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Imposto Total x Renda Familiar

Imposto Total x Renda Familiar

Há 17 países no Mundo com maior carga tributária que o Brasil, e próximo de outros 30 com carga tributária parecida com a nossa.
Portanto, pare de falar que pagamos os maiores impostos do mundo. Chega de ignorância e analfabetismo político-econômico.
(Acesse a lista completa de países por carga tributária AQUI. Ou clique AQUI para ver uma lista selecionada pelo Mundo Estranho, com 11 países em relação ao Imposto de Renda e Carga Tributária total)

Daí teremos chance de focar, de forma embasada e eficiente, nos pontos que realmente são importantes neste debate:

1) Os impostos totais são justos no Brasil?
Afinal, no Brasil, quem mais paga imposto, é o pobre. Isso se deve primeiramente por nossos impostos e tributos sobre a produção serem muito elevados. O resultado disso é que pagamos impostos altos embutidos nos preços de quaisquer produtos e serviços. O preço dos produtos e serviços é o mesmo para o pobre e para o rico. E assim, obviamente, o rico paga menos impostos em produtos e serviços, proporcionalmente aos seus salários, que os pobres.
Para exemplificar: Em uma camiseta que custa R$20,00, suponhamos que o valor total de impostos e tributos no preço da camiseta seja de R$8,00. Ou seja, tanto o pobre quanto o rico, pagará R$8,00 de impostos ao comprar essa camiseta. Porém, o pobre ganha R$500,00 de salário, e o rico ganha R$20.000,00. Assim, o pobre paga ao comprar esta camiseta, 1,6% de seu salário em imposto sobre este produto. Já o rico paga somente 0,04% de seu salário em imposto sobre esta camiseta.

Além disso temos o Imposto de Renda, que também é completamente injusto. O rico no Brasil paga, no máximo, 27,5% de imposto de renda (tirando que no fim do ano, ao fazer todas as deduções, estes 27,5% caem muitas vezes para 20%, 18%, e valores ainda menores). Na Alemanha, o imposto de renda chega a 50%. Na Suécia, 60%.
Resumindo, no Brasil, quanto mais dinheiro você tem, menos “imposto total” você paga.
Observando a figura-gráfico acima, podemos perceber que uma família que tem renda de até 2 salários mínimos paga, em média, 49% de impostos totais. Com renda de 8 a 10 salários mínimos, paga 30%. Quem ganha mais de 30 salários mínimos, paga somente 26% de imposto. E assim por diante. Ou seja, quem tem grandes fortunas no Brasil, paga impostos irrisórios. 

2) Como estamos aplicando nossos impostos?
Como tornar essa aplicação mais eficiente? (Aqui entra amortização da dívida pública, os gastos com os 3 poderes e funcionalismo público, e o que sobra que vai para investimentos. E claro, corrupção, cartéis, superfaturamentos).
É fato evidente que, o pobre tem muito mais dificuldade que o rico em praticamente todos os processos cotidianos. O rico tem moradias mais seguras e de melhor qualidade, nos melhores bairros. Pode comprar melhores produtos. Tem mais facilidade de locomoção. Tem acesso aos melhores hospitais privados e planos de saúde. Pode pagar os colégios privados, mas mesmo assim usufrue do ensino superior público, mais que os pobres. E vou parar por aqui, pois a lista de vantagens de acessibilidade e oportunidades do rico com relação ao pobre é infinita no Brasil.
Desta forma, penso eu, e qualquer pessoa com um mínimo de senso de justiça e solidariedade ao próximo que, os impostos que pagamos deveriam ser dedicados “principalmente” à melhoria da vida dos mais pobres, dos mais necessitados. Obviamente, todos nós queremos melhorias e a vida da classe média e do rico no Brasil, também não é só amores e facilidades. Mas convenhamos, não queiramos comparar as dificuldades destes, com as dos pobres e excluídos pelo sistema. (Clique AQUI e leia nosso artigo sobre as desigualdades de renda no Mundo)

Assim sendo, será que nossos impostos são aplicados principalmente com o intuito de melhorar a vida daqueles que mais precisam de suporte e auxílio? Eu entendo que nunca foi!
De alguns anos para cá tivemos uma melhoria drástica, com a criação e expansão de políticas sociais, aumento do salário mínimo, geração de empregos, etc. Mas ainda estamos muito longe de algo justo e eficiente.

O Brasil precisa de Reforma Tributária urgentemente. Porém essa reforma não está na agenda de nenhum político, pois afinal, ela representa um pesadelo para a elite. É só falar em Reforma Tributária, que nenhum político ganhará eleições. Paradoxo!
Alguns acreditam que, para viabilizar a Reforma Tributária, o único caminho é Reforma Política primeiramente.
Por isso, essa Reforma Política também é tao perigosa para a elite.
Dilma sabia disso, e propôs justamente por isso, o plebiscito, para que O POVO escolhesse como fazer a Reforma Política, pois se dependesse do nosso Congresso, composto majoritariamente por pessoas à serviço da elite, nunca sairia. Adivinhem o que aconteceu? A mídia, a serviço da elite, logo se posicionou “provando” ao povo (principalmente à classe média) que o plebiscito é fria, é inconstitucional, é ruim para a “população”….

E assim a Reforma Política caiu em esquecimento, e com ela, as chances de uma Reforma Tributária.
É assim que se faz política no Brasil.
Como diria um amigo meu: O Brasil não é para amadores.

por Miguelito Formador

figura daqui

RadioNacionalPrimoRicoPrimoPobreEm vista dos últimos acontecimentos e divulgações de gastos exorbitantes pelo chamado “rei do camarote” (post nosso AQUI) e pelos fiscais fraudadores do ISS do município de São Paulo, faço aqui uma singela comparação entre o que julgamos ser rico e a distribuição de renda no Globo.

Topei recentemente com um vídeo interessantíssimo que mostra a desigualdade da distribuição de renda no Mundo.

O autor usa fontes confiáveis (por exemplo, a ONU) para mostrar que as 300 pessoas mais ricas do mundo, tem mais dinheiro que as 3 bilhões mais pobres. Ou seja, as 300 mais ricas, possuem praticamente o mesmo tanto de dinheiro que a metade mais pobre junta!

Outra dessas constatações mostra que os 2% mais ricos do mundo, possuem mais dinheiro que o somatório dos outros 98% dos habitantes!

E nós aqui, julgando-nos bem informados, politizados e pobres! (Talvez por não acharmos absurdamente cara uma compra de supérfluos no supermercado). Ou criticando programas sociais achando que eles nos estão tirando dinheiro… Como diriam “brincando com a gíria”, o buraco é mais embaixo!

O vídeo está aqui.

Outro exercício interessante que os convido a fazer encontra-se no site Global Rich List (aqui) .

O site faz a proposta de mostrar, pelo salário anual que recebemos, onde estamos na escala global, apontando quantos indivíduos são mais pobres e mais ricos que nós.

E não para por aí, outras ótimas comparações são feitas, escancarando a condição dos pobres da Terra, mesmo tomando a realidade brasileira.

Me permiti fazer dois exercícios: no primeiro, coloquei como salário 90 mil reais anuais, assumindo-o como valor referência do programa mais médicos do governo federal; salário esse considerado absurdo e ultrajante por alguns profissionais brasileiros da medicina.

Não inseri décimo terceiro salário e tomei por bruto um salário de 10 mil reais com 25% de impostos . Pois bem…

Tais médicos estariam no seleto grupo dos 0,29% das pessoas mais ricas da Terra. Um salário equivalente a 307 anos de um trabalhador mediano em Ghana.

No segundo exercício, inseri o valor de 8840 reais; que seria equivalente a treze vezes R$680, o salário mínimo brasileiro. (não considerei descontos de imposto).

Mesmo recebendo um salário mínimo, o trabalhador brasileiro atingiu a faixa dos 21% mais ricos…

Pense e reflita. É justo reclamar como reclamamos?

Tente, depois desses exercícios, levar um pouco a sério alguns programas sociais e a vida dos outros habitantes do planeta, a vida “do próximo”!

por Celsão Correto e Miguelito Formador

P.S.: figura retirada daqui

Rei_Camarote

Vi o comentário do Jornalista Bob Fernandes sobre o vídeo do rei do camarote (vídeo aqui). Confesso que não tive saco de procurar o vídeo do cara no youtube. Alinhado ao comentário do Bob, reparei nas minhas poucas entradas no facebook, que este caso estava bombando por ali. Pois bem, nem vou me aprofundar no mesmo, pois ao perder tempo com ele especificamente, estarei afogando meu ego na mesma futilidade a qual desprezo.

Mas aproveitando as reações que vi a favor do magnata, dizendo que o dinheiro é dele, e por isso ele faz o que quiser com o mesmo, e coisas do tipo, resolvi escrever um breve conto, que segue abaixo:

Pedro Luis nasceu num berço de ouro, papai tinha uma fortuna de 400 milhões de Dólares. Pedro foi criado com muito mimo, nunca aprendeu a dar valor à essência da vida, ao amor, ao próximo, às tristezas e problemas ao seu redor, à pureza da natureza, à satisfação de realizar uma gentileza.

Papai morreu, Pedro herdou tudo, e torrou sempre do jeito que quis, com farras, baladas, drogas, mulheres, com mansões, carros (atropelando os outros em “pegas” nas ruas), etc.

João por sua vez, nasceu num casebre numa favela, à beira do esgoto. Quando chove, o esgoto entra dentro de casa. Ele divide um quarto com seus outros 3 irmãos, com os pais, e os dois cachorros de rua que a mãe adotou. O pai era trabalhador honesto, braçal e a mãe era empregada doméstica. Ambos juntos somavam 900 reais de salário. Justamente por isso, João e seus irmãos tiveram pouco estudo, pois tiveram que ajudar no lar, trabalhando de 6 a 10 horas por dia desde os 6 anos de idade. João tentou se dedicar aos estudos até, mas quando o pai morreu durante uma briga de gangues, com uma bala perdida, tudo ficou mais difícil. A mãe, 2 anos depois, teve uma inflamação muscular, e por falta de acesso a médicos e medicamentos mais caros, ficou praticamente inválida para o trabalho.

Assim João e seus irmãos se tornaram adultos, sem estudos. Por falta de qualificação foram obrigados a repetir as “carreiras” dos pais, trabalhadores braçais que ganham abaixo do salário mínimo.

Pedro, com toda sua fortuna, poderia sim esbanjar, gastar com futilidades, obviamente, é direito dele. Mas se ele fosse um ser humano com o mínimo de compaixão, sensibilidade , ética, moral, amor no coração, então ele pegaria 20%, 30%, 40%, ou até mais de seu dinheiro, e investiria em ONGs de ajudas sociais, ou faria doações, criaria empresas que fizessem projetos para educação ou distribuição de renda, ou coisas do tipo, e mesmo assim, ainda sobraria dinheiro para ele esbanjar, e pagar mulheres e homens para estarem artificialmente com ele.

Mas não, Pedro optou por um caminho, caminho este que é defendido por aqueles que foram alienados por um discurso de inversão de valores: Optou pelo seu magnânimo direito de ser um extremo egoísta, individualista, narcisista, para o qual o fato de milhões, bilhões estarem passando fome, sendo comidos vivos por urubus, e viverem dezenas de gerações no ciclo eterno da inércia da pobreza, assim como João e seus irmãos, não faz a menor diferença. Afinal, Pedro deu sorte, e ter sorte não é culpa dele, ora bolas!!! Ou talvez, Pedro tenha se esforçado e por isso merece tudo que tem, enquanto João não se esforçou suficientemente. Ou seja, culpa do João, incompetente!

por Miguelito nervoltado

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Quando vi esse vídeo a primeira vez, pensei na palavra fútil.

Depois me veio desonroso. Pois pensei num pai de família que “subiu” de classe recentemente e hoje pode não só comer melhor, mas prover educação para um filho pagando sua faculdade, por exemplo.

Façamos outra conta: se a média do salário do brasileiro é de R$1507 (dados divugados em Setembro, provenientes do PNAD 2012 – aqui), por ano, ganha-se R$20.000, tomando em valor bruto e arredondando o valor pra facilitar. Nessa linha, o assalariado precisa economizar por três anos para “curtir” um camarote, como o tal sujeito curte; e, lembrando, sem gastar mais nada com outra coisa.

Mas o que mais me incomodou foi a utilização do verbo agregar. Quando se fala em agregar, penso em algo que realmente traz benefícios, melhora, acresce de alguma forma. E, nem o vídeo, nem o comportamento, nem a utilização do termo “mandamentos” agrega!

O vídeo é tão patético, que inúmeras imitações e paródias surgiram e surgirão.

Ele mostra apenas a futilidade dele e das pessoas que usufruem do dinheiro dele. E, seguindo a cartilha capitalista, cria um ponto inatingível, de desconforto na sociedade, de desejo de consumo; para que o filho daquele cidadão que melhorou de vida e está feliz com suas conquistas, se revolte por ser “muito pobre” e se frustre por não atingir o nível do tal “Rei”.

É isso que a Veja quer. Aliás, não esperava nada diferente dessa revista.

por Celsão revoltado

P.S.: escrevemos nossos textos separadamente e os postamos sem adaptações.

figura retirada no vídeo do youtube da Veja SP (aqui)

Luiz Ruffato em Frankfurt

Luiz Ruffato em Frankfurt

Esse blog reproduz aqui na íntegra o discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro em Frankfurt – Alemanha.

Uma aula sobre o Brasil e sua sociedade. História, Geografia, antropologia, sociologia, política, psicologia, com muito conhecimento, sensatez, observação crítica, imparcialidade e progressismo.

Discurso: 

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

por Miguelito Formador

Link da Folha para essa notícia
Figura daqui

Às  vezes me pego pensando em coisas que me parecem surreais.

Parece-me surreal saber que ainda nos dias de hoje, existem milhões de pessoas exercendo trabalho escravo em vários cantos do mundo.
Parece-me surreal saber que milhares de mulheres morrem anualmente pelo mundo à fora, por causa de agressões oriundas de comportamento machista e discriminatório contra o sexo feminino.
Parece-me surreal alguém ainda pensar que os negros são inferiores aos brancos.
Parece-me surreal discriminar um ser humano, ou tentar impedi-lo de gozar de direitos que são assegurados a todos os seres humanos, somente pela “escolha”/”natureza” de sua sexualidade.

Parece-me surreal a existência de milhões de crianças que não vão às escolas, pois precisam trabalhar o dia inteiro para ajudar os pais, ou talvez por não terem pais, ou talvez por não existir uma escola a uma distância menor que 300 km de sua casa, e estão assim, sucumbidas a uma vida marginalizada, de migalhas.
Parece-me surreal que religiões que já existem a milhares de anos, ainda não evoluíram ao mínimo ponto de recriminar duramente quando um sacerdote abusa sexualmente de uma criança.
Parece-me surreal pensar que tantas pessoas desfrutam de luxos que não são necessários para uma vida digna, justa e saudável, enquanto outras tantas milhões de pessoas pelo mundo não tem sequer água para beber, muito menos o que comer, quem dirá então ter uma cama, um teto, acesso à saúde, a um sabonete, pasta de dentes, a um prato e talheres, coisas que nunca viram na vida.

Parece-me surreal pensar que enquanto escrevo este texto, uma grande parcela do mundo está pensando, neste exato momento, em como gastar suas fortunas, comprando casacos de pele, ou comprando o maior iate do mundo, ou comprando o lançamento da Ferrari para o filhinho que passou no vestibular, ou viajando com toda a família de primeira classe luxo para uma paraíso artificial construído na  Turquia, ou Egito, ou Tailândia, que mais parecem fortalezas dentro de zonas de guerra; enquanto milhares de crianças estão caídas nos chãos da África sem conseguirem sequer se mover, neste exato momento, pois já não possuem mais qualquer energia, devido a falta de nutrientes e de água no corpo, expostas ao Sol de 50 graus, e com os urubus rodeando esperando que elas sucumbam.

Parece-me surreal que, enquanto escrevo este texto, todas atrocidades que citei acima, e várias tantas outras que não mencionei para não prolongar ainda mais o texto, estão acontecendo neste exato momento. Sacerdotes estuprando crianças e mulheres, homossexuais sendo espancados até a morte, torturados, ou simplesmente sendo privados de seus direitos legais, como o de contraírem matrimônio. Índios sendo expulsos de suas terras para a entrada de grandes empresas do agronegócio, de extração de madeira, ou de mineração.

Após  um longo caminho traçado durante nossa história, muitas lutas, muito sofrimento, muito progresso, muita evolução, e muito diálogo, muito estudo, muita técnica e muita reflexão, após o aprendizado sequencial com os erros já cometidos pelas sociedades no passado, ainda numa mistura de solidariedade, direito legal, bom senso, humanismo, respeito, ética, AMOR, foram definidos os direitos universais para todo o ser humano. E aí, surgem ainda hoje em dia, grupos de pessoas, de mentalidade pré-histórica, atrasadas, pouco evoluídas, que tem a prepotência de querer balbuciar pela revogação ou não cumprimento destes mesmos direitos universais, à partir de seus próprios julgamentos e preconceitos sem qualquer embasamento lógico ou racional.

por Miguelito Filosófico

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