Posts Tagged ‘radicalismo’

Começo o post compartilhando um pensamento do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Ainda vivo, o filósofo construiu com Karl Otto-Appel a ética do discurso.

Uma discussão deve tender ao infinito. Todos os argumentos de ambos os lados devem ser esgotados, debatidos até o fim. E, em algum momento no infinito, alguém terá que rever “mais” seus posicionamentos que o outro, pois normalmente não existem duas verdades absolutas num mesmo assunto. E, aquele que está mais próximo da verdade, irá mostrar racionalmente isso para o outro.
Porém, para que isso ocorra, ambos os debatedores devem, obrigatoriamente, ser o tempo todo 100% honestos, e não guardar “cartas na manga”, não omitir nada, não se encobrir de hipocrisia. Caso um dos dois faça isso em qualquer momento, o debate está automaticamente viciado e jamais terá solução.

O trecho é do Miguel, colega de blog, interpretando a ética do discurso que pode ser encontrado aqui e parcialmente na página da Wikipedia do Habermas – aqui.
E me levou a pensar sobre radicalismo.

Seriam os radicais aqueles que defendem os seus argumentos honestamente e analisam os mesmos de “coração aberto” ao se depararem com impasses numa discussão?
Ou os radicais são os que defendem-nos de forma hipócrita e enviesada sua posição?

Minha opinião pirata é que no Brasil estamos muito mais próximos do segundo exemplo. E, não somente, pela falta de cultura geral, que impede análises pautadas em argumentos; mas também por aqueles que detém o poder, a tal “força invisível” que se beneficia da pobreza intelectual da população.

Mas as vezes ser radical, faz falta. Nota-se que a Sociedade, a Mídia e a Política, no sentido maiúsculo e macro, ganhariam com alguns radicais.

622_b14ba104-20b0-3d74-a76c-b3fda8e4cc02Meu exemplo (ou mau exemplo) é o técnico Tite, recém escolhido como técnico da seleção brasileira de futebol.
Em forma de protesto contra a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ditatorial e corrupta, assinou em conjunto com outros treinadores, atletas, ex-atletas, jornalistas e entidades como o Bom Senso FC um protesto contra a CBF e a FIFA.
Tal assinatura ocorreu em Dezembro do ano passado, pouco depois do escândalo internacional que envolveu inúmeros dirigentes das entidades que controlam o futebol no Mundo. (o documento pode ser lido aqui na íntegra)
O documento cita que “a sucessão é determinada por um estatuto viciado, (…) arquitetado e aperfeiçoado para a manutenção do poder nas mãos da mesma linhagem” e também “A crise de corrupção é (…) um profundo problema estrutural, que travou o desenvolvimento do futebol brasileiro

Como uma pessoa dessa, que se diz ética e assina de livre e espontânea vontade um manifesto contra CBF, FIFA, a corrupção dentro desses órgãos e contra seus mandatários, permanece por horas em reunião com esses mesmos “cartolas” e aceita os termos destes, quaisquer que sejam? Aceita o trabalho que os corruptos lhe propõem?
Como eu gostaria que houvesse uma exigência por parte de Tite para que Marco Polo del Nero deixasse a presidência da CBF. E, seguindo o modelo radical, como seria gratificante se o mesmo Tite apresentasse esse argumento para a imprensa caso o presidente da CBF não quisesse renunciar.
Será que a pressão popular não se multiplicaria ao ponto de recriar uma nova Confederação?

Creio que como o futebol é paixão, e é acompanhado por muitos brasileiros, a “onda positiva” (e radical) teria mais efeito que os poucos deputados e senadores radicais que compõe o legislativo atual.

Entrando na política, como seria bom se tivéssemos radicais que se propusessem a governar sem negociar apoio e cargos…
Como seria enriquecedor se a discussão proposta por Habermas fosse adotada nas casas do legislativo. Se os políticos votassem no que acreditam e não seguindo ordens e pautas de seus partidos e, lamentavelmente, de suas bancadas…

Sou a favor da reforma política, principalmente a favor da mudança do voto distrital e da diminuição do número de partidos (que seja via cláusula de barreira) e integralmente contra o financiamento privado a eleições e partidos políticos.
Esses assuntos já foram tratados aqui e aqui, entre outros posts.

E sou a favor do radicalismo, da discussão sem hipocrisia e sem defesas prévias, sem verdades pré-consebidas ou pré-conhecidas. E a favor da busca incessante por “heróis éticos”, brasileiros preferencialmente.
Afinal, como melhorar a Sociedade sem isso? Sem que a corrupção torne-se vil a todos os olhos.

por Celsão correto

figura retirada daqui

pirata_downloadMuitas vezes tenho ideias tipicamente utópicas e impraticáveis, classificáveis como “revoltadas”, se tomarmos o pensamento linear da maioria.
Nesse post eu reuni quatro delas discorrendo rapida- e rasamente sobre os possíveis efeitos benéficos das ideias.

1) Redução da taxa de juros para 5% ao ano.
Aqui a proposta é quase uma aposta com o empresariado e com os “especialistas econômicos” que pregam que o aumento da taxa básica de juros freia o desenvolvimento e só atrai capital especulativo.
Não há como negar que juros altos direcionam os investimentos para os bancos e não para a produção industrial; mas ao mesmo tempo muitos defendem que um controle eficiente da inflação se dá através da redução de demanda, e esta é bem efetiva com aumento de juros. Ou seja, há uma “escola” na economia, uma “doutrina”, que defende os juros altos para manter a inflação em patamares razoáveis; além de outros pontos, como a manutenção de reservas em dólar (ou noutra moeda forte)
Minha ideia para o governo é “radicalizar”, reduzindo a taxa por um período de teste (de seis meses por exemplo), vinculada ao aumento da atividade industrial e consequente redução dos lucros bancários.
Os empresários não reclamam que os juros altos os atrapalham? Veremos como se saem com eles a quase um terço do valor atual!

2) Impostos para as montadoras proporcionais à margem aplicada
O setor automotivo está entre os que mais reclamam dos “altos impostos” e é o primeiro a demitir numa crise.
Algo inédito para eles são promoções. Não aquelas onde um ano de garantia é dado, sempre dependente de caras revisões nas concessionárias, ou aquelas em que um jogo de tapetes, um rádio ou a pintura metálica são oferecidas. Nunca vi uma real redução de preço, promoção daquelas comuns no comércio ou em linhas de produtos, como eletrodomésticos.
Proponho uma diminuição dos impostos incidentes nos veículos. Mas proporcional ao lucro obtido na venda.
As montadoras abrem a planilha de custos para o governo, sem máscaras, e quanto menor a margem, menor o imposto (ex. IPI) a ser recolhido. Uma mão lavando a outra!
Uma segunda “etapa” poderia taxar proporcionalmente os lucros dos banqueiros…

3) Redução verdadeira de cargos comissionados
Quando o governo fala em redução de gastos, sabe que há um limite para isso e sabe também “onde” é possível se fazer a redução.
Muitos órgãos, como os ministérios, tem 75% dos gastos com folha de pagamento. E a grande maioria dos empregados passou por concurso público e não pode ser demitida sem justa causa. Ou seja, não é puramente reduzindo o número de ministérios e ministros que surgirá a desejada redução de gastos públicos.
Obviamente as despesas de gabinete, viagens, carros, etc., serão sempre proporcionais ao número de ministros e, sim, serão reduzidas. Mas não o suficiente.
Proponho a redução drástica no número de funcionários indicados, os chamados “comissionados”. Algo como 50% ou eventualmente mais. Manteria apenas alguns especialistas, essenciais ao funcionamento das pastas. Demitir mil num universo de 120 ou 140 mil sequer elimina os “encostados”…

4) Teto para as aposentadorias
Ué… Mas já não há teto nas aposentadorias?
Sim, claro. Para a iniciativa privada.
Porém militares, juízes, políticos e até professores universitários têm sua aposentadoria integral, não importando o valor calculado no momento da aposentadoria. Daí vêm valores absurdos, acima de R$30mil, que oneram a previdência e premiam uma pessoa que já acumulou em vida bens e valores suficientes para desfrutar o merecido descanso.
Pode parecer radical e “esquerdista” demais, mas “um teto para todos” (parodiando um programa social) é ao meu ver o mais justo e algo que daria fôlego ao sistema vigente.
“É um bem adquirido! É algo imutável…” – podem dizer alguns.
“Lamento. Mas acaba hoje!” eu responderia. E poderia até completar romanticamente “para o bem da Nação!”

por Celsão revoltado

figura retirada daqui