Posts Tagged ‘racismo’

Post_01_okCada vez que me encontro com um texto “radical” sobre discriminação ou racismo escrito por um negro, me entristeço.
Longe de mim negar que exista racismo no Brasil. Sabemos todos que ele existe e que está presente no dia a dia do país; recentemente, por exemplo, um árbitro negro sofreu xingamentos e teve seu carro vandalizado no Rio Grande do Sul (links aqui e aqui).
Tampouco quero entrar no cerne das leis brasileiras de racismo e injúria racial. Concordo com ambas e aprovo a diferenciação existente.

Falo aqui sobre negros que falam em “reparação histórica”, principalmente.
Os que alguns antropólogos classificam como racialistas. Radicais ao ponto de criticar a participação de outras etnias em Escolas de Samba, bares, festas, eventos…
Historicamente, é inegável que houve escravidão e que depois dela, em muitos países, o “rótulo” colocado nos ex-escravos levou a uma lenta, quando não inexistente ascensão social.
Mas, como negro, sou contra os benefícios advindos deste termo “reparação”; sejam as cotas raciais  em universidades, funcionalismo público e todos os desdobramentos.

Iniciarei um argumento rápido com a distinção feita a esta minoria racial em detrimento de tantas outras. Mulheres, nordestinos, homossexuais, gordos, religiosos, deficientes, idosos, trabalhadores que usam transporte público com a roupa suja de tinta… (por serem pobres e provavelmente nordestinos e/ou negros) também sofrem preconceito, são hostilizados e têm muitos de seus direitos cerceados pela condição.
Outro ponto que reitero em discussões: as cotas “empurram o preconceito pra frente”. Um estudante egresso do sistema de cotas, poderá ser “taxado” numa entrevista de emprego, pode haver um checkbox na ficha ou prancheta de algum selecionador, ele pode simplesmente não ser aprovado, por acharem que não é capaz; só entrou numa universidade por ser cotista. E, é sabido que a diferença de notas entre um cotista e um estudante fora da classificação de cotas é mínima e, muitas vezes, inexistente; ou seja, os mesmos estudantes seriam aprovados estando ou não inscritos no sistema de cotas. (como referência, segue uma reportagem da IstoÉ). Oras, pra quê usá-las? Pra quê passar por este risco de discriminação no futuro?
Não se mudam pensamentos e avaliações de uma sociedade com a caneta. É com educação, consciência e tempo. O preconceito não terminará com classe média negra, universitários negros ou funcionários públicos negros. É claro que a presença de negros e pardos neste meio pode acelerar o processo; só que, sem a “ajuda”, isso também ocorreria e seria incostestável por quem quer que fosse. Esse é meu ponto!

Não vou seguir argumentando sobre as cotas. Este por si só é um tema complexo e delicado; daria também pra entrar na subjetividade de definição de negro e branco no Brasil… Este post é um desabafo aos que querem criar uma “ilha” de convívio, que acho mais nociva que benéfica aos negros e mestiços.

“Papo de branco”? De alguém que “venceu” e pode criticar estando longe da realidade atual? “Egoísmo” por não querer ver outros na mesma condição? Já ouvi isso…

Mas, pra finalizar e deixar mais discussão pro futuro, quero registrar que defendo políticas de inclusão feitas pelos próprios negros, como a Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo; que excelentemente, não discrimina alunos e professores brancos, embora tenha sido criada por negros e para negros; empresários negros que prefiram empregados negros a brancos (afinal, cada um pode contratar quem bem quiser, não sendo necessário criar cotas pra brancos nessas empresas), segmentação de mercado com produtos “afro” (coisa bem comum nos Estados Unidos) e até mídia segmentada e especializada para negro e pardos, como alguns ótimos blogs e portais da internet.
O vídeo do Morgan Freeman, que gerou parte do título deste post, não é um resumo sobre racismo, como algumas versões do youtube sugerem. É apenas um modo de ver o problema, num Brasil miscigenado e pós-cotas. O vídeo do saudoso Milton Santos, mostra bem o que tentei expor entre idas e vindas neste post: cresçamos como brasileiros, tratemos cada um como seres humanos. Evoluamos!

Vídeos no youtube: Milton Santos e Morgan Freeman clicando nos nomes ao lado.

por Celsão correto

P.S.: não citei nenhum site/blog classificado como “radical” por mim propositalmente. A ideia não é acusar ou iniciar um embate, apenas expor minha opinião.
P.S.2: compartilhem a opinião de vocês.

Nelson-Mandela-Soweto-Soc-001

Parte do que sou e do que admiro num ser humano, morreu ontem.

Líder, ético, engajado, inspirador. Um exemplo, um ícone de cidadania, perseverança, luta contra as desigualdades raciais e sociais.

São tantos adjetivos e superlativos que este post parecerá piegas demais.

Mas não havia como não fazê-lo…

 

Nossa geração não foi contemporânea de outros nomes importantes na luta contra o racismo, como Malcolm X, Martin Luther King ou Zumbi dos Palmares. E, como negro, impossível não identificar em Mandela um ídolo.

 

Ele abnegou da vida “confortável” (para um negro na África do Sul) de um advogado, abdicou da família, de sua própria vida por uma causa. E uma causa que não era só dele, mas também de seu povo sofrido, de seu país. Algo que serviria também de exemplo para o mundo!

E mais, depois de 27 anos de prisão, quando as pressões internacionais apertaram e sua liberdade estava próxima, escreveu ao então presidente Frederik de Klerk oferecendo uma aliança, uma transição pacífica, um governo de todos os habitantes sul-africanos e para todos: negros, mestiços e brancos.

Este movimento “secreto”, sem o aval ou o consentimento dos aliados do ANC (Congresso Nacional Africano), foi criticado por eles; mas pôde minimizar o que seria um “racismo às avessas” ou um “contra ataque” dos negros.

Ou seja, Nelson Mandela foi além de seu orgulho, de sua luta e quis, como resultado final, perdoar o seu inimigo e aliar-se a ele, para ter um governo pleno, sem distinções, sem racismo!

Me sinto sozinho. Creio que o mundo se sente um pouco mais sozinho.

Espero que descanse em paz e que surja em Johanesburgo, Pretória ou na vila em que nasceu um monumento em sua memória, para que eu tenha o prazer de visitá-lo um dia.

Adeus Madiba!

por Celsão correto

P.S.: já havíamos feito um post sobre o Mandela aqui.

P.S.2: figura retirada daqui

Luiz Ruffato em Frankfurt

Luiz Ruffato em Frankfurt

Esse blog reproduz aqui na íntegra o discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro em Frankfurt – Alemanha.

Uma aula sobre o Brasil e sua sociedade. História, Geografia, antropologia, sociologia, política, psicologia, com muito conhecimento, sensatez, observação crítica, imparcialidade e progressismo.

Discurso: 

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

por Miguelito Formador

Link da Folha para essa notícia
Figura daqui

Brasil-e-Alemanha-bandeirasPor saberem que vivo na Alemanha, quase todos meus conhecidos já me fizeram a seguinte pergunta: Você sofre muito preconceito na Alemanha?

Essa é uma pergunta que parece simples de se responder: Sim ou não! Quem dera fosse assim…..

A verdade é que o assunto é complexo, e depende de várias variáveis.

Todo mundo cria estereótipos em suas próprias cabeças. Estes estereótipos são auxiliados pelas mídias tendenciosas, pelos materiais didáticos muitas vezes falhos, pelos preconceitos transmitidos através do DNA intelectual familiar, entre outros. Por exemplo: A maioria das pessoas do mundo, quando pensam no Brasil, pensam em futebol, praia, floresta, samba e em mulata pelada e de bunda grande, ahhh e agora lembram também do Michel Teló. Esses são os principais estereótipos sobre o Brasil (será que são só estereótipos? Enfim…).

Da mesma forma, o brasileiro cria estereótipos sobre outros povos. Sobre os alemães, eu destacaria alguns: bebem muita cerveja e estão sempre vestidos com calcas de couro com suspensório (Lederhose), comem linguiça o dia inteiro, falam “hemorroidas ardem, aftas idem”, são frios e fechados, são ignorantes, e….. são nazistas preconceituosos.

Muitos destes estereótipos se refletem na realidade. O alemão come sim muita linguiça, e toma muita cerveja. Muitos deles são frios e fechados, mais que os brasileiros, numa média, mas isso também faz com que sejam mais sinceros e mais confiáveis.
Mas o alemão não anda de calca de couro com suspensório, não fala “hemorroidas ardem”, não são nazistas.

O fato é que o povo alemão tem um trauma com seu passado. Imagine que seu avô deu calote em metade da cidade na década de 1960 e isso deixa o nome da sua família sujo até hoje. Você terá vergonha de falar de seu avô, certo? Muito provavelmente. A história e estudos comportamentais das gerações dizem que você terá uma tendência forte de fazer o contrário de seu avô, por ter vergonha deste tipo de comportamento.
A idéia aqui é tipo essa. O povo alemão tem vergonha do passado, não gosta de falar sobre a segunda guerra mundial, e tenta diariamente limpar sua imagem. Não tenho dados, mas já ouvi diversos alemães dizendo que o povo alemão é o povo que mais faz doações para o mundo. Consigo imaginar que isso seja verdade.

Li uma artigo fantástico outro dia, o qual indico fortemente para leitura, onde uma professora negra de Salvador conta sobre sua experiência na Alemanha. O título é “Como lidar com o Racismo?”, e pode ser encontrado no blog “Pragmatismo Político”.
Ela relata várias observações feitas por ela. Um relato achei especialmente interessante: Ela estava num trem, e percebeu que um passageiro estava incomodado com a presença dela. Até que o passageiro fez um comentário racista. Ela se levantou para dizer algo, mas não deu tempo, pois todos os outros passageiros se levantaram em sua defesa, brigaram com o cara, exigiram que ele se desculpasse, e como ele não o fez, chamaram a polícia para ele. E daí ela diz que os alemães têm muito senso de justiça e a certeza de que um problema social é um problema de cada um deles.
Ela também diz que o racismo existe na Alemanha, mas é muito debatido, e fortemente atacado na mídia, nas escolas. Além disso, a Alemanha normalmente é um dos pioneiros a aprovar leis de progresso social, igualdade de direitos, e eliminação de preconceitos.

Eu costumo dizer que é difícil saber se há mais racismo na Alemanha que no Brasil. Mas uma coisa é fato: Aqui, o racismo/preconceito/xenofobia quando ocorre, é claramente exposto, e vem de uma parcela pequena da população. A maior parte da população não é preconceituosa, e essas pessoas se policiam diariamente buscando não pensar e muito menos falar ou agir de forma preconceituosa.
Já no Brasil, há uma hipocrisia que funciona como chantilly por cima do lixo. Os estudos científicos são fartos nesse ponto. É comprovado que o brasileiro é preconceituoso, machista, racista, homofóbico, mas nunca assume. Todo mundo no Brasil conhece um amigo que é preconceituoso, mas ninguém se auto-declara preconceituoso. Ou seja, em algum dos dois lados existe alguém mentindo, e eu suponho que seja no lado de quem defende a si mesmo.

Desta forma, eu me arrisco a dizer que no Brasil há mais racismo e preconceito que aqui, mas aí estão escondidos no meio da hipocrisia, estão escondidos nas sutis ações cotidianas, nos gestos, nas falas, nas piadas (e aqui o assunto é grave), no meio profissional, no atendimento nos estabelecimentos públicos, estão disfarçados em ditados, no folclore, na literatura, no cinema, no material didático, e dessa forma, para os menos sintonizados e menos críticos, isso passa despercebido, dando a impressão que no Brasil é tudo mil maravilhas.

Mas tem neonazista na Alemanha não é? Claro que tem! Mas é difícil ver um. Posso passar alguns meses sem ver alguém que tenho certeza ser um neonazista. Em certas regiões há mais, em outras menos, mas em geral são uma parcela mínima da sociedade. E sim, existem muitos casos de ataques de neonazistas contra negros, indianos, asiáticos, homossexuais, muçulmanos, etc. Mas peguemos quantas pessoas morrem por ataques nazistas na Alemanha, e quantas mulheres morrem por machismo no Brasil. Analisando estes números, eu diria que deve ser umas 1000 vezes pior ser mulher no Brasil, que ser estrangeiro na Alemanha.

Mas a discriminação não existe só pelos neonazistas. Existem aqueles que discriminam por discriminar. Essa xenofobia existe em quase todos os lugares. O brasileiro gosta de dizer que no Brasil não há. Não há, pois o brasileiro adora gringo, somos muito hospitaleiros e adoramos aumentar nosso círculo de amizades, além de possuirmos um forte complexo de vira-lata que sempre acha o Brasil uma b@st@, e por isso acha que tudo de fora é melhor, e por isso babam ovo para estrangeiro. Mas pensemos internamente no Brasil. Nas regiões Sul e Sudeste, ao verem alguém fazendo algo errado, dizem que é serviço de baiano. Em São Paulo, qualquer nordestino, ou é baiano, ou é Paraíba (quando é para insultar de forma pesada). Em toda a turma de amigos em São Paulo, é impossível não encontrar uma meia dúzia que dizem que a criminalidade de São Paulo existe por culpa dos Paraíbas que imigraram sem qualificação e agora ganham pouco, ou são desempregados e acabam marginalizando o estado lindo deles. O Paulista entende que o fato de terem uma economia muito forte e por isso pagarem muito imposto absoluto, o Brasil inteiro mama nas tetas deles. Imigre para São Paulo e reclame do trânsito, rapidinho encontrará um paulistano nasalado que mora num apartamennnnto da Bela Cinnnntra para te dizer: mêuuuu, não tá satisfeito, volta para Minas Gerais e vai comer pão de queijo e tomar pinga.
Acho que a discriminação que sofre o nordestino no Sudeste e/ou no Sul, ou a discriminação que sofre um mineiro ou um capixaba, em São Paulo, é maior que a discriminação que um brasileiro sofre na Alemanha.

Então, minha resposta para você que me pergunta se aqui há preconceito, eu diria: Sim, mas bem menos que no Brasil, em quase todos os sentidos.

por Miguelito Formador