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herero_namaComecemos com um texto publicado esse ano pelo portal UOL (link aqui)

O título do texto é “Por que a Alemanha não se desculpou até hoje pelo primeiro genocídio do século 20” e ele trata do assassinato de dezenas de milhares de africanos assassinados pelo exército alemão entre os anos de 1904 e 1908.

Conhecemos diversos exemplos parecidos com este. Quando um país mais desenvolvido (Europeu – por exemplo), coloniza um país africano (ou de qualquer outro continente) durante décadas, séculos, explorando suas riquezas e enriquecendo enquanto estes empobrecem. Então um dia rebeldes resolvem reagir, e como contra-reação os colonos utilizam da máxima força bruta, crueldade, barbaridade e covardia, levando etnias praticamente à extinção.

Exploram, abusam, estupram, matam, sugam tudo de valioso de suas terras, e quando partem daquele país, deixam somente pobreza, atraso, destruição, traumas e ódio para trás.
Depois os intelectuais, políticos e cidadãos dos países desenvolvidos, algumas décadas mais tarde, dizem que os países explorados não se desenvolvem, pois são corruptos, ou não aproveitam as oportunidades, ou são incapazes de aprender com os erros, ou porque não têm nada a oferecer de volta num possível comércio…. ou seja, a culpa ainda é deles, povos explorados, assassinados, sugados….
Para piorar, os acadêmicos e intelectuais dos países explorados (América do Sul, África, Ásia, etc) aprendem com a mídia e com seus sistemas de ensino, as teorias que convêm e favorecem os interesses dos países exploradores. Em nossas Universidades e em nossos jornais, em na maior parte de nossa literatura, são difundidas ideologias que visam nos manter alienados e dominados. Assim nos ensinam que o neoliberalismo é bom para o Brasil, para o Vietnam, e para a Namíbia. Ensinam que os países Europeus se desenvolveram pois são mais organizados. Que somos atrasados devido ao nosso fracasso, nossa cultura “defasada”. E que a culpa de sermos atrasados, pobres, corruptos, é praticamente toda nossa, e que os  países exploradores têm pouca ou nenhuma parcela de culpa. Também nos ensinam que, se uma etnia foi explorada há algumas décadas, ou mais de um século no passado, não há mais nada a ser retratado, não há mais dívida, pois afinal, 1 século é tempo suficiente para um povo se colocar em pé de igualdade com outro (grande balela!).

Eu sou a favor de pedidos de desculpas e pagamentos justos de dívidas, seja financeiramente, seja com investimentos tecnológicos e acadêmicos naqueles países…. Não por parte da Alemanha somente, mas por parte de todos os países que hoje usufruem de um bem-estar social em parte devido às todas atrocidades feitas em outras regiões e contra outros seres humanos.
Imaginem se uma comoção mundial entrasse em vigor, organizada por ONGs sociais e com apoio da ONU, e uma onda de investimentos em educação, saúde e tecnologia, financiada pelos países ricos, começasse a acontecer nos países que foram explorados e sugados num passado recente? E assim, esses países recebessem um pouco daquilo que lhes foi tomado, e pudessem assim voltar a sonhar com uma certa independência e dignidade de vida?
Até mesmo as sociedades dos países ricos teriam enormes ganhos, pois além de dormir com a consciência mais  limpa, ainda teriam menos problemas com os efeitos colaterais causados pelas massivas imigrações (imigrantes e refugiados), que iriam ser reduzidas fortemente se as condições de vida naqueles países melhorassem, e ainda notariam uma forte redução nas ondas de terrorismo em seus países. Além disso tudo, estes países explorados se tornariam mais civilizados e mais seguros, tornando-se destinos turísticos ainda mais paradisíacos para os cidadãos dos países exploradores.
Como podemos ver, todos ganham!

O fato é que, enquanto nós, nascidos em países explorados, continuarmos reproduzindo o discurso  de quem nos explorou e ainda explora, nossos países continuarão nestas condições, num ciclo eterno de subdesenvolvimento, violência e ignorância. Afinal, o interesse e a vontade de mudança só podem surgir, se houver um despertar de consciência dentro de nós. Esse interesse jamais surgirá dos povos dominantes, pois eles usufruem dos mais diversos benefícios oriundos de nossa ignorância e desinteresse.

por Miguelito revoltado
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Menos violenta, mas não menos genocida, toda a colonização ostensiva Européia terminou “aculturando” civilizações seculares e inocentes na América Latina. As vezes por força da pólvora, como contam os relatos de Aztecas, Maias e Incas, mas muitas vezes simplesmente pela imposição de costumes e religiões.

Esse raciocínio, de genocídio ou de “extinção programada”, por exemplo, ocorreu com os índios Yamanás e Selknams, que viviam no extremo sul do continente americano.

Nus, não por acaso, estes povos eram adaptados às condições adversas do lugar, eram hábeis com canoas, usufruíam de abundante caça e pesca local, e passavam no corpo gordura de leões marinhos, para suportar o frio intenso. As fogueiras desses índios deram o nome ao lugar: “Terra do Fogo”, chamaram os Europeus.

Que fizeram explorações para cruzar o Cabo Horns, encontrando um caminho diferente entre Atlântico e Pacífico.
Que estudaram a Antártida a partir dali.
Que evoluíram em sua “evolução”, graças a Darwin e também à uma ilha da região.
Que lutaram por outras ilhas: Franceses, Portugueses, Espanhóis e Ingleses…

Mas… infelizmente… não respeitaram o povo oriundo e originário dali!
Impuseram condições, expulsaram das terras, exploraram e grilaram por onde estiveram.
Como, em sã consciência, um sujeito elitizado e capitalista, acostumado com regras europeias, toma por normal a construção permanente de casas, fortalezas e igrejas num terreno que não o pertence?

Seguindo a linha defendida pelo Miguel, o mínimo que o explorador poderia propor era um aluguel temporário.
Oferecer os serviços de benfeitorias, as casas, as igrejas. E, após concluídas, deixar que os habitantes locais determinassem o que fazer com elas.
Alguns relatos locais dizem que os primeiros índios Selknam que foram vestidos pelos Ingleses que lá estiveram e receberam aulas do idioma, abandonaram roupas e voltaram a viver a seu modo poucos meses depois. A insistência das “melhores condições morais e sociais europeias”, dizimou a população indígena do local.

Conclusão óbvia, os primeiros ingleses que realizaram um assentamento de “brancos” na Terra de Fogo, em companhia do Reverendo Thomas Bridges, já estão na 6ª. geração e seguem a morando na Estância Harberton, uma das mais concorridas estâncias de Ushuaia, famosa pos atrações turísticas. Ou seja, as casas e hotéis construídas, estão gerando renda há cinco gerações.
Enquanto que os quase 3 mil Yamanás que viviam naquela região à luz da época desapareceram em 50 anos. Na referência que li (aqui), o autor relata que há (ou havia) apenas uma última índia Yamaná, com cerca de 80 anos de idade. Sendo todos os demais descentes “mestiços e aculturados” (sic).

Finalizando… Quem realmente acredita que as imposições do rico para o pobre pararam?
Que somos e estamos livres ideologicamente nos dias de hoje? E que a nossa ignorância, passividade e subserviência não são comemoradas por países imperialistas e classes dominantes?

Vale o exercício de reflexão.

por Celsão correto.

figura retirada da matéria do UOL sobre os Herero e Nama (novamente aqui)

P.S.: para quem quiser ler a estória dos índios da Terra do Fogo, segue um link de partida bem bacana (aqui)

6jan2016-o-candidato-a-presidencia-dos-eua-donald-trump-fala-durante-comicio-de-campanha-em-nashua-new-hampshire-trump-ameacou-retirar-investimentos-previstos-na-escocia-no-valor-de-945-milhoes-de-1Péssimo-realismo.

Com a já por mim esperada vitória de Trump, fica ainda mais nítida a gravidade das sombras que pairam sobre este Planeta.

Se eu tivesse a crença em algo grandioso, tipo Deus e Diabo. Se eu tivesse a crença em conspirações do Universo. Se eu tivesse a crença que somos reféns de outros seres vivos, ou alienígenas, ou da natureza.
Se eu tivesse a crença de que somos escravos de enfermidades mentais causadas por vírus, bactérias, ou má formações anatômicas no cérebro, que não nos permitem raciocinarmos nem sermos quem realmente poderíamos ser.
Se ainda me restasse a crença ou me ocorresse qualquer explicação que causasse alívio…..

Mas a realidade que percebo é outra, e ela é cada vez mais assustadora, não só porque ela parece estar a piorar, mas também por ela se revelar cada vez mais clara para mim.
E é por ser assustadora que sinto cada vez mais gosto e necessidade da reclusão.
O duro da realidade, é que o problema somos nós mesmos. Somos nossos próprios demônios. Somos nossos algozes. Não tem vírus, não tem Deus, nem Demônio, nem ninguém. Quem manipula é o ser humano. Quem se deixar ser manipulado, é o ser humano. Quem escolhe o fascismo, o ódio, o individualismo absoluto, é o próprio ser humano. E assim o escolhe por que é falho, frágil, débil, e por que não dizer, mau?

É difícil achar conforto. Na verdade, quanto mais o procuro, menos encontro.
Artes e música se mostram uma boa fuga, onde por breves momentos, nos esquecemos que também estamos nesta ilha.

Sendo nós os próprios algozes do Mundo, não resta sequer o alívio do clichê conformista: “pobre de nós”.
No máximo resta um: “pobre da vida”.

por Miguelito Filosófico

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O que posso dizer?

As insinuações racistas, sexistas, preconceituosas e intolerantes venceram.
O tal do americano “redneck” ou americano médio mostrou-se tão perigoso quanto o terrorista armado, agindo por ódio, egoísmo exacerbado e autodestruição.

A hegemonia não é a resposta para o mundo. Um Trump como líder de uma nação hegemônica é ainda pior.
Queria que não houvesse influência no resto do mundo.
Ou que realmente o discurso de alguns “Ele só disse isso por estar em campanha. Da boca pra fora!” fosse verdade. Difícil de acreditar que uma pessoa que comunga de tal pensamento há anos, mude de ideia exatamente depois de ser escolhido para governar o país mais poderoso do Mundo…
Compartilho abaixo uma carta da Avaaz, disponível aqui para assinatura.

Caro Sr. Trump,

Não há grandeza no que o senhor está fazendo.

O mundo inteiro rejeita seu discurso de medo, ódio e intolerância. Rejeitamos seu apoio à tortura, seu clamor à morte de civis e a forma como o Sr. incita a violência em geral. Rejeitamos seu menosprezo às mulheres, muçulmanos, mexicanos e milhões de outras pessoas que não se parecem com você, não falam como você e não rezam para o mesmo deus que você.

Decidimos enfrentar seu medo com compaixão. Frente a sua desesperança, escolhemos a confiança. E, em vista de sua ignorância, escolhemos a compreensão.

Como cidadãos globais, nós resistimos à sua tentativa de separar-nos uns dos outros.

Atenciosamente,

Celsão correto


figura retirada daqui
P.S.: o link da figura contém alguns argumentos explicando alguns porquês do ódio mundial ao senhor Donald Trump. Vale a pena a leitura.

ColoniaNa cidade de Colônia – Alemanha, na noite de réveillon de 2015/2016, na praça principal da cidade, em frente à famosa catedral, houve uma série de acontecimentos lamentáveis.

Nos vídeos amadores disponíveis no Youtube, e que também foram utilizados em noticiários televisionados, era possível ver dezenas, talvez centenas de pessoas, em sua maioria homens jovens, aparentemente bastante alcoolizados, e atirando fogos de artifício em todas as direções, e com frequência, na direção de grupos de pessoas.

Rojões explodiam no meio da multidão, outros miravam os fogos na direção oposta da praça, e eram respondidos com outros fogos vindos do outro lado. Cenas de caos, falta de responsabilidade e cidadania completa. (Como exemplo, escolhi um vídeo: clique AQUI)

Contudo, não foi esse episódio que assombrou a sociedade alemã, mas sim algo bem mais polêmico, e ainda mais lamentável.
Segundo o relato de algumas dezenas de pessoas/vítimas, a maioria delas mulheres, grupos de homens com aparência árabe ou norte-africana, passaram a realizar, no meio deste caos, agressões sexuais contra mulheres e também assaltos. As agressões variavam de acordo com os relatos, e iam desde toques nos cabelos e braços, até chegando a tocar as partes íntimas da vítima por dentro da roupa. Houve até um relato de estupro.

Se realmente os relatos forem verdadeiros (muito provavelmente o são), esse episódio marca uma noite lastimável e bárbara na história da cidade de Colônia. Sequer me darei ao trabalho de debater machismo aqui, mas me limitarei a dizer o óbvio: o que aconteceu foi, acima de tudo, crime! Um crime bárbaro onde o criminoso não só desrespeita a lei, mas desrespeita, por completo, o próximo enquanto ser humano. É um crime que mostra um transtorno ético e desvio de conduta simplesmente inaceitáveis!

Dito tudo isso, vamos ao que se desenrolou após tal noite.

Esse acontecimento se popularizou e tomou os debates jornalísticos e nas redes sociais. Prós e contras rapidamente surgiram, alguns mais coerentes, outros mais bárbaros que o acontecimento em si.

Grupos de extrema-direita ou nazistas utilizaram-se do episódio para legitimar seus discursos racistas e xenófobos. Esses mesmos grupos passaram, mais que rapidamente, a escrever em seus jornais, blogs e redes sociais, que os autores dos delitos eram “refugiados”, e a partir desta afirmação especulativa e discriminatória, enfatizaram o discurso de “Alemanha para alemães, fora refugiados, fora estrangeiros”. E o que mais assusta não é ouvir nazista dizendo isso, mas sim ver grupos de pessoas mais neutras (em cima do muro), ou simplesmente mal informadas, passando a concordar com tais ideias. Gente que não participa de movimentos do Pegida, não aprova ideologias nazistas, etc, dizendo: agora esses refugiados passaram dos limites!

É incrível ver como as pessoas, quando se sentem ameaçadas, afrouxam seus valores, sua ética, e sua racionalidade, e passam a pensar e agir de forma emocional e reacionária (reação a uma ação). E não estou falando de gente com pouca escolaridade somente, estou falando de acadêmicos, com curso superior, mestrado, doutorado, pessoas que teoricamente leem jornais diariamente e se julgam não-alienados.

Na internet se lê: “Angela Merkel é culpada, queremos sua cabeça.” “Culpadas são as feministas, que gritam devido a piadas, mas nada fazem frente a algo grave como o episódio.”
Grupos de homens de direita propõem na internet, organizar ônibus de homens para irem a Colônia “defender as mulheres brancas”. Outros grupos planejam reação em massa ao ocorrido, com vingança e justiça com as próprias mãos, inclusive com ataques a abrigos de refugiados.

Muitos se perguntaram: e a polícia, por que não fez nada?
Eu também pergunto isso, afinal, segundo parecer policial, nos arredores da praça havia cerca de 200 policiais, cerca de 1000 pessoas festejando e aconteceram dezenas de delitos, praticados por aproximadamente 60 homens. Se nada foi visto por qualquer policial, há algo estranho, a conta não fecha. Porém eu prefiro esperar mais informações mais completas, antes de especular.
Já aqueles que querem tirar proveito da situação, começam a afirmar que “a polícia está entregue à máfia de estrangeiros”, ou “a polícia tem medo, e finge não ver”, etc. Argumentos, ao meu ver, absurdos, sem nexo, e desprovidos de qualquer vínculo com a realidade alemã.

Li, e ouvi da boca de conhecidas: “eu estou com medo, passarei a tomar mais cuidado nas ruas da Alemanha”, ou “a Alemanha sempre foi tão segura, agora tá assim”.
Tudo bem, entendo o receio, mas essa sensação de estado apocalíptico de segurança pública, é impulsivo e emocional. É como se em uma cidade do interior o Brasil, com 100 mil habitantes e com 20 homicídios/ano, acontece um atentado terrorista num baile de formatura e morrem 200 pessoas. Então alguém vem e diz: estou muito inseguro pois a criminalidade da cidade subiu 1000%.
Não, a criminalidade, ou número de homicídios, não subiu, só pelo fato de um maluco, uma vez na vida, ter resolvido explodir um clube.

Ouvi inclusive da boca de brasileiras o mesmo sentimento de insegurança. Então perguntei: “você pretende voltar ao seu país ainda? Pois se está com medo de andar nas ruas da Alemanha, é melhor construir uma fortaleza no Brasil”.

Conversando com dois irmãos alemães, que conheço destes bares da vida, escutei que esse acontecimento é uma prova de que chegamos no limite. Eles me disseram que em Berlim há bairros onde a polícia não pode entrar, dominados por estrangeiros (sério?). Em 20 anos a Alemanha será um país muçulmano, e eles pretendem fugir para o Uruguai em breve (ou seja, eles serão os estrangeiros).
Eu os indaguei, educadamente sobre alguns pontos. Mesmo recebendo respostas em tom agressivo, mantive-me calmo e pacífico. Num certo momento falaram de “adaptação à cultura alemã”. Eu disse concordar que um estrangeiro deveria se adaptar à cultura do país, mas que é preciso tomar cuidado, pois adaptar-se 100% é impossível. Um deles discordou e começou a gritar “se não for 100%, tem que ir embora!!!”. Então eu disse: Eu não me sinto 100% adaptado, no máximo uns 80%.
Ele ficou furioso, disse que eu estava falando besteira, e que eu estou sim 100% adaptado. Então perguntei se ele sabia mais de mim que eu mesmo. A conversa fugiu do controle, e entendi que era melhor eu ir para minha casa.

Um dos argumentos mais utilizados para justificar o discurso de que os delitos foram cometidos por estrangeiros (ou refugiados), foi o do “choque cultural”. Afirma-se que os muçulmanos entendem que uma mulher com roupa curta, ou apertada, está se oferecendo, e portanto, podem fazer o que quiserem com elas.
Se isso fosse verdade, deveríamos ter taxas de estupro e de assédio sexual aumentando progressivamente na medida em que mais muçulmanos chegam na Alemanha. Mas este não é o caso (pelo menos não conheço tais números). O que ocorreu, se ocorreu, não foi choque cultural, mas sim um acontecimento pontual, um crime premeditado e planejado por um grupo de “pessoas”.

Outra afirmação corriqueira é: “a lei deve ser aplicada para todos!” Ora, alguém espera algo diferente disso caso o resultado aponte das investigações aponte para estrangeiros? É óbvio que a lei de um país vale para todos que ali estão.

Resumindo: É preciso esperar o parecer da polícia e o resultado das investigações. Caso o narrado tenha realmente ocorrido da forma como colocado no depoimento das vítimas, e caso culpados sejam encontrados, a lei deve ser aplicada rigorosamente a eles, somando-se todos os tipos de crimes praticados durante estes delitos (roubo, atentado ao pudor, estupro, etc).

Se os culpados foram estrangeiros, ou refugiados, é preciso também investigar as motivações e entender como ela foi planejada, e o porquê da mesma. Exatamente o mesmo processo deve ocorrer, caso conclua-se que alemães também estão envolvidos.
Uma vez conhecidas as motivações e objetivos destes grupos, é preciso que as instituições públicas tomem atitudes rápidas para evitar que novos episódios como esses ocorram.

Qualquer coisa que fuja do descrito acima no último parágrafo, é uma tentativa de utilizar-se de um episódio para legitimar ideologias. Quem assim o faz, não está preocupado com as vítimas, não busca justiça, não tem empatia, não quer soluções racionais; eles só veem uma oportunidade de propagação de suas ideias radicais, uma oportunidade para legitimar seu racismo e sua xenofobia, uma oportunidade de conquistar adeptos, neste momento mais frágeis e carentes de proteção, para comporem o quadro de novos-nazistas europeus.

Sim, talvez a solução seja fugir para o Uruguai; quem sabe sim, fugindo dos muçulmanos, mas mais provavelmente, fugindo dos próprios alemães.

por Miguelito Formador

Algumas fontes de informação na mídia e em blogs alemães: Aqui, Aqui e Aqui

figura retirada do próprio link do Youtube

CarlHartÉ incrível a quantidade de pequenas coisas que reparamos quando nos prestamos a atentar melhor aos detalhes.

A “Semana da Consciência Negra” que pode ser expandida ao mês ou resumir-se ao dia vinte de novembro, me fez apreciar bastante os caprichos dos atos humanos.
Tudo começou num almoço, em que dois colegas de trabalho argumentaram não existir racismo no Brasil, que não passava de “produto da TV”. Exemplos daqueles esdrúxulos e batidos foram usados, como o do “o primo do cunhado do meu pai é negro”, que todos os negros conhecemos; como se o ter convivido com negros no passado tivesse o poder de bloquear o racismo.
Respirei fundo e decidi somente ouvir; decidi há algum tempo escolher as lutas a lutar, e pelo perfil dos que me falavam e pelo modo como os argumentos foram colocados no início, seria apenas stress pra mim.

Enfim, saí de lá determinado a experimentar o racismo, a testar novamente constatações que conheço há muito tempo; como ser seguido por seguranças no Shopping Iguatemi em São Paulo, desde a adolescência, talvez por “afrontar” os transeuntes com minha cor (detalhe interessante, os seguranças são majoritariamente negros).

Primeiro resultado: eu continuo assustando madames quando atravesso a rua em direção a elas; fiz isso sem intenção, fora da faixa por estar apressado, e uma senhora loira apertou sua bolsa contra si e passou a caminhar olhando para o chão.
Sigo despertando curiosidade em encontros comerciais, principalmente no primeiro encontro, quando o parceiro nota que sou engenheiro e tenho conhecimento sobre os assuntos com os quais trabalho.
Ainda sou visto com extrema estranheza quando seleciono cerejas ou vinhos no Pão de Açúcar, Marché ou outros mercados da classe A.
E pra completar, ao esquecer um brinquedo do meu filho na lotérica perto de casa, causei um alvoroço inimaginável na fila, por entrar quase correndo e buscar o item em cima das mesas de aposta. Como resposta, mostrei aliviado a peça por mim recuperada.
Alguns estudiosos dizem que o dinheiro muda a sua cor, pois muda o modo como a sociedade o vê.
Concordo bastante com a afirmação, pois… independente da minha condição econômica atual (costumo dizer que sou rico – veja aqui), o meu “branqueamento” é limitado e só os que me conhecem podem negar minha negritude.

Pra sair um pouco do tom “racismo”, quero aproveitar a figura recebida no WhatsApp e confrontar outras realidades.

opressorVocê, branco e rico, consegue se colocar no lugar de uma mulher e compreender parte do que ela passa? Aquelas piadas que insistimos em disseminar, até quando elas estão escutando, as insinuações, acusações, ironias… Conseguiria passar pelas humilhações e pelos testes que elas enfrentam todos os dias?
Será que nós homens difundiríamos a asfixia do machismo se estivéssemos no lugar delas?

E em relação aos gays ou transexuais? Difícil, não?
Nordestinos, ex-presidiários, deficientes… Como termos consciência das dificuldades e (muitas vezes) do sofrimento que estes passam para ascender ou “vencer na vida”?

Proponho algo um pouco diferente de um post feito há quase dois anos (aqui); proponho o exercício da discussão, da preparação dos jovens para a sociedade machista e preconceituosa que devem encarar e conviver. Algo semelhante ao que o Miguelito Formador fez dois anos atrás, um dos posts mais lidos deste blog (aqui): discutir e se policiar, sempre!

Explicando a primeira figura do post: ela pertence ao professor americano Carl Hart, da Universidade de Columbia. Quando ele esteve no Brasil, em Agosto passado, causou confusão por ter sido supostamente barrado no hotel cinco estrelas que palestraria (notícia aqui).
Mas mesmo com o episódio desmentido, uma de suas entrevistas me chamou a atenção exatamente pelo fato do professor “se enxergar” de fora do problema racismo, compreendendo-o.
A entrevista toda está disponível aqui (atentar para a nota de esclarecimento) e no youtube aqui. Separei o trecho que queria destacar em upload aqui embaixo:

(como as legendas não apareceram, segue abaixo a tradução do trecho, feita pelo Estúdio Fluxo no youtube)

Na minha fala, eu tentei encorajar as pessoas,
sem ligação com o evento que supostamente aconteceu comigo,
pensar em como usamos a política de drogas
para perpetuar a discriminação racial.
E sobre esse evento… Eu espero que a gente supere
e foque no que realmente importa: os negros do Brasil
que são discriminados todo santo dia.
Não um professor burguês
que se hospede em hotel de cinco estrelas.
Isso não é uma questão. Isso não é um problema.
E receber todas essas desculpas.
Sim, eu não preciso de desculpas e apoio. Nós precisamos apoiar essas pessoas do dia a dia.
Uma das coisas que eu aprendi com esse evento
é que não sou mais um homem negro comum.
Se eu fosse, ninguém se importaria com o que aconteceu comigo.
Então que tal a gente se preocupar com as pessoas comuns e não comigo?

Pra terminar, algo do meu lado romântico (que sempre aparece):
Que possamos assumir todos os nossos pré-conceitos; quer seja com o mendigo que dorme ao léu, com o porteiro do prédio, com a colega de trabalho. E que a partir daí, se houver a possibilidade, que conheçamos as estórias e que peçamos desculpas, caso os tenhamos ofendido/discriminado.
Que expliquemos para as próximas gerações, abertamente, os preconceitos que carregamos.
E que tenhamos oportunidade e coragem de “consertar” o estrago já realizado.

por Celsão correto

primeira figura retirada daqui; segunda vinda do WhatsApp, mas também disponível em outras redes sociais, por exemplo, aqui

P.S.: pra quem quiser, um teste esdrúxulo sobre o “nível de opressor” pode ser encontrado aqui

Post_SA_HinoNelson Mandela, ou Madiba, como era chamado por muitos (principalmente pelos negros), era um homem exemplar.
Diferente de seres humanos “normais”, que deixam mágoa, orgulho próprio e conceitos pré-concebidos tomarem o controle assim que ascender ao poder, Mandela esqueceu-se propositalmente de sua negritude e uniu o povo de seu país, criando um governo para todos os sul-africanos.
“Tá bom, Celso. Essa estória todos conhecemos; até aqui, nenhuma novidade”.

Pois bem, fui gratamente surpreendido ao assistir à semifinal do campeonato mundial de rugby no mês passado. E a surpresa veio no momento do hino sul-africano.
O que me surpreendeu foram grandalhões brancos (e negros também), abraçados e entoando Nkosi Sikelel’ iAfrika (Deus abençoe a África) a plenos pulmões.

Para quem não conhece, a canção, em idioma Xhosa, foi considerado por algum tempo hino da África negra e foi também hino oficial de países como Tanzânia, Zimbábue e Namíbia. Na época do Apartheid, na África do Sul, a canção era o cântico do Congresso Nacional Africano (ANC) e, obviamente, considerada subversiva pela minoria branca naquele país.
O que os brancos da África do Sul cantavam à época? Die Stem van Suid-Afrika (A voz da África do Sul). As letras são distintas, a “negra” é mais emotiva e espiritual; a “branca” tem um som de marcha, de conquista. Os modelos e exemplos eram distintos, a começar pelos idiomas completamente diferentes.

E estava eu, boquiaberto e arrepiado, ouvindo aquela equipe de rugby cantando aquele hino em Xhosa… E a letra mudou; ou melhor, o idioma mudou e passou a parecer-se com o Alemão… Mais uma estrofe e parecia que eu estava ouvindo Inglês!

Aí está a sagacidade, a “travessura” de Madiba.
Ele uniu os hinos, símbolos nacionais, acrescentando outros idiomas falados no país. Genial!
O resultado e uma tradução livre, feita por mim, estão na tabela abaixo. Baseei-me no link da Wikipedia (aqui)

Idioma Letra Original Tradução em Português
Xhosa Nkosi sikelel’ iAfrika
Maluphakanyisw’ uphondo lwayo,
Deus abençoe a África
Permita que seu chifre (seu símbolo) seja elevado
Zulu Yizwa imithandazo yethu,
Nkosi sikelela, thina lusapho lwayo.
Ouça igualmente às nossas orações,
Deus nos abençoe, nós somos a sua família (África).
Sesotho Morena boloka setjhaba sa heso,
O fedise dintwa le matshwenyeho,
O se boloke, O se boloke setjhaba sa heso,
Setjhaba sa, South Afrika, South Afrika 
Deus abençoe a nossa Nação,
Interrompa guerras e conflitos,
Salve (a África), salve a nossa Nação,
A Nação da África do Sul, África do Sul.
Afrikaner Uit die blou van onse hemel,
Uit die diepte van ons see,
Oor ons ewige gebergtes,
Waar die kranse antwoord gee,
Do azul dos nossos céus,
Da profundeza do nosso mar,
Sobre as montanhas eternas,
Onde os rochedos ecoam em resposta,
Inglês Sounds the call to come together,
And united we shall stand,
Let us live and strive for freedom
In South Africa, our land.
Soa a chamada da união,
E unidos, devemos persistir,
Vivamos e lutemos por liberdade
Na África do Sul, nossa terra.

O hino é único, tem uma mudança de ritmo que o deixa ainda mais charmoso…
É “mágico”, pois mostra respeito às etnias que formaram o país; sem privar os conquistadores brancos que exploraram, discriminaram e acorrentaram os negros.
Mandela segue sendo o melhor exemplo de ser humano que conheço!

por Celsão correto.

P.S.: pra quem quiser assistir no youtube o hino que me surpreendeu, segue o link. Outras ótimas performances podem ser encontradas no youtube em diferentes ocasiões e com distintos intérpretes, todas emocionantes. Retirei a figura do vídeo.

P.S.2: acrescentando dois links entre outras publicações nossas sobre Nelson Mandela: aqui uma correlação interessante entre as ideias do líder negro e o socialismo e aqui nossa singela homenagem póstuma 

Hitler_maioria_FascismoOs episódios recentes de racismo, machismo, fascismo, ignorância, falta de educação, ausência completa de bom senso e respeito ao próximo, elevam meu grau de preocupação com o futuro do Brasil. Há uma grande parcela da sociedade brasileira que está doente, mentalmente doente. Histeria, ódio, irracionalidade, causados pela doença da estupidez.
(Quem quiser ler mais sobre a burrice e estupidez como doença, segue um artigo da filosofa Márcia Tiburi: AQUI)

O ódio que a mídia e líderes radicais de direita geram, e que muitos ajudam a disseminar (isso pode incluir você, então reflita) mesmo que de forma modesta e branda, é um trem desgovernado: depois que embalar, não é mais possível parar.

Se o pior acontecer, e este ódio se institucionalizar de vez em forma de Governo (já começou, com Cunha na presidência do Legislativo e com um Congresso extremamente conservador e repleto de radicais de direita), não chorem suas mágoas depois.

Aquele que diz ser contra o ódio, mas está sincronizado ideologicamente com quase tudo aquilo que os fascistas também defendem (contra bolsa família, contra mais médicos, querem o PT fora, acham que Dilma quebrou o país, contra cotas, a favor da redução da maioridade, contra aproximações com Cuba e Venezuela, se calam quando o Congresso mantem as doações privadas a campanhas eleitorais ou fazem uma mesma votação duas vezes em 24 horas para inverter um resultado do dia anterior, etc), é cúmplice da alavancada da insanidade.
A você, um lembrete: você não será poupado por estes fascistas quando eles tiverem o Poder ilimitado. Afinal, fascistas não irão reconhecer que você defende algumas das mesmas causas que ele; pelo contrário, ele irá somente reconhecer que você não defende algumas de suas causas, e então, irá te perseguir.

Quem também faz vista grossa, não se manifesta, tenta se manter numa falsa, e/ou hipócrita, e/ou covarde neutralidade (em cima do muro), não deve se enganar, pois também não será digno de misericórdia.
Além disso, é sempre bom lembrar: o silêncio dos bons deixa com que a voz dos maus prevaleça e cresça. Portanto, você, com pinta de neutro, é conivente e cúmplice, infelizmente.

Aos fatos:

  1. Adesivos de montagem pornográfica com a Presidente Dilma sendo distribuídos para serem colados nos tanques de gasolina dos carros. Nem vou me aprofundar neste assunto, nem vou descrever detalhes do adesivo (pois todo mundo o viu, o que dispensa minha narração), pois é tão, mas tão baixo, que sinto vergonha de falar sobre isso. Quem chegou a colá-lo no carro, precisa ser internado numa clínica psiquiátrica, pois está sofrendo de sérios problemas mentais, e não é só burrice não. E não estou falando isso para ofender, ou para mostrar meu desprezo (apesar de merecido), estou falando sério, a pessoa tem sérios problemas e precisa de tratamento.
  2. Maju Coutinho, jornalista da Globo responsável pela previsão do tempo no Jornal Nacional, recebeu diversos ataques racistas e machistas na internet. Entre os comentários, estavam os seguintes: “só conseguiu emprego no JN por causa das cotas, preta macaca” e “não tenho TV colorida para ficar olhando essa preta, não”, além da palavra “vagabunda”, diversas vezes. Ao que parece, a maioria dos perfis que fizeram os ataques, são perfis falsos/fakes, o que para mim, não muda em nada o ocorrido, pois a única diferença entre um perfil fake e um verdadeiro, é que o fake representa alguém covarde, incapaz de se mostrar e expor o que pensa. Para ler mais sobre os ataques, clique AQUI
  3. Deputados do DEM, PR, PSDB, que decidiram ser contra a posição de seus partidos e votaram “contra” a redução da maioridade penal, sentiram por algumas horas, pela primeira vez em suas vidas, a insanidade do ódio. Até então blindados de tais agressões, provavelmente por pertencerem a partidos conservadores, receberam em seus twiters e Facebooks uma série de ataques maliciosos, machistas e sexistas (para as deputadas mulheres), ofensas, ameaças, e tudo mais. Esses deputados se disseram horrorizados, e manifestaram entender melhor agora o que sofrem políticos progressistas.Mara Gabrilli (PSDB-SP), Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Professora Dorinha (DEM-TO) foram algumas das vítimas, escreveu o deputado Jean Wyllys. Segundo ele, as três se referiram às injúrias sexistas e às acusações de que eram “comunistas” e “vendidas ao PT”.
    Entre os que sofreram os ataques, muitos mudaram seus votos 24 horas depois (como foi o caso do deputado Celso Maldaner do PMDB, clique AQUI). A maioria nega a relação entre os ataques e a mudança do voto. Mas cá entre nós, o medo físico, e/ou o medo de perder eleitorado, certamente influenciaram a mudança de muitos deles. Também o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, longe de ser um progressista de esquerda, se posicionou contra a redução, e sofreu a ira dos fascistas, muitas vezes acompanhada de ataques racistas.
  4. Durante a comitiva da presidente Dilma nos EUA, uma repórter da Globo fez uma pergunta maliciosa, como de costume, para ser respondida por Dilma: “Senhora presidente, como lidar com a contradição de que o Brasil se vê como uma potência global, mas os EUA veem o Brasil somente como uma potência regional?”
    Obama, que percebeu a maldade da pergunta, se antecipou e disse: “Com licença, mas na parte que toca aos EUA eu preciso responder. Os EUA não veem o Brasil como uma potência regional, mas sim global. Eu poderia dar vários exemplos, mas vou lembrar somente que o Brasil é um dos países mais importantes e respeitados entre os G20, e além disso, o combate às mudanças climáticas e a diminuição da destruição do meio ambiente, só é possível tendo o Brasil como nosso líder.”
  5. E por fim, e talvez o melhor exemplo de como esse ódio fascista é completamente insano, doente e irracional. Durante a mesma visita da presidente Dilma a Obama, um jovem brasileiro, fã de Jair Bolsonaro, se infiltrou na comitiva de Dilma, e filmando começou a gritar e xingar a presidente. Vejam a notícia da Folha, onde também é possível acessar o tal vídeo (AQUI). Entre as ofensas, estavam as palavras: ladra, terrorista, assassina, comunista de merda e vagabunda.

 

por Miguelito Nervoltado

figura retirada do facebook, compartilhada por diversos perfis

figura_SargentErotização, hipersexualismo, machismo, sexismo, racismo. Tudo isso me vêm à cabeça quando ouço o termo “Globeleza”.
Mais que um jargão ou “elogio racista” (me apropriando de um termo cunhado pela blogueira Charô Nunes), ser Globeleza é ser a “negra gostosa” para a Globo, para o deleite da classe média, que comparará os detalhes dos corpos, desta e das anteriores, ignorando tudo o que a mulher representa na sociedade e, além disso, os desafios ainda maiores que uma mulher negra enfrenta dia após dia.
A competição pra se tornar uma Globeleza e ter sucesso (?!?), me lembra o Sargentelli apresentando suas mulatas na década de 80 e 90: sentado como um senhor de escravos a negociar sua mercadoria. (pra quem não lembra, achei um vídeo do programa do Clodovil)

Quando ouço comentários em corredores e ambientes públicos, a lá Michel Teló, sinto vergonha e lamento pela mulher vítima daquela ofensa, evito ser complacente a esta cultura machista enraizada, pois entendo (ao menos tento entender) a fragilidade e impotência femininas frente aos costumes e regras vigentes na sociedade e encarados como “normais” por quase todos.
Já que citei a internacionalmente famosa música “Ai se eu te pego!”; ela, alguns filmes e até mesmo o Carnaval, atrapalham bastante o intuito de desvencilhar o hipersexualismo explorado nas mulheres negras. E é triste constatar que,muitos dos que sofrem tais preconceitos (seja na própria, ou na pele de uma companheira, filha, parente), são também felizes consumidores dessa cultura… Quando é pra eles é bom; quando é contra eles, é ruim. O que mostra uma profunda incoerência, ou até mesmo, hipocrisia.

Sou completamente a favor do “Brasil menos Globeleza” apregoado no blog Soul Negra.
Proponho refletirmos, homens e mulheres, nas pequenas atitudes machistas e racistas que temos no dia-a-dia; em palavras como “denegrir”, expressões como “ovelha negra” e “cor do pecado”, comentários sobre roupas e cabelos.
Falando especificamente aos homens agora, proponho também que nossos comentários não sejam feitos na frente de mulheres, expondo-as ainda mais a este machismo degenerativo; ou que sejam substituídos. Por exemplo, ao invés de:
– Tem coragem, fulano?
– Não tenho é sorte, beltrano!
Que usemos:
– Tem coragem, fulano?
– Ela é bonita, mas porque falar sobre ela na frente dela?

Dessa forma, ofensas e comportamentos impróprios não se propagam.

Que as mulheres sejam cultuadas e homenageadas não só no dia ou no mês dedicado a elas, mas todos os dias e todos os meses, mas sem excessos, sem machismo.

por Celsão correto

figura montagem feita daqui

P.S.: artigo publicado também no blog Soul Negra, que aborda temas relacionados à cultura, moda e beleza Negra. Clique AQUI

Post_01_okCada vez que me encontro com um texto “radical” sobre discriminação ou racismo escrito por um negro, me entristeço.
Longe de mim negar que exista racismo no Brasil. Sabemos todos que ele existe e que está presente no dia a dia do país; recentemente, por exemplo, um árbitro negro sofreu xingamentos e teve seu carro vandalizado no Rio Grande do Sul (links aqui e aqui).
Tampouco quero entrar no cerne das leis brasileiras de racismo e injúria racial. Concordo com ambas e aprovo a diferenciação existente.

Falo aqui sobre negros que falam em “reparação histórica”, principalmente.
Os que alguns antropólogos classificam como racialistas. Radicais ao ponto de criticar a participação de outras etnias em Escolas de Samba, bares, festas, eventos…
Historicamente, é inegável que houve escravidão e que depois dela, em muitos países, o “rótulo” colocado nos ex-escravos levou a uma lenta, quando não inexistente ascensão social.
Mas, como negro, sou contra os benefícios advindos deste termo “reparação”; sejam as cotas raciais  em universidades, funcionalismo público e todos os desdobramentos.

Iniciarei um argumento rápido com a distinção feita a esta minoria racial em detrimento de tantas outras. Mulheres, nordestinos, homossexuais, gordos, religiosos, deficientes, idosos, trabalhadores que usam transporte público com a roupa suja de tinta… (por serem pobres e provavelmente nordestinos e/ou negros) também sofrem preconceito, são hostilizados e têm muitos de seus direitos cerceados pela condição.
Outro ponto que reitero em discussões: as cotas “empurram o preconceito pra frente”. Um estudante egresso do sistema de cotas, poderá ser “taxado” numa entrevista de emprego, pode haver um checkbox na ficha ou prancheta de algum selecionador, ele pode simplesmente não ser aprovado, por acharem que não é capaz; só entrou numa universidade por ser cotista. E, é sabido que a diferença de notas entre um cotista e um estudante fora da classificação de cotas é mínima e, muitas vezes, inexistente; ou seja, os mesmos estudantes seriam aprovados estando ou não inscritos no sistema de cotas. (como referência, segue uma reportagem da IstoÉ). Oras, pra quê usá-las? Pra quê passar por este risco de discriminação no futuro?
Não se mudam pensamentos e avaliações de uma sociedade com a caneta. É com educação, consciência e tempo. O preconceito não terminará com classe média negra, universitários negros ou funcionários públicos negros. É claro que a presença de negros e pardos neste meio pode acelerar o processo; só que, sem a “ajuda”, isso também ocorreria e seria incostestável por quem quer que fosse. Esse é meu ponto!

Não vou seguir argumentando sobre as cotas. Este por si só é um tema complexo e delicado; daria também pra entrar na subjetividade de definição de negro e branco no Brasil… Este post é um desabafo aos que querem criar uma “ilha” de convívio, que acho mais nociva que benéfica aos negros e mestiços.

“Papo de branco”? De alguém que “venceu” e pode criticar estando longe da realidade atual? “Egoísmo” por não querer ver outros na mesma condição? Já ouvi isso…

Mas, pra finalizar e deixar mais discussão pro futuro, quero registrar que defendo políticas de inclusão feitas pelos próprios negros, como a Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo; que excelentemente, não discrimina alunos e professores brancos, embora tenha sido criada por negros e para negros; empresários negros que prefiram empregados negros a brancos (afinal, cada um pode contratar quem bem quiser, não sendo necessário criar cotas pra brancos nessas empresas), segmentação de mercado com produtos “afro” (coisa bem comum nos Estados Unidos) e até mídia segmentada e especializada para negro e pardos, como alguns ótimos blogs e portais da internet.
O vídeo do Morgan Freeman, que gerou parte do título deste post, não é um resumo sobre racismo, como algumas versões do youtube sugerem. É apenas um modo de ver o problema, num Brasil miscigenado e pós-cotas. O vídeo do saudoso Milton Santos, mostra bem o que tentei expor entre idas e vindas neste post: cresçamos como brasileiros, tratemos cada um como seres humanos. Evoluamos!

Vídeos no youtube: Milton Santos e Morgan Freeman clicando nos nomes ao lado.

por Celsão correto

P.S.: não citei nenhum site/blog classificado como “radical” por mim propositalmente. A ideia não é acusar ou iniciar um embate, apenas expor minha opinião.
P.S.2: compartilhem a opinião de vocês.

Nelson-Mandela-Soweto-Soc-001

Parte do que sou e do que admiro num ser humano, morreu ontem.

Líder, ético, engajado, inspirador. Um exemplo, um ícone de cidadania, perseverança, luta contra as desigualdades raciais e sociais.

São tantos adjetivos e superlativos que este post parecerá piegas demais.

Mas não havia como não fazê-lo…

 

Nossa geração não foi contemporânea de outros nomes importantes na luta contra o racismo, como Malcolm X, Martin Luther King ou Zumbi dos Palmares. E, como negro, impossível não identificar em Mandela um ídolo.

 

Ele abnegou da vida “confortável” (para um negro na África do Sul) de um advogado, abdicou da família, de sua própria vida por uma causa. E uma causa que não era só dele, mas também de seu povo sofrido, de seu país. Algo que serviria também de exemplo para o mundo!

E mais, depois de 27 anos de prisão, quando as pressões internacionais apertaram e sua liberdade estava próxima, escreveu ao então presidente Frederik de Klerk oferecendo uma aliança, uma transição pacífica, um governo de todos os habitantes sul-africanos e para todos: negros, mestiços e brancos.

Este movimento “secreto”, sem o aval ou o consentimento dos aliados do ANC (Congresso Nacional Africano), foi criticado por eles; mas pôde minimizar o que seria um “racismo às avessas” ou um “contra ataque” dos negros.

Ou seja, Nelson Mandela foi além de seu orgulho, de sua luta e quis, como resultado final, perdoar o seu inimigo e aliar-se a ele, para ter um governo pleno, sem distinções, sem racismo!

Me sinto sozinho. Creio que o mundo se sente um pouco mais sozinho.

Espero que descanse em paz e que surja em Johanesburgo, Pretória ou na vila em que nasceu um monumento em sua memória, para que eu tenha o prazer de visitá-lo um dia.

Adeus Madiba!

por Celsão correto

P.S.: já havíamos feito um post sobre o Mandela aqui.

P.S.2: figura retirada daqui

Luiz Ruffato em Frankfurt

Luiz Ruffato em Frankfurt

Esse blog reproduz aqui na íntegra o discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro em Frankfurt – Alemanha.

Uma aula sobre o Brasil e sua sociedade. História, Geografia, antropologia, sociologia, política, psicologia, com muito conhecimento, sensatez, observação crítica, imparcialidade e progressismo.

Discurso: 

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

por Miguelito Formador

Link da Folha para essa notícia
Figura daqui