destacando ainda que, além dos novos postos de trabalho, o empresário-direitista prometeu também “pobreza zero” em campanha.

Além das demissões e revisões contestadas, Macri revogou a lei de médios aprovada por maioria do congresso argentino em 2009. Essa lei visa limitar o controle da mídia por grandes corporações e oligopólios familiares nesse ramo.
Ou seja, o movimento neo-liberal argentino tem a princípio mais cara de ditadura que a esquerda peronista.

Pensando num mundo ideal e perfeito, o presidente Macri pode ter sucesso. Desinchar a máquina pública, movimentando os trabalhadores para a iniciativa privada, dinamizará a economia trazendo dinheiro “novo”, ao mesmo tempo que deixa leve a máquina estatal.
O primeiro problema é jogar uma massa revoltada (e, muitas vezes, de oposição) nas ruas e na Argentina. Sem ter empregos garantidos, certamente essa massa descontente irá protestar.
O segundo é que retomadas econômicas são, geralmente, lentas. Mesmo que haja retomada de confiança, muito do dinheiro investido no país durante essa retomada sera especulativo. Capital que não gera emprego.
Ou seja, investimentos no país provenientes de empresas privadas, que geram emprego, resolveriam (ou acelerariam) os dois pontos. O problema é conseguir tais investimentos num curto espaço de tempo.

trabajos_jpg_1718483346Tive a sorte de viajar para o país do “novo milagre latinoamericano” no final do ano passado.
Acompanhei ao menos três protestos diários, ora por educação, ora por empregos e melhores condições, ora pelas falhas no fornecimento de energia elétrica.
Falando nisso, talvez seja hora de admitir que admiro muitos aspectos dos “hermanos”. E as principais delas são o nacionalismo e a tenacidade/perseverance na luta.
Vi pichações na rua contra o presidente Macri, antes mesmo que as demissões fossem anunciadas (primeira figura do post).
E conversei, como de costume, com diversas pessoas sobre política e as mudanças esperadas. É curioso, pois nesse ponto há muita coincidência com as opiniões que vejo no Brasil atual.
– Os apoiadores de Macri repetem a frase “não dá para piorar”, como se corrupção acontecesse somente em governos de esquerda e como se o governo dele não fosse formado por pessoas.
– Os peronistas (simplificando a classificação), assumem que as medidas do governo não trouxeram o desenvolvimento e que houve piora industrial, com consequente “achatamento” da classe média. A “magia social” aproximou pobres da classe média, mas não deu chance para a classe média enriquecer. Alguns desafiam Macri com: “vamos ver o que ele consegue fazer!”
Algo próximo do que acontece por aqui, pois muitos dos que votaram e acreditaram no PT “abraçaram” o discurso da oposição e não mais acreditam numa retomada da economia.

17877586Retomando às ações intepestivas do Macri, ele também decidiu interromper os subsídios governamentais presentes nas contas de energia elétrica e gás. As contas aumentaram em até 300% para o gás (aqui) e 700% para a energia elétrica (aqui).
Quem será que mais sofrerá com esses aumentos? O dono da mansão ou o funcionário público recém-demitido?
O perigo de prejudicar a camada mais baixa da população no afã de re-industrializar o país é altíssimo e está sendo ignorado. E arrisco a dizer que propositalmente.
O problema dele é que o povo seguirá nas ruas, promovendo protestos e pressionando o governo.

O que você acha que acontecerá com o governo Macri?
Reerguerá a Argentina levando-a de volta ao protagonismo regional e mundial ou sucumbirá à pressão popular, trazendo de volta ao poder o federalismo de esquerda?

Qualquer que seja o resultado, será interessante também observar os indicadores sociais e as mudanças na mídia em nosso país vizinho.
Quiçá tenhamos tempo de refletir e evitemos Trumps e Bolsonaros por aqui!

por Celsão irônico

figuras retiradas daqui, daqui e de arquivo pessoal

P.S.: para quem quiser ver um vídeo-resumo interessante sobre o começo do governo Macri (em espanhol), clique aqui.

CapturarSou um crítico convicto.
Do tipo de pessoa que critica inclusive aquilo que acredita e defende.
Ou seja, posso reescrever a frase acima para: sou um crítico da esquerda.

Quando me deparo com textos radicais, de ambos os lados, tendo a discordar mais que concordar com os argumentos lançados. Tomar os meios de produção, estatizar companhias estratégicas, coibir e reprimir oposições soam tão nocivas para mim quanto o conservadorismo, ou permitir que as “forças de mercado” livremente moldem a sociedade, ou privatizar a polícia e ainda a máxima do “garantir direitos individuais acima de coletivos”.

Obviamente, para quem me conhece ou acompanha este singelo blog, sabe que o vértice político-social (ou simplesmente, nosso lado “esquerda”) é muito mais forte.
E, como quem defende um lado mais fraco numa partida de futebol ou briga injusta, evitamos seguir criticando as mazelas da esquerda; não só porque cremos serem menores, mas também por conhecer o poderio “social destrutivo” do outro lado.
O que quero dizer é que: se por um lado sabemos pela história que o comunismo criou outras classes sociais e outras injustiças com seu totalitarismo, que o Estado não evoluiu como imaginado, passando de “transitório” a inexistente… por outro é certo que a injustiça social cada vez mais acentuada do capitalismo priva um número imenso de pessoas de acessos: de oportunidades de bons empregos à cultura, privando também o indivíduo da possibilidade de reação, por desconhecimento simples daquilo que o oprime.

Mas aqui, tomo o título emprestado de um dos capítulos da autobiografia de Martin Luther King para criticar o capitalismo e frisar o avanço do monstro “social destrutivo” representado por ele!
Em novembro de 2013, fizemos um post analisando um vídeo que mostrava, usando dados da ONU, que 2% da população mundial detinha mais dinheiro que os 98% restantes, ou ainda que 300 pessoas possuiam a riqueza de 3 bilhões, equivalente à metade da população mundial (link do post aqui).
Pouco mais de dois anos depois, um novo relatório da organização britânica Oxfam, ligada à ONU, mostra que a situação global se deteriorou ainda mais: agora, pela primeira vez, atingimos 1% da população do mundo possuindo o equivalente aos 99% restante. O estudo, com dados do Credit Suisse, mostra ainda que as 62 pessoas mais ricas tem o mesmo que os 50% mais pobres em riqueza. (link aqui para a notícia no site da bbc e aqui para visualizar o avanço assombroso do número nos últimos anos em gráfico – notícia em Inglês – o gráfico chama-se The wealthy few)

Pensar individualmente e priorizar ganhar a vida a construir uma vida, é fácil e factível para os que já se encontram confortavelmente instalados nas classes “AA” ou faixa dos 10% mais ricos de um país. Para aqueles que anseiam chegar lá, o coletivo é importante, muitas vezes imprescindível, quer seja via oportunidades para ingressar em cursos superiores, bolsas de estudos, programas de incentivo para o primeiro emprego ou auxílios diversos.

14014502Minha “opinião pirata” para os que criticam essa luta contra a desigualdade social, apontando vagabundos profissionais que literalmente “já estão com a vida ganha” com os incentivos governamentais, é simples e direta: inveja! É pura inveja e medo de perder o status de pequeno burguês, medo de dividir uma mesa do Fasano com um porteiro.
Aproveito para deixar outro recado a estes medrosos: fiquem tranquilos, pois isso está muito longe de acontecer! E a figura do post foi colocada propositalmente para o demonstrar; mesmo minimizando as diferenças entre as classes sociais, mesmo com crises, mesmo em períodos de estagnação econômica, haverá aqueles que seguirão tranquilos no topo da pirâmide. E, infelizmente, acumulando ainda mais riqueza, como mostra a evolução dos relatórios da ONU!

O economista Carlos Góes explica em entrevista que existem desigualdades boas e outras ruins, e que nosso modo de taxar o consumo castiga as classes menos favorecidas, transferindo na realidade dinheiro do pobre para o rico. Ele próprio defende os programas de transferência de recursos aos pobres como uma das soluções (aqui está a entrevista, depois de argumentos unilaterais contra o relatório da Oxfam. Sugiro que pulem para a parte de perguntas e respostas, notando que mesmo ao ser conduzido a concordar, o economista retoma a linha de raciocínio criticando o capitalismo e o enriquecimento desenfreado).
Se Venezuela, Brasil e Argentina foram “mães” para os pobres nos últimos anos, foram esses os programas responsáveis por alguma dignidade para as famílias e foram esses os governos que tentaram, de forma incompleta e muitas vezes equivocada, reduzir as desigualdades sociais dos países em desenvolvimento.

Para finalizar, deixo uma pergunta para reflexão: se pudesse escolher, você estaria nos 10% mais ricos de um país pobre ou nos 10% mais pobres de um país rico?
Quando eu paro para pensar, chego a conclusão que os pobres no país rico usufruem de uma “estrutura” talvez inexistente até para os 10% mais ricos do país pobre, como educação, segurança, saúde. Por outro lado, pertencer aos 10% mais ricos de um país pobre permite luxos impensáveis até aos ricos de países ricos, Pode-se possuir diversos carros importados, apartamentos em diferentes cidades, usufruir de serviços de mordomos, motoristas, empregadas domésticas, etc… Isso leva para outra análise: da riqueza absoluta versus a riqueza relativa.

por Celsão correto

Primeira figura retirada do site das publicações do Credit Suisse aqui. O site tem muitos documentos disponíveis para download. Usei o relatório de 2014.
A segunda figura veio daqui. A fonte no rodapé mostra “Datafolha, Novembro de 2013”. Época da nosso primeiro post sobre o tema.

 

Guerra_as_DrogasA violência no Brasil anda assustando a população brasileira, assim como os turistas.
O problema da violência transcende Governos, e vem assolando nosso país desde a ditadura militar, e ano após ano numa escalada progressiva.
(clique AQUI e leia nosso artigo onde refletimos sobre a relação entre “real aumento da violência” X “nossas sensações de insegurança, influenciadas pela mídia”).

Mas o que gera a violência?
Podemos apontar vários fatores: Pobreza, desigualdade social, sistema educacional degenerado, uma mídia que incentiva sentimentos como ódio, desejos e inveja; fatores culturais (há culturas mais pacíficas, outras mais agressivas), etc.
E claro, a presença e força do tráfico de drogas nesta sociedade. E é neste ponto que quero me detalhar.

No Brasil, todos sabemos, temos um enorme problema com drogas. Temos muitos viciados, e o tráfico é fortíssimo. Traficantes mandam em bairros e comunidades inteiras. O combate ao tráfico parece ter se intensificado nos últimos anos, como exemplo, temos as ações policiais com a ajuda do exército no Rio de Janeiro, fazendo uma “limpeza” em algumas comunidades.
Ajudou? Bom, não parece. O número de usuários de crack aumenta a cada dia, traficantes do Rio saíram “corridos” de lá e migraram para outras cidades, onde então o problema das drogas piorou, e no Rio, outros assumiram seus lugares.

Mas afinal, é eficiente combater o traficante? Como fazer isso? O traficante está lá, isolado no morro, sem amigos, sem influência? Ou será que ele, muitas vezes, possui forte rede de contatos e influência, incluindo grandes empresários, policiais, políticos e até juízes?
Penso que, em muitos casos, a segunda opção seja a mais realista.
Então, como o poder público vai lutar contra o tráfico, se o tráfico está entrelaçado com instituições públicas e privadas?

Michael Levine, que foi durante 25 anos agente da DEA (Agência de combate às drogas dos EUA), revela em seus livros, que a CIA tem conexões diretas com o tráfico na Colômbia, México, Bolívia. Há aí uma história de troca de favores e benefícios mútuos entre CIA e as drogas na América Latina, que já atravessa várias décadas.

Michael Levine, hoje com 75 anos, vem publicando documentos oficiais sigilosos, vídeos gravados por ele em reuniões secretas, e livros há cerca de 20 anos. Podemos compará-lo a Snowden, porém do submundo das drogas.
Os livros mais famosos de Levine são: “Deep Cover” e “The Big White Lie” (com tradução em português: A grande mentira branca).

Levine diz que a guerra contra as drogas é ineficiente, pois, para diversas instituições e empresas poderosas, é desinteressante que o tráfico acabe. Ele e outros estudiosos apontam para outra variável óbvia: o tráfico é lucrativo, portanto, combater aquilo que dá dinheiro fácil, é desperdício de energia. Você prende ou mata um traficante, tem uma fila de outros 100 esperando para assumir seu lugar.

Afinal, como então combater as drogas?
Levine e intelectuais apontam possibilidades. Primeiramente, não se deve focar no traficante, mas sim no usuário. O traficante só existe, pois tem mercado, ou seja, há quem compre. Se for possível trabalhar a sociedade para que haja menos necessidade de consumo de drogas, o traficante perde a força, o tráfico perde o sentido.
Mas como causar essa mudança na sociedade?

Bom, primeiro temos que nos livrar de pensamentos preconceituosos, ortodoxos, ultrapassados, nos livrar da hipocrisia de discursos dogmáticos e conservadores, para podermos aceitar possíveis realidades e soluções.

Li um artigo de Johann Hari, autor do livro “Chasing the scream: the first and last days of the war on drugs”, que poderíamos traduzir como “perseguindo o grito: o primeiro e último dias da guerra contra as drogas”, que viaja pelo mundo fazendo uma série de entrevistas, tanto com cidadãos comuns, como com representantes de ONGs contra as drogas, comunidades que enfrentam tais problemas, e também com governos que revelaram suas experiências.

Johann traça algumas reflexões e estudos sobre o vício. Seus estudos apontam que, o vício químico existe, mas é fator pequeno frente ao vício psicológico. Ele mostra estudos feitos tanto com ratos, quanto com seres humanos, que apontam uma tendência clara de que, em condições de vida saudáveis, felizes, com lazer, com as necessidades básicas vitais satisfeitas, tanto seres humanos, quanto ratos tendem automaticamente a não precisar mais de drogas e a preferir a sobriedade.

Johann menciona Portugal, que tinha um problema gravíssimo com Heroína até o ano 2000, cerca de 1% da população estava viciada. O Governo português tentou por vários os anos a guerra contra as drogas, sem sucesso. Então resolveram inovar. Descriminalizaram as drogas e fizeram um rigoroso programa público de educação, conscientização e recuperação dos drogados. O resultado: 50% de redução do consumo de heroína em poucos anos.

Algo parecido acontece no Uruguai, onde o ex-presidente, Pepe Mujica, descriminalizou a maconha fazem 2 anos. Estatísticas já comecem a apontar resultados positivos naquele país.
Ao ser confrontado em entrevista, com a pergunta “mas o senhor tem certeza que dará certo?”, Mujica respondeu: “Lógico que não tenho certeza. Mas eu tenho certeza que o que tentamos antes nunca deu certo, por isso, é preciso tentar algo novo. Se não der certo, mudamos para outra tentativa. O que não se pode é ficar parado repetindo erros!”.
Parece simples não? Mas não é! Afinal o conservadorismo e o medo do novo nos impedem de sermos inovadores, de aceitarmos mudanças, de revermos nossos valores. Aí, ações racionais e promissoras, são hostilizados pela sociedade.

Há outros países com legislações mais flexíveis e que buscam caminhos progressistas para o combate às drogas, como Alemanha, Holanda, Suécia, Noruega, entre tantos outros.

Por isso vemos que há uma conexão clara entre as drogas e as faltas de oportunidade de viver uma vida saudável e feliz. Ou seja, numa sociedade deteriorada, às margens da pobreza, desigualdade social, preconceitos, racismo, violência, mídia do medo, políticos do descaso, é evidente que há um espaço enorme para o crescimento do consumo de drogas.

Qual seria a solução?
Observando os trabalhos de Levine, Johann, e tantos outros vastos trabalhos existentes mundo a fora, e observando as experiências bem sucedidas de alguns governos, podemos chegar a conclusões que apontam para possíveis boas soluções:

  • Parar de focar no tráfico, no combate da violência com violência. Passar a focar na sociedade e na melhoria da vida dos usuários.
  • Gerar condições de vida que reduzam a necessidade da entrada das drogas na vida das pessoas: erradicação da pobreza, diminuição radical da desigualdade social, melhorar o sistema de saúde, investir em arte e cultura.
  • Melhorar a qualidade da educação em todos os sentidos, e claro, com informação crítica e que conscientize sobre o tráfico de drogas e sobre os danos do uso das mesmas.
  • Descriminalizar ao menos drogas leves, para que o Governo, a Justiça e órgãos públicos, tenham maior controle do consumo da droga e possam ter maior acesso aos usuários, para assim realizarem trabalhos e tratamentos com os mesmos.
    De tabela, enfraquece-se o tráfico, diminuindo a arrecadação destes.

Muito do exposto acima é burocrático, exige mudanças na Constituição Federal, e enfrentará resistência conservadora.
Mas há como iniciar ações rápidas e locais, independentes do Governo Federal. Levine menciona seu livro Fight Back, onde ele aponta ações da própria sociedade e das comunidades para reduzir os problemas com o tráfico.

Ajudar ONGs já existentes, e apoiar o surgimento de novas. Realizar constantemente audiências públicas, com participação da Justiça, promotoria, polícias civil e militar, ONGs, prefeitura, autoridades da saúde e da educação, e representantes de comunidades; e debater possibilidade de melhoria do saneamento básico, da limpeza pública, de ampliar a geração de emprego e aumento salarial, possibilitar a criação de mais áreas e possibilidades de lazer, mais eventos culturais e artísticos, um acompanhamento médico e psicológico, de perto, dos jovens, e tudo mais que lhes traga mais interesse pela vida e perspectivas de felicidade e futuro.


* Para ler entrevista com Michael Levine, com links para seus vídeos e documentos, clique AQUI
* Para ler o artigo de Johann Hari, clique AQUI

por Miguelito Formador

figura daqui

Minha amiga e nossa leitora, Jéssica Pereira, escreveu um texto brilhante. Apesar de muito crítico, o texto consegue ser suave e capaz de nos tocar no cerne dos sentimentos: a alma.

Reproduzimos então o texto aqui na íntegra:

por Miguelito Filosófico

figura daqui


por Jéssica Pereira

Meritocracia_CriancaVocê nasceu, cresceu, seus pais trabalharam, você estudou, e hoje tem um emprego.

Espero que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, você possa pagar um jantar pra sua namorada.

Espero que sua namorada tenha um emprego.
E que vocês juntos decidam se casar.

Espero que vocês se casem. E com o suor que cai em vossos rostos, consigam se livrar do aluguel.

Espero que ao comprar uma casa, vocês tenham filhos. E que juntando os salários que você e sua esposa ganham, vocês sejam capazes de incluir seus filhos no plano de saúde. O inverno chegou e as crianças ficam doentes com mais facilidade. E nós sabemos que o SUS não presta.

Espero que seus filhos cresçam com saúde e entrem na escola. Mas que seus salários sejam suficientes para pagar uma escola e dar educação de qualidade, porque o ensino público não presta.

Espero que seu filho se forme e ingresse na universidade. Mas numa universidade privada, porque o ensino básico público não presta e não sei o que lhe faz pensar que a faculdade pública é diferente.

Espero que seu filho deixe a vaga da faculdade pública pra mim, porque meu pai é pedreiro no interior, e ganharia só um salário se não me deixasse sozinha o dia inteiro pra colocar comida na mesa da nossa casa. Eu sou uma criança e não posso trabalhar, é crime.

Espero encontrar alguém que me dê amor em qualquer esquina, porque discurso de ódio eu escuto sair da televisão. Tô crescendo “abandonada”. Meus pais me deixam sozinha, porque precisam me sustentar. Mas sou criança, e choro quando vejo mães com seus filhos de mãos dadas, enquanto a minha corta o cabelo da madame do bairro nobre.

Passei o inverno com pneumonia, o ensino da minha escola é ruim, e o meio que vivo não colabora. Eu sou pobre.

Enxugaram meus recursos básicos e vão torcer pra que eu não mate o teu filho. Na verdade, vão torcer pra que eu mate. É pra isso que alguém vai na mídia e te convence que prisão é a solução. Você tem grana pra pagar por saúde e por educação pro seu filho, o meu pai não. É pra isso que ele trabalha, porque ele sabe que eu, criança, tenho um futuro pela frente. O meu pai acredita em mim.

Lhe fazem – de mim – sentir medo, enquanto lhe arrancam todo dinheiro.

Mas espero que seu filho tenha um emprego, e que este emprego lhe pague mais que um salário mínimo, talvez três, ou quatro, e que além de pagar o aluguel, ele possa pagar um jantar pra namorada.

* Jéssica possui um blog filosófico-poético, que também não deixa de ter seu conteúdo intimista e crítico. Para interessados, segue o link AQUI

15155110E não é que depois dos rolezinhos com as “invasões” das classes baixas desejosas por aparecer em centros de compras da elite, como a rua Oscar Freire e o Shopping JK; e depois dos funkeiros “ostentação” e seus carrões, cordões e mídia, eis que surje mais um problema para a elite?

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad está revendo o zoneamento da cidade. E, com isso, bairros definidos na década de 70 como “estritamente residenciais” podem ganhar comércios, consultórios e até, pasmem, moradias populares!
“Meu Deus, como vamos fazer nossa caminhada, levar nosso Yorkshire Terrier para passear!” – dizem alguns.
“Estacionar minha Cayenne na padaria ao lado de um Chevette, de um carro mil! E se ele bater em mim? Vai querer me roubar! Nunca pensei que isto aconteceria aqui…” – provável frase de outro.

Não posso dizer que gosto de tudo o que foi feito até aqui pelo político.
A meta colocada (talvez a si mesmo) de 400km de faixas exclusivas para bicicletas (as ciclofaixas) criou bizarrices inimagináveis, como ciclofaixas interrompidas em pontos de ônibus e postes no meio das mesmas.
Sou a favor da priorização adotada em prol do transporte público e das bicicletas; mas é notório que não houve muito planejamento na escolha das vias e caminhos dos ciclistas.
Diferentemente do ocorrido com o zoneamento, já que várias chamadas públicas para discussão do Plano Diretor Municipal foram feitas, por exemplo, na TV. Nas subprefeituras, certamente o assunto zoneamento foi citado. E, se um minimercado é prioridade para os assalariados que trabalham para a elite, e não teriam tempo de comprar itens de necessidade ao chegarem duas horas depois em Guaianazes ou Interlagos, só seria visto com bons olhos pelos moradores se for um “Marché” ou “Pão de Açucar”;

Argumentar que aumentará a violência, ou trará drogas é pura piada de mau gosto.
Outros bairros nobres têm favelas na vizinhança e elas não são a razão da violência. Igualmente com as drogas: quem consome continuará consumindo, mas terá como provável vantagem o menor deslocamento até a “boca”.
O que a elite não deseja é ver os seus imóveis de vários milhões de reais, ou R$20mil o metro quadrado, da badalada Vila Leopoldina, desvalorizados com a construção de moradias populares.
E isso realmente acontecerá se os novos zoneamentos da cidade forem levados a cabo. A zona predominantemente residencial (ZPR) da Leopoldina passará a conter uma Zonas Especiais de Interesse Social (ou ZEIS).

Gostaria que a cidade convergisse para menores deslocamentos e maior qualidade de vida para a população. Se o zoneamento é a solução, ou se o é a tentativa de diminuição do número de veículos com as ciclofaixas, ou ainda a criação de parques e áreas públicas de lazer… não sei.
Mas… convenhamos no “cá entre nós”… as três medidas, são passos no caminho certo.

Sem querer tocar no tema do post anterior, mas já tocando. Nós paulistas, temos muito a evoluir socialmente. (post aqui)
Só não proponho, como o título propunha, a invasão de Alphaville (bairro “ilha” da elite paulistana), por ser de impossível locomoção com transporte público. Talvez este seja a única barreira que “salva” esta parcela elite da perigosa miscigenação de classes.
Se bem que para o MST, seria uma boa…

por
Celsão Irônico

figura e ideia do post retiradas daqui (valeu Caldo!)

P.S.: para quem quiser se informar mais, leia este post. A blogueira Raquel Rolnik, que o escreveu originalmente na Folha, explica o zoneamento. Aproveitando, aqui há um resumo sobre o assunto “Plano Diretor da cidade”, em posts excelentemente explicados pela Raquel em seu blog. 

P.S.2: outra notícia interessante da “revolta” da elite (aqui). 

P.S.3: Não menos importante, o plano diretor de São Paulo está disponível para download neste link.

brasil-invasao-terreno-itaquera-20140507-001-size-598Há algum tempo vê-se em São Paulo um aumento estrondoso de ocupações de terrenos públicos e privados pelo movimento dos trabalhadores sem teto, ou MTST.
A reivindicação de ter uma moradia, totalmente justa e plausível na minha opinião, carece de organização e de planejamento por parte do governo, no caso, a prefeitura, e também do movimento.

Os proprietários, a imprensa e a elite criticam as invasões chamando-as de fantasmas; usando o fato real de que os acampamentos ficam quase vazios durante a noite. Ora, muitos dos integrantes vivem em imóveis alugados ou barracos de madeira em favelas; logo, têm uma moradia que apresenta melhores condições de higiene e segurança que as tendas montadas precariamente nos terrenos invadidos. E, sem ter a certeza de que o novo lar surgirá daquela ocupação, nem o prazo para isso, não dá pra abandonar o kitnet alugado.

Organização e Reurbanização

Do lado do governo, seria interessante um cadastro único e funcional, tanto de membros do MTST, quanto de futuros moradores incluindo os cadastrados para habitações populares, como o Minha Casa Minha Vida; não esquecendo de colocar na lista os terrenos de possível construção das moradias. Essas listas poderiam servir de base para uma reurbanização inteligente da cidade e até do estado.
Por exemplo, se a Mooca, Brás e Barra Funda passam a ser bairros estritamente residenciais; seria salutar para a cidade se terrenos comprados pela prefeitura ou abandonados por fábricas falidas, servissem ao menos em parte, para habitações populares.
Pensando mais macro, existem problemas de mão-de-obra em cidades médias do estado de São Paulo. Estas cidades, que demandam trabalhadores mas nem sempre os encontram, serviriam como base para “migrar” as grandes populações para fora da cidade de São Paulo.
Não é para segregar, mas para garantir ao mesmo tempo moradia, emprego e qualidade de vida; já que em São Paulo os pobres ocupam periferias cada vez mais longe do centro e têm de se deslocar cada vez mais.

Outro ponto importante pra mim é o comprometimento do cidadão beneficiado com uma moradia dessas (serve também para terrenos no caso do MST). Não é justo haver a doação ou benefício e, alguns meses depois, a venda do imóvel e o retorno do beneficiado ao grupo dos reivindicantes. Os bens seriam da prefeitura, portanto, intransferíveis. Isso ajudaria a conter ímpetos gananciosos. Os arruaceiros e os chamados de “zóião” pelo movimento, pessoas que dividem a família e se instalam em mais de um barraco, seriam contidos pelo cadastro unificado.

Compensações sociais

Uma outra medida, que ao meu ver seria eficiente para a recolocação de famílias seria a imposição de compensações sociais aos empreendimentos erguidos Brasil afora por grandes construtoras.
Uma Cirella precisaria aplicar parte do lucro obtido de um prédio comercial no Morumbi em construções populares em Itaquera, no terreno chamado Copa do Povo, por exemplo. Como os custos com a construção e os valores de venda estariam em outra escala de grandeza, não seria difícil para a incorporadora, ou mesmo para os clientes, arcar com parte dos valores das moradias populares.
A lei já prevê que haja compensação ambiental em caso de desmatamento e uma outra compensação nas vias e trânsito feita pela prefeitura, através do recolhimento do imposto sobre serviços (ISS). Imposto aliás, que foi tema recente de escândalo de sonegação por parte de fiscais. (aqui)

Passando há alguns meses por uma invasão perto de casa, fui questionado sobre minha opinião por um taxista.
Disse a ele que pode parecer cruel ao ricaço, que comprou um apartamento de duzentos e tantos metros quadrados por mais de um milhão de reais, ter vizinhos em apartamentos padrão Projeto Cingapura. Mais é no mínimo humano dividir um terreno gigante em torres de alto padrão e prédios populares. E, se a construtora preferir que a compensação social ocorra longe dali, tudo bem.

Mais radical ainda, pensando que 1% dos mais ricos de São Paulo recebem 20% da renda da cidade (link aqui), proponho doações desse povo para diminuir o déficit habitacional. Os menos radicais podem chamar de imposto sobre grandes riquezas. Os abastados poderiam escolher entre doar quantias em dinheiro ou terrenos e prédios. Tal ideia também seria aplicável à grandes fazendas, normalmente controladas por aqueles que detém incontáveis terras.

O que não dá mais pra fazer é ignorar o problema da falta de moradias e de condições para que trabalhadores a possuam; ou sucumbir a caprichos de líderes que buscam ascenção política e/ou financeira.

por Celsão correto

figura retirada daqui

Leonardo_BoffUm dos mais conhecidos teólogos do Brasil, Leonardo Boff é um nome atualmente aclamado em todo o mundo. Aos 75 anos, Boff é um intelectual, escritor e professor premiado e respeitado no país, cuja opinião é ouvida por personalidades com o Papa Francisco e os presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Já o acompanho e leio suas ideias há um bom tempo. Dificilmente tenho algo a criticar sobre o que ele diz, normalmente é impecável aos meus olhos. Pensador que possui muita sanidade, honestidade intelectual, sabedoria, bondade, vasto conhecimento, e muito, mas muito senso de justiça.

Nesta entrevista, porém, Boff se supera. Ele consegue, em poucas linhas, tratar laconicamente, mas nem por isso sem eficiência e/ou sem didática, de diversas questões que parecem, aos olhos de muitos, não estarem conectadas, mas na verdade muitas delas se encontram e se influenciam, direta- ou indiretamente, muitas vezes num jogo de “causa e efeito”.

Entre os assuntos tratados por ele estão: pobreza e riqueza, ética social, sistema capitalista selvagem baseado na especulação financeira, política no Brasil, PT e Dilma, candidatos e partidos de oposição, avanços sociais obtidos nos últimos anos e o que ainda falta para o povo. Fala ainda da igreja católica e cristã, passando por Jesus Cristo e chegando ao momento atual da Igreja Católica com o Papa Francisco. Fala do protestantismo e Lutero, critica os religiosos que fazem da religião um grande “negócio”, usando o evangelho para justificar ideias retrógradas, tirar dinheiro dos fiéis e manipular mentes. Tece comentários sobre a situação no Oriente Médio (Israel & Palestina), aborto, violência, crise econômica e social na Zona do Euro, América Latina como esperança para o futuro, e sobre a crise ecológica e econômica mundial.

Sobre essas últimas duas, Boff diz estarem profundamente conectadas, estando o capitalismo fundado na exploração dos povos e da natureza. Ele fala: “Esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e à alimentação”.

Para ler a entrevista, clique AQUI.

por Miguelito Filosófico

* figura retirada do perfil de facebook de Leonardo Boff

CaridadePretendo aqui tratar, de uma forma um tanto quanto dura, da caridade. Sei que a abordagem utilizada por mim é polêmica, desagradará a muitos, e estarei vulnerável para levar “pedradas”, mas o que se há de fazer? Certos assuntos geram dor, por tocarem nas nossas maiores fraquezas e disfarces.

Fazer caridade, doações, tirar férias para ir para África, Américas ou Ásia trabalhando em projetos sociais, e coisas do gênero, são ações bonitas e mostram ética e moral elevadas normalmente, mas de pouco adiantam para fazer do mundo um lugar realmente mais justo e mais igualitário.
Aproveito aqui para indicar um excelente artigo que sugere que boa parte das doações da Inglaterra, assim como do Mundo, para a África e países “subdesenvolvidos” num geral, acabam sendo redirecionadas não ao povo carente, mas sim às grandes corporações que atuam nestes países, principalmente as indústrias do agronegócio. Acesso o curto, porém excelente artigo clicando AQUI

O único caminho para realmente causar transformações duradouras no mundo é mudando nossa postura. Refletir sobre o nosso consumo, sobre nosso estilo de vida, nossas casas, o que nosso trabalho traz para o mundo. Refletir sobre a educação que damos aos nossos filhos e pessoas em nossa área de influência.
Temos que sair da zona de conforto intelectual(pois nos é ensinado que a vida é assim mesmo, o ser humano é mal de natureza, e algumas pessoas tem mais sorte, outras menos… e assim nos tornamos passivos, coniventes, “cúmplices” das desgraças e barbáries do mundo).
Nesta mesma linha de raciocínio gostaria de indicar-lhes um excelente vídeo, de somente 20 minutos, que faz uma explicação didática de como funciona nosso sistema vigente, tendo como base de sustento o consumo desenfreado, e como o mesmo é insustentável e catastrófico a médio e longo prazo. Clique AQUI

Temos que nos tornarmos mais críticos, questionadores. Entendermos de uma vez por toda que fomos educados para sermos alienados e manipulados, e assim sermos máquinas perfeitas de consumo e incapazes de criticar o sistema e mudar nossas posturas, seja pela alienação, seja pela nossa falta de tempo (o que também gera alienação), afinal, o sistema, nossos trabalhos, nos consomem por inteiro.

Temos que entender a seriedade do problema da degeneração do sistema educacional e da mídia. E tendo nosso interesse despertado para a crítica e por nos informarmos melhor, agiremos “politicamente” de forma ativa, direta- ou indiretamente, lutando para que ações políticas sejam tomadas visando melhorar a qualidade e os rumos da educação, visando reformar os valores das pessoas desde criança, e em paralelo outras ações devem ser tomadas garantindo mais direitos e mais justiça não para sua família, nem para o seu bairro, não para sua cidade, nem para seu país, mas para o Mundo como um todo, para todas as pessoas do Planeta.

A caridade sozinha, sem uma crítica político-social pesada em paralelo, é como tentar frear um rio com o próprio corpo. É como tentar apagar o incêndio de uma mata utilizando-se de copos de água. A intenção é boa, mas o impacto é pequeno.
Para resultados concretos, eficazes e duradouros, a única solução é a mudança de comportamento e atitudes, lutar por uma educação que seja ferramenta para gerar senso crítico e que ensine o ser humano a viver bem e de forma justa, ética e honesta; e lutar por interferência política em prol daqueles que mais necessitam de suporte e apoio.
Tudo que fugir muito disso, é mera tentativa de frear o rio. É bonito e nobre, mas pouco eficiente.

Se você pratica caridade, do fundo de meu coração, eu bato palmas para você. Continue, pois o resultado certamente é positivo. Mas busque em paralelo desenvolver este lado crítico em você, busque entender e levar a sério o poder de mudança que a política possui, seja ativo no processo de mudanças duradouras. Mas continue praticando a caridade, pois ela conforta, mesmo que provisoriamente, as dores do próximo, além de trazer a nós mesmos conforto espiritual.

por Miguelito Formador

figura daqui